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Este será o último artigo que integra uma apreciação e lista de bares de hotel de Macau. O assunto é fastidioso. Algumas das falhas que nesta selecção se descobrem são falhas que indicam insuficiências, de tipo rural, que são endémicas à cidade e cuja resolução se não vislumbra.
A primeira prende-se com a continuada inexistência de um único bar em que o desenho mostre a mais pequena ousadia no seu modernismo. O mesmo defeito estende-se aos hotéis do território, a esmagadora maioria dos quais – com a pequena excepção do Altira e do Mandarim e talvez do Hyatt – vergados à necessidade de um gosto pacóvio e renitentes à educação das massas. Pergunto-me o que acontecerá ao edifício em construção desenhado por Zaha Hadid, recentemente falecida.
Admita-se que esta falta de atrevimento no desenho pode ser uma propensão generalizada na Ásia, uma que em Macau se combina com a focalização num tipo de turismo de massas pouco educadas. Também neste sector quem acaba por sofrer as consequências da ignorância e do provincianismo é o bebente residente.*
A segunda razão que torna os bares de Macau entediantes é a relutância da população local em frequentá-los. Existindo locais onde a oferta de bebidas e o serviço é mais que suficiente, estes tornam-se inúteis se continuarem vazios e sem animação. Há vários lugares em Macau em que as listas e a proficiência dos mixordeiros não fica atrás do que se pratica nos melhores lugares do resto do planeta.
Relembra-se o conceito de proximidade, lido em Triumph of the City, de Edward Glaeser. Este aplica-se a uma concentração social promotora da troca de ideias e do avanço de projectos. Em Macau persiste a resistência à frequência dos bares antes das refeições, a desejada proximidade não se cumpre e a estagnação ou a regressão substituem-se ao avanço.
No novo The St. Regis bar, no hotel do mesmo nome, identificam-se facilmente as falhas que aqui se expõem. Este é um lugar com um conjunto muito decente de bebidas, um que mostra profissionalismo, não só na escolha destas como na dos preparados que com elas se podem conseguir. Os barmen de serviço que conheci são muito competentes e o resto do pessoal muito simpático e de olho vivo e interessado. O balcão é atraente, de tamanho médio e altura capaz e aparece fronteiro a um painel autorizado por Gil Araújo relativo à coexistência harmoniosa dos chineses e dos portugueses em Macau ao longo dos anos (a sério). A zona de cadeiras é confortável e própria, quase elegante, e ao fundo existe uma área mais íntima, The Vault, que se utiliza para funções próprias ou para uso regular.
Uma das vezes que o frequentei estava vazio, e em conversa com umas das funcionárias não me pareceu que houvesse muitas excepções. Numa outra, a uma sexta-feira, a zona de mesas estava cheia e com bom ambiente. A sala The Vault recebia um grupo grande.
A frequência é a razão que mantém o bar do Hotel Star World em primeiro lugar da minha lista de preferências – a existência de um público regular. Admita-se igualmente (uma conversa que já tive com um empregado do Bar Azul, no Hotel Four Seasons) que a localização pode ser factor determinante na popularidade do bar do décimo sexto andar do Hotel Star World.
Mas o que distingue o bar do St.Regis, carregado de boa vontade, de vários outros bares de hotel que se oferecem no território? Por enquanto não muito, para lá de uma genuína vontade de agradar e uma HH atraente em termos de preços. O serviço é tão bom como nos melhores. Este bar compete com o do Ritz-Carlton? Sim, compete no sentido da qualidade da oferta e do serviço própria a hotéis de alta gama. Mostra uma especialização numa bebida muito popular, o Bloody Mary.
O bar Premiere fica num complexo turístico de gosto duvidoso e materiais de construção baratos, o Studio City. O bar continua a tendência de todo o complexo. O Premiere é apenas um lounge aberto aos corredores e não mereceria sequer aqui menção não fossem os barmen bastante competentes e interessados. Tem uma lista excelente, vasta, mas só a obrigação de uma visita ao complexo justifica que se patrocine o Premiere e não outros bares que ficam na mesma área.
Encontra-se a uso público o bar China Rouge, no Complexo Galaxy, antes limitado à entrada de sócios. Mantém a geografia anterior que é mais a de um clube do que a de um bar e tem uma banda. Siga-se a sua carreira. Não o incluo na lista por não saber se está aberto para bebidas ante-prandiais.

