A Última Garrafa

PARTE 1

 

(Num consultório privado)

 

RAUL: Dá licença, senhor doutor?

 

DOUTOR: Faça favor de entrar. Sente-se! (olhando a ficha) Ora, portanto, o senhor Raul Santos.

 

RAUL: Sim, senhor doutor.

 

DOUTOR: E o que é o que o traz por cá?

 

RAUL: Sabe, é uma questão um bocado delicada. Nem sei como dizer.

 

(silêncio)

 

DOUTOR: Estou a ouvir.

 

RAUL: Não é fácil, doutor.

 

DOUTOR: Gostava que tivesse presente que nós, os médicos, temos o dever de não fazer quaisquer comentários acerca daquilo que os nossos pacientes nos contam…

 

RAUL: Pois, o sigilo profissional.

 

DOUTOR: Isso mesmo! Sigilo profissional.

 

RAUL: Mas o que me preocupa não é isso. O que custa é contar-lhe. Aliás, pedir-lhe.

 

DOUTOR: Ó homem, não deve ser nada assim do outro mundo!

 

RAUL: Pois do outro mundo não é.

 

DOUTOR: Então desembuche, homem!

 

RAUL. Bem, doutor, o que aqui me traz é que gostaria muito que o senhor me ajudasse a morrer.

 

DOUTOR: Como!?

 

RAUL: Isso mesmo que ouviu, doutor. Gostava que me ajudasse a morrer em paz. Sei que há comprimidos que se podem tomar e acabar de vez com isto, sem dor, como se nos deitássemos para dormir.

 

DOUTOR: Acabar com isto? Mas o que é que quer dizer com «isto»? O que é que o preocupa? Tem alguma doença?

 

RAUL: Doutor, «isto» é a vida. E é o que me preocupa, e já é doença que sobre.

 

(silêncio)

 

DOUTOR: Vamos lá por partes. Tenho de tentar compreender o seu problema. Há alguma coisa na sua vida que o atormente, que julgue irresolúvel?

 

RAUL: A vida, doutor, a vida. Apenas a vida.

 

DOUTOR: Quer então dizer que, para além da vida, como diz, nada mais o atormenta. Não há nenhum caso em particular que o aflija. A sua relação familiar, profissional…

 

RAUL: Não, senhor doutor. Não sou casado, nem sequer tenho ou tive intenções de o ser. Por outro lado, mantenho regularmente relações sexuais e não tenho qualquer tipo de doença. Tenho uma saúde de ferro. Quanto à profissão, normal. Trabalho num escritório e as minhas relações com os colegas são perfeitamente normais.

 

DOUTOR: Que trabalho faz nesse escritório?

 

RAUL: Sou contabilista.

 

DOUTOR: O senhor está com trinta e…

 

RAUL: Trinta e sete, doutor, trinta e sete feitos o mês passado.

 

(silêncio)

 

DOUTOR: O senhor, vai-me desculpar, mas vou ter de lhe fazer uma pergunta delicada. Alguma vez teve necessidade de tratamento psiquiátrico?

 

RAUL: Nada, doutor. Raramente entrei num consultório médico, e nunca num hospital, senão para visitas.

 

DOUTOR: Diga-me uma coisa. Desde quando começou a ter esta ideia de…

 

RAUL: Querer morrer?

 

DOUTOR: Sim. Desde quando essa ideia o persegue?

 

RAUL: Bem, tanto quanto me lembro, há bastante tempo. Mas, assim, com um carácter mais decisivo, mais planificado, desde há dois anos a esta parte. Mais ou menos. Quando as dores começaram a tornar-se mais insuportáveis.

 

DOUTOR: Nunca lhe ocorreu fazê-lo por sua própria iniciativa? Sei lá, tomar comprimidos, um tiro na cabeça, cortar os pulsos, atirar-se da ponte abaixo?

