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Enquanto andamos entre escolhos e danças, terras e mares, culturas e ideias, paraísos e bonanças, a Terra tem sessenta e dois homens que acumulam mais riqueza que metade da Humanidade. É de facto exemplificativo do que é, e para que serve uma tal Sociedade Humana: ode aos Vencedores, ode aos Ogres, aos que arrebatam tudo aquilo que algures nos ensinaram ser devido a todos. É mais que provável que toda a moral esteja errada e toda a base que permitiu vir até aqui não tenha vencido a primeira condição. Pensando bem, é melhor poucos e bons, melhor rico que pobre, melhor ter que parecer e reduzir o número de eleitos porque os gáudios são de chumbo e os frutos pesados.
Face àquilo que conhecemos de tal espécie não se encontram motivos de deslumbre, nem uma razão explícita que nos faça amar-nos mais uns aos outros do que a qualquer outra coisa, até podemos acertar tal disfunção pelo Livro do Apocalipse: – se alguém aumentar alguma coisa, Deus lhe aumentará os flagelos, bem como se alguém retirar palavras deste livro profético, Deus lhe retirará a parte que tem na árvore da Vida – não vou mais tirar daqui o que quer que seja, na certeza porém que o aumento dos flagelos, mais a minha parte retirada mesmo agora da Árvore da Vida, contribuam para fazer o Universo mais harmónico. Olhado assim, o mundo remete-nos para os Contos de Fadas e os seus Ogres e até, psicanaliticamente, imagine-se a forma que esta tem nestes estudos, afirma isto: – sinto muito, mas os pobres são maus – aquando do menino da Floresta cujos pais o abandonam e ele espalhando migalhas de pão perde o rasto porque os pássaros o comem, o que faz dos desgraçados pessoas duplamente punidas.
É certo que dos felizes não reza a história, muito menos dos muitos pobres, então o que é preciso para se ser o sexagésimo terceiro? Um bom argumento para analisarmos e tentar, como com os Jogos da Santa Casa… Fixemo-nos nestas sessenta e duas deidades que armazenam o Festim de que é feito o Mundo com seus batalhões de matéria viva prestes a tudo devorar: Que comerão eles? Que presas? Como amam? (depois de Cardeal, já não se acredita em Deus) Terão contactos com extraterrestres?
Há mecanismos cuja complexidade nos remete para o Velho Urizen, aquele deus tão bem descrito por William Blake, afastado do mundo indiviso e que acabará por ver consumado o perpétuo isolamento do seu estado, dessa unidade original que fora a plenitude divina, pois que a matéria é já algo distante das origens o que faz da riqueza, vista por este prisma, um grau de distúrbio máximo que tende a colapsar nos seus próprios limites de sustentabilidade. Ouvimos isto tudo que nos dizem como informação, e nesta transmissão, se pode aferir da imensa irracionalidade vivente. Nem a Rússia Czarista, pré-bolchevique, criou tais fossos, nem mesmo as antigas sociedades feudais, o assalariado de hoje está em proporção no mesmo grau de pobreza.
«Para sermos felizes vivamos escondidos», sem dúvida, é um adágio. Para comanda há que ter perspectiva, olhar tudo como que à distância de um Campeonato de Jogos Florais, uma excessiva intimidade impede o lúdico, arma secreta para a angariação do sucesso e toda a ideia precisa de espaço para fazer de um grupo um resultado pretendido. Creio que já não ando longe de ver nascer o homem cibernético feito à imagem e semelhança do Homem porque nós, os que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, parecemos não ter resultado.
É por estas evidências que não se pode levar a sério, nem ter esperança na Economia enquanto emblema social de recurso a tudo. Se ela fosse uma actividade inteligente, ou quanto muito, organizativa, estávamos em outras estatísticas com resultados bem diferentes. É neste monstro, no entanto, que a Humanidade deposita toda a sua fé ou aquilo que dela restou, a sua inquietação, e faz dos seus dias realidades menores.
Neste século, já quase nos aproximamos da leitura visionária do real, por isso falei de Urizen, do uno para o múltiplo, do indiviso ao fragmentário, do sincrético ao analítico, da eternidade ao tempo, pois este rosto voraz, inicialmente infanticida, coloca um tampão de pedra e diz: – Agora sou eu o deus para toda a eternidade! – Este demiurgo vazio e raivoso selou pela impertinência a Terra, para nela formar o tempo e ser o Deus inexpugnável. É um mito cosmogónico. Ele vai isolar o que o Uno tinha unido numa mundividência romântica, ele isola e reina. Assim estamos hoje, agora, aqui, neste inabalável princípio sem que possamos ter a brecha de saída do circuito É um Laboratório de fazedores de espectros, que reproduz uma causa assustadora.
“… e ele viu a Fêmea e condoeu-se; estreitou-a; ela chorava, esquiva;
entregue a um prazer cruel, perverso, ela escapava ao abraço que teimava persegui-la.
tremeu a Eternidade, ao contemplar o Homem a procriar a sua imagem.
Na sua própria carne dividida. ”
A Civilização, ela, a Fêmea, está como que paralisada no fim do tempo cósmico, é o que quer dizer este número. Por vezes, os números das Bestas não são aqueles esperados, ao fazerem-nos olhar para um ponto esquecemos contar as várias perspectivas. O que poderá vir desta escalada ainda não sabemos, até porque se lhe acrescentarmos o dobro, teremos então cento e vinte e quatro homens mais ricos do que toda a população mundial. Sabemos que a lei da voragem subjaz a todo o elemento vivo, e, que a fragilidade do ter, só mesmo comparado ao efémero do viver, que mau grado a expectativa de tantos, somos menos melhorados do que supúnhamos, mas, que um grande momento, talvez mudança, tão necessária quanto urgente na equação da Terra se terá de demonstrar. Sabemos bem dentro de nós que passámos uma meta e não sabemos designá-la dado que é fluida… mas ela vive em nós como um barco naufragado. Queria poder pensar que tudo isto é roda e fim e começo… não sei, creio que nada vai ficar como prevíramos e que se tivermos ainda tempo há que avançar muito mais do que era esperado de seres tão rudimentares.
Esta nem notícia é, em última instância é uma constatação um aviso, um alarme, que soa como uma evidência, um clamor de guerra. Admitir tal realidade é uma prova irrevogável de que tudo falhou.
Só que estamos a dez quilómetros da Via Láctea e, a menos que não saibamos voar, só aqui ficamos se não houver da nossa parte vontade para que nos transplantem para um outro lado, onde se volte a repor uma certa harmonia, e cuja gravidade nos vote ao esquecimento desta época, deste ainda permanecer.

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