Só Vento

José Simões Morais -
12
0
PARTILHAR
Umberto Eco escreveu: “Apenas nós, os monges da época, conhecemos a verdade, mas dizê-la, às vezes significa acabar na fogueira”. Homenagem a quem há pouco tempo nos deixou e pelo tributo deste incansável erudito trabalhador a des-cobrir-nos as imagens mentais que trazemos do momento que é a Vida

Hoje, 1 de Abril, dia dos enganos há três comemorações que gostaria de referir. Duas delas são sobre o aparecimento em Macau de dois jornais na primeira metade dos anos setenta do século XIX e a terceira, o início da ligação aérea da TAP com Macau. Esta última nos enviará para outros voos, em reflexão e fazendo o transporte entre Civilizações, nesse dual estar só um terceiro vector lhe dará a verticalidade. É como acrescentar à nossa actual memória visual, do observar-se de cima, (conceito de superioridade), a espalmada área horizontal de quem por esses olhos aceita por inferior idade tal Visão única. Criada apenas na base da estatutária autoridade, onde o que conta no estar é o individual Ser, feito no que tem pelo material, sendo o Outro, o que não pretendemos conhecer em (/para) nós. São esses erros de quem usa a Verdade pela sua perspectiva e nela subconscientemente se projecta, a crer-se assim a pensar (pela própria cabeça) a imagem (que traz) da Natureza. Aqui esses enganos, celebrados hoje neste artigo de 1 de Abril.
Parece ser um engano a data de 1 de Abril de 1873 que Luís Gonzaga Gomes refere para o aparecimento do jornal O Imparcial. Registo actualmente sem prova física pois, segundo Daniel Pires, que há poucos dias lançou em Macau o Dicionário Cronológico, “nas bibliotecas e arquivos portugueses e macaenses não é conhecido qualquer exemplar deste semanário”. E por aí continuando: “O Jornal da Noite de 18 de Junho de 1873 desvenda o nome dos redactores de O Imparcial: António Alexandrino de Melo, barão do Cerdal (1837-1885), Vicente de Paulo Salatwichy Pitter (1813-1882), Francisco António da Silva e António Joaquim Bastos Júnior (1848-1912), que, de acordo com o Pe. Manuel Teixeira, assegurava igualmente a edição”. Para a data de início da publicação refere ser 5 de Abril de 1873, o que não corresponde à indicada por Luís Gonzaga Gomes e por isso, neste dia, onde ninguém leva a mal os enganos, estas linhas dedicadas a um semanário que cessou a sua publicação três meses mais tarde e que fora fundado por Francisco António da Silva e financiado por Nicolas Tanco Armero, informações do jornal Independente, dadas à actualidade por Daniel Pires.
Sem pertencer a esta data, mas para ligar historicamente com o Jornal de Macau, este sim iniciado a 1 de Abril e da mesma facção política de o Imparcial, surgiu a 28 de Maio de 1873 pela segunda vez, O Independente, cujo director era o advogado José da Silva, que segundo Daniel Pires “editara e participara na apurada experiência do Ta-ssi-yang-kuo. (…) Desde a génese de O Independente, José da Silva, seu editor, revelou frontalidade e coragem, trazendo à colação irregularidades cometidas por uma facção dominante, capitaneada por Bernardino de Sena Fernandes, que tinha o beneplácito do governador e do juiz principal, João Ferreira Pinto”. O Independente saíra pela primeira vez em 1867 (Daniel Pires refere a data de 15 de Setembro de 1868) e em 8 de Julho de 1869 interrompera em Macau a publicação, por ordem do juiz que processou José da Silva e ordenou a supressão do jornal, tendo este rumado a Hong Kong, onde o continuou a publicar. De salientar ser de um outro estar essa luta, que não traz paralelo com a que hoje se trava pois, crendo-nos pelo pensamento de um universalismo internacional, mas usando os direitos individuais, apenas enfeudados estamos num jogo de multinacionais.
Já para o início da publicação do Jornal de Macau, parece ser de comum acordo a data de 1 de Abril de 1875. O semanário “político, literário e noticioso” Jornal de Macau não durou um ano pois deixou de ser publicado a 8 de Março de 1876. Segundo Daniel Pires, apenas existe um número deste jornal, que “foi redigido inicialmente por Manuel Luís Rosa Pereira” e que o Independente, jornal opositor ao Jornal de Macau, refere serem os mesmos que colaboravam no Imparcial, “havendo desta vez alistados nesta cruzada especuladora mais alguns tartufos, além de dois militares, recentemente chegados a esta colónia, mas estes não militam na secção impolítica: botam apenas notícias, charadas e fados” (…) e “dizem por aí que é subsidiado pelo Sr. Bernardino de Sena Fernandes”.
Para fechar este ciclo, ligado aos jornais, o director de O Independente, José da Silva tinha “vinte e mais processos pendentes em juízo”. As vestes com outras personagens! E dizem que o Tempo existe! Engano, pois é apenas um método, para em ciclos tomar-se consciência. Que Tempo.

