Beleza Feia

Há um ano, numa visita a Sintra para visitar a vernissage de uma amiga pintora, a que estava comigo perguntou, enquanto eu tentava fotografá-la e lhe dava dicas para se embrenhar mais no meio de umas flores brancas que encontrámos pelo caminho: “Gisela, o que fazes com as tuas estrias?” Respondi: “Aceito-as. Digo bom dia e boa noite.” Recentemente, uma das minhas amigas, que é professora de yoga e, claro, super fit, posou para uma marca e acho que ainda não lhe disse o quanto gostei do facto de em nada ter coberto as cicatrizes de uma operação para lhe salvar a vida, ainda bebé. O instagram pulula de posts de Kim Kardashian (conhecida por mil coisas mas a mais divertida, sem dúvida, a sua cara feia de choro) a promover produtos e serviços de marca própria, familiar ou alheia. Mais recentemente porém, Kim tem divulgado a sua maquilhagem de corpo, que usa para cobrir a psoríase, mas da qual vemos também um vídeo atenuando as veias azuladas e a pele rugosa de sua avó. A modelo Salem Mitchell é dona de um dos memes mais engraçados de sempre: segurando um cacho de bananas pintalgadas junto do seu rosto pejado de sardas. Do pesado gozo da comunidade online surgiu uma carreira de sucesso em tenra idade. Outra modelo negra, Winnie Harlow, que aliás colaborou recentemente com Kim numa linha de maquilhagem de rosto, é conhecida por ter vitiligo, e tem vindo a desafiar positivamente todas as ideias de beleza convencionais de que pelo menos alguns de nós já se cansaram.

Uma das minhas fotos preferidas do instagram, de sempre, foi postada no dia dezoito de Agosto deste ano, pela famosa modelo plus-size Ashley Graham. Um foto nua, de lado, mão de manicure vermelha impecável e aliança a tapar o mamilo. Vemos dobras, peito, estrias e marcas de quem está sentada de lado, perna encostada à barriga. Uma foto de quem está, também grávida, antes de a barriga arredondar e ganhar espaço, ou seja, antes de Graham ficar ainda mais bonita. A foto soma até agora mais de um milhão e setecentos mil gostos, inclusive o meu, que já a revisitei inúmeras vezes até me decidir tirar e postar uma igual, de um lado e de outro. Ashley é uma das mais conhecidas modelos plus-size, e tem agraciado as capas e passarelas de revistas e marcas notórias em todo o mundo, inclusive a da edição de fatos de banho da Sports Illustrated ou da Vogue. Ashley é uma daquelas raparigas que deve, ao longo da vida, ter ouvido comentários sobre como tinha tanto estilo e um rosto tão lindo… para uma rapariga gorda, isto é. Deve, até, ter ouvido que, se emagrecesse, poderia ser modelo. Eu sou só uma rapariga comum que uma vez engordou 60kg e depois aprendeu muitas lições, sobretudo sobre si mesma. Um dia somos adolescentes e perguntam-nos se nunca pensámos ser modelos. Outro dia estamos na lista de espera para uma cirurgia bariátrica. Anos depois, alguém nos pergunta se não queremos posar para uma marca de bikinis sustentáveis e depois de muito hesitarmos e nos torturarmos, aceitamos. A pessoa que eu mais quero influenciar ainda sou eu própria e este mês, um ano depois de ter parado, voltei ao ginásio. No entanto, é irónico como certa vez convenci uns seis colegas de trabalho a inscreverem-se e que todos tenham continuado até agora. Lutas.

Outra celebridade que tem ganhado fãs em todo o lado é a já mítica Lizzo. Num dos seus singles do último álbum colabora com uma Missy Elliot visivelmente mais magra, olhos amendoados sobressaindo, sempre fiel às roupas desportivas, sempre dançante, sempre uma rapper maravilhosa. A Supa Dupa Fly tem lutado com o peso ao longo dos anos, e pergunto-me o que pensará sobre esta fase em que as coisas parecem estar, lentamente, a mudar. O meu instagram reflecte alguma aceitação e celebração, no entanto as partilhas são pouco as de cada uma e das mulheres reais da sua vida e mais de estranhas e famosas. Ou seja, aceitamos apenas quem já foi aceite e validado pela internet? Porque é que não celebramos a mãe, amiga, irmã, vizinha, colega de trabalho mesmo ali ao lado? Porque podemos cruzar-nos connosco num espelho perto delas? A aceitação é para quem, afinal?

Desde a estreia de Euphoria, a série do momento sobre adolescentes, Barbie Ferreira é a porta-estandarte da geração mais jovem, sendo, a par de Lizzo, talvez a mais cool desta onda, não houvesse uma cena, na série, em que a sua personagem dança sensualmente em modo twerk ao som de, precisamente, “Tempo” e do verso Slow songs ain’t for skinny hoes. Thelonius Monk talvez concordasse.

Finalmente, volto aos meus primeiros amores plus-size: Nadia Aboulhosn e Gaby Fresh, divas e amigas: bloggers, modelos, designers, entusiastas do exercício. Porque, sim, todas estas moças plus-size passam, aparentemente, tantas horas no ginásio como a própria Kim Kardashian que, como Hemingway fazia, se pesa todos os dias. A diferença estará, talvez, na alimentação. A semelhança maior? No amor. Algumas raparigas são maiores que outras, diziam os Smiths. Não vejo mal nenhum nisso.

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Quero
Quero
10 Out 2019 21:52

Belissima escrita, Gisela. Quero outras. Recebeu minha mensagem em seu face?

Rubervam Du Nascimento
Rubervam Du Nascimento
10 Out 2019 21:53

Bela escrita Gisela. Quero mais. Recebeu a minha mensagem em seu face?