Saudade burra

Meu tão certo secretário, vinde cá e imaginai uma pedra; e que alguém atira essa pedra a um charco. Ao charco da poesia, digamos; da margem observamos a propagação concêntrica dos círculos: dura uns momentos, só. Primeiro o embate, com muito estrondo, alarde e bulha, depois a leve ondulação que alastra, em simetria perfeita; de seguida regressa o paul à acalmia inicial. Tudo como dantes! Tudo? Não, agora, no fundo do charco, há mais uma pedra; há uma pedra no meio do lodo. É isso, portanto, que me proponho ir fazendo por aqui: atirar pedradas a poemas e livros que vou lendo, sem regra e ao calhar de andanças, passeios, e caminhadas, consoante as margens que me embicam o passo e os seixos que por lá vou encontrando: a leitura como este este entretém viciante de atirar a pedrada e ficar, pasma, a ver a breve onda a propagar-se, cada vez mais longe do centro. Vezes ou outras, a pedra há-de resistir a afundar-se e só cede após dois ou três ricochetes rasando a superfície das águas. Tudo depende da pedra, tudo depende do charco. Uma coisa é certa:  As pedradas dão-se amiúde em charcos, não em águas límpidas. Assim a poesia: agitá-la é sempre agitar um pouco o lodo da linguagem.

Atiro uma pedra à nova edição aumentada, pela «Tinta da China», de A Musa Irregular (manteve-se, ainda bem, o singularíssimo título!), reunião poética de Fernando Assis Pacheco, editada pela «Hiena», em 1991. A edição resgatada de um parêntese editorial, onde vem sendo hábito manter suspensos os grandes, acrescenta à original Musa Irregular, o livro Respiração Assistida, editado postumamente, em 2003, e um «Suplemento ao Lote de Salvados», composto por poemas dispersos, inéditos, plaquetes, dez poemas-colagem, publicados aqui e ali, ao correr dos anos. No final, um ensaio de Manuel Gusmão arromba as portas da poesia de Assis Pacheco e oferece o mote que define, de uma penada, a sua escrita,  colocando-a num patamar situado  «na amizade entre escrita e leitura»; no fundo, num certo desprezo relapso pelas chancelas editoriais de cunho marcado, aliado à generosidade da escrita enquanto dádiva: dar a ler —  a quem, na verdade, importa– certa  perplexidade face ao mundo. Por isto, as plaquetes que FAP distribuía entre amigos: a necessidade de partilha do seu excesso de humanidade, a transbordar de uma humildade galhofeira de quem fareja à distância a «pesporrência», dedicando-lhe, por exemplo, a ironia de um soneto. A escrita de Assis Pacheco é sobretudo comunhão do espanto, enquanto crónica necessidade de dialogar, como quem traz para as Bermudas da poesia o triângulo que une os vértices da ternura franca, da nostalgia inquieta, do humor irónico; é o estilo de quem tempera o real com uns bagos de pimenta, além do  granus salis. Será este o especial estatuto do poeta que se enfarda de mundo: que com uma mão lhe dá e com outra lhe tira a paga, porque, na verdade, escrever é dar a ler; uma forma de partilhar a vida, porque, por si só, «a solidão é um lugar difícil de habitar».

Assis Pacheco é a voz do escritor que comunica tanto nos altifalantes dos média, como na vozeada do café, ou até num oaristo tímido, quase ao ouvido; que tão depressa se faz cronista e jornalista, como poeta, e em simultâneas de afecto, atingindo os pináculos do espírito, mas de pés enraizados na terra, numa relação de corpo a corpo com a realidade. Assim, de igual para igual, que Fernando Assis Pacheco é da cepa dos cronistas poetas, com um olho no chão sólido da calçada, e outro a derramar-se lá para os horizontes. Num repente, juntaria eu no mesmo bouquet três dos que nos fazem mesmo falta, mais a sua humanidade e auto-ironia; cada qual dos três, sempre e conscientemente, a viver a sua condição de «poeta no supermercado», a resgatar as palavras-pão do dia a dia, com equilibradas doses de indignação e brandura: Assis Pacheco, Manuel António Pina e Alexandre O’Neill. Com uma ressalva, só. O O’Neill não ia tanto à bola com o futebol.

Já nos fazia falta a obra poética por inteiro do escritor que, num poema, como numa crónica, ou vice versa, identifica, num relance o mal da pátria, a lusa, entenda-se:

MAL DE PÁTRIA

Se temos nove dez poetas
à escala europeia
ou quatro ou mesmo talvez
com muito boa vontade três

aflige-me bastante menos
que o problema do Serra:

Quantas queijeiras restam
fiéis à rude bordaleira?
Para onde vai Portugal?

Em suma, comecei ameaçando a pedrada, mas deixei-me, queda, a amodorrar na margem apreciando a paisagem: não lancei o calhau rolado, as águas não se agitaram, nem se  amotinou o lodo ao fundo.  Só uma breve nota persiste a flutuar à superfície do livro: é importante resgatar os poetas que põem um naco de queijo no papo seco da poesia.

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