Infantilidade

Macau tem todas as idades. É velha, cheia de fantasmas, com um passado sofrido. Debaixo das suas ruas acumulam-se séculos em camadas geológicas de vidas perdidas e pirataria. É maior e vacinada, aglomera todos os vícios oferecidos pelo mafarrico e vende todos os pecados capitais que o capital consegue comprar. É uma cidade calejada pela violência, palco de sucessivas gerações de piratas, ladrões, corruptos e poetas, porto de abrigo para desesperados, berço confortável de tríades várias, local onde a lei é apenas um slogan que vende uma realidade pintada a rosa por cima de um mar de cinzas. Ao mesmo tempo, Macau é uma criança renovada a cada passo, em crescimento disforme e com dentes de leite a despontar de uma velha e seca gengiva. É uma cidade que vive em perpétua idade da inocência.

A primeira manifestação de infantilidade que salta à vista para quem acaba de cá chegar é a publicidade institucional. O poder fala com o povo como a Ana Malhoa se dirigia ao público do Buéréré, com um aberto e sorridente “olá, amiguinhos”.

Seja qual for o departamento do Governo, usa-se um tom adequado para comunicar com uma criança de seis anos, sempre com cores vivas, desenhos animados, banda sonora a evocar memórias de Teletubbies e um sentimento grotesco de Terra do Nunca com um design que, ironicamente, faz lembrar os sanguinários “cartoons” de Joan Cornellà. Em Macau, o complexo de Peter Pan é uma política basilar.

Por exemplo, se a mensagem for a divulgação de uma linha telefónica para receber informações sobre a perigosidade de um destino de férias, as imagens são um desenho animado, como é óbvio. A publicidade institucional que tenho em mente retrata aquilo que só pode ser interpretado como um menino a fazer turismo, de máquina fotográfica em riste, num cenário de guerra ao estilo da Síria. Entre duas fotos, aparece um tanque de guerra que dispara contra o menino. O resultado não é morte, vísceras de fora e o horror consequência da guerra, algo que também seria completamente despropositado mostrar num anúncio de alerta. Em vez disso, o incauto turista fica com a cara tisnada de fuligem, cabelo de pé a fumegar e um ar confuso de quem esperava morrer depois de levar com munição de tanque.

As forças de segurança ganham o óscar para melhor filme de animação, com vários exemplos de assuntos sérios e aterradores retratados como um episódio da Rua Sésamo. Do pequeno furto de carteiristas em autocarros até à ameaça de terrorismo, os prevaricadores têm sempre o aspecto de um Playmobil sorridente. Apetece pegar no Playmobil que se assemelha ao Bin Laden e pô-lo a jogar à bola com o Rato Mickey, ou numa festa de chá com a Barbie. Será que ainda assim, o terrorista animado iria detonar os palitos de dinamite atados a laço com um relógio em cima?

Por um imperativo de falta de pachorra e espaço de página abstenho-me de elencar mais exemplos de como o poder fala com os residentes com cutchicutchis e apertões nas bochechas. Quem é o residente mais lindo, em conformidade com a harmoniazinha fofa do papá?! Quem é, quem é? É tu!

Uma fórmula semelhante é usada na ligação entre Governo e comunicação social. Nos discursos oficiais, somos sempre representados como os melhores amigos, camaradas do peito que andaram na escola e que já choraram no ombro um do outro. Depois, no quotidiano, quando buscamos informação que descodifiquem a realidade, somos empatados ou, simplesmente, atiram-nos com uma resposta que pouca relação tem com a pergunta. Mas o pior mesmo é repetirem, até à náusea, que a função do jornalismo é transmitir as mensagens do Governo, ser o seu megafone, com a missão lateral de fazer sugestões de governação. É possível que o livro oficial do Executivo e a sua filosofia central seja “O Segredo”. Parece que ao poder basta pensamento positivo e desejar muito que a realidade se adeque aos seus desígnios em vez do contrário.

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