Um candeeiro

Às vezes aparecem-me objectos que não via há muito tempo. Tinha um candeeiro dos anos oitenta. Era verde, de metal, para lâmpadas gordas. Estava sempre com a base coberta de pó. Tinha um botão preto. Tenha de ser fazer força para o pressionar, ligar e desligar. Fui tendo candeeiros depois. Não sei o que tinha sido feito dele. Não lhe tinha nenhum apego especial. Mas fora o meu companheiro de muitas madrugadas. Quando de noite, só estudei de inverno. Nunca até muito tarde. Mas de manhã, sim. E é noite durante muito tempo das cinco da manhã até que pudesse ler à luz do dia. O meu candeeiro verde dava-me luz. Continuava sempre na secretária. Quando não dá luz, o candeeiro enfeita a secretária.

Não via há décadas o meu candeeiro verde. Fora um companheiro de jornadas longas, dias e dias, meses e meses e anos. Apareceu numa caixa, onde tinha sido arrumado com outros objectos.

Sei agora onde tinha estado todos estes anos. Estava numa caixa na prateleira de uma marquise de casa pequena, que serve de arrumação. Mas o que lhe aconteceu durante o tempo em que esteve guardado, escondido, com o paradeiro incerto. Não andei à procura dele, mas agora que me aparece, como é possível mergulhar-se no desaparecimento velhos companheiros de jornada. Ele não vem só. É um portal, um médium, faz-me entrar em transe, catapulta-me para um outro espaço, uma outra casa, o meu quarto de jovem, partilhado com o irmão. Não me transporta apenas de uma rua para outra rua próxima de Alcântara. Faz ressuscitar madrugadas de leitura até que nascesse o dia, os serões das vésperas com todos vivinhos. Leva-me ao princípio dos tempos. Não à infância, mas quando ainda havia os primeiros começos do princípio.

Aqui e agora, enfiado e arrumado nesta caixa, o candeeiro dá-me uma outra luz que se projecta para o passado para onde me transporta. Desaparece do sítio onde se encontra. Desmaterializa-se. Desaparece a caixa, a marquise, esta casa, nesta rua, neste tempo. A porta da percepção fecha-se. Abre-se a porta do passado. Materializa-se naquele quarto, daquela casa, naquele tempo. Ressuscitam os vivos daquele tempo que o viram e que ele iluminou na escuridão, os que eram da casa e os que não eram da casa, materializam-se os livros, móveis, cadeira e secretária, a cama da juventude, a guitarra e o amplificador. E eu também encarno o olhar estranho e duplo de mim aqui e agora e de mim lá, naquela altura. Será que este meu olhar fantástico já estava a fazer-se sentir naquele tempo, ainda que com um intervalo de mais de trinta anos.

Contudo, eu não sei bem por que fui buscar aquele candeeiro verde que vi não sei bem onde, em que caixa de que marquise de que casa. Mas aparece-me sempre, vezes sem conta, como se fosse uma lembrança de um símbolo, o portal que nos transporta e faz viajar para outros tempos, já cancelados, para outros já partidos, para nós tubulares e conectados connosco agora, mas perdidos no espaço da ficção.

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