Canivete suíço para corações

Conheci Marlene num bar da Vila Madalena, em São Paulo, entre amigos de amigos de amigos. Tinha o cabelo preto – curto como um haiku –, que contrastava claramente com o exagero da sua pele branca. A sua juventude via-se no modo despreocupado com que se entregava ao sorriso, dela e dos outros. Num tom provocador, diz, quase rente à boca de Julie, “o amor não serve para nada”. E riam-se, quase se beijando.

Marly (Marlene) estava interessada em Julie, mas ainda mais interessada em Patty, que estava sentada ao meu lado e mais empenhada em convencer as pessoas acerca do que pensava do que nos corpos disponíveis, que poderia ter se quisesse. Quase todas aquelas jovens mulheres poderiam ser no corpo de outrem, por isso a displicência com que não atentavam nos sinais do desejo. Marly tocava-nos enquanto falava, sorria, olhava-nos nos olhos. Julie estava claramente interessada apenas em Marly e era um erro. Erro que se paga com a vida e tarde de mais se percebe. Patty falava que só há dois tipos de pessoas no mundo: as que fazem a guerra e as que fazem a paz; o resto eram sub-divisões que tentavam ocultar a diferença máxima e que realmente importava para o mundo. Entregar-se à discussão, à maledicência era fazer a guerra, furtar-se ou evitá-las era procurar a paz. Continuava neste tom até alcançar os cumes gelados da religião, onde cristianismo, islamismo e judaísmo faziam parte do mesmo partido da guerra, contrariamente ao budismo, que era claramente uma procura da paz. Marly, que estava nesse momento levantada, dirige-se a Patty por trás, toca-lhe nos longos cabelos loiros, apanha-os com uma das mãos e sussurra-lhe ao ouvido algo que fez a rapariga da paz estremecer, enrubescer e soltar um som rouco, embaraçado. Marly deu-lhe um beijo no lado esquerdo do rosto, junto aos lábios, sentou-se no seu lugar e beijou demoradamente Julie, tendo desta vez toda a atenção do mundo – a paz e a guerra – por parte de Patty.

Esperei um pouco, virei-me para a Patty e disse: “Estava dizendo…” Ela olhou-me como se acabasse de acordar. Ficou tão claro que não basta uma pessoa existir, fazer-se ver a outra, para lhe entrar dentro da pele, é preciso construir um cavalo de Tróia, é preciso um gesto, uma palavra, algo que faça com que a realidade desapareça e que o que é passe a parecer.

Marly era um autêntico canivete suíço nos nossos corações. Agora, não havia naquela mesa, naquele bar, naquela cidade, um só coração que não batesse em uníssono com o coração de Marly. Tudo o que fazia era perfeito e transformava-nos a todos numa criança no primeiro dia em que estremece pela imagem de um outro corpo. Nem ela mesma sabia o que fazia. Tocar-nos os corações não era um conhecimento, era um destino. Ria-se com a alegria de quem vive no paraíso e não numa rua da cidade de São Paulo, no mundo, e repetia de quando em quando como um refrão “o amor não serve para nada”.

A noite foi crescendo, tal como um filho, mais depressa que o esperado. Já à saída do bar, e com o dia a espreguiçar-se, perguntei-lhe: “Marly, que disse ao ouvido da Patty?” Ela riu alto, abraçou-me e rente ao ouvido, disse: “Portuga, se lhe contar, vou ficar com a sua alma para sempre. Quer mesmo que isso aconteça?” Por estranho que pareça, a sua resposta não me surpreendeu. Sorri e disse-lhe: “Não, querida, deixe p’ra lá, assim está de bom tamanho”. Seria estultícia querer desafiar a natureza e o desconhecido.

No céu, começava-se a ver as nuvens rarefeitas, deslizando no céu como se Deus fumasse.

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