Frustração

P or vezes, por detrás dos caracteres, das colunas, das manchetes, há calvários de paciência invisível sacrificada em prol da edição, há muros de incompreensão, desleixo e incompetência difíceis de ultrapassar. A gestação de um artigo é naturalmente um processo atribulado, em qualquer parte do mundo. Mas Macau oferece algo mais, acrescenta um ingrediente de surrealismo que leva jornalistas a beliscarem-se para terem a certeza de que ouviram mesmo o que acabaram de ouvir. Acho até que as traduções não são o mais evidente calcanhar de Aquiles da complexa relação entre jornalistas e poder. Na minha óptica, o maior problema é de natureza cognitiva num contexto de total inconsequência para as atrocidades lógicas que se cometem. O dever de informar neste pandemónio cognitivo torna-se num suplício, numa bad trip comunicativa.

Por exemplo, quando se convoca uma conferência de imprensa para apresentar um estudo que não tem qualquer contacto com o estudo anterior em termos de parâmetros medidos, impossibilitando conclusões ou delinear tendências. A óbvia função do jornalista é transmitir ao leitor, ouvinte ou telespectador, a ineptidão pública demonstrada no triste espectáculo. Neste domínio, há que destacar o pelouro da saúde pelo conveniente dom de marcar conferências de imprensa em cima da hora, publicar comunicados à meia-noite e dar informações que levantam mais questões do que propriamente respostas. Mas as insuficiências comunicativas são extensíveis a todas as tutelas, com excepções pontuais de competência e dedicação.

Muitas vezes somos forçados a escalar montanhas mentais, percorrer trilhos de raciocínios sinuosos para chegarmos sempre ao mesmo sítio: “o Governo vai prestar atenção às preocupações da sociedade”, ou que actua “no cumprimento da lei”. Recordo um episódio daqueles detrás da cena, quando confrontei a opinião de vários juristas de renome que colocaram em causa a “constitucionalidade” de um regime legal por conter disposições contrárias à Lei Básica (câmaras nos uniformes dos polícias). A primeira resposta formatada a clichés defendeu que mesmo com a percepção de incompatibilidade com a lei mais alta da hierarquia legal o resultado prático daquela lei seria de acordo com a lei. Ou seja, mesmo que seja contrário à Lei Básica essa contradição é “de acordo com a lei”, uma aberração lógica que mata o mais bravo esforço comunicacional. A ginástica mental prosseguiu depois de um email onde especificamente confrontava duas disposições legais antagónicas e essa divergência material na letra da lei foi relegada para segundo plano com mais uma cascata de incongruências. Todas elas, claro está, “de acordo com a lei”. Este truque só está ao alcance de crianças com menos de 5 anos e do Governo.

– “Pedrito, como é que o prato de esparguete foi parar à parede?”

– “O coelho corre muito depressa.”

– “O prato! Como?!

– “O coelho corre muito depressa.”

– “Pronto, ok, o coelho. Porque não respondes a uma simples pergunta e fazes essa carinha querida carregada de culpa? O que é que eu fiz à minha vida!!” e engole-se mais um sapo empurrado goela abaixo por um alto copo de incredulidade.

Depois existe sempre o vasto coro crítico que exige que a verdade seja posta cá fora, que sejam abanadas as fundações dos interesses cristalizados no tempo e que se abra uma janela que traga a aragem da transparência. Um forte activismo que exige seriedade total no conforto das redes sociais, mas que se transforma em silêncio acanhado no momento de se tornar fonte, na altura de participar na busca pela verdade. É pedida compreensão que minutos depois é colocada na gaveta para dar lugar à trollada do costume.

Só com verdadeira paixão se consegue gerir o capital de frustração que esta profissão exige. Já agora, evoco a memória do “inconseguimento frustracional” da saudosa Assunção Esteves. Paz à sua alma. Só com Montypythónico humor se contornam estas esquinas de significado na esperança de desembocar na Avenida da Lógica Harmoniosa. Dei o harmoniosa de desbarato no espírito do compromisso e respeito.

 

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