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Onde vivo, num bairro da baixa de Lisboa, é raro o dia em que não se inaugure uma loja nova. E isto num espaço relativamente reduzido que compreende a distância do café mais perto da minha casa ao mini-mercado igualmente mais próximo. São creperias francesas tradicionais, lojas de roupa africana, espaços de co-work e os inevitáveis tudo-em-um paquistaneses ou indianos.

As lojas, no entanto, estão quase todas vazias. Apesar de se apresentarem impecavelmente limpas, apesar dos sorrisos com que nos brindam do outro lado do balcão aqueles que estão encarregados de receber os clientes, os clientes, esses, teimam em não aparecer. Não sei qual é a demanda por roupa africana, donuts porto-riquenhos ou café normalíssimo a dois euros. Mas não tenho de saber. Não sou parte interessada na dinamização e rentabilidade dos sítios que oferecem esses produtos ou serviços. O problema, no entanto, é que mais ninguém parece saber.

A massificação do turismo em Lisboa parece ter contagiado a maioria dos lisboetas de gene empreendedor com uma espécie de febre do pioneiro. A presença de tanta gente na rua provoca no aspirante a milionário a ilusão de que seria apenas abrir uma porta numa loja virada para a rua para começar imediatamente a enriquecer. Só assim se parece conseguir explicar a tanta porta aberta corresponda tanta loja vazia.

Entretanto, e apesar da multiplicação pipoqueira de tudo quanto é gelataria indie e decoração vintage, à zona onde habito falta ainda uma pastelaria decente onde não seja necessário empenhar um órgão para comer um pastel de nata e um minimercado que compita com o minipreço. Bem sei que abrir uma pastelaria ou um minimercado não possui o glamour associado a concretização do sonho de ser o legítimo proprietário de uma banca de smoothies orgânicos, mas é capaz de ser mais interessante de uma perspectiva económica. E talvez o factor económico tenha alguma importância quando se trata de abrir um espaço comercial.

No mundo dos negócios, o conservadorismo e a inovação têm a mesma importância na dinamização do mercado em que o negócio se insere: as pessoas que aderem às dietas paleo-crudo-mesozóicas são as mesmas que precisam de fazer uma fotocópia ou de comprar vegetais. Quem compra comida africana também há-de eventualmente comprar cigarros. Há uma série de necessidades porventura menos trendy que, ainda assim, compõem uma fatia bastante apreciável do mercado.

A isso acresce o facto de os turistas, esses canalhas, não serem os autómatos gastadores que deveriam ser. Ao que parece, o homo turisticus, apesar da fama esbanjadora, tem critério. Ou seja, mesmo que seja enganado naqueles restaurantes de fama duvidosa na baixa e pague trezentos euros por um bacalhau com natas, dificilmente comprará com a mesma facilidade aquele porta-chaves com camarões de plástico multicolores e réplicas de olhos de mocho que se vende na loja de “artigos típicos das caraíbas na perspectiva das religiões sincretistas e da magia negra”. Ou um gelado de sardinha e maionese. Mas a insistência em prover de soluções desnecessárias a maior parte das lojas recém-abertas que se vê por aí tem porventura origem no mesmo fenómeno que ocorre com as bandas que parecem tocar apenas para os músicos que a integram. Espero que, pelo menos, se estejam a divertir.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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