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Não me arrogo da capacidade de ser particularmente clarividente, ou dotado de percepção que me separa dos comuns mortais. No entanto, há coisas por demais evidentes.

Quando cheguei a Macau ouvi de todos os quadrantes que para perceber esta terra teria de cá estar décadas a fio, atravessar várias Eras de conhecimento, até conseguir descortinar as verdadeiras tramas desta grande tragédia operática que dá pelo nome de “Política Local”. Dou essa de desbarato, com fair play, sem repercussões de ego. Ainda assim, quero falar-vos da metáfora da rã em água a ferver. Um caldo progressivamente mais quente, mas condimentado por um salário que não existe nos paladares portugueses e uma vida de conforto que se blinda contra inconvenientes da realidade. Não estamos na Europa, estamos longe dela e das suas suaves panaceias, sabia disso antes de vir. Não é preciso ter assim tanto mundo para sentir o calor do dragão que flameja acima de nós e aquilo de que é capaz tendo em conta a sua história recente.

Assumo-me não surpreendido com o fim do limite de mandatos do Xi Jinping, assim como não fiquei surpreso com o que se passou no Festival Rota das Letras.

O poder que não se legitima no povo que deve representar é um poder, naturalmente, amedrontado dos cidadãos e do que possam pensar, ler, ver, consumir, ambicionar. Este será o grande desafio da autocracia chinesa nas décadas futuras. Na ressaca do dinheiro, conquistada a capacidade de quebrar as amarras da pobreza e poder pagar comida e tecto, estas pessoas vão querer pensar livremente, serão inevitavelmente contaminados com o vírus importado tardiamente da Revolução Francesa, com todas as libertinagens do pensamento livre. Esta ambição não tem lugar no mapa, nem no tempo, precede-nos a todos.

Resolvida a fome e a casa, resta edificar a biblioteca. A contrarrevolução é um facto incontroverso, tão fatal como o destino, imparável como a água, a terra, o ar que se transforma em belicismo natural.

Não fiquei surpreendido. Desde que cá cheguei, um ano e quatro meses, que vejo isto a acontecer.

Este é o poder que confunde uma peça jornalística em tempos de eleição com propaganda política. Que equipara repórteres “do exterior”, mesmo que oriundos de uma região irmã, a ameaças à estabilidade social e a um sentido de harmonia fundado no medo profundo. Este é o poder que suspende um deputado por uma ninharia, enquanto acolhe com conforto o conflito de interesses.

Onde está a surpresa? Quantas vezes testemunhámos isto na História? Quanto mais absoluto for o poder, menos seguro e cimentado é, por mais décadas que se mantenha às rédeas do destino dos governados, irá sempre temer e não saber lidar com a dissidência ou a crítica. A autocrítica é uma característica só eficaz se houver capacidade para assumir falhas e coragem para as corrigir. O absolutismo é como um gajo vaidoso que teme de morte qualquer olhar atravessado, qualquer esgar de ironia, que corre apavorado do humor e dos espelhos. É cinzento, burocrático e velho à nascença, camuflando fraqueza de espírito com força de músculo.

Não esperem também que verta uma lágrima pela morte de paleolíticas ideologias cimentadas em premissas inumanas. Estes somos nós, em qualquer cultura, em qualquer época. Desde sempre, e para sempre, o poder absoluto vai corromper absolutamente.

O que esperavam quando temos legisladores a papaguear amor à pátria a cada dez palavras? Pensam que estão a brincar?

A abertura não vai acontecer, digo eu do meu inexperiente raciocínio de recém chegado.

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