Genet e as flores

Nossa Senhora das Flores» é o título de um livro marcante de Jean Genet, um desfolhar de costumes em áreas fechadas num despir de convenções que faz fronteira com a “boa sociedade”. Chamou-lhe então a catedral magnífica para a trindade do Macho, da Bicha e do Herói. A natureza dessa senhora de branco tem muitos contornos e fixa sem dúvida a história de vida de cada um de nós. Nem toda a boa Humanidade tem acesso ao que se passa nos limites da incompreensível, e quantas vezes assassina outra Humanidade. Vivem fechados nas suas boas coisas como empalhados do nada, em labiríntico esforço das suas ternas intenções, mas faltando-lhes a inocência daqueles que nada sabem desses segredos e berços macios. E por isso, é bem possível que Genet tenha reinventado a sua própria vida pela perspectiva de alguém que não tem conhecimento do que trata a tão maravilhosa visão dos outros.

Genet, é uma espécie de Peter Pan, só que neste caso ele representa também o pirata. Não teve mãe, não teve pai, andou de Instituição em Instituição, até que viu no crime uma santidade mais para a sua virgindade de afectos, e é tão lindo que desejou amar o próprio assassino do seu amante para partilhar ainda aquela réstia de ternura que o sangue faz misturar aos corpos que tanto se deram.

Era a sua inocência, a sua força, a sua própria transcendência de grande escritor que já se manifestava à revelia das ficções de mau gosto dos contos negros de cada um. Genet é o tal Anjo da beleza terrível de que nos falou Rilke. «O sorriso do anjo», uma entrevista feita a Genet que ofende os sérios propósitos dos milhões de legítimos desonestos. De facto, Genet não precisou da família para nada, nem tão pouco recriou a sua. Homossexual, solitário, bandido a um tempo, sobrevivente a todas as ameaças, é ele no fim quem dita as condições e faz calar pela beleza os que gemem de raiva contra ele. Nem sequer gostava de Nabokov nem de Henry Miller, entendia então, que a virilidade era a capacidade de saber proteger uma mulher, e não esse aproveitamento de palavreado a mais. Ele que, pelos vistos, nem de mãe, nem de mulher propriamente dita, sabia o que era, mas esta posição distingui-o automaticamente.

É bem claro que estamos num mês mariânico e se sucedem as rimas frouxas dos amores das mães, dos maiores amores dos filhos, e por aí fora, num estendal que chega a ser nesta visão uma realidade incompreensível e como os incompreendidos são minorias a mais, destes nada se fala porque destoam do coro da vitória (pensam eles) da vida sobre a morte; mas aí é que está! Estas pessoas existem, elas souberam articular a fonte ao ser, e nasceram de si mesmas como os cavalos do vento: havia uma lenda que dizia que as éguas da Península Ibérica emprenhavam por ele, não sendo um hispânico, podem ter subido os ventos lá mais para cima… e dado um tão exemplar filho de ninguém! E até podemos imaginar que Jesus Cristo fosse filho de uma destas rajadas de oxigénio, a ver pelo desplante com que tratou a progenitora, que agora é de todos, mas para ele, e no dizer Pessoano, não passava de uma mala.

«O condenado à morte» de Genet (e nada nesta vida parece tão redentor) aliás, na sua execrável obscenidade em que raiou sempre um par de asas sublime, que aflige a moral como uma lâmina de guilhotina, nos parece mais próximo de uma vida que se liberta e se fez voz libertadora. Estes nasceres são capazes de coisas tais que não os imaginamos no cardápio das ideias puras. Estar preso é um derrame absoluto de sémen contido, e fechar os improváveis pode conter descargas de conhecimento transversal que obrigue os filhos, as mães, os pais, os tios e os primos, a suicidarem-se de vez, face a certas e improváveis vitórias da vida.

Quero deixar claro o meu amor por estas gentes, por Genet em particular, e pela lembrança sem rosto que jamais se debruçou na sua rota, onde o tempo legislou leis outras, nem seguir esquecendo a manobra trágica do amor que nos menoriza face aos gigantes indefesos, e para sempre os únicos inocentes. A consequência das coisas nunca é a que esperávamos, e, inconsequentemente se elabora o melhor que a vida tem. Genet pode ser o mais perto que há de um santo, mas não é, nem bom, nem esclarecido, tornou-se assim divino, porque agarrou nas palavras pelo lado que ninguém sabe alcançar, e a tudo isso acresce o carinho do saber titular e a grande energia amorosa da criação que dá a cada ser o nascituro de si mesmo.

Ó almas dos meus assassinados! Matai-me!
Queimai-me! Como um extenuado Miguel Ângelo
Eu esculpi na vida; mas a beleza, Senhor, sempre a servi
Com o ventre, os joelhos, as mãos rosadas de emoção.

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