Covid-19 | Cabelo da China pagava tudo, agora Hélder desespera na baixa de Maputo

Hélder Patrício, vendedor de cabelo oriundo da China, está a enfrentar uma sucessão de problemas por causa do novo coronavírus que o deixam à beira do desespero, conta à Lusa, na baixa de Maputo. “Tenho dependentes, uma filha e os meus pais também”, relata.

Além disso, tem de custear os seus estudos e os dos irmãos, mas com “este rompimento [do negócio] é preciso controlar os recursos escassos”, numa espécie de milagre da multiplicação.

O ‘rompimento’ começou em janeiro com as dificuldades de fornecimento da China, agravadas com a suspensão de vistos e a impossibilidade de ir comprar mercadoria, culminando agora com medidas mais restritivas para a circulação e vida social impostas como medida de prevenção pelo Governo moçambicano.

Ainda só há registo oficial de um caso de Covid-19 em Moçambique, mas a vida de Hélder já está virada do avesso.

Nalgumas das avenidas da capital moçambicana, há carros estacionados com o porta-bagagens aberto, expondo cabelos lisos e cacheados, de diferentes cores, cortes e tamanhos.

São vendidos em mechas a preços que variam entre 1.500 meticais (20 euros) e 15 mil meticais (200), num negócio dominado maioritariamente por jovens.

“O meu ´stock` está a baixar devido à falta de viagens. Estamos a consumir e não estamos a repor e isso é mau”, lamenta Hélder Patrício.

Apesar dos riscos, o comerciante assume que “seria uma das primeiras pessoas a viajar” até à China para comprar cabelo, caso as companhias aéreas o permitissem.

“É o meu trabalho principal e dependo dele para a escola e tantas outras coisas. Tudo parou. Tanto as viagens, quanto o negócio, estamos a passar maus momentos”, desabafa.

Marta Simbine, comerciante de vestidos de noiva feitos na China, fazia viagens àquele país antes da eclosão da doença, mas agora conta que poucos vestidos lhe restam e tem cinco noivas em lista de espera.

“O meu negócio parou. Assim estou a pensar no que fazer porque não posso perder clientes”, diz à Lusa.

A vendedora, de 53 anos, abastecia-se na China desde 2011, para vender em Maputo sob a marca Bride to Be.

A história assemelha-se à de Hélder: a sua última viagem estava marcada para fevereiro, mas “a covid-19 veio estragar tudo”.

“Nem tenho como receber encomendas. Não sei o que fazer”, desabafa a mãe de três filhos, beneficiários dos rendimentos do seu negócio – além de vestidos, Marta vende acessórios para noivas, brindes ou roupas para os pais dos noivos.

O setor informal moçambicano alimenta-se em boa parte de produtos oriundos da China, país que fornece também mobiliário, telemóveis e pronto-a-vestir, segundo a Associação de Comércio, Indústria e Serviços (ACIS) de Moçambique, que representa cerca de 400 empresas.

Edson Chichongue, diretor executivo da ACIS, explica que pequenos empresários e vendedores informais moçambicanos tendem a viajar até à China para comprar as suas mercadorias devido à facilidade de acesso ao mercado e aos baixos custos de aquisição.

“Nalguns países da Europa não é muito fácil os informais entrarem para comprar estes produtos, enquanto na China o mercado é um pouco mais livre”, explica.

Por conta da facilidade de entrada no mercado, Edson acredita que aqueles agentes económicos estão entre os que mais se ressentem dos efeitos da covid-19.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infectou mais de 324 mil pessoas em todo o mundo, das quais mais de 14.300 morreram.

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