Liberdade

Eterna fome da alma, torrente imparável que destrói todos os obstáculos com força de elemento natural. Chama mais brilhante que se alimenta do combustível da opressão e da violência. Denominador comum de todos os mortais, aspiração dos imortais, transversalmente universal como a carne e o sangue, como um impulso de amor.

A busca da liberdade confere humanidade como a ânsia pela transcendência e a habilidade de sonhar, uma avassaladora paixão que tolda os sentidos até ser consumada, como uma nuvem carregada que já não aguenta conter o derrame líquido.

O grito que se solta e repele o cheiro a cárcere que se entranha no corpo e espírito, que quebra as amarras da submissão, que derrota iniquidades e exércitos de servidão. A liberdade não se domina ou modera, o seu exercício é absoluto, soberano, maior que todas as doutrinas e ideais combinados. A sua força pode parecer enfraquecida, latente, mas nunca se extingue, impossível de não cumprir o desígnio de concretização como uma maré que sobe empurrada pela massa dos astros.

Expressão máxima do que é o Homem, natureza e condição humana em acção. Musa de poetas e filósofos, matéria onírica, pesadelo dos tiranos, doce e vingativa revolução que paira por cima de todas as ditaduras como uma tempestade inevitável. Simplicidade que derrota a prepotência, maioridade que ganha ao infantilismo a que os déspotas votam os seus súbditos, clarão luminoso que leva a verdade ao mais obscuro recanto.

Uns quantos teorizaram que todos os homens e mulheres estão condenados a ser livres, que essa é a sua génese, a página em branco desde o primeiro segundo de vida, a condição na qual se nasce. Outros entendem que jamais alguém será totalmente livre, que o mundo vive acorrentado à pessimista equação entre desejo e escolha consciente. Onde quer que esteja a chama da verdade, entre natureza bruta e fria racionalidade, os raios de sol vão sempre iluminar a treva.

Entre as muitas mentes brilhantes que se debruçaram sobre o tema, há quem entenda a liberdade como uma emanação material, longe das teorizações burguesas metafísicas e ideais abstractos, a satisfação de se poder ser e fazer.

Também é comum descrever-se a liberdade como uma espécie de fronteira que demarca onde um indivíduo acaba e o outro começa, a barreira que circunscreve uma unidade de vida e a divide da seguinte. A questão dos limites da liberdade condicionada socialmente está no cerne da verdadeira definição do que é ser livre. Estarão as várias liberdades individuais conectadas e dependentes umas das outras? A condição de se ser livre é algo pessoal ou social?

Apesar da validade teórica e ética de uma liberdade que se realiza no confronto individual, a sua acepção pessoal vinca a existência. A característica intrínseca, inerente à pessoa, faz com que mesmo o encarcerado seja naturalmente livre. A certeza desta autonomia ultrapassa todas as celas, métodos de controlo, violência de Estado, terror assassino, doença e mesmo a inevitabilidade da morte. Apesar de amordaçado, o grito de liberdade esgueira-se entre os dentes, como um sopro que se agiganta.

Fora do plano teórico, ser livre na sociedade em que vivemos pode reduzir-se ao simples privilégio de não nos chatearem os cornos, de termos acesso ao luxo do silêncio fora do alcance do WIFI. Sair de cabeça erguida do labirinto de produção e consumo onde meio mundo anda perdido, cumprindo a profecia de Debord do cativeiro do entretenimento e das falsas escolhas.

Acordar para dias formatados por obrigações de toda a ordem, viver contido, confortável em passividade segura, evitando ao máximo o risco e o perigo de ser desbragadamente livre, para além dos limites das convenções sociais e até das leis.

A liberdade é difícil de definir. Já a submissão é mais fácil de identificar, sente-se na pele, aterroriza os que ainda não foram aprisionados, fustiga a pele de quem ousa dizer uma palavra verdadeira, castra a criatividade e a expressão artística. O problema para quem aspira ser livre é que também a violência é inerente ao ser humano. Enquanto a experiência da humanidade durar, duas forças contraditórias vão continuar um conflito sem tréguas: liberdade e subjugação.

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