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Uma amiga foi convidada para tocar piano num casamento e, embora a profissão dela esteja de facto ligada à música, recusou por achar não ter nem talento nem tempo suficiente para se preparar para a ocasião. Acontece que quem convidou não estava disposto a aceitar um não como resposta, sobretudo porque o convite não envolvia retribuição financeira mas apenas a materialização da cortesia própria inerente às relações de amizade. Acresce o facto de ter descobrido – o que lhe causou tanto espanto quanto indignação – que os músicos cobravam para tocar, motivo mais que suficiente para continuar a insistir junto da minha amiga por uma solução simpática.

“Não posso casar a minha filha sem música, menina”, lamentou-se. A ideia de entregar a mão da sua única filha numa cerimónia que não fosse tal qual a que tinha sonhado era-lhe inconcebível. Há poucas alturas na vida de uma pessoa pobre em que esta tem a possibilidade, ainda que de breve duração e exaurindo totalmente a sua capacidade financeira, de sair por momentos do estatuto a que a pobreza a remete. O casamento é, provavelmente, uma dessas ocasiões.

A minha amiga tentou arranjar alternativas que fossem adequadas. Perguntou pelo sistema sonoro da igreja. Acaso tivessem uma aparelhagem, ainda que módica, seria fácil conseguir um cd da marcha nupcial para colocar aquando da entrada da noiva. Infelizmente, a aparelhagem – assim como alguma da pouca arte sacra que a igreja tinha – fora roubara dois meses antes. Felizmente, a miniaturização e portabilidade da tecnologia forneceram uma solução que, embora longe da fantasia romântica do organista impecavelmente vestido de branco, tinha forçosamente de servir, dado ser a única. Uma pequena coluna bluetooth e um telemóvel fariam as vezes do órgão de tubos e, contando com a generosidade da reverberação típica das igrejas, o som ganharia um fôlego e músculo que disfarçaria o tamanho diminuto da coluna.

O grande dia chegou e, com ele, a típica procissão de horrores que ocorre quando as pessoas têm, de algum modo, de fazer por parecerem excepcionais. Todo o tipo de exageros são permitidos – e bem-vindos – e nos cabelos, na roupa, nas unhas, no calçado e na maquiagem a única nota dominante e transversal a todos eles é o excesso. A minha amiga, por sua parte, chegara já em cima da hora à igreja, vinda de uma aula de ioga e envergando uma singela t-shirt, umas calças pretas e uns ténis outrora brancos a rematarem o conjuntinho, perfeito para o dia-a-dia típico de uma juventude urbana descontraída mas manifestamente insuficiente para a singularidade da ocasião.

Quando o fotógrafo de serviço passou por ela, esta apressou-se a apontar para a coluna e a fazer sinais com os dedos. “Não gaste cartão de memória comigo, também estou aqui em trabalho”, seria a tradução mais adequada para aqueles esforços gestuais. Convencido ou não, o fotógrafo seguiu o seu percurso. A minha amiga, por sua vez, apressou-se a testar telemóvel e coluna, dado a tecnologia sem fios ser tão conveniente como a espaços imprevisível e, se há dia em que as coisas deveriam, pelo menos, parecerem perfeitas, este era certamente o dia.

Fora os típicos problemas de conexão iniciais, a coisa parecia funcionar. No dia anterior, o do ensaio, tinha tudo corrido muito bem. O som, malgrado o tamanho modesto da coluna, era amplificado pela reverberação natural da igreja e, se todos fechassem os olhos, em jeito de prova cega, ninguém diria que aquele órgão de tubos provinha de uma coluna literalmente capaz de caber na palma de uma mão. Naquele instante, e com a igreja cheia, era mais difícil antecipar o resultado mas, não havendo quaisquer alternativas, o plano mantinha-se.

O momento finalmente chegou. A noiva, para comoção generalizada, dá os primeiros passos sobre a passadeira vermelha e a minha amiga espera pela indicação visual da mãe da noiva para dar voz à marcha nupcial. Esta assim faz, em jeitos de “já devia estar” e, sem surpresas, a aplicação falha. Não abre. De cada vez que vai ser lançada, colapsa num estrondo branco. A mãe da noiva, pouco sensível aos caprichos informáticos, grita com as mãos como um napolitano. A noiva, essa, não consegue desacelerar mais o passo sem parecer ser portadora de uma deficiência motora qualquer. A minha amiga, no meio do desespero, tem uma ideia redentora: o youtube. E lá se apressa a escrever “marcha nupcial” na barra de pesquisa e a carregar em play na primeira que lhe surge. A coluna finalmente ganha vida. Vai tudo correr bem.

Claro que ela não se lembrou, no meio daquela confusão, de que o youtube vive dos anúncios que coloca em muitos dos vídeos. São apenas 10 segundos, coisa breve e logo mascarada pela ocorrência da música escolhida mas, de todos os anúncios possíveis, calhar logo um promovendo um qualquer teste de gravidez, é algo na ordem do karma. A minha amiga diz que ninguém ficou chateado e que todos acharam alguma graça ao sucedido. Mas ambos sabemos, mesmo sem falar disso, que a carreira dela de DJ de casamento acabou ali naquele dia.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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