O sambista e a vaidade

Diniz, mulato à volta dos quarenta anos vivia na zona norte do Rio de Janeiro, em Vila Isabel, e ganhava a vida numa auto-mecânica do bairro, como pintor. Vida tranquila, mas que já tinha visto muita miséria. Perdeu pai e mãe em criança e teve de se virar muito cedo na vida. Chegou a Vila Isabel de carona, vindo da cidade vizinha, Duque de Caxias, e conseguiu se virar por causa do samba. Desde moleque que levava jeito para fazer samba. Para ele, samba era vida. E, no caso dele, o samba literalmente salvou-lhe a vida. Quase não pegou escola. Fez o básico, para saber ler jornal e enturmar as contas. Costumava dizer que os sambas que escrevia não vinham do estudo. “É a rua que dá samba.” Na verdade, para Diniz, quase tudo dava samba. Numa conversa, não raro se escutava Diniz dizer “isso dá samba”. E dava.

Muito cedo, o caso de Diniz chamou a atenção de alguns jornalistas. Um deles tentou convencê-lo a escrever umas estórias, botar isso em livro. “Vai que dá certo”, dizia para o sambista-mecânico. Mas Diniz rejeitou esse primeira investida, desconfiado. Pensou para si mesmo “posso não ter estudo, mas sei o suficiente para saber que não se faz aquilo que não se sabe; se eu nunca li livro, vou agora escrever um? Aonde é que isso faz sentido?” E assim continuou, de samba no pé e na mão, longe dos livros.

Mas jornalista quando encasqueta com uma coisa é como cupim na madeira, não descansa enquanto não corrói tudo por dentro. E um ano depois voltou a atazanar o sambista, que voltou a recusar. As investidas não cessaram e Diniz começou a ficar muito incomodado com aquilo. “Se você não sabe, porque não experimenta? Vai que dá certo”, insistia o jornalista. Mas Diniz não queria nem experimentar, nem que desse certo. Queria que o deixassem em paz com o trabalho na auto-mecânica e com o samba. No fundo, o que o jornalista queria, ainda que não confessasse, era oferecer-lhe os seus serviços como ghost-writer, quando Diniz percebesse que não conseguia escrever. O jornalista tinha entendido que Diniz tinha muitas estórias para contar, que poderiam virar livros e não só sambas. E queria fazer parte disso. Para o jornalista, o Diniz-escritor tinha sido uma descoberta dele, que não largava. Para que isso desse certo era preciso criar a necessidade em Diniz, fazer com que ele quisesse escrever, ou melhor dizendo, que ele quisesse aparecer como sendo escritor.

Mas daquele mato não saía coelho. De modo a forçar, e a adiantar trabalho, o jornalista inventou uma matéria a ser publicada no jornal acerca do sambista-mecânico, com autorização deste, mas onde acabou por acrescentar falas que nunca aconteceram, que Diniz nunca disse e nem sequer pensou. Nessa matéria do jornal, Diniz dizia que tinha alguma dificuldade em escrever porque acreditava que na origem da escrita de ficção estava o facto da vida se acabar mais cedo do que se imaginava. O problema não era que a vida acabava, mas que acabava muito antes do que se imaginava. Evidentemente, o termo “imaginava” não era usado por acaso. Era usado como provocação. Para Diniz, continuava o jornalista, só se sabe o que é a vida na primeira pessoa e a morte era imaginada através das mortes dos outros, que nos pareciam sempre cedo de mais. No fundo, o que ele acabava por dizer que Diniz dizia, ao fim de uma longa digressão a que aqui vos poupo, era que o medo de a vida poder não ter o tempo que se pensava ter, acabava por nos pôr a imaginar outras vidas. E era por isso que Diniz não escrevia. Acrescentava que para o sambista-mecânico escrever é ter medo da vida. No samba não há medo. Quem faz samba não se preocupa com a morte. É a morte que se preocupa com o samba. E tudo isto com detalhes do quotidiano de Diniz e duas boas fotos dele, uma na auto-mecânica e outra na roda de samba, além de mais duas do bairro, do barzinho do Juca e da mercearia do Leandro.

Quando leu a matéria, Diniz, ao invés de ficar chocado com as palavras que não tinha dito, ficou vaidoso. Nem aquilo fazia muito sentido e nem ele entendia bem. Mas se há algo que as pessoas estão dispostas a aplaudir é o que não entendem bem. As pessoas do bairro parabenizavam-no quando se cruzavam com ele, tinham gostado, do que Diniz dissera, do acompanhamento da vida do bairro e das fotos. “Que bem que ele fala. Poderia ser escritor de papel passado.” E foi assim que Diniz aceitou fazer aquilo que nunca fez e passar-se por quem não era.

A vaidade, essa, deu samba.

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