Do Silêncio & outras Perversidades

É bom o Silêncio que não nos trespassa, que unicamente sincopa as horas e as frases, mas não a pureza fúnebre de não ser, nada existir, viver de preces e ventos. São singulares as vozes dos ventos, de cada vento, de cada brisa, de cada corrente de ar, ainda que condicionado. Falam-nos, cantam-nos ao ouvido, ouvimo-los, rumorejam ou silvam, são um ritmo, uma melodia, por vezes toda uma canção, uma ária simples, um lieder lírico, obsceno. O canto do vento é uma metamorfose do Silêncio.

Mas nós somos feitos para o ruído, para enfrentar multidões, gregarismos cínicos, outros verdadeiros, inevitáveis. Somos compostos de botões e dedos alheios, precisamos deles como da ideia da peste, colada a esta pele, a fazer de matrix. O Silêncio só nos agrada sincopado, não constante ou pesadelo interminável.

Somos de ouvidos, de discursos, de músicas, de logos variados e de temas indiferentes. Por ouvir e tanto relata a dependência. Para matar o Silêncio. Nele dorme o monstro a que daria o nome de Pressentimento da Morte. Quando ele acorda, tudo se altera, tudo muda. Há que embalá-lo de volta ao seu sono silencioso e culpado.

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