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CCB, Lisboa, 9 de Novembro

Assisto deliciado ao Obra Aberta da semana (http://www.abysmo.pt/obra-aberta/), com páginas folheadas pelos nómadas Patrícia Portela e Mário Gomes. Ambos me pareceram tímidos, mas de modos distintos. O Mário pensa cada frase, com a dicção marcando ritmos que o vão deixando cair em murmúrio quase inaudível, até se acomodar no silêncio. Mesmo quando fala do seu Arno Schmidt com paixão, que sem ela não se alimenta a disciplina e o esforço necessários para desafio deste nível. O tom do alemão de Schmidt, sendo respeitado ao ínfimo, foi transposto para um português tão elegante que quase o torna transparente. Mas plantou na conversa outros autores, todos do continente americano, e temas como este de que a ferramenta pode estar na origem da linguagem. Tomo nota para saber mais, para procurar livros, afinal o objectivo último do programa. A Patrícia parece querer correr contra o vento, como personagem de um dos seus contos de «Dias Úteis». Em cada ideia esconde-se uma história e o contrário não será muito diferente. Discorre sobre sabedoria e infância de tal modo tal que me parece ter alcançado essa suave mistura. Diz que não é das escritas, mas das artes performativas, e talvez por isso os seus livros possuam uma força lúdica extraordinária e pulsem em múltiplos detalhes. Nota ou epígrafe resulta em pista que importa seguir. Em «Dias Úteis», cada conto diz de maneira diferente o buraco do mundo, escondendo-o no nevoeiro de metáforas que parecem ora sonhos, ora pesadelos, ora ambos. Para este lusco-fusco, atravessou também o Atlântico para recolher as matizes do Brasil de Clarisse Lispector e Machado de Assis e de um João Gilberto Noll que fiquei com muita vontade de visitar, por causa do seu «erotismo marxista»: quando nada temos, resta-nos ainda o corpo. Lá pelo meio, aproveitou para me chamar panda, ironizando sobre a ameaça que paira sobre certo tipo de edição e editor. Ganhei assim novo argumento para fugir da inevitável dieta. Mais importante: contou da importância que a Bedeteca de Lisboa teve nos seus hábitos de leitura. Uma biblioteca, afinal, custa a matar.

Casa da Cultura, Setúbal, 10 Novembro

Sendo de cultura, uma casa desdobra-se sem fim. Apanho as cidades de Miguel Galano e fico a pairar em «París/Madrid/Lisboa». Gostava de escrever literalmente, para descrever a libertação da gravidade por via do estado em que me deixa a contemplação desta pintura. Parece figurativa, e até concreta, se pensarmos que são lugares, edifícios, esquinas e paredes com nome, mas as formas desfazem perante os nossos olhos para revelarem o buraco do mundo. O nevoeiro da melancolia toma a cidade, a luz perde a quotidiana batalha para o negrume e as arestas do mundo ganham ternas suavidades. São paisagens que agora suam a humanidade de quem os habita. Ou então sólidos geométricos que nos falam, por exemplo, de solidão. Parroquia de San José sussurra-me em baixo contínuo o quanto de espírito se esconde na rica escuridão.

Fado na Mouraria (algures nesta página) canta-me alegrias que se podem colher na solidão.

Bar A Barraca, Lisboa, 15 Novembro

Alguns livros são peregrinos. Saltámos o Verão para só agora apresentar a viagem mais recente do Luís [Brito]: «Oi?». Como explicou o Paulo [José Miranda], que o sabe não apenas de ouvido, na sua poderosa apresentação, a expressão comummente quer dizer «não entendi». Os muitos brasis não são matéria óbvia, mas por ser viagem, portanto com o autor em plena transformação, acontecem por aqui acessos arrepiantes aos buracos do mundo. Não deixa de me surpreender a frescura dos seus relatos, nos quais viajamos tanto nele como nos lugares por onde vai vivendo. Isto sem ignorar a perspicaz percussão do seu olhar. Sim, ele toca os seres e as coisas como o hang drum, que agora pratica com arte, para lhes retirar inesperadas vozes e perspectivas, enfim, existências. Não revelo grande coisa se o autor não beijou apenas: apaixonou-se. Diz-se já longe do texto. Talvez esteja na altura de voltar a partir.

Teatro do Bairro, Lisboa, 18 Novembro

Precisava ser três ou mais para saltar de Braga a Silves, sem esquecer o concerto dos Mão Morta, que celebra, em Lisboa, os 25 anos do «Mutantes S.21». Também por outras tristezas, mal entendidos e ridicularias enovelo-me e acabo, noite dentro, no lançamento de «Se Houvesse Vida Aqui», EP dos «Não Simão», a banda do Simão [Palmeirim], do Pedro [Fernandes] e do José [Anjos], ainda para mais hoje acompanhados, além dos sopros da Ana Raquel e do Marco Alves, pelo Carlos [Barretto] e pela Madalena Palmeirim. A festa deste palco foi contagiante. Aprecio a riqueza de ideias que se desprende das suas canções e diverte-me muito o surrealismo da lírica, mesmo quando negra. Em «Catarse ao mar» há quem se equilibra na linha do horizonte, que puxa cabos para anunciar réstias de alento e aproveitamentos do vento. Rimas que me dão jeito.

Dona Maria, Lisboa, 19 Novembro

Matiné das antigas com «Sopro», a mais comovente das homenagens ao Teatro a que me foi dado assistir. Inspirada e inspiradora. Ecoarão por muitos dias algumas das frases, das ideias, das imagens. Sobre um velho tabuado resgatado ao armazém, deambulam personagens/actrizes insufladas pela ponto, Cristina Vidal. A peça nasce dela, anda à sua volta, sob sua orquestração, que representa a encenação do director do seu teatro, que doravante será o seu director. Vinda das sombras, só ouviremos a voz da pálida ponto no exacto final da peça. Tudo assenta, portanto, em nada: vento e simulação. Mas, como a respiração, sem esse sopro não corre sangue, não bate coração, não oxigena cérebro. Regidos com extrema inteligência e enorme sensibilidade, os actores (a enorme Isabel [Abreu], o João Pedro Vaz e o Vitor Roriz, a Beatriz Brás e a Sofia Dias, além da Cristina, claro) incham e desincham para nos virar o palco do avesso e dar a ver as vísceras, a frágil humanidade em que tudo assenta. Derradeiro espelho da vida. Tudo pode, a qualquer momento, falhar, mas acontecerá lutando contra a morte. A cada momento nos é dada a hipótese de escolha. Pela vida. O destino não tem ponto.

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