Os OLHOS e sua projecção

Sonhos de um voo, que o Estar abarca, chegaram num momento com espelhos à História da Imagem. Visão que se tinha perdido há milénios do seu Todo. Para esta história foram os olhos que dominaram a realidade e é deles que fala, vistos por si mesmos. Olhos nos olhos, na ousadia do olhar constroem o mundo de onde chega ou parte a imagem.
Observam-se ao olhar integrados no cérebro; estão na cabeça. Pelos limites se englobam e vêm-se olhando o corpo.
Fascinadamente distanciados pela visão, ascenderam sobre os outros sentidos. Envolvência das sombras com que os olhos se turvam e não relatando, porque só para si olham, um dia apercebem que o inanimado tem capacidades de voar. É o vento a fugir-lhes!
Quando o corpo pergunta à cabeça o que os olhos lhe dizem, estes, por serem quem faz os padrões da História, evitam contar para dentro o que fora não vêem. Mas há temor quando o corpo lhes pergunta o que tinha sido aquilo. Não existe imagem. Só vento.

A terceira comemoração

No dia 1 de Abril de 1996 foi inaugurada a ligação aérea entre Lisboa e Macau dos voos da TAP- Air Portugal, que terminaram no dia 31 de Outubro de 1998, com 536 voos efectuados, cerca de 120 mil passageiros transportados e 4650 toneladas de carga nos dois anos e meio de operações, no qual resultou um prejuízo de 200 milhões de patacas. Números frios, sem serem analisados à luz dos acontecimentos e da História, o que ficará para mais tarde. Se no início, os voos faziam escala em Bruxelas e Bancoque, já para os finais paravam também em Istambul.
Invocam estas três cidades, a par de muitas outras como Bagdad, Madrid, Paris, Estocolmo e países como a Líbia, Síria, Afeganistão e de tantos outros locais onde explodem bombas (sempre condenável), a emoção de uma profunda tristeza e pesar perante o estado de extremos a que chegou o mundo.
O explosivo estar em competição, no qual todos estamos investidos, leva a sermos vítimas da nossa própria violência com que enquadramos o Outro. Observando-o, ele só existe no que dele entendemos. Assim são também estas palavras escritas, que significam apenas o que delas compreendemos e não, a ideia de quem as redigiu. casa escul 8
Sente-se que se encerrou um ciclo, onde a Europa, fruto de um colonialismo de quatro séculos, se auto recria como a Civilização Universal, pois considera-se o Centro do mundo. Mas como o globo terrestre é redondo, esse centro afinal não passa de uma imagem mental cultivada pelo ignorar, o que para além de si existe. E em 2015 na Europa, o caos ganha consciência popular num mundo fechado e reduzido a um ponto de interseção (∩), criado pelo nosso subconsciente, resumindo-se ao individual Ser, pelo que Eu tenho de material. E só querendo saber o que não nos contradiz, reduzimos ao ponto esse Espaço de entendimento.
Assim fazemos a nossa vida, sem querer saber o que viemos ao Mundo fazer. Com as realidades padronizadas na propaganda e publicidade e fruto de uma educação cuja racionalidade lógica proveniente de mentais imagens trabalhadas há dois mil e quinhentos anos, nos dão a razão Absoluta. Com esse padrão, o Ser Humano é superior ao Animal e assim transpondo-nos para além do Reino Animal, somos pertença de um Reino Superior, o do Ser Humano, que apenas há sessenta mil anos tomava consciência da sua existência.
Consciência que traduz um momento tão curto quanto a felicidade que trazemos dessa realidade de Paraíso, ou longo, na guerra entre os eles, pois, como refere Teixeira de Pascoais, o “futuro é a aurora do passado”.
Deixando esse momento de Paraíso, pois a terra era pequena para tanta gente, partindo como nómada, sedentariza-se ao descobrir novos locais convenientes mas, quando as condições de sobrevivência começam a tornar-se aí também difíceis, de novo um grupo tem de partir. Assim de lugar em lugar, entrando em mundos cada vez mais hostis e locais inóspitos, encontramos a Terra toda habitada por seres vivos.
Na intestinal luta de sobrevivência, primeiro contra os selvagens animais que reclamam os locais onde desde sempre os seus ancestrais viveram e já com o uso de utensílios como armas, os matamos para a nossa alimentação aliar a carne com os colhidos frutos, raízes e cereais selvagens, que começam a rarear. De uma táctica, para a caça de animais de pequeno porte, até à estratégia usada para conseguir abater os gigantes mamíferos se foi prolongando a instrução do reconhecer a Natureza.
Devido a uma carestia de alimentos e um aumento das populações, em dedução realiza-se há dez mil anos a Revolução Agrícola, em terrenos cuja água o propicia. Esse novo método de produzir alimentos, que no início e devido a terem uma menor qualidade nutricional provocou a morte a muita gente, levou ao aparecimento da sedentarização permanente, com a domesticação de animais. Assim a origem de dois diferentes estares: o de sedentário e o de nómada, a viver pelas estepes no pastoreio dos rebanhos.
Dividia-se o Céu entre os que pelo Calendário Solar viviam, presos aos ritmos ligados à Agricultura e os que sem tecto fixo usavam a Abóbada Celeste, com os cinco planetas e a Lua, tal como o Sol, para regular o estar. Fica o Universo com outra Unidade, que não a feita só nos doze meses, nos vinte e quatro termos chineses, com que se compõe o 1 feito no 6, onde a trindade é dual e individualmente só feita pelo conceito de ilha. Conjugando pelo espelho no 5, englobamos pela reflexão e o que em cima (Céu) se encontra, é o que se passa na Terra e daí uma nova Unidade se des-cobre, sendo o conjunto maior que as partes. Pensamento Continental, que encobre o Uno de todos os números no 1.

