Design | Finalistas acreditam que existe mercado mas é preciso melhorá-lo

Finalistas de design. Acabaram os estudos e enfrentam o mundo do trabalho. O Governo aposta nas indústrias culturais e criativas e os alunos agradecem. No entanto, ainda há muito a fazer. O mercado precisa de se desenvolver e enquanto uns tentam a sua sorte por aqui, outros vêem o estrangeiro como uma mais-valia

[dropcap style=’circle’]F[/dropcap]elix Vong é um dos 99 finalistas da licenciatura em Design Gráfico do Instituto Politécnico de Macau (IPM). Apaixonado por fotografia, para o jovem o trabalho ideal seria conseguir uma oportunidade de se tornar fotógrafo a tempo inteiro, sem nunca descurar a área de design. Em conversa com o HM, Felix Vong admite que está um “pouco indeciso” quanto ao futuro, mas frisa que quando tomar uma decisão profissional não esquecerá a realidade dos dias de hoje: ter dinheiro para viver.
“Sejamos francos, o dinheiro é muito importante em Macau. Todos os meus colegas, todos os alunos de design também pensam nisto”, começa por partilhar. A verdade, aponta, é que neste território que vive do Jogo, mas insiste em tentar diversificar-se, é a própria massa crítica que “pensa que trabalhos na área do design são piores do que trabalhar no Jogo”.
“Existe esta ideia porque os licenciados quando procuram um emprego numa empresa de design nunca vão receber ordenados chorudos. Mas o facto é que o trabalho não é tão duro quanto noutros sítios”, indicou, abrindo a excepção daqueles profissionais “que sejam amigos dos donos das empresas”. Esses, diz, são os mais sortudos, com “bons salários”.

Jogo de interesse

Agora, de testa franzida, puxando de um tom de voz mais sério, Felix Vong não esconde que “nem tudo pode ser dinheiro”. Nesta área é muito importante uma coordenação entre entidade patronal e funcionários. “Não é um trabalho que funciona da mesma maneira em todas as empresas, depende do estilo da empresa, das suas opções de mercado. Cabe-nos a nós, profissionais, escolhermos com quem queremos trabalhar, que tipo de trabalho queremos representar e fazer”, explica.
Esta foi uma das grandes questões apresentadas logo no primeiro ano do curso do IPM. O finalista recordou as palavras do docente que o encorajou para o futuro. “Um professor tranquilizou-nos, logo no início do curso, quando nos disse que não nos precisávamos de preocupar em procurar trabalho, porque muitas empresas têm falta de designers”, citou. Contudo, desengane-se quem acha que o design gráfico chega. “As empresas exigem muito mais de nós, não podemos ser só bons designers, temos de ter experiência, ou pelo menos conhecimento, em outras áreas”, aponta.
A olhar para os exemplos de outros alunos, Felix Vong conta que, nos últimos anos, muitos colegas que terminavam o curso criaram pequenos negócios em Macau, mas que nem sempre atingiram o sucesso.
Segundo os mais recentes dados dos Serviços de Economia, em Macau existem 33 mil pequenas e médias empresas, sendo que as PME com apenas cinco funcionários ocupam 80% do bolo total. Sou Tim Peng, director dos serviços, afirmou à imprensa local, em Abril deste ano, que em 13 anos de existência do Plano de Apoio a Pequenas e Médias Empresas (PME) já foram concedidos 2200 milhões de patacas, num total de 8144 pedidos, bem como 163 milhões no âmbito do Plano de Apoio a Jovens Empreendedores, com 1029 pedidos. Relativamente às industrias culturais e criativas, o IC afirmou que vai publicar um relatório com estatísticas sobre as empresas na área no final deste ano.
Mas nem todos quiseram ter o seu próprio negócio. “Muitos conseguiram entrar em grandes empresas e até em operadoras de Jogo. Mas há ainda quem tenha conseguido ir para o Governo, como técnico para o Instituto Cultural (IC) ou até para o Museu de Arte de Macau (MAM)”, frisa.
Este último, diz, é o “trabalho ideal”. “Este é mesmo um bom trabalho. Para quem não quer ter um negócio, este é o cargo ideal, porque no Governo há um maior grau de criatividade. Isso vê-se nos cartazes publicitários de vários departamentos da Administração Pública. São bem lindos”, sublinha.
Num último apontamento, o finalista adverte à necessidade de perceber que jeito não é tudo. “Há muitos colegas meus que não vão continuar nesta área porque gostar de design não é a mesma coisa que saber trabalhar. Também há alunos que têm jeito e depois ao estudar percebem que não querem esta área”, remata.
Em Macau, para além do IPM, a Universidade de São José (USJ), a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST), a Universidade de Cidade de Macau (UCM) também oferecem os cursos de Design. Porém, é no Politécnico que mais alunos se encontram matriculados, seja na área de design gráfico, digital, espacial, publicitários, assim como em Arte Visual. Este ano formaram-se mais 99 novos profissionais no IPM e 13 na USJ.

