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Possolo, Lisboa, 13 Janeiro

O António [de Castro Caeiro] tomou por tema de trabalho a melancolia. Escolheu-a, sou testemunha, antes de começar dieta e desconfio que não a largará tão cedo. Ele pratica a filosofia como arte marcial, com treino e disciplina. Leitura, tradução e interpretação espelham-se no aquecimento, na dança saltitante e nos sucessivos golpes com que abre palavras, desvela conceitos, irradia perspectivas. A escola do Luís [Carmelo] está cheia e bebe cada palavra, que parte dos fluidos e humores de Aristóteles, pseudo ou não, passa pela acédia de S. Tomás de Aquino, para desembocar em Nietzsche e Heidegger. Apesar de ter trocado a cabeça por uma única nuvem negra e cerrada disfruto com prazer do fluxo de ideias. Fixo-me nesta «abulia espiritual quanto ao exercício das virtudes, especialmente no que respeita a culto e à comunicação com Deus». (Que bem me sabe este regresso aos dicionários, no caso o Houaiss, e tenho que me controlar para não correr a visitar outros.) Este enfraquecimento da vontade que atacava os monges a meio da manhã, que lhes oferecia o tédio como tentação, na vez de gozosos corpos ou luxuriosas riquezas, desemboca no punk: e se nada tiver sentido? O cultivo da palavra – amanho de terra, cravar da semente – continuou para descobrir na melancolia um desalinhamento, um desfoque entre o que somos e o que fazemos, entre suprema potência e acanhada preguiça. Tarde com vista para o super-homem, horizonte definido sem superpoderes.

Barraca, Lisboa, 13 Janeiro

Estranho que o novo da Inês [Fonseca Santos], «Suite Sem Vista», dada a nossa comum atracção pelo treze a perturbe com mais um. As coincidências sussurram-me que o absurdo nos governa e, estranhamente, encontro nisso conforto. Juro-vos ser coincidência que o meu preferido, nesta viagem aos vários centros de uma rapariga emparedada em si, resulta ser o XIII: «No espelho da suite sem vista,/ o hálito da rapariga embacia// o tempo.//A rapariga fita a parede/ para lá do espelho:// demasiado contraplacado armado/ em paisagem.// Bebe de novo o tédio do lado rachado do copo./ E da boca da rapariga sai// a palavra/ sangue.» Um hálito que embacia o tempo, um olhar que vê a paisagem contraplacada, um tédio no copo rachado e a palavra sangue, este malabarismo entre imagem e ideia e verbo faz-me parar. E perguntar: onde estou? Durante o lançamento, que descambará não tarda em festa, tenho a companhia da Rita [Taborda Duarte] e do António [de Castro Caeiro], além da autora e da sua leitora íntima, a Filipa [Leal], no deserto do palco. Não me salvam dos gaguejos e brancas, mas oferecem-me o conforto das suas interpretações incisivas e de rasgo, que nos levam ao espaço arquitetónico desta rapariga que constrói cidades no peito e define os lugares com o corpo. Esta poesia devia ser enviada ao cuidado dos arquitectos, se eles ainda construíssem com atenção, na vez de concreto. O António falou da «personificação dos objectos», nas «peças de mobiliário da nossa existência». A Rita avisou este livro tem que ser sitiado, devassado por um voyeur. Esta «Suite» dá-nos acesso, permite-nos ver os vários centros, geodésicos e outros, de uma mulher. E dá-nos, pela palavra, a sua activação. De novo, a coincidência. Na abysmo, a poesia começou com «As Coisas», da Inês. Esta colecção «abysmo mão dita», que se pretende laboratório de geometria variável, desde que mais portátil e veloz, tem o primeiro volume com a sua assinatura (calhando ser a edição número sessenta e nove). Para as capas, procurámos o olhar de artistas plásticos, como o Francisco Vidal, que definiu um rosto a partir de cores e traços sanguíneos (algures nesta página), transformado depois pela Luísa [Barreto], em peculiar objecto, jogando com o dentro e o fora, o miolo e a capa.

Horta Seca, 17 Janeiro 2018

A sério? Coincidência? Tenho nas mãos o volume II das Obras Clássicas, ou seja, dos «Sonetos Completos» do Antero de Quental, que assina o logo. Sim, ele escreveu abysmo por tê-lo conhecido como ninguém, não tanto por ser hábito da época. O Miguel Macedo viu como voyeur, com prazer. Vamos ler com as mãos, se pudéssemos. Sem querer, mas fazendo do y antena para o advir, como quem lia cada detalhe, acima ou submundo, lendo o carácter que nos podia levar onde nunca fomos, de nunca fomos capazes de vir, a dar choque. Repousa como gato e a cor do tijolo, brincando com a característica de ambos. Muitos irão elogiar o aspecto, sem cuidar na imensidade de trabalho que fixa o texto, aquele que não pára de mexer. Antero tem que ser lido na fugida de todos os cânones. Hoje sou homem e na sombra enorme, achando, eu no diálogo com ele, Antero, que podemos ambos crescer além do spleen punk (com ou sem vírgula). Talvez pudéssemos, ao ler, recomeçar revoluções. Muito de súbito, derrama, ó leitor, o essencial disto que se parte a teus pés, teatro mínimo: «Que trazes ao mundo em cada aurora?» Pergunta íntima, descuidada, roupa interior: levanta-te e diz. Faz-te e anda. Ergue-te e fica. Acreditei, por instantes, mais logo lerei, cicatriz desenhada pela vontade na pele: «Mais que amor tenho crença: essa existência/ Pede-me um culto por que dera a vida,/ Por que dou esta dor, que aqui se encerra.»

Loreto, 19 Janeiro 2018

Estou doente, mas compro «Le un», a sinopse de bolso mais brutal e explosiva dos tempos sobre os quais no sentamos, dias de rabo, vistos daqui, folha dobrada e ilustrada a celebrar com luxúria o fim do papel (voltarei ao assunto). Ah, sim e o tema: «Est-il urgent de ralentir?», como quem diz: «É urgente parar?» Nomes depois de nomes dizem, pedem, exigem, imploram, lambem a paragem, quietude, o pranta-te quedo da minha infância. Logo eu com eles, mas penso, não tanto no tema, mas no modelo-papel. Há-de tudo e lembrei-me de Barthes. Não parou de chover. Continuo a lentidar, recordar com lentidão, que belo soa daqui o que vejo voando quieto.

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