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«… Então o Senhor disse: o meu espírito não permanecerá indefinidamente no homem, pois o homem é carne e os seus dias não ultrapassarão os cento e vinte anos»
Génesis

Naquele tempo havia gigantes na Terra. Efectivamente separar é uma dor que ainda hoje impõe na carne que somos uma cicatriz: o umbigo, a cicatriz de uma separação. Só que hoje estamos indubitavelmente no ventre da Baleia, esse grande estômago global que não nos vomita, ou ainda não nos vomitou, na linha rigorosa da separação, e se ergue diante do nosso olhar como uma alucinação de imagem no deserto. No Livro de Enoch havia uma raça extraordinária que se reproduzia connosco, dado que eramos belos. Os cruzamentos são sempre bem-vindos, o factor probabilístico gera novas formas e não morremos de tédio a olhar uns para os outros. Para tanto, inventou Deus o Amor e fez dos corpos altares, bafejando-os de delícias, mas onde se encontra o Brexit no meio de tudo isto? Não mais que na sua qualidade de órgão de um corpo que já não é inseminável, órgão esse que parece sobreviver sem ele, podendo ser transplantado para outros , e mesmo assim, temos sempre a sábia expressão de que “órgão muito falado é órgão doente.” Dado que órgão não é tripa, esse entulho a reboque do corpo, temos um órgão vagabundo na sua errância de supremacia. Nós, a bela raça dos homens, temos coisas demais para tão destilado mundo, comprimento de intestino para alimentação etérea, uma economia do esforço em franco desgaste que quanto mais acelera doidamente mais combustão produz… teses sobre a vacuidade, pessoas presas por pensamentos, actos, omissões… tudo em barda, dado que somos fractais de um barroco alargado.
Abeiramo-nos agora da vitória das amputações e o que se passa vai ser de congelar cadáveres pelo lado hirto da manifestação. As deusas quando são velhas assemelham-se à Duquesa de Alba, dançando flamenco à beira do caixão. Porém, a Rainha, inamovível e com menos títulos reais, começa a fazer justiça à expressão: «Un jour viendra où il n’y aura plus que cinq monarques au monde: les rois de pique, de trèfle, de carreau, de coeur… et la reine d´Angleterre». Já não estamos na batalha de Waterloo quando Napoleão a cavalo disparou a galope o integracionismo europeu, mas o que aconteceu é praticamente a mesma coisa. Um corpo assim, como vai surgindo, podem-lhe ser amputados membros, tanto nas partes altas como nas baixas (já sem os aleivosos gaulesas das decapitações internas). O Livro de Enoch foi todo ele amputado, tanto por judeus, como por cristãos, pois que há áreas que transvasam o código e nenhum exegeta, rabino ou doutor da igreja, ali sabe meter a mão. É mesmo proibido em alguns círculos litúrgicos, mas com cuidado lá foram aplicando passagens… e duas bastante reveladoras, no princípio e no fim, como seja no «Génesis» e no «Apocalipse», algumas adaptações de textos gregos que dada a pouca fartura de entendimento foram como metidos à “dentada”.

(…) depois, a voz que tinha ouvido antes falou de novo: « Vai, toma o livro…aproximei-me para me o entregar e o Anjo disse; toma e come-o. Tomei o livro das mãos do Anjo e comi-o» Apocalipse

O tempo em que vivemos tem este fantástico, este surrealismo, esta impudência, creio que por mais análise, desconstrutivismo e adaptação, o que tem esta leitura pode estar gravado no Brexit. Mas já o Putin tinha fechado o Sarkozy e embebedando-o a propósito de não sei de quê, ele, coitado, veio de lá muito contente a dizer: “bom, querem falar com o Presidente? Vas-y!”
Como, de que forma, e a quem falar destas realidades e porquê? (súbita inspiração em Vitorino Nemésio). Há qualquer coisa que me diz que este livro deve estar num Castelo da Escócia, naquele local que os fantasmas nunca abandonaram, não tendo por isso deixado de existir, só porque deixámos de acreditar neles. Do Oriente vêm gritos de reconquista do velho Al-Andaluz “e toda a minha cabeça estremece ” (Herberto Hélder). Deitai senhores, vós, os dados, que dados ficam, dados são, deitai as cartas também de marear, que a saída é sempre por aquele ângulo imponderável no qual ninguém pensou e com a simplicidade de um Ricardo Sanches que destrona o linguajar dos estrategas; não tardará a saber-se o que seja, pois que bem ao jeito do ditado chinês: quando o discípulo está preparado o mestre aparece.
Cada vez tenho menos ideias e mais inspiração, não sabendo o que faça até o fazer, não há nada para programar, o banco de dados ficou cravejado de coisas tais que é o dia que mostra o caminhar… Se assim não nos deixarmos guiar nada acontece, é o dia que nos mostra o assombro, num desfiladeiro assim, todos eles vão ser preciosos e autênticos, numa urgência de sermos saciados pelo que há de subjacente a tanta ideia errada e tanta voz de um coro enlouquecido.
Leva-me contigo dia claro, e que não pense, a razão entrou na recta final da sua negritude e, quer queiramos quer não, só há livros interessantes para ler se forem de Enoch e passagens de plano tipo Brexit. Enquanto as águas não se levantarem e a Terra não mudar o eixo é connosco, neste ventre Balear que nos vamos ter de entender de forma suave, para não ir tudo abruptamente, que o mundo ainda não é um atoleiro de uma lixeira a céu aberto como os vales de enxofre.
A um tempo de adesão, resistir também é louvável, dizer não ou estar mais pobre, a riqueza nem sempre vem de uma única fonte, onde se perde a afeição perde-se também a lembrança, e há um inquietante esquecimento que só verdades duras acabam por lembrar. Não cabem nos Tratados as gentes e, quando eles expirarem por inoperância, nós ainda seremos capazes de os reinventar. Num estertor de dias incertos vive-se ainda por que há espelhos que nos devolvem o nosso rosto como um seio belo que continua alto e pode ser visível por todos. Há sempre uma ideia mais complexa debaixo de um plano e o que parece enfraquecer pode ser a táctica para um novo arranque. Mas ninguém vê tão tolhido anda, ninguém reparou tão curvado está.
Os novos céus e a nova Terra, tinham emergido, quando o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existia. O mar azul da bandeira…
Apenas mar.

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