Abertura

A porta da China vai continuar a abrir-se cada vez mais. O ambiente para negociar só vai melhorar e as oportunidades para empresas multinacionais serão cada vez maiores”. Foi assim que Xi Jinping comentou um novo abrandamento da economia chinesa que, ainda assim, continua a crescer acima dos 6 por cento.

Independentemente dos números oficiais e do seu rigor, há um número que destaco: o investimento estrangeiro directo que entra na China, cresceu para 100.8 mil milhões de dólares entre Janeiro e Setembro. Boas notícias para a autêntica sangria de capitais com que Pequim tem lidado.

Mas outro facto compromete as promessas de abertura da grande China ao mundo. Numa altura em que Hong Kong arde, o investimento estrangeiro directo que entra na China através da ex-colónia britânica cresceu 8,1 por cento nos primeiros nove meses do ano. Apesar da permanente batalha ideológica, da violência, do ódio de ambas as partes, 2/3 do investimento estrangeiro que entra na China fá-lo através da porta de Hong Kong. Uma chapada de realidade que une as duas partes numa interdependência sustentada no dinheiro, quando todas as outras dimensões gritam divórcio.

E aqui entramos no tema em análise desta humilde crónica. A fantástica noção da abertura da China ao mundo, uma das falácias geopolíticas que vai marcar esta primeira metade do século XXI. Gostaria de saber o que diria Deng Xiaoping do rumo que a política externa de Pequim tem seguido. Claro que para os crentes, tudo o que vem de cima é sagrado e absolutamente verdade. Se o querido líder disser que o céu é verde, a cor azul passa a ser uma ofensa.

Continua a ser extremamente difícil uma empresa, pessoa, ideia entrar na blindada China, o país que tem uma muralha como símbolo máximo. Eu próprio esbarrei na muralha, depois de me ter sido negada entrada na China, onde tentei ser turista, ansioso por me deliciar com a beleza intemporal de Pequim. Passagem comprada, hotel reservado e o juramento solene de que não iria trabalhar não foram condições suficientes para obter visto.

Claro que a fixação de uma empresa é assunto bem mais complexo e importante comparado com umas férias de um Zé Ninguém. Além dos requisitos burocráticos, da competitividade de mercado sui generis, para ser simpático, investidores estrangeiros precisam dar um salto de fé, um mergulho de confiança num país onde a justiça é fortemente politizada. Isto é o exacto oposto de abertura, é a clausura que está naturalmente inscrita no ADN do regime.

Na edição de sexta-feira, a nossa manchete incidiu sobre um professor que culpou os males de Hong Kong na influência branca. Não vou generalizar e cometer a atrocidade de dizer que este exemplo reflecte a maioria das pessoas do Interior.

Mas não posso deixar de analisar este tipo de mentalidade face a um factor: o nacionalismo nunca foi um cenário propício a uma visão positiva do outro, do estrangeiro, do exterior. O nacionalismo é o amor que se impõe em detrimento do resto do mundo, que sempre que domina um país tem consequências horripilantes para todo o mundo.

Para apaziguar a omnipresente “ideologia” “atão e os amaricanos”, que o próprio docente usou para justificar racismo, vou deixar claro que considero o “excepcionalismo” americano a força-motriz do apoio, ou relativização, das atrocidades que o império norte-americano comete desde o fim da Segunda Grande Guerra. A ideia interna e míope de que os Estados Unidos da América são o melhor país do mundo, justifica e abre caminho a crimes de guerra invisíveis para quem usa a pala cega do patriotismo.

Deste lado, esta perigosíssima semente germina adubada em abundância.

Para fora apregoa-se abertura, enquanto dentro de portas se enaltece a reclusão do amor-próprio. E este cárcere também é enaltecido aqui, principalmente nos dias que correm, numa cidade que ambiciona ser centro internacional disto e daquilo, que quer ser plataforma de comunicação com outros países. Uma cidade que se quer cosmopolita, internacional, tem de ser tolerante face aos outros, tem de ser multilingue, aberta, disponível para acolher. Vivemos numa era global, apesar das flutuações isolacionistas, que a China critica selectivamente devido às tarifas de Trump. Ironicamente, estes fenómenos de isolacionismo nascem exclusivamente do nacionalismo.

Era bom que se tivesse em conta que quando uma porta se abre não se pode permitir passagem apenas num sentido.

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