Desencontros

Muitas vezes não estamos alinhados com os outros. Não os encontramos e não os entendemos. Os limites que fazem o encontro afectam tudo: o sexo, os relacionamentos amorosos, os relacionamentos familiares e de amizade, as sociedades, as nações, e até, a mudança.

Assim percebemos, de forma mais ou menos sofisticada, o que justifica a esperança ou o pessimismo por um mundo melhor – esse cliché que irrita, mas que não deixa de ser a utopia dos tontos. Dos que acreditam na simplicidade do amor e do cuidado, ainda que saibamos pouco sobre as suas subtilezas e complexidade.

O desencontro pode ser fácil ou difícil, pode resultar numa resolução ou num conflito eterno, sem solução à vista. As identidades complexificam os processos de comunicação contribuindo para a natureza do conflito. As ideias que cuspimos vêm de um lugar de pensamento, de um posicionamento, de uma identidade e de várias experiências. Tanta investigação feita para desvendar os factos humanos e sociais e o desencontro continua lá. Desde o início dos tempos que tentamos dar-lhe sentido. Agora ficam por resolver as dores de ver um mundo a desfazer-se porque há conflito em todas as frentes. As alterações climáticas que nos afundam pela inacção, o conflito israelo-palestiniano que parece ser dor sem fim, o ódio que se espalha sem precedentes de discursos cada vez mais declarados de xenofobia, homofobia, racismo e preconceito. Será que as dores são minhas, ou do mundo?

As teorias para o desencontro são muitas. Os mais tolos andam a explorar mapas astrais onde o desencontro já estaria escrito nos astros. Em contraste, os mais cientistas agarram-se à razão positivista para dar sentido a uma moralidade aparentemente fácil, definida pela verdade e pela mentira. Nesta visão do mundo, os factos são a única ferramenta de empoderamento. Valoriza-se o saber como se o sentir não interessasse. Os sensíveis são acusados de ser emocionais, pouco racionais. O desencontro só se resolve com conhecimento não-emotivo, dizem eles, porque o desencontro é o resultado da tontice dos pouco esclarecidos.

O desencontro acontece quando a minha visão do mundo choca com a tua visão do mundo. Gosto sempre de voltar ao micro-cosmos das relações e percebê-las como pequenas arenas que poderiam explicar as maiores. Os tijolos que criam a nossa realidade estão lá, no nosso dia-a-dia.

Na pessoa que amamos, na pessoa que partiu o nosso coração, na pessoa com quem fomos para a cama uma vez em 2010. O desencontro é o resultado de tantos outros desencontros passados, nesta valsa a três tempos, ou talvez, numa cantiga de roda, infantil e vulnerável como os nossos desencontros muitas vezes são. E as emoções? Quando é que finalmente se legitimam as emoções? A zanga, o ódio, a raiva, o amor, o medo ou a ansiedade existem para explicar o inexplicável. Nunca foi fácil definir o ser humano ou o seu guião de acção e as dores sentidas só tornam mais clara a nossa dificuldade em fazê-lo.

Impressiono-me com esforço de separar águas inseparáveis de dor, desconforto e razão. Nem sempre conseguimos ver como os desencontros do mundo são desencontros de nós próprios.

Olhamos para a política internacional e não parece que possa ter que ver com o nosso sexo, ou com a nossa intimidade. É difícil engolir que o nosso ponto de partida possa estar em desencontro. Talvez porque o desencontro é o nosso estado mais natural e mais confortável. Não sei do que precisamos, se de amor, música ou arte para desvendar o maior segredo de todos – que o nosso propósito de vida é dar sentido àquilo que não tem sentido algum. O desencontro pode bem ser um estado perpétuo em si mesmo.

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