1. Whisky bar, Hotel Star World – O que tem mais animação. Localização central. Taxa muito favorável de retenção do pessoal de serviço. Tem uma lista longa para lá da que o cliente normalmente recebe. Tem uma varanda muito boa.
2. Ritz-Carlton bar and Lounge, Hotel Ritz-Carlton – Bom nível de bebidas mesmo que não em quantidade. Pequena especialização numa bebida, o gin (20 diferentes), dá-lhe um rosto próprio. Abre às 10 da manhã, pormenor importante num território em que muitos dos outros bares de hotel só abrem pelas 5 da tarde.**
3. Macallan, Galaxy – Excelente serviço, boas bebidas feitas por barmen muito competentes e hospitaleiros num ambiente estranho a Macau. Lista de uísques inultrapassável, penso que mais de 400, coloca-o no terceiro lugar (isto o que o distingue).
4. St.Regis bar, Hotel St.Regis – Ainda em rodagem, uma ementa bastante completa e mixordeiros de qualidade, uma sentida vontade de agradar e uma pequena especialização em Bloody Mary. Pode subir de posição. Abre ao meio dia. Apreciado em cima.
5. Convívio Agradável, Hotel Sofitel, Ponte 16 – Excelente serviço e sentido de hospitalidade, bebidas de qualidade. Não é longe do centro. Muito feio mas muito acolhedor (eu não acredito que o kitsch seja a manifestação do mal). Por baixo da fealdade, que é quase comovente na sua inocência, nota-se a qualidade Sofitel.
6. Bar Azul, Hotel Four Seasons – Expressa desejo por um desenho próprio, boas bebidas, próprio para um encontro íntimo, injustamente desconhecido.
7. Vida Rica, Hotel Mandarin – Boa qualidade de serviço, fica num dos 2 hotéis de Macau que não é piroso e tem vista. Tem promovido eventos próprios, não só com provas de vinhos mas com mixologistas convidados – o que o traz a uma posição mais favorável.
8. Cinnebar, Hotel Wynn – tem espaço exterior, staff competentíssimo e amável, boas bebidas, excelente ginger margarita.
9. Lan, Hotel Crown Towers – Este bar cai vários lugares, vítima brutal das intermináveis obras que afligem a parte oeste do City of Dreams. Encolheu consideravelmente e já não tem janelas nem o pé direito quase gótico que o tornava amplo. Segundo o pessoal de serviço, em breve (?) ganhará novo espaço em que se inclui uma parte exterior. Se desce apenas para sétimo lugar é porque mantém a mesma lista e uma outra apenas de vinhos de mesa que é das melhores de Macau.
10. Heart, Hotel Ascott – Tem um terraço de sedução imbatível, o melhor entre estas entradas. Tem uma lista curta e sem grande imaginação. Excelente para grupos. A melhorar à medida que vai ganhando experiência.
11. 38 Lounge, Hotel Altira – tem vista e varanda, exibe vontade de mostrar desenho, fica num dos 2 hotéis de Macau que não é piroso.
12. Windsor, Hotel New Emperor – Tem um longo balcão e localização imbatível, no centro da cidade. As misturadoras, de Taiwan, eram muito simpáticas.
13. Premiere, Studio City – Sítio feio mas com uma lista longa e bem feita (está na internet). Bons barmen.
14. Cristal, Hotel Wynn Encore – desenho próprio, sofás confortáveis, excelente ginger margarita (partilha lista com o Cinnebar).
15. McSorley’s Ale House, Venetian – Não tem figurado nesta lista mas tecnicamente é um bar de hotel, mesmo que completamente aberto a um corredor feio e a massas barulhentas. Tem 17 marcas de cerveja. O resto é enfadonho, igual a tantos outros bares de temática irlandesa de desenho encomendado a uma empresa que os replica por todo o mundo.
16. Aba, Hotel MGM – não bem um bar, mais um espaço aberto junto de uma praça mas onde se conseguem bebidas boas e um serviço de simpatia e competência mais do que suficiente. Larga escolha de vinhos.
17. Lyon’s, Hotel MGM – pouco que se recomende para lá de ter um balcão enorme e ser relativamente central.

A. Relembre-se que existem em Macau alguns bares/lounges de átrio de hotel que preenchem com suficiência necessidades de bebida, lugares de conforto e extrema conveniência, alguns mesmo de elegância decente. Noto, por ordem não muito rigorosa de preferência, os dos hotéis Mandarin, Okura, Banyan Tree e Marriott. O bar circular do Sheraton também é bom.
B. Existem igualmente vários bares de piscina espalhados pela cidade.
C. Vários restaurantes de hotel, como o Aurora, o Copa ou o Portofino, têm agregados bares.
D. Noutra nota (não de bares de hotel) informe-se que têm aberto na zona norte da cidade (obrigados a esta escolha pelo preço das rendas) vários barzinhos de sabor local que podem vir a transformar esta área, anteriormente pouco associada ao sector.

* também não noto uma vontade contrária em Hong Kong, admitindo uma pequena excepção no Ozone (Ritz-Carlton, cuja lista é praticamente igual à de Macau). Aliás, este é um caso paradigmático. O mesmo hotel Ritz-Carlton (pertencente ao gigantesco grupo Marriott) decidiu fazer em Hong Kong uma estalagem de aspecto moderno, mesmo que não muito ousado, mas em Macau escolheu uma moldada ao pobre gosto presidente, em tons pseudo-imperiais frios (gosto duvidoso que se repete em Kuala Lumpur e em Cantão).

**alguns dos bares sitos em hotéis têm listas que se encontram acessíveis na internet. Recorde-se igualmente que certos bares têm listas de bebidas (por vezes comuns a outros serviços do hotel) mais vastas do que as que imediatamente se oferecem aos clientes.

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