Investir em mais

Na área de Media Digital, também do IPM, acaba de se formar Jonze Leong que, partilha com o HM, não sabe se os estudos acabam por aqui. Nos planos para o futuro está a possibilidade do curso de mestrado, portanto encontrar um trabalho a tempo inteiro não deve ser a opção a curto prazo. A ideia, partilha, é fazer trabalhos como free lancer em Web design e fotografia até começarem as aulas.
Com formação em produção de filmes, vídeos de animação e imagem em movimento, Jonze tem conseguido, ao longo dos últimos anos, fazer pequenos trabalhos e “ganhar algum dinheiro”. Talvez este seja o segredo para um futuro em que de imediato o mercado esteja aberto aos recém-finalistas, irem produzindo durante os anos de licenciatura. “Eu comecei logo no segundo ano, fiz vários trabalho como fotógrafo, depois foi uma questão de melhorar, diariamente, expandindo as áreas de actuação.”
Como trabalho ideal, o finalista acredita que o sonho de qualquer profissional é poder ser criativo sem barreiras, sendo que isto poderá implicar não ter um contrato de trabalho fixo com uma empresa só.
Macau não é, para Jonze, um lugar onde possa depositar as suas esperanças profissionais, pois isso o ideal é avançar com o mestrado noutro país qualquer e conseguir ganhar a confiança do mercado.
Contrariamente a Felix, Jonze não acha que o trabalho ideal seja ser contratado pelo Governo. Antes pelo contrário, para ele, muitos dos finalistas querem ser jovens empreendedores e ter o seu próprio negócio. “Acredito que para eles [os finalistas] criar o seu próprio negócio lhes trará mais ensinamentos, outro tipo de experiência que o Governo não pode dar. E se o próprio Executivo tem medidas de apoio às Pequenas e Médias Empresas (PME’s), então eles aproveitam”, defendeu.

Futuro em números

Opiniões à parte, Patrick Lei, coordenador do programa de Design da Escola Superior de Artes do IPM, indicou, ao HM, que 80% a 90% dos estudantes de área procuram emprego em empresas de design, incluindo as de publicidade, multimédia e construção. Os restantes, diz, por norma continuam a estudar em mestrados ou pós-graduações. “Segundo os dados dos últimos anos, não foram muitos os estudantes que escolheram continuar os estudos. A causa é fácil de perceber: em Macau não é difícil encontrar emprego na área do design, por isso, os finalistas preferem começar logo a trabalhar e, talvez, voltar a estudar no futuro”, explica.
É o caso de Winky Lam, finalista do curso de Artes Visuais do IPM, que sem hesitar diz-se pronta para trabalhar. Ainda não foi a sua festa de graduação e Winky Lam já tem um trabalho em mãos. Nos próximos dias vai começar um trabalho na área de floricultura no Wynn Palace e Winky não podia estar mais entusiasmada. A apostar na inspiração da criação, com dedicação e entusiasmo, a mais recém profissional diz-se pronta para trabalhar “com a beleza das flores”.
Esta não é a sua primeira experiência. A finalista, antes de o ser, realizou alguns estágios em Macau, um deles na área de ensino. O estágio de Winky obrigava a aluna a ser professora de arte num estúdio, mas logo percebeu que a pedagogia não está nos seus planos.
“Gosto mais de ensino de arte fora das escolas, em jeito mais criativo, com mais liberdade, sem aquelas restrições naturais das escolas. O que acho que é com esse método os alunos não conseguem absorver muito os ensinamentos e depois isso reflecte-se no futuro”, aponta. IPM
Sobre a possibilidade de abrir um negócio seu, Winky descarta a hipótese. “O meu trabalho ideia é atingir o cargo de directora de arte, assumindo um papel de coordenação em projectos e obras de vários artistas, por exemplo, um trabalho no Festival de Artes de Macau”, esclarece.
Os estudos, esses não acabaram por aqui, mas será noutro país, depois de conseguir poupar dinheiro para isso. Ao contrário de Jonze, Winky quer voltar, depois de tirar o mestrado, a Macau e trazer tudo o que aprendeu para cá. “O mercado de trabalho é bom, tem muito espaço para se desenvolver, quero usar a minha capacidade para mudar o actual”, frisou.

