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Conhecemos sem dúvida a velha fábula que é portadora deste título, bem como o aforismo de Balzac: ” A morte é certa. Esqueçamo-la.” A fábula é simples: um criado que tem um encontro com a morte num mercado e vendo-a fazer um gesto, aterrado, foge no cavalo de seu amo para Samarra, ao que o amo pergunta porque tinha feito ao seu criado um gesto ameaçador, ao que ela responde: “Não foi de ameaça, foi de surpresa por ele ainda estar em Bagdad, visto que temos um encontro esta noite em Samarra”. Ficamos a saber da rigorosa precisão desse encontro e de que não vale a pena fugir-lhe dado que parece estar inscrito mesmo quando não suspeitamos de nada. É um local com portas já que existe a ideia de passar o mural, uma condição seguida de triunfo; «O Triunfo da Morte», Petrarca.
Pessoalmente gosto de a designar de «Grande Implosão» por oposição directa à explosão da Vida, que é de uma extrema plasticidade, suprema faculdade de arranque, pioneira em todas as associações de preenchimento automático numa ânsia de nada deixar vazio. Pensamos, sim, pensamos na morte, na morte mistério, na morte sem mistério, em desligar, no assombro… na causa… e no tecido desconhecido da grande implosão, dado que não temos uma só lembrança de nós mortos. Mas estamos talhados para ela como um íman gigante e bem-dizemos a existência de tal encontro, pois que faríamos no preenchimento de uma expansão sem fim?!
Deixando de existir não entramos mais nessa condição e a diluição, seguida da transformação dos elementos, é um retorno à memória sagrada da Terra. Conseguimos ver para dentro quando o tempo de crescer parou, quando e depois de nada em nós mais expandir… esse caminho que começa estranhamente quieto e prossegue uma doce viagem de reconhecimento do todo e nos obriga a colher os melhores frutos… a não deixar fugir a “coisa exacta” e a permanecer tranquilos. Somos agora a melhor ficção científica de nós mesmos, um teletransporte em movimento saídos daqui para lugares descarnados, ser em outro lugar transfigurado, ter este lastro horizontal do outro em comprimento, uma mescla heteronímica daqueles vários que depois de mortos nos sucedem… do lado de lá do Vitral… aparecendo em outro lugar, se não em forma, na ideia transfigurada do que já anunciáramos ser… um registo que nem nos ocorrera, pois que na voragem de todas as combustões nós fomos permanecendo não se sabe onde e em que modos vários.
Sentimos agora por nós um carinho nunca dantes experienciado, um olhar apaziguador, indulgente, pois que sabemos que ardemos – ardemos, sim – em tanta batalha, tanta paixão, tanto limite, tanta vontade, e nesse desgaste riscámos o vento e reconhecemos todas as cicatrizes. O limite da voragem até ao grande encontro! Resistimos a tudo, fomos duros a testar.
Agora que o grande retorno nos resgata olhamos de fora para dentro este motor sadio que a fúria ainda não desfez e nos monitoriza, este corpo em transformação… há uma grave luz intensa que está correndo. O corpo! Ele sabe de tudo, pois é ele que nos informa dos factos muito antes da consciência, ele é tão fantástico que mesmo abandonado a favor da mente é ele afinal, que em nós nunca nos mente. Mediúnico, informa-nos, resistente, ele sofre, desamado, ele entristece; esquartejamos algumas partes, utilizamos outras( outros em excesso) temos altares de “vísceras” mas ele só sossega se aquela “mão” tiver a força do amor.
O amor cura, o amor é um tratamento celular do mais fino processo. Já andámos tanto, este caminho é tão longo, devíamos quando comemos carne, fazer uma oração, uma bênção de saber consubstanciar. Não reparar nisso torna-nos obscuros, medonhos de morte comida. A nossa psique não se dá conta tão irrigada anda em diques de absurdo, a nossa razão também não, pois que está assente na soberba, e as coisas que não experienciámos podem vir nesta fase como a mão de Deus, ajudando a ver o que não está desvendado.
São processos simples, tão simples que arrepiam, reparamos nos ilustres desconhecidos que ora somos, perdoamo-nos tal qual já conseguimos perdoar a quem nos tem ofendido, e com todas estas benesses ainda somos visitados de conhecimento puro. Faz-se tarde para repetir e cedo para desistir, pois que no tempo curto dos maduros vinhos estamos vivendo para além das órbitas dos nossos olhos, que já cegaram, imponderados, magoados, fronteiriços… nós, que vamos para Casa, um lar que ainda não lembramos . Também aqui, e por que o corpo é outra fonte e a voz que tem nos faz cantar, lembro o belo poema de Kávafis:

Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,
Não só os leitos onde repousaste.
Mas também os desejos que brilharam
Por ti em outros olhos, claramente.
E que tornaram a voz trémula.
Agora que isso se perdeu no passado
É quase como a tais desejos te entregaras -e como brilhavam.
Lembra, nos olhos que te olhavam.
E como por ti na voz tremiam, lembra, corpo.

O corpo encerra um sopro, sim, uma pura matéria alvíssima e animada, e quando implode os seus farrapos não se esquecem dele, pois que são parte em outros processos, e a Terra é um vale de fundas memórias quando outra coisa formos na matéria do tempo.
Nas sociedades primitivas todos os anos o velho rei era simbolicamente morto para assegurar a fertilidade das novas colheitas, daí a frase: O rei está morto, viva o rei. Compete pois ao homem celebrar as folhas que caem antes do desvanecimento transitório.

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