Política mortal

Vamos todos morrer de política. Ao longo da minha vida experimentei décadas bem diversas em termos de intensidade ideológica. Anos 1980: bicefalia na divisão do poder pelo bloco central, enquanto as FP 25 de Abril espalhavam o terror com espasmos violentos, como uma ressaca revolucionária que descamba em banditismo.

Anos 1990: vazio ideológico, torpor sem ideias e paz neoliberal durante a gestação do ogre. Anos 2000: o ogre nasce e escava um intransponível fosso entre ricos e pobres, que se agiganta até à hecatombe económica de 2007. Anos 2010: o mundo está dividido em primarismos, onde a razão, sentido histórico e o conhecimento não têm lugar. Oscilamos entre períodos híper-ideológicos e dormência.

Hoje em dia tudo é política. O que comemos, quem e como amamos, quem são os nossos amigos, com que valores vemos o outro, tudo é politizado ao máximo. Há quem veja marxismo numa tijela de muesli e fascismo numa porta de casa de banho. Até a ciência foi politizada. Se está frio a ciência é uma ferramenta do marxismo climático, se está calor a ciência é uma emanação protofascista. Isto é incomportável, não se aguenta, é primário, bronco. Não é complicado para mim refastelar-me confortavelmente em niilismo, esse spa filosófico, e assistir ao apocalipse burgesso. De quando em vez mexo no lodo para lhe medir a temperatura, arrependo-me logo e regresso à contemplação das chamas.

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