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Numa edição recente do Financial Times aparece um artigo de David Tang sobre as piores cidades do mundo chamado Are these the world’s worst cities?. Macau figura nele e na fotografia de maior impacto, entre as várias que ilustram o texto, vê-se a zona do Grand Lisboa. Estas linhas não vêm especificamente em condenação do artigo de Tang mas em condenação da aceitação, por parte do FT, e de outras publicações mais ou menos especializadas e/ou de créditos formados, de incluir artigos mal feitos.
A melhor maneira de avaliar a qualidade de um guia de viagem é ler a edição que diz respeito ao sítio onde vivemos. Como exemplo, o guia Lonely Planet, em edições antigas, listava como restaurantes a patrocinar em Macau nomes absurdos e de interesse gastronómico muito duvidoso. Hoje em dia já não é assim e parece, no geral, equilibrado e feito com profissionalismo.
O mesmo se pode fazer com artigos de viagem, constantes em revistas da especialidade, sobre cidades ou países que conhecemos bem. É divertido identificar os erros e o modo como nós, os residentes, somos retratados. Em certos retratos de Lisboa todos os seus habitantes andam de eléctrico, cantam fado e comem Pastéis de Belém diariamente enquanto lamentam a perda do Império.
Menos agradável é pensar que artigos sobre cidades ou países que nos propomos visitar são escritos com a mesma leviandade ou a mesma carga de ignorância. O conselho que este vosso servo dispensa é o de que se deve mandar os articulistas todos à merda.*
Em Dezembro de 1999, vários jornalistas portugueses aterraram em Macau para cobrir a transferência de soberania do território para a R.P.C. Foi muito divertido e esclarecedor. Muitos deles juntavam-se ao fim do dia num bar/café da cidade – que hoje em dia é muito mais bem frequentado – e eu percebi que, ao fim de dois dias, todos eram especialistas de Macau. Achei que esta gente dos jornais e da rádio era uma gente extraordinária.
Por outro lado não se pode esperar que um articulista, cronista ou repórter possa, em uma visita de 4 ou 5 dias, munir-se de material que rivalize com o que um residente possui.
O que David Tang diz está bem, Macau tem uma quantidade imensa de sítios pirosos e imensamente feios, maioritariamente construídos após 1999, edifícios que espelham a instalação – acarinhada pela administração local – de uma ganância sino-americana sem limites no mau gosto e no desprezo pela cidade e seus residentes.
Não poderia estar mais de acordo. O edifício do Grand Lisboa, dentro e fora, é horrível. A parte do Cotai que se estende do Galaxy ao novo Studio City é um pavor de mau gosto e baixa qualidade de construção e algumas das unidades hoteleiras que estão em fase de acabamento, por trás do City of Dreams, são uma adição de horrores.
O que está menos bem é que Tang não diga que há ainda lugares em Macau que mantêm um charme próximo ao que terá tido há 30 anos, que há uma geração nova em Macau que tem introduzido subtis alterações positivas no comércio local e que se tem mantido um conjunto histórico que é único na Ásia.
As duas primeiras coisas ele não diz porque não sabe e a terceira não diz, sabendo-o, porque quer mostrar irritação. Sir David sabe perfeitamente que entre as cidades da Ásia Extrema onde permanece um conjunto monumental sincrético ou de matriz ocidental, como Malaca, Jacarta (o centro histórico abandonado), Penang, Xangai, Bandung ou mesmo Hong Kong, Macau é um exemplo superior.
O que é menos bom, e quem leu coisas escritas por Tang não estranha, é que este insista, pedantemente, na ideia de que Manila ou Bangkok deveriam ser parecidas com Viena ou Florença, exactamente da mesma maneira que Eduardo Prado Coelho (que tem obra e provas dadas em outras áreas, ao contrário de David Tang) se queixou de Macau por não ser mais parecida com Paris (… aquilo que é o encantamento parisiense (ruas com belíssimos cafés com espelhos e madeiras) não existe por estas bandas). Ainda hoje faz rir, mesmo àqueles que, como eu, deploram a falta de esplanadas (cafés já há, mesmo que não haja nenhum antigo).
O artigo de Prado Coelho, que já estava bastante debilitado na altura, é um exercício de desonestidade por parte de um nome com provas dadas na sua área de especialização mas que para ganhar uns cobres escreve apressadamente para um jornal (o Público) que aceita placidamente as suas linhas mal informadas porque se trata de um nome famoso.
Fica a consolação de que a Macau que ele queria ter encontrado (e como português teria de ser um cenário nostálgico e passadista à In the Mood for Love) existe e continua bem pastosa e húmida como no filme. Que ele não a tenha visto é culpa dos que não lhe mostraram essa parte da cidade. Tal como Tang, também EPC gosta da palavra hordas: Que é que eu fui descobrir? Milhares de chineses que invadiam o hotel em hordas ruidosas. De que estava ele à espera? De milícias curdas?
Sir David, que não precisa do dinheiro, devia estar quieto ou entretido com os seus trapinhos saudosistas, cuja filosofia espelha o provincianismo dos artigos que por vezes exporta num jornal que não o devia publicar, e que há bem pouco tempo se desembaraçou de modo pouco airoso de um cronista como Harry Eyres, autor da informada coluna The Slow Lane, enquanto mantém, sem sinal de vergonha, The Fast Lane, da autoria de Tyler Brûlé, talvez a coluna mais inútil e vazia de interesse para o mundo de que me lembro.
Estas linhas não são em defesa de Macau, onde a completa ignorância, infantilismo, provincianismo, falta de visão e de gosto das fracas almas que a têm administrado a transformaram em grande parte (falo da parte turística) num cacófato composto por obras intermináveis, ausência de arte e esplanadas, edifícios completamente pacóvios, lojas de sabonetes e relógios, um sistema de transportes públicos caótico, altos níveis de poluição – demonstração de uma completa falta de sentido de qualidade de vida.**
Um dos prazeres de escrever para um jornal é o de dizer mal, o de exibir a irritação ou a indignação junto de um público vasto, e qualquer articulista sabe que por vezes este desejo irresistível e saboroso de maldade faz esquecer o rigor. Felizmente que assim é, a favor do excesso. David Tang exercita-o com gosto, é pena que este se não complemente com mais rigor. Fiquei com muita vontade de ir a Leeds.

