A anexação da Checoslováquia na música de Bohuslav Martinů

Nascido na Boémia no dia 8 de Dezembro de 1890, desde muito cedo que Bohuslav Martinů manifestou ter dons para a música, aprendendo violino com Josef Cernovsky e tornando-se mesmo um prodígio deste instrumento. Desenvolveu estudos de violino e órgão no Conservatório de Praga, de onde foi expulso duas vezes, estudando posteriormente por sua conta. As suas composições, em particular para piano e que datam desse período (1910-1915), reflectem já as ambições do compositor por uma grande riqueza de invenção. Em 1920, tornou-se violinista na Orquestra Filarmónica Checa, travando conhecimento com o chefe de orquestra Václav Talich e brevemente com o compositor e violinista também checo Josef Suk, encontro que o iria marcar para sempre. Após a independência do estado checoslovaco Martinů partiu para Paris em 1923, onde foi discípulo do compositor Albert Roussel e se afastou deliberadamente do estilo romântico no qual havia sido formado, cruzando-se também com o compositor suíço Arthur Honegger. Ambos viriam a exercer uma grande influência na sua existência e na sua música.

Entre 1920 e 1930, compõe muito para piano e voz. No início dos anos 30 encontrou a sua principal fonte composicional: o neoclassicismo desenvolvido por Stravinsky. Tornou-se prolifico, depressa compondo obras de câmara, orquestrais, corais e instrumentais. Experimentou o expressionismo e o construtivismo, e tornou-se admirador de desenvolvimentos técnicos europeus na época, exemplificados nas suas obras orquestrais Half-time e La Bagarre. Adoptou idiomas de jazz, como por exemplo na sua Kitchen Revue (Kuchyňská revue). Os seus primeiros grandes sucessos datam de meados dos anos 30, como as Inventions pour piano et orchestre, encomenda do Festival de Veneza (1934), Kytice (Le bouquet de fleurs, 1938) e, sobretudo, a sua primeira ópera, Juliette ou la clé des songes (1938), criada no Teatro Nacional de Praga por Václav Talich. Compõe também, em Setembro de 1935, para a cravista Marcelle de Lacour, o seu Concerto pour clavecin et petit orchestre, que ela toca pela primeira vez em Janeiro de 1936 em Paris. O seu Concerto Grosso e o Duplo Concerto para duas Orquestras de Cordas, Piano e Timbales, H. 271, contam-se entre as suas obras mais conhecidas deste período. o período francês do compositor

O Duplo Concerto para duas Orquestras de Cordas, Piano e Timbales, H. 271 começou a ser esboçado no Verão de 1938, na Suíça, num período de deterioração das relações diplomáticas e em que uma atmosfera tensa dominava toda a Europa. Encomendada por Paul Sacher da Orquestra de Câmara de Basel, esta obra poderosa reflecte impressões intensas, tanto da vida pessoal do compositor como dos eventos políticos da época, do medo e agitação omnipresentes, expressando o sofrimento checo após a anexação da Checoslováquia pela Alemanha em 1938. A obra foi escrita como um reflexo e em protesto contra estes eventos,.

Segundo Martinů, “É uma peça vivida em circunstâncias difíceis, mas no entanto não possui desespero nem melancolia, mas implica revolta, coragem e uma fé inabalável no futuro, expressa por meio de ondas dramáticas abruptas, uma corrente de notas que não para um segundo…”.

A capa da partitura do manuscrito ostenta a dedicatória “ao meu querido amigo Paul Sacher para comemorar os dias calmos e medrosos passados em Schönenberg entre os cervos e a ameaça da guerra”. Martinů terminou o último andamento do esboço no mesmo dia da assinatura do Tratado de Munique, que conduziu à anexação da Checoslováquia por Hitler, e que pôs termo ao sonho do compositor regressar ao seu país natal. A obra foi apresentada pela primeira vez pela Orquestra de Câmara de Basileia, conduzida por Paul Sacher, em Basileia, em Fevereiro de 1940; Martinů viajou de Paris para assistir à sua apresentação, apesar da difícil situação internacional. Arthur Honegger estava na plateia. Uma segunda apresentação do Duplo Concerto, desta feita em França, pela mesma Orquestra, teve que ser cancelada devido ao facto do compositor ter sido colocado na lista negra pelos nazis. Martinů e sua esposa tiveram que fugir do país, abandonando todos os seus pertences, incluindo a maioria dos manuscritos do compositor, sendo muitas vezes forçados a dormir em estações ferroviárias durante a sua fuga.

Atravessaram os Pirenéus a pé, em direcção a Lisboa, de onde partiram para os Estados Unidos a bordo de um navio. Uma das poucas partituras na sua posse era a do Duplo Concerto.

O concerto, com os andamentos Poco Allegro, Largo, e Allegro, é estruturado segundo o concerto grosso italiano do séc. XVIII, sendo os andamentos exteriores caracterizados por um tom de ansiedade expresso por ritmos sincopados, enquanto o Largo se centra numa afirmação declamatória. O início violento do primeiro andamento mostra vividamente o efeito chocante que o tratamento à sua terra natal teve sobre Martinů. Os três acordes finais do último andamento soam como os tiros de um esquadrão de fuzilamento.

Sugestão de audição da obra:
Bohuslav Martinů: Double Concerto for two String Orchestras, Piano and Timpani, H. 271
City of London Sinfonia, John Alley (piano), Charles Fullbrook (percussion), Richard Hickox (conductor) – Warner Classics, 2009

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