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Sem quórum, o Nobel da literatura arriou as calças.

O culpado foi Jean-Claude Arnault (marido da poeta Katarina Frostenson, que é membro da Academia do Nobel) e os seus arremessos sexuais à esquerda e direita – oh lá, lá, nem a princesa herdeira, Victoria, nos seus imaculados vinte anos, escapou de ser “tocada nas nalgas”, dizia a notícia, pelas suas mãos inquiridoras. Resultado do tumulto e das demissões que provocou: a Academia ficou sem quórum.

Na verdade, consta que o empoleirado na esposa também influía na filtragem dos nomes dos candidatos ao Nobel – impondo o seu voto por delegação -, tendo com isso minado o crédito da Academia, mais habituada ao recato melancólico das esposas dos membros da Academia.

«Sou levado na sombra/ como um violino/ no seu estojo negro», escreveu Tomas Transtromer, o último grande poeta laureado, e por acaso sueco. Não sabemos se este violino ocultado na sombra já aludia a Arnault, mas no caso do poeta sueco o estojo transportava uma espessa substância lírica. Porém, este ano o estojo do Nobel está vazio, por causa do tanto que vazou Arnault, à esquerda e à direita. Falo dos zunzuns em que era especialista e que matavam sempre a confidencialidade do prémio (- contava às amantes, que depois contavam ao porteiro do prédio, etc.)

Em relação ao Nobel, temos de perguntar como o fazia Rilke ao jovem poeta a quem, endereçou cartas: morre a literatura se não houver o Nobel (- o poeta alemão perguntava ao seu destinatário se ele morria, caso não escrevesse poemas, sugerindo que se assim não fosse ele deixasse de escrever porque nenhum poeta brota da presunção mas sim duma necessidade interior, vital e inescapável)? Qual o peso específico do Nobel na manutenção do capital simbólico que a literatura, talvez, ainda represente? E é relevante o seu papel, em relação à literatura, ou ao comércio de uma parte dela, quando por exemplo favorece o reconhecimento sobre a descoberta – como no caso de Dylan?

Na escolha dos últimos premiados notava-se ter havido um pequeno desvio ao paradigma do prémio, inflectindo para uma maior aproximação ao “mercado” e à ”cultura de massas”. Era uma espécie de “literatura à Hollywood”. Ou seja, os critérios que premeiam a Física, ou a Matemática, por exemplo, não têm sido exactamente reproduzidos na Literatura. Aí premeiam-se investigadores de ponta, gente que experimenta e arrisca “cegamente”, como é próprio da ciência. Na literatura têm-se escolhido vozes em concordância com o “mercado”, que oferecem segurança, escritores de qualidade mas que conduzem com airbag. Patrick Modiano, Bob Dylan ou Kazuo Ishiguro, são bons, mas decididamente não tanto.

Alguma vez a algum génio foi dado um Nobel – a um «génio sem espinhas»?

Vejamos quatro exemplos: Pessoa e Henri Michaux, Borges ou Ezra Pound. Não lhes emprestaram a bola de ouro. Embora fossem avessos às agremiações literárias que tornam a coisa possível.

Mas não dramatizemos. Para o meu gosto, a poesia não tem estado mal servida nos Prémios Nobel. Se ao irlandês Seamus Heaney eu preferia o britânico Ted Hughes, a poesia do primeiro atinge um nível altíssimo na tradição que representa. E não tenho dúvidas, tanto o polaco Czeslaw Milozs, como o mexicano Octavio Paz (que se tem de ver como um todo e não unicamente como fazedor de versos), o russo Joseph Brodsky ou o poeta da Trinidad, Derek Walcott, cada um no seu género, são poetas que roçam o “génio”, no sentido em que todos atingiram picos altíssimos no sistema das suas cordilheiras.

O Derek Walcott, por exemplo, que nem teve direito a tradução em Portugal, provavelmente por ser negro, nem em Moçambique, suponho que por não ser moçambicano, mas é um poeta extraordinário, capaz de ímpeto, improviso e arquitectura, isto é, capaz de embarcar no mais puro beat jazzístico como na cadência clássica. Ainda por cima, é igualmente um dramaturgo de monta.

«Ao longe no caminho, avisto o Poder./ Tal e qual uma cebola,/ os malabarismos do seu rosto/ a caírem um após o outro.», escreveu, entretanto, Transtromer e é extraordinário como de forma tão simples fala da nossa tumultuada época, afinal de todas. Mas mais da nossa. E é tão universal isto.

Era esta a função ideal do Nobel, fazer-nos confiar que existia uma Academia que premeia os melhores e não os que mais vendem ou os que são bons a fornecer entretenimento. Dado que o entretenimento é uma das funções da literatura mas não deve ser a única; às vezes é uma dimensão mesmo dispensável. O Nobel era uma espécie de Realeza Republicana, de fátua e transitiva celebridade mas que nos apresentava um modelo de excelência. Esperemos que com este ano de jejum corrija a rota.

Quem não espreitará este ano o vestidinho decotado da Glória do Nobel, uma moça como se sabe com predicados, é o meu amigo Zetho Gonçalves, poeta angolano, que se tinha anunciado no FB como candidato ao Nobel deste ano. Nem neste nem nos próximos. Sabem porquê? Ele é misteriosa e ironicamente parecido com Arnault – quase podiam ser gémeos ou sósias. Por caminhos díspares terá andado o pai do poeta. Contudo, o camarada Zetho terá de rogar ao seu sósia para fazer uma operação plástica, senão será sempre vetado por antipatia!

Enquanto não nos chega o Nobel reabilitado por “personal training” e os exercícios para trapézios, deltóides e quatro grandes peitorais fiquemo-nos por um poema de Transtromer, De Julho dos Anos 90: «Assistia a um funeral/ e senti que o defunto/ lia os meus pensamentos/ melhor que eu.// O órgão estava calado, os pássaros gorjeavam./ A vala inundada de sol./A voz do meu amigo estava/ a minutos das minhas costas./ No regresso a casa, ao volante, senti-me/ desmascarado pelo esplendor do verão,/ da chuva, pela serenidade/ emitida pela lua.»

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