Formação prática

Quando questionados sobre o tipo de curso, todos os finalistas afirmaram que este é bastante prático e vai ao encontro do que o mercado pede. Felix explica que o IPM está muito actualizado sobre as necessidades reais do mercado, apostando também em projectos para a comunidade, envolvendo o maior de entidades possível. Jonze complementou que os trabalhos finais permitem os alunos treinar as suas capacidades e fazerem-se mostrar à comunidade, através de exposições ou feiras de trabalho.
O docente Patrick Lei reafirma a iniciativa, afirmando que há o cuidado de que os projectos dos alunos possam interagir com outras entidades, permitindo que os estudantes participem e experienciem trabalhos reais. A pensar nisso, explicou, o IPM implementou um estágio de mais de um mês durante as férias de verão, antes do quarto ano do curso, para que possam ganhar noções do mundo de trabalho.

Abrir de portas
Para o docente Álvaro Barbosa, director da Faculdade de Indústrias Criativas da USJ, todos os alunos conseguem emprego na área de design, principalmente nas vertentes de gráfico e de interacção. Contudo, o mais importante é ter alunos empreendedores que possas abrir novas empresas nesta área.
“Parte do processo de empreendedorismo é fomentado e despoletado ainda durante o curso. O design é uma disciplina que tem cada vez mais importância nos processos de inovação”, disse, acrescentando muitos alunos têm também oportunidades de trabalho em áreas laterais, utilizando as suas experiências como criativos e “Design Thinkers”.
O director salientou que o curso de design da USJ é bastante abrangente, cobrindo áreas como design de produto, design gráfico, design de interacção e design de interiores. As cadeiras, continuou, têm componente teórico-prática. A instituição vai ainda abrir um novo curso do Design de Moda este ano. “Tudo o que ensinamos é com base na realidade e tendências da indústria do design e todos os nossos professores são experientes na indústria”, rematou.

Mercado de arte desenvolveu-se mas não é suficiente

Profissionais falam na melhoria

Para Patrick Lei, coordenador do programa de Design do IPM, o mercado de design e arte está muito mais desenvolvido do que dez anos. Crescimento que aconteceu devido ao boom económico, que aumentaram o número de empresas de design e de produção de conteúdos. Também com a promoção do Governo nas indústrias culturais e criativas, Patrick Lei considera que há cada vez mais oportunidades e a empregabilidade é, por isso mesmo, positiva. “Noto que cada vez mais há estudantes que têm a sua própria empresa, depois de terem ganho experiência durante dois ou três anos”, afirmou.
O docente Álvaro Barbosa acredita que este mercado irá desenvolver-se ainda mais, tornando-se cada vez mais sofisticado. Isto depende, claro dos recursos humanos qualificados na área e da massa crítica da própria sociedade.
“O facto de haver várias universidades e institutos politécnicos a proporcionar formação avançada nesta área, irá por si só transformar a qualidade e exigência desta indústria em Macau e, consequentemente, criar mais procura de profissionais de excelência”, aponta.
O finalista do IPM, Felix Vong, considera também que a taxa de aceitação do mercado de arte de Macau aumentou, sobretudo face aos jovens. Por outro lado, Winky Lam lamenta que o ambiente de arte em Macau não tenha melhorado de forma mais drástica, mesmo com a organização de muitas exposições e programas últimos tempos. É preciso, diz, desenvolver o mercado.
“O mercado de arte e design de Macau tem falta de orientações, por exemplo, numa exposição no MAM, reparei que o número de visitantes nunca é alto. Penso que existem carências na coordenação entre as políticas sobre cultura e a população, uma não conhece a outra e o desenvolvimento deste mercado não é controlado. Jonze Leong é mais radical, Macau não tem mercado. “Não quero ficar em Macau, só agora é que se está a desenvolver este mercado, precisa de se desenvolver, portanto quero ir trabalhar para fora”, rematou.

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