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«Afastai-vos de mim que aguardo sem boca; aos vossos pés nasci, porém vós me perdestes; bem demais com o meu fogo demarquei o meu reino…. »
René Char – posta- scriptum. (Furor e Mistério)

Aguardar o tempo certo, estar mansamente escutando as gentes, ver nelas toda a gente -quaisquer pessoas – que estas são um coro, uma ladainha grega de choro, sem a trágica profecia. Deixá-las debruçarem-se na soberba, na imensa e difusa consubstancialização da sua espuma, das suas névoas, dos seus saberes, dos seus deteres, que, nada se propagará para além desse instante de dolo, gigante bolo, argamassa das horas.
Há muita vacuidade nestes tempos! Metade do que se anda a fazer é inútil e uma grande parte não serve para nos alegrarmos tampouco. Estamos assim, sempre expectantes que algo mais novo do que o novíssimo instante nos preceda e de tal forma estamos confiantes que o mundo tem como factor principal o surpreender-nos, que não nos interrogamos da farsa da “imaginação” decalcada em contínuas representações sem o menor interesse.
A vida como representação e “performance” tende a ser uma tendência que não entende o rigor e a quem se destina. Nas coisas simples há que ser simples, nas coisas ordeiras há que ser recto, nas coisas básicas há que ser prático, mas a avaria da complexidade permanente é talvez o mais notório elemento de uma máquina louca onde todos por uma razão qualquer se atropelam para escrever, dizer, pensar a melhor coisa. Uma forma de viver que cansa, só de a pensar – que a forma de nos darmos é uma competição atenta – aturada, programada. Ora, tudo isto retira liberdade de expressão, espontaneidade , profundidade a toda a constelação da inventividade pura.
Já sabemos por vezes como os livros esgotam e quem os faz tão prolíficos nas vendas, as coisas que se fazem para resultar na fonte das estatística! Eles andam aí, esses “escritores” que nos perguntamos o que falhou para aqueles semblantes não negarem uma coisa que é da ordem da blasfémia comportamental. Mas não só destes obreiros estamos povoados: há os recintos dos obreiros, que ora estão em Centros Comerciais, ora em Bancos como as Caixas, ora ali, ora acolá…. E, nestes antros de sub-desenvolta vida cultural nos vamos amarfanhando até ao ponto da renúncia. Tudo se faz por inscrições e por altas paragonas que dizem «Esgotado» para reverterem à sociedade o bem que esta lhes fez, transferem para as pobres consciências, delas, espaços que não lembram ao Diabo. Ao Diabo do dito interesse do saber. Uma escolta de propósitos propagandísticos e mesmo publicitários, se reúne nas bordas dos eventos.
Não são estes os Festivais Medievais em que toda a gente se mascara de Afonso Sanches, Urracas ou Joaquinas, estando para saber o manifesto interesse de tanta figuração em volta de um Mosteiro, Templo, ou outras coisas: tudo o que não passe por uma ardilosa representação parece aos olhos fatigados e públicos, de descoroçoado interesse, pois que a abstracção não foi desenvolvida para uma arquitectura de pensamento que relegue para a imanação somente: é preciso qualquer fenómeno visual; e entre doces, bordados, cornetas e assobios, tudo é Cultura, ou seja, a vastidão é tanta que a Cultura já nem se sabe às páginas tantas onde anda e em que sentido transporta os seus grandes afãs.
Vivemos alquebrantados de cultura de culto duvidoso: quanto aos terreiros, quem nos dera serem de Santo, aquele sincronismo deveras cultural entre a tradição europeia, africana e índia, mas nada disso! Somos de um tempo em que falavam os mestres, entravam as gentes, sentavam-se todos, nem que fosse ao colo, nem que fosse na pedra, nem que fosse na mesa, não se deixava ninguém de fora, havia o manifesto contacto de que os lugares são coisas irrisórias face ao que íamos escutar e, porque todos tinhamos os mesmos ouvidos, o amor de todos pela audição, trabalhava em grupo que se auto-regulava para obter o mesmo fim.
Depois, as bocas abrem-se mas nós já estamos tão bem, que deixámos de ser a sala cheia e o calor de todos, para darmos encantados as boas vindas aos discursos. Era assim, entre deslumbre e vida simples, entre estar e partilhar, entre tecer e beber, que a Cultura, esse elo feito de interesses conjuntos, de muito labor e sintonia, nos convocava para as fontes.
Pessoa muito aborrecido estava e sabe-se o quanto era apreciador de literatura criminal e faz aquela bela armação com Crowley fazendo-o desaparecer lá para a Boca do Inferno. Ambos se divertiram imenso, aliás, ambos eram grandes poetas, esse dom embate no outro e produz coisas inovadoras mesmo que sejam estranhas. Sabe-se que andavam mesmo embeiçados pela Dama Escarlate, a companheira de Crowley, tendo mesmo erotizado Pessoa a um grau que nunca até então lhe tinha sido visto. Fizeram coisas criativas e giras, como se diz em linguagem chã, sem precisarem de grandes recintos e inscrições para escutar qualquer palestrante que duvido os pudesse manter quietos nas cadeiras. Tudo isto se passou há um século, num tempo atrasado, como se diz e melhor se pensa, tão atrasado, que neste adiantamento onde nos situamos nem sabemos se existiu.
Poder-lhe-íamos chamar a tão inesperado instante uma «Divina Comédia» mas dado que a laicidade obriga e a comédia é farsa, temos então uma órbita alargada de divertimento cosmopolita através de uma população informe que escuta o «Homem que aguarda sem boca» o que «O dos ouvidos sem tímpanos há-de escutar»

“Porém, vós me perdeste”, diz o Homem sem boca de Char “e a vossos pés nasci.”

O Homem sem Boca não foi mais avistado entre as gentes do seu país. Saiu, fechou o postigo do tempo e ninguém mais o ouviu. Nós tinhamos todo o interesse em gritar: “Afastai-vos de Nós que aguardamos sem Boca”. Somos um buraco rochoso por onde os magos desertam nas águas.

“ (…) sem companhia, mudos e sozinhos, íamos, um atrás do outro e outro no topo, como frades menores pelos caminhos (…)”
Dante, Divina Comédia, Canto XXIII

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