O que fica de fora, apenas na interseção

Se a sociedade foi progredindo nas duas diferentes vias, os sedentários e os nómadas, cada um radicalizou-se na visão que tem de si e do outro. Uns fecharam-se em si mesmos (no Eu) e pelos direitos individuais promovem uma cultura aberta, mas apenas ao que não contradiz essas Verdades e tal como S. Tomé está o ver para crer, só pela matéria em pensamento concreto as aceitam; – já sem a Gramática necessária para atingir o pensamento infinito e abstracto, que combina a matéria com o Todo e como energia, está para além dela, forma.
É um Espaço e logo há, em retenção da fonte, quem condensando a energia em ligações iónicas, dela se apropria e reconhecendo-a só pela material idade, racionaliza na lógica científica de laboratório e retirando-a da unidade infinita, isolando, procura as causas para chegar ao efeito pretendido. É nessa ideia ainda hoje dada pela Instrução e Educação, ligando-nos pelos mundos físico (e com pouca química), dos desejos e de um pensamento concreto, para criar ilusórias imagens teatrais de cinema, com heróis e ídolos, que no fim são comuns mortais caídos em desgraça e no 4 quarto montam o filme sem conseguir enxergar o que a nível etéreo está, como reflexo dessa materialidade até aos 9 mundos que fazem o Universo.
Nessa qualidade, a nossa sedentarização domesticou o animal e o que dele temos ainda como herança. E se antes havia Ginasium, onde se debatia em filosóficas questões a Existência, agora apenas resta a militarista e científica educação espartana, cujo modelo é já o da máquina e não só para o Desporto. Nesse modelo de competição, ciclo do Trato iniciado há cinco mil anos, o Deus Superior cujo Absoluto não vem da Autoridade Natural, mas da Estatutária de um pensamento racional, lógico, dedutivo, dá como resultado o de um animal que se deixou cair na rede e sem intuição, chega pela entropia agora ao fim. Sem regras, senão as leis que agrilhoam o Ser Vivo, vive perdido no caos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here