 

RAUL: Claro que não, doutor. E é precisamente por isso que estou aqui. É que não me quero matar. Quero morrer apenas, não me quero matar. Quero morrer, porque a minha doença não me deixa viver dignamente. Por isso é que pretendo o tal comprimido. Soube que já o utilizam nos hospitais.

 

DOUTOR: Sim, é certo. Mas só é utilizado em doentes terminais e quando se torna evidente qualquer impossibilidade de inverter a situação. Ninguém dá comprimidos apenas porque alguém decide que não gosta da vida.

 

RAUL: Peço desculpa, doutor. Não gostar da vida não foi decisão minha. A decisão que me cabe é apenas pôr-lhe fim. Nada mais do que isso. Não gostar da vida é algo que tenho. É uma doença. E que muito me faz sofrer, garanto-lhe.

 

(o doutor levanta-se e dirige-se a uma das prateleiras)

 

DOUTOR: O que é que o leva a crer que seja uma doença?

 

RAUL: Porque, pelo que me é dado a ver, não é natural. De modo geral, as pessoas gostam de viver ou, se não gostam, tentam pelo menos não pensar nisso e vivem como podem. Com maior ou menor gosto pela vida. Não é assim, doutor?

 

DOUTOR: De facto, parece ser assim. Mas se o senhor julga que se trata de uma doença, então, o que lhe aconselho é que se trate. Eu talvez não possa fazer muito por si, não é minha especialidade, mas há um colega meu, muito bom médico, psiquiatra, que poderá ajudá-lo. Posso falar com ele para que seja atendido o mais rapidamente possível. Talvez mesmo ainda esta semana. (senta-se) O que lhe parece?

 

RAUL: Para ser franco, parece-me que o senhor doutor não me está a levar a sério.

 

DOUTOR: Como não? Estou a tentar ajudá-lo. Você mesmo disse que se trata de uma doença. E, se me permite, assim mesmo com poucos dados, também a mim me parece uma doença.

 

RAUL: Não está em causa se se trata de uma doença ou não. Mas de saber se tem ou não cura. E, neste último caso, se é suficientemente onerosa para permitir que o doente possa pôr termo à sua vida com a ajuda da medicina.

 

DOUTOR: Caro amigo, deve ser muito difícil provar que o seu caso seja terminal e, ainda mais difícil, que seja de tal modo sofrível que lhe permita reivindicar a ajuda da medicina.  (levantando-se de novo) Para não acrescentar que se trataria de um caso de justiça e não de medicina.

 

RAUL: De justiça?

 

DOUTOR: Claro! Seria necessário provar-se que aquilo que diz se enquadra no que está estipulado pela lei para esses casos.

 

RAUL: Mas só a medicina o pode provar, doutor!

 

DOUTOR: Ora, aí é que o senhor se engana. A medicina não prova nada. A medicina constata. Mais nada. O senhor x tem a seguinte inflamação dos brônquios, um problema digestivo provocado pelo mau funcionamento da vesícula, e por aí adiante. E aquilo que o senhor pretende é uma prova. Uma prova para que, então, a medicina possa entrevir a seu contento. A prova cabe ao senhor, não à medicina.

 

RAUL: Como assim, doutor?

 

DOUTOR: Caro amigo, o senhor precisa de provar, não só que está doente, como também que a sua doença se encontra em estado terminal e lhe causa um sofrimento insustentável. Se o senhor conseguir provar isso, então, a medicina poderá intervir legalmente. Até lá não há nada a fazer. Repare que, do ponto de vista clínico, o senhor não tem rigorosamente nada. O senhor mesmo se referiu à sua saúde de ferro. Quanto muito tratar-se-á de uma depressão ou melancolia, que são distúrbios do foro psiquiátrico e passíveis de tratamento. Ou, então, trata-se de um distúrbio psicológico, enraizado na sua infância, e que também é passível de tratamento. Este é o ponto de vista da medicina face  ao seu estado clínico.

(continua)

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