Perlaborar os formigueiros

Tinha vinte e poucos anos quando assisti a uma conferência de António José Saraiva. Retive na ocasião a ideia de que “os humanos não são formigas” e que, portanto, se não ousarem mudar radicalmente aquilo que são (ou julgam ser) ao longo da vida, mal vai a volta.

Pelo meu lado, tenho praticado esse anti-dogma várias vezes no correr do tempo. Razão por que abandonei muitas vezes os rituais de grupo em que me vi (ou vejo ainda) envolvido.

Alguns amigos meus – a maior parte mais novos do que eu – adora fazer provas de coerência e nem creio que dêem por isso. Talvez assim seja porque vivemos em tempos adversos a esse tipo de profissões de fé. Ou então porque os seus heróis-filósofos os satisfazem e lhes emprestam certezas inabaláveis, ou ainda porque o delírio hedonista os desenha numa (quase sempre protegida) fuga para a frente.

Por estar na moda desancar nos ‘franciunzes’ – por vezes também alinho nessa ‘gouttière’ -, passo a evocar um caso de curiosa metamorfose ligado a um senhor nascido em Versailles, meses depois do meu pai: Jean-François Lyotard.

Nove anos após ter publicado A Condição Pós-Moderna (1979) – um livro que varreu muita conversa nas duas décadas seguintes -, o autor adoptou, em O Inumano, a modalidade “reescrever a modernidade” em prejuízo do chavão “pós-moderno”, de que, aliás, se tornou bastante crítico. Nesse ensaio, justificou-se com dois argumentos para a mudança: o primeiro ligado à impossibilidade de imobilizar o tempo e o segundo ligado ao facto de não existirem narrativas plenamente relatadas.

A primeira vantagem sublinhava a futilidade de qualquer periodização da história cultural em termos de “pré” e de “pós”, e de “antes” e de “depois”, pelo simples facto de não resolver a posição do agora (do presente), a partir do qual é suposto adoptar-se uma perspectiva sobre os decursos cronológicos.

Já a segunda das vantagens, baseada no conceito de Sigmund Freud “perlaboração” (durcharbeitung), colocava em evidência o facto de uma narrativa nunca poder traduzir-se na plenitude, na medida em que existe sempre algo ‘não dito’ (ou “escondido”) num acontecimento, fazendo isso parte da sua própria constituição.

A perlaboração diz-nos que no mundo tudo está sempre a ser contado e que não existe uma única narrativa integralmente consumada. É natural que a tentação de desenterrar um dos aspectos dessa narrativa para lhe tentar descortinar a ‘essência’ – se é que isso existe – e a possível completude faça parte dos desígnios (ou das fantasias, dir-se-á) dos humanos.
Lyotard dá o exemplo de Marx e de Nietzsche, o primeiro, ao ter detectado por inefável sortilégio – o juízo é meu – “o funcionamento escondido do capitalismo”, aspecto que desenlaçaria todos os demais sentidos da história; o segundo, ao ter considerado que “não existe nenhum princípio primeiro e original” (um “ground” ou uma referência de fundo) a partir do qual uma narrativa pudesse ser pensada (caso da ‘criação do mundo’ e do ‘eschatón’ para as religiões axiais, do ‘bem’ para Platão ou do “princípio da razão suficiente” para Leibniz).

A modernidade seria, portanto, nesta acepção, um espaço de ilimitadas redescobertas e não o resultado de um desencantamento.

A atitude de “rescrever” um período que se evidenciou pelas suas características próprias tornou-se, para Jean-François Lyotard, em poucos anos, numa óbvia alternativa ao conceito “pós”. E o autor foi mesmo mais longe, ao afirmar que “o pós-moderno está já compreendido no moderno pelo facto de a modernidade” (…) “comportar em si o impulso para se exceder num estado que não é o seu”. A este dado, acrescentou ainda: “(O) que realmente se oporia à modernidade seria a idade clássica. Esta comporta um estado do tempo, digamos: um estatuto de temporalidade onde o “advir” e o “partir”, o futuro e o passado são tratados como se, em conjunto, englobassem a totalidade da vida numa mesma unidade de sentido.”.

Embora Lyotard tivesse desfeito o pacto esquemático (e ultrapassado) – ‘moderno vs pós-moderno’ –, a verdade é que a sua postulação é, também ela, uma longa história que está longe de estar contada. Mas isso ficará para uma outra crónica a acompanhar com material menos dietético e cauteloso.


Jean-François Lyotard. A Condição Pós-Moderna. Lisboa: Gradiva, 1989.
Id. O Inumano: Considerações sobre o Tempo. Lisboa: Estampa, 1990.

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