* Num livro publicado pela Lonely Planet chamado The Cities Book: A Journey Through the Best Cities in the World, que lista 200 cidades, Macau aparece em 121° lugar, depois de Copenhaga. Nele diz-se que os habitantes de Macau gostam de prazeres simples, such as smoking a pipe or having their palm read in Mediterranean-style cafés filled with caged birds. Também informa que a viagem para Hong Kong leva 4 horas (o livro não é muito antigo) e que entre as principais exportações de Macau se conta mobiliário de ráfia, moedas antigas e cigarros especializados. Nas páginas dedicadas a Hong Kong diz-se que os seus habitantes têm muito orgulho nos sucessos da China.

** Uma cidade que não tem um museu de arte a sério (o M.A.M. é uma anedota) e que em vez de trazer ao público local exposições ou peças de Baselitz, Richter, Anselm Kiefer, Baldessari, Barceló, Tapiés (houve há muito tempo, no Fórum), Paula Rego, David Hockney, Kapoor, Muniz, Abramovic, Beuys, Twombly, Koons ou Ai Wei Wei traz um pato de borracha só pode ser objecto de irrisão. Acrescente-se que o mesmo se passa em Hong Kong. Se vários destes nomes aparecem exibidos em galerias é por razões comerciais e não porque haja uma vontade da administração local de as mostrar aos residentes. Proponho que o Pato fique, permanentemente, em companhia dos Patos Bravos que o trouxeram.

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