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Diz-se amiúde que o conto não vende. É provavelmente das poucas afirmações sobre a qual existe uma concordância generalizada e transversal aos intervenientes da cena literária: os críticos, os escritores, os editores e os livreiros mantêm a doutrina à mão e permanentemente engatilhada, não vá alguém perorar positivamente sobre um género invendável e que muitos consideram menor.

Contextualmente, porém, a época presente tem tudo para ser um território generoso para o leitor de contos. Temos cada vez menos tempo (ou apenas a percepção de que o tempo disponível é cada vez mais exíguo, o que vai dar ao mesmo) e a nossa capacidade de manter atenção e foco, nesta era em que tudo quanto é importante deve poder ser reduzido ao máximo de cento e quarenta caracteres, parece sofrer de uma miopia de progressão galopante, o conto tem o formato adequado para oferecer ao leitor o que de melhor o romance tem – com ressalvas que não cabem neste texto –, a saber, uma história depurada até ao radical mínimo de sentido narrativo, portátil e amiga do tempo, capaz de ser lida no metro ou nos vinte minutos que antecedem o advento súbito do coma de cansaço que há umas décadas dava pelo nome de sono.

No entanto, e apesar das vantagens elencadas, o conto não vende. Paira sobre ele o estigma da obra menor a que os romancistas só recorrem por necessidade de manter a forma. É uma espécie de ginásio low cost da literatura. Assim, quando se inquire um escritor sério sobre a feitura de um livro de contos e a de um romance, espera-se invariavelmente ouvir que para o último investigou meses a fio para, de seguida, enfiar-se numa cabana gélida num ermo na Noruega, alimentando-se de atum e raízes e mantendo a integridade das extremidades do corpo graças a uma combinação engenhosa de aquecedores a óleo e velas. Se, por outra parte, a conversa incidir sobre a publicação de um livro de contos, espera-se que o escritor confesse que o fez entre coisas de muito maior importância: entre romances, por exemplo, entre uma ida ao supermercado e um jantar de amigos, entre Bobadela e a Lourinhã, entre estações de comboio. O objectivo nunca é a produção de um conto, a coisa não se faz por e pelo conto, e até parece estranho que desta musculação literária resulte um livro de contos.

O facto de tantos e tão grandes escritores terem sido ou serem contistas não demove de modo algum os detractores do conto. Assim, os nomes de Kafka, Cortazar, Buzatti, Gogol, Borges ou Virginia Woolf são recebidos com a desconfiança de quem suspeita estar exposto ao argumento da autoridade ou com o desdém de quem vê na lista apenas uma sequência de honrosas excepções.

Numa altura em que parece ser mais fácil afastar a criançada das drogas do que obrigá-la a ler, parece mais ou menos óbvio que o conto, pelos motivos já apontados, pudesse ser uma ferramenta de trabalho mais interessante para estimular a leitura do que os livros bojudos e intermináveis que assombram as noites da gaiatada e estimulam a indústria das resenhas escolares. Mas nada disso acontece e o conto, pelo menos em Portugal, é o parente pobre do romance, tem de pedinchar o lugar à mesa da literatura e só tem direito a falar se directamente interpelado.

Muito do que há em mim de literário é conto. É uma grande parte da minha formação enquanto leitor e, posteriormente, escritor. É um território fértil para experimentação e há ideias que só podem ser traduzidas para o formato de conto, pelo que conto continuar a escrever contos no futuro que o futuro me permitir, sempre neles e para eles – como diziam os fenomenólogos – e nunca entre.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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