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Quatro anos antes de filme de Glauber Rocha, Terra em Transe, acerca do qual se escreveu aqui na semana passada, Nelson Pereira dos Santos adaptava para cinema, o romance de Graciliano Ramos, Vidas Secas, em 1963. Esta obra de Graciliano, escrita um ano antes da de John Steinbeck, Vinhas da Ira (1939), com a qual divide o ponto de vista realista, vai muito para alem da questão social e política, se bem que este seja o centro gravítico da obra. Se Glauber filmou uma fábula que mostra como funciona a monstruosa máquina da política sul-americana, Nelson Pereira dos Santos filma as consequências do funcionamento dessa máquina, nas franjas mais desprotegidas da sociedade, os mais pobres, os que não têm nada. E há quem não tenha nada. Há quem aspire a ser gente. O filme tem uma frase que bem podia servir de leitmotiv, que gira em nosso cérebro como uma broca: “Um dia temos de virar gente.” Frase que Sinhá Vitória repete três vezes ao longo do filme, mostrando claramente o quanto sente que a sua vida não faz parte da vida humana.

Pessoas que vivem como bichos, sem nada, fugindo continuamente de nenhum lado para lado nenhum, porque em nenhum lado há abrigo. Em nenhum lado encontram repouso, segurança, um momento de paz. Em Vidas Secas, viver é literalmente estar em guerra com a natureza e com os outros. E, aqui, nestes outros, nunca há uma mão amiga. Há, no mínimo, uma mão que te explora e nessa exploração te resgata do inferno de viver a céu aberto, sem telha, sem fogo, sem farinha. Ser explorado é melhor que nada, porque a exploração traz um tecto e um prato de comida. Mas em Vidas Secas não há amigos. O humano aparece neste filme num esplendor facínora. Aquela família – Fabiano, Vitória e seus dois filhos, crianças – não estão sozinhos. Estão muito pior do que isso, estão no mundo com os outros. A vida, nesta guerra contra a natureza e contra os outros, surge-nos como sendo contra si mesma. Vive-se contra a vida. O preço de estar vivo é matar. Matar animais para comer, matar outros para continuar – embora isto não se veja literalmente no filme, apenas subentendido –, matar sonhos para calcar bem a realidade. Como diz Fabiano à mulher: “É, seu Tomás sabia muito, mas quando botou o pé no mundo se acabou no caminho.” O mundo é duro demais para as palavras. De que vale aprender as letras, aprender a ler nos livros, se não se sabe enfrentar a dureza e a crueldade do mundo? Se não se sabe resistir. Há ainda na mulher, Vitória, uma vontade de ir mais além. Uma vontade de ser gente. Vitória não quer muito, quer apenas pôr os filhos a estudar, ter um canto, não precisar de se preocupar todos os dias se tem comida para dar aos filhos, ir para numa cidade grande e ter muita coisa nova para ver, contrariamente aos seus olhos de agora, que só viram miséria.

No filme nunca há um beijo, uma carícia, uma palavra de amor trocada entre Fabiano e Vitória. Ali não há esse amor. O amor que há ali – e há e muito – é o amor que liga um humano a outro para atravessar o deserto, quer seja o sertão ou a existência. Porque o deserto do Sertão é aqui o deserto, ele mesmo, o deserto do Sertão, mas também uma metáfora da existência. Envolve estes personagens e envolve-nos a todos. Estamos todos náufragos no deserto. Quando Fabiano e Vitória, já no final do filme, a caminho de nada – mas com esperança de que haja alguma coisa – olham ao redor, não são só eles que vêem a paisagem árida quase infinita de nada do deserto do Sertão, somos também nós, os espectadores, que sentimos que apesar de privilegiados, infinitamente privilegiados se comparados com eles, também não vemos lugar seguro no horizonte. O amor, aqui, é um amparo, uma cumplicidade para atravessar a vida. É como se ambos dissessem “eu responsabilizo-me por estar sempre a teu lado e ajudar-te a atravessar o deserto.” E ajudam-se. Trabalham lado a lado, caminham lado a lado, suportam o peso lado a lado. Dois náufragos no deserto, que se amparam um ao outro, é este o amor que encontramos aqui.

É um filme acerca do qual não se escreve sem perturbação. Porque o filme é perturbação pura. E a perturbação começa logo no início com o barulho que se escuta durante os primeiros três minutos, o tempo do genérico. Um barulho profundamente irritante. E poucos minutos depois, Sinhá Vitória, numa pausa do caminho, logo no início, mata o papagaio que viajava com eles, para que tenham o que comer, e diz: “Também não servia para nada. Nem sabia falar.” Estava dado o mote. Muito se tem ligado este filme ao neo-realismo italiano, e não sou eu que o vou contrariar, mas há neste filme uma perturbação que dificilmente encontramos no neo-realismo destas nossas latitudes.

As últimas palavras do filme, que surgem escritas sobre a película, dizem-nos: “E o deserto continuava a mandar para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos. GRACILIANO RAMOS” E continua a mandar. Continua a mandar.

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José Saramago atribuiu-lhe o primeiro prémio literário com o seu nome. Viveu na Ásia, no Médio Oriente e no Brasil. De escritor-promessa a persona non grata no meio literário, Paulo José Miranda, licenciado em Filosofia, é poeta, escritor e dramaturgo, e tem obra publicada.

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