Até que a morte os separe

Tânia dos Santos -
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Aos vinte e quatro anos vivi num daqueles países ultra-conservadores que, assim que descobriam que eu não tinha um namorado, muito menos um noivo, não se acanhavam em perguntar: ‘o que há de errado contigo?’. A falácia envolvia premissas à partida falaciosas: é solteira, ainda para mais mulher, e, por isso, deve ser insuportável.
Tive a possibilidade de crescer num ambiente onde o casamento não é encarado como o passo mais importante da vida de uma pessoa e deixo-me sempre surpreender quando o é. Diz-se que é preciso arranjar um companheiro ou um namorado, mas melhor será um cônjuge. O que será das nossas vidas sem um papel que diga que estamos legalmente ligados a alguém, ou sem a formalização que (talvez) estamos prestes a criar uma família e garantir a continuação da espécie? Tradições judaico-cristãs que o incentivaram, sem dúvida, mas que podem traduzir-se na contemporaneidade por… romântismo. O que há de mais romântico do que a possibilidade de amar o outro até que a morte os separe? Muito pouco. Provas de amor verdadeiro, diz a cultura mainstream, envolve um anel e um pedido. Porque tu es especial, tu és o melhor que há, tu és a pessoa da minha vida. O sexo, por sua vez, tem uns certos momentos de susto quando pensa na exclusividade sexual até à campa. O sexo gosta de novidade, mas também gosta do à vontade e da familiaridade do mesmo parceiro. O sexo gosta de viver no paradoxo, enquanto que o amor tem uma opinião matrimonial muito clara.
Este não é um tratado anti-casamento. Este é um tratado que defende a liberdade de escolha ao pedir a libertação de pressões, bocas e comentários de tudo e todos. Deixem as pessoas solteiras em paz. Por melhor que esteja comprovado que a solidão aumenta a mortalidade em 26%, não é muito claro se a mortalidade vem do stress que é ser solteiro e ter pessoas a chatear-nos a cabeça, ou se é porque podemos cair na banheira e morrer de traumatismo craniano porque ninguém nos levou ao hospital mais cedo. A ironia está que produzimos sociedades que incitam muito menos sentido de comunidade e cooperação, mas somos extremamente cruéis com os que foram ‘deixados para trás’. A alcunha usada na China para as mulheres que têm quase trinta e não são casadas ainda. Posso inventar razões possíveis, mas talvez, simplesmente, não se querem casar. Ponto. Funny Face
Para os lados mais europeus, a crise não tem dado muito apoio ao matrimónio. Se na China os homens precisam de um bom dote (i.e. uma casa totalmente paga), na Europa nem juntando os trapinhos e as esmolas se consegue comprar casa e começar uma vida. Já para não falar na festa de casamento, que não é barata. Ou mesmo na preocupação profissional extrema, que leva homens e mulheres a dar muito mais importância à satisfação profissional do que à necessidade dos votos.
O casamento não é um mar de rosas, malmequeres ou orquídeas. Não se esqueçam que há desafios diários para o casal, os desafios emocionais e relacionais pagam as contas aos terapeutas conjugais. Hipoteticamente falando, o sexo fica aborrecido, as pessoas ficam chatas ou a rotina desgasta. Por alguma razão a taxa de divórcio está nos 70% em Portugal. Os outro 30% ainda vão dando o exemplo de boas práticas. O pessoal ama-se, quer-se e satisfaz-se na dança que regenera anos e anos de relacionamento. Porque o companheirismo alimenta o amor e vice-versa, pelas experiências românticas e pela possibilidade e compatibilidade de resolver qualquer obstáculo que apareça à sua frente.
Um relacionamento a longo-prazo, sólido, vem naturalmente até certo ponto. Há trabalho por desenvolver, há investimento, compromisso e criatividade. Se as pessoas julgam que o casamento é o caminho certo porque é a escolha natural, desenganem-se. Estar solteiro pode ser um caminho natural também, solteiro com gatos e cães, solteiro com uma amante de vez em quando, solteiro com a namorada a longo-prazo: tudo pode ser natural. Porque a felicidade é o maior cliché de todos os tempos, sem estado civil associado.

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