Venham mais 15

Carlos Morais José -
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O Hoje Macau publica-se na RAEM há 15 anos

Detesto aniversários e ainda mais elegias em moto próprio. É assim: sou mal disposto, nos padrões contemporâneos. Aliás, compreendo-os pouco. Não percebo, por exemplo, como hoje existem reverências a deuses que se sabem falsos, como nos submetemos a ditames que julgamos, ainda que intuitivamente, abomináveis.

É, contudo, isso que vejo um pouco por todo o lado e, inclusivamente, neste jornal. É verdade: não somos imunes ao que classifico de universais da estupidez e da cupidez. Divulgamo-los, aceitamo-los, escrevemos inocuamente sobre eles. E tenho vergonha por isso mas não suficiente para fazer qualquer coisa, além de um suspiro, e evitá-lo.

Somos, como é óbvio, obrigados a sobreviver neste oceano de inanidade a que se chamava “comunicação social”. Hoje já deve ter outro nome, qualquer coisa esquisita e desculpabilizável do que não fazemos ou não podemos fazer.

Mas, sinceramente, Macau é um universo relativamente aparte. Daí ainda termos a convicção de que fazemos jornalismo – algo que no mundo real acabou no século XX – no limite da nossa capacidade de interpretar o local. Talvez seja mesmo essa nossa incapacidade que nos permite uma visão fresca do que encontramos e um dinamismo quantas vezes absurdo em relação ao que observamos.

Dezembro de 1999. Muitos auguraram o pior, em relação à sobrevivência do jornalismo em Português na recém-criada RAEM. Mas, desta vez, as cassandras não tinham razão. Ao invés de minguar, crescemos e ficamos mais fortes. Na verdade, talvez tenha sido a partir dessa altura que nos começamos a debruçar com outra vivacidade sobre a vida real desta terra. Até então talvez os jornais vivessem demasiado dependentes do que acontecia à volta da Praia Grande e pouco mais.

Com a transferência de soberania, muito mudou. E no nosso interior também. Por exemplo, as redacções passaram a com jornalistas chineses e a sua presença veio iluminar muitos dos disparates que fazíamos, como veio fortificar a nossa certeza a propósito do rumo tomado a nível editorial.

Não façamos confusões: isto é a China. A mesma China que nos acolheu pela nossa diferença no século XVI e que até hoje ainda não nos expulsou. Que nos abriga e nos embala. Entre portugueses e chineses sempre existiu a compreensão imediata do “vive e deixa viver” e isso é fundamental para a nossa meta-existência. Sem ela nada disto existiria.

Os portugueses são, de facto, tão insuportáveis que só os chineses, com a sua paciência (leia-se interesse prolongado e deferido) nos aturariam. Pior que nós só os ingleses, os franceses, os holandeses, os alemães, os russos e, ultimamente, os americanos e os australianos.

Macau, dizem, mudou muito nos últimos quinze anos. Não me parece. O meu Macau está ali onde o quiser encontrar. Nos erros sucessivos do governo – iguais a antes de 1999 –; na ambição desmedida dos recém-chegados – sobretudo dos que há pouco atravessaram a fronteira terrestre –; na euforia palerma dos portugueses – desembarcados há momentos do jetfoil. E existe, como sabemos, um outro Macau que nem de longe nem de perto se reconhece no que hoje ciframos como RAEM: a cidade verdadeira, egoísta, metida consigo, fantasmagórica, palmilhável, inesgotável, sorvida como uma sopa de fitas ou junto à boca como uma malga de arroz.

Há mais dinheiro. Vejo mais luzes. Há mais confusão. Vejo mais gente. Mas nada disto me interessa. Sou director de um jornal que pretende ver além do óbvio e informar além do sensível. E é este o nosso desafio: ler o ilegível, soletrar o indecifrável. Bem sei tratar-se de uma tarefa impossível por isso é digna de nós. Menos seria pouco, mais seria divino. Ficamos, portanto, por aqui. Pelo menos mais quinze anos.

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