O rei de Thule

Viver é uma prestação de homenagens, homenageamos os ciclos com festas e até os nossos próprios dias com rituais definidos, andamos talhados no tempo para a prestação da dignificação de aspectos cuja origem desconhecemos, o que não retira nenhum brilho e mérito, antes, o acrescenta, pois que é no mistério deles que reside a sua expressão maior. O selo de uma transposição que defina no tempo a separação de um ambiente para outro, contorna tudo, e molda as nossas naturezas com mais ou menos bem sucedidos frutos.

Vem o rei de Thule descrito num belíssimo poema do Fausto de Goethe, lá o vamos encontrar como uma bruma arturiana: mas Thule, onde fica? Em que local o vamos situar ? O nome é belo e leva-nos até a um rei doce e amante de um provável amor tão remoto na nossa lembrança como a própria Ilha, e diz-nos a lenda dos ancestrais iranianos, os zoroastres, como já falavam dela como “pólo norte” estendendo-se até ao mito grego dos hiperbóreos, sendo o grego Piteas a remete-la para a mais setentrional das Ilhas Britânicas próxima do Círculo Árctico, estando nós assim no roteiro da Estrada do Norte que as oscilações da temperatura com o devido arrefecimento foram empurrando para sul ( não vamos excluir o mito da Atlântida e os graus de negação e aceitação nesta matéria).

Em 1927 sai uma edição ( Le roi du Monde ) de René Guénon, remetendo a sua existência como o centro da Civilização e relevando para tanto textos védicos: a verosimilhança que relevam disso nos dá conta; Paradesha ou “Coração do Mundo” que passará a Pardes para os caldeus, formando assim, Paraíso. Estamos em Fausto no centro da herança íntima deste mito onde toda a mitologia germânica subliminarmente a integra, o que explica mais tarde uma obscura organização chamada «Sociedade de Thule» ligada ao movimento nazi, mas que Hilter manda extinguir, também, misteriosamente. Efectivamente há uma noção de “raça nórdica-atlante” de uma terra desaparecida no meio do Ártico e toda a lenda navega na mais improvável busca que possamos propor-nos, sabendo no entanto como foram grosseiras as interpretações destas matérias por mentes frágeis sem condições interpretativas.

Para entendermos este rei e talvez as coordenadas da sua existência, a alegoria da montanha sagrada deve estar implícita, toda a proximidade se dá por montes e sobe à montanha, o monte Ararat, a montanha Qaf… Alborj, Montsalvat… que muito embora possa mudar de localização devido aos ciclos geológicas continua a ser um eixo fixo em torno do qual tudo gira, estando preservada da humanidade, é o “país supremo” lá para o Pólo Norte.

A imensa informação que se encontra numa obra como a de Fausto é o que faz dela (e de outras semelhantes) o seu prodígio civilizacional, os locais esquecidos, ou, os locais que não devem ser dados a conhecer… a conexão de um cérebro como o de Goethe que deve ter transportado milénios de boas ligações internas e destilado tais heranças… a recuperação de um virtuoso rei de amor feito e por amor abatido, é por si mesmo matéria fausta e grave dado que são estes guindastes que nos sustêm longe do asfalto da turbulência irrespirável deste atual mundo. Thule passeia-se muito certamente transversal a todas as épocas, e já a «Utopia» fala dela, e não será agora de estranhar que o primeiro ensaio para uma sociedade assim tenha sido lá para as zonas de Thule, deixando em aberto a memória de tais remotas realidades. Pessoa faz ainda o belo poema das Ilhas Encantadas, podem ser todas elas, sim, mas ele acrescenta “aquela terra de suavidade que na orla esquerda do sul se olvida… é a que ansiamos…”

“Il était un roi de Thulé immaculé….” a história trata de um rei que sentido a sua vida aproximar-se do fim, lança a sua possessão mais querida, a sua Taça de Ouro, presente da sua amada, e se:- o rei de Thule ainda existisse não jogaria a sua taça mas sim o seu vinho, pois que ele é mais precioso que o ouro- nos diz Paul Valéry em ” Le vin perdue” e se é verdade que todo o poeta é um rei não é excessivo afirmar que cada poeta é um rei de Thule, o essencial que nunca se transforma: a vitória do tempo continua a ser pronunciar a palavra liberdade sempre em voz baixa.

Thule permanecerá um poema ou um labirinto de gelo, mas quando o mundo aquece podemos ainda pegar nas suas chamas para passar a fronteira e transformar um local num maravilhoso país de elementos equidistantes e tão ordenados que certamente será esse o paraíso. A sua taça pode ainda ser a do Graal, esse vestígio de um Banquete ou de uma Ceia para o centro da renovação de uma concavidade há muito programada.

Houve em Thule um rei, fiel
Até que a morte o levou;
A sua amada, ao morrer,
Taça de oiro lhe deixou…….
… com seus cavaleiros foi-se

El- rei à mesa assentar,
No salão de seus avós
Do castelo à beira-mar…

“In- de Fausto”

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários