E as pessoas?

Ninguém consegue ficar indiferente à Coreia do Norte. A ideia de que, em 2017, na era da comunicação instantânea, um Estado mantém-se à parte de todos os outros, fechado do mundo, sem acesso à internet, sem uma rede de telecomunicações internacionais, concentrado sobre si próprio e o objectivo estratégico de ter poderio nuclear é fascinante, quase voyeurista. Quero saber – e creio que não estou só nessa demanda –, porque se sabe demasiado pouco. Quero saber como vivem estes quase 10 milhões de pessoas, do que vivem, o que aprendem na escola, com quem aprenderam a bater palmas de uma maneira tão característica e se juntam aos milhares nas principais praças do país para publicamente celebrar o seu “líder respeitado” Kim Jung-un.

Vem tudo isto a propósito de um filme que vi recentemente graças ao Netflix, esse serviço maravilhoso de partilha de séries de televisão e filmes que nos permite ver no computador ou no telefone tudo e mais alguma coisa. (Habituei-me a usar este tipo de tecnologia quando trabalhava na República Centro-Africana. Não logrando aceder em Bangui a uma boa livraria e às novidades editoriais, mundanidades de uma qualquer outra capital mundial; nem podendo tão-pouco comprá-las à distância – digamos que a RCA é off limits para a Amazon –, passei a ler livros electrónicos, os quais descarregava a qualquer hora e de qualquer lugar, bastando para isso estar ligado à internet. O upgrade para o Netflix foi como que uma consequência natural – admitamos a imagem –, experimentada, por exemplo, pelo viajante aéreo habitual, quando é promovido do cartão prateado para o dourado.)

Pois vi há dias Under the Sun (2015), do russo Vitaly Mansky. É uma co-produção russa, alemã, checa, letã e norte-coreana, que tem a raridade de ter sido filmada no interior da Coreia do Norte, com um guião pré-aprovado pelo regime que escolheu os “actores”, as cenas e os cenários. Transporta-nos por isso para uma realidade pouco conhecida – e por tal fascinante – de ficarmos a conhecer melhor o desconhecido. De conhecermos o outro tal como ele é. No fundo, é esse mesmo interesse que justifica as pesquisas desenvolvidas pela antropologia ou pela etnografia.

O filme procura mostrar o esforço que a protagonista do filme, Lee Zin-mi (8-10 anos?), faz para ser admitida à organização da juventude da Coreia do Norte, o primeiro passo para a integração no sistema político norte-coreano.

Mansky conseguiu fintar a propaganda e deixou a câmara ligada durante a preparação das cenas. O filme mostra, por exemplo, os utentes a empurrarem um autocarro trólei com os cabos para baixo, aparentemente a ultrapassar um outro avariado, para que ele possa prosseguir, ou crianças a vasculhar um caixote de lixo. A reacção de Pyongyang não terá sido a melhor, como é bom de imaginar.

Durante os 109 minutos do filme, salta à vista uma total ausência de comunicação entre as pessoas, transformadas em autómatos que se movimentam numa cidade imensa, sem falarem, sem comunicarem. O afecto é inexistente. Vê-se como todos são doutrinados desde tenra idade nas grandes vitórias dos líderes contra os norte-americanos. (A cena da sala de aula sobre uma alegada lição de história é particularmente reveladora. Os nomes do avô, pai e filho Kim são repetidos até à exaustão.)

Uma sociedade em que o Estado controla todos os aspectos da vida, inclusive o que fazem as pessoas, onde trabalham, onde vivem. Uma sociedade alegadamente igualitária, onde, sabemo-lo desde Orwell, uns são mais iguais do que outros.

Quando a criança, pressionada pelos pais, pelo “camarada” da propaganda (autor do guião), pela multidão da equipa de filmagem à sua volta, chora incontrolavelmente, desesperada por não conseguir desempenhar o papel que fora pensado para ela num filme autorizado pelo regime – que implicava entre outras coisas, saber dançar o bailado tradicional coreano –, ouve-se a voz do realizador, em russo, a pedir-lhe para se recordar de uma memória feliz. “Não sei o quê”, afirma ela, com um vazio nos olhos que demonstra a essência da sua vida até àquele momento. Para ultrapassar a situação, declama o juramento que as crianças fazem quando se juntam à organização da juventude da Coreia do Norte. Como que achando que esta é a resposta certa para o que lhe estão a pedir.

Este filme, esta sociedade, mostra bem como está por cumprir a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ela e tantas outras convenções internacionais, destituídas de valor – letra morta – ou de poder em serem invocadas pelas vítimas aos prevaricadores. Afinal, a polícia do mundo não existe – só é efectiva quando os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança estão de acordo – e isso só ocorre nas raríssimas ocasiões em que os seus interesses individuais não são postos em casa. Por tudo isto, há uma dúvida que nos assola intensamente quando acabamos de ver o filme: Será que estes 10 milhões terão alguma vez a possibilidade de serem pessoas na sua plenitude?

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