Diáspora do Desejo, Milan Kundera

Manuel Afonso Costa -
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Kundera, Milan, A Ignorância, Asa, Lisboa, 2001
Descritores: Literatura Checa, Nostalgia, Emigração, Exílio, Comunismo, Identidade, Democracia, Liberdade, ISBN: 9789724125862

Milan Kundera nasceu no dia 1 de Abril em Brno, na antiga Checoslováquia, hoje República Checa. Foi em tempos militante do Partido Comunista Checoslovaco do qual viria a ser expulso em 1950. Em 1956 foi readmitido, mas finalmente em 1970 foi expulso, desta vez definitivamente, desta vez teve por companheiros de (in) fortúnio, entre outros Vaclav Havel. Claro que esteve envolvido na Primavera de Praga em 1968, o que significa que as suas posições há muito tempo tinham deixado de ser ortodoxas se é que alguma vez o foram. Lembre-se que a Brincadeira data de 1967. Durante o período de ocupação do território pelas tropas do Pacto de Varsóvia, com Havel e outros participou num movimento de carácter reformista socialista mas contra o totalitarismo soviético, do qual desistiu em definitivo em 1975, ano em que abandonou a Checoslováquia para se exilar em Paris. Veio a tornar-se cidadão francês em 1980. Pode-se considerar que o estilo de Milan Kundera vai no sentido de uma tradição da Europa Central e em particular do eixo Viena-Budapeste e que muito deve a autores como Robert Musil e Herman Broch, mas também a escritores ingleses como, em particular, Henri Fielding, pelo modo como tece uma imensa tapeçaria de digressões e ensaísmo filosófico. Para além da sua obra-prima eu destacaria os romances, A Brincadeira, A Imortalidade e o ensaio A Arte do Romance entre muitas outras obras. Nenhum dos seus livros de ficção alcança a grandeza e a mestria de A Insustentável Leveza do Ser. Uma obra-prima só ocorre na vida de um escritor uma vez.

Diáspora do Desejo

Estamos sempre a aprender. Isto não é um dístico de vaidade ou arrogância, é mesmo e pelo contrário a assunção de uma humilde autocrítica, que me seja perdoado o recurso a esta expressão com conotações tão obscenas. Vem isto a propósito da leitura de mais um livro de Milan Kundera, incontornável autor de uma brilhante e vasta obra.
Repito-me por vezes insistindo sobre o facto de que as melhores obras de literatura da Europa Central possuem um sabor ensaístico que as distingue da maior parte da literatura de ficção da Europa Ocidental e mais particularmente ainda uma tonalidade acentuadamente cosmopolita e de vanguarda. Comparativamente à literatura francesa e mais ainda à literatura anglo-saxónica que contudo só se torna inequívoca na sua versão norte americana, as literaturas da Mitteleuropa, austríaca, húngara, checa e balcânica, em particular, apresentam sempre sinais de uma dimensão extra romanesca; ou seja, histórica, ensaística, e mesmo filosófica. Neste texto, de Kundera, ensaio ou novela que talvez seja o que ainda assim melhor se lhe coaduna, estamos sempre a ser surpreendidos por considerações que colidem com a nossa interpretação e sentido da conveniência entre os factos históricos e culturais. Feito depois um balanço final chegamos à conclusão de que afinal o edifício das nossas certezas não é assim tão abalado quanto isso, mas o choque e a surpresa não podem deixar de ser assinalados.
Vamos ao nosso caso concreto para melhor nos entendermos. Tenho para mim e já o disse aqui nas páginas deste jornal, nos textos que tenho vindo a publicar, que o melhor da cultura europeia do século passado e já na transição do século XIX para o século XX podia ser associado aos intelectuais da chamada Mitteleuropa e em particular aos intelectuais judeus. É espantoso o número de artistas e escritores e até filósofos com esta característica étnica, digamos assim com brevidade, que se evidenciaram nas suas actividades com assinalável mérito e brilho. 3316P14T1
Isso não pode ser desmentido, nem é o objectivo destas minhas considerações, por todas as razões, intelectuais, estéticas e até afectivas. Claro que a afectividade é multiforme e não se justificaria eventualmente se não contivesse os pressupostos de uma profunda solidariedade ideológica inseparável dos conceitos de alteridade, diáspora, exílio e desenraizamento. Desde logo porque estes conceitos são a matriz e os alicerces da minha própria posição sobre os temas que podem ser trazidos à colação: identidade, cosmopolitismo, concepção artificial e não orgânica da sociedade e do Estado. Provavelmente não sou só eu que se habituou a relacionar os judeus com uma cultura profundamente cosmopolita, assente em mecanismos de Identidade reduzidamente nacionalistas e até no limite a rasar os informes de uma cultura apátrida. A segunda guerra mundial e a perseguição que lhes foi movida com a consequente diáspora confirma-o e inscreve-se como um dos maiores fenómenos históricos do nosso tempo contemporâneo, com implicações inquestionáveis. Para o Mal e para o Bem.
Vem ao caso a digressão, a meu ver notável, que Kundera faz sobre o judeu austríaco, Arnold Schoenberg, a propósito de algumas questões que sibilinamente lhe foram colocadas por um jornalista americano, já o músico e teórico da escala de doze tons se encontrava há catorze anos afastado da sua pátria. A pergunta ia no sentido de querer saber se Schoenberg sentia saudades da pátria. A pergunta era sibilina pois sendo a Áustria a pátria do músico de Viena, a verdade é que o artista sempre identificou a Alemanha, a cultura alemã e a língua alemã, como a sua pátria espiritual. É nesse ponto que a posição de Schoenberg nos parece atípica pois exprime uma pertença muito vincada, enquanto judeu, relativamente à pátria de acolhimento e de resto nem sequer a essa mas a uma pátria culturalmente mais alargada e englobante o que o identificaria com a velha estirpe teutónica, o que afinal não corresponde à verdade. O que é verdade é que a germanização de Arnold Schoenberg foi consistente ao ponto de ter renegado o judaísmo e se ter convertido ao cristianismo na sua versão mais alemã, o luteranismo. Viria contudo a regressar à religião judaica em Paris no contexto da primeira fase do exílio, em consequência do nazismo, que o levará finalmente até à América, como a tantos outros.
Não foi para mim surpreendente o facto de Schoenberg, ter assumido a sua nacionalidade europeia, muitos judeus da diáspora assumiam as suas nacionalidades migrantes quase sempre com grande galhardia. Já é mais estranha a sua tão grande fidelidade à Alemanha e à cultura alemã, uma vez que os seus antepassados próximos eram originários da Hungria, já europeus, portanto, mas não alemães. Seguramente que a inserção de Schoenberg, pela educação musical, no espaço da tradição da língua alemã e isso aconteceu com muitos outros, artistas, músicos e escritores em particular assim como filósofos, poderá ter desempenhado um papel importante na redefinição de uma pertença acima das oscilações identitárias ligadas aos espaços físicos e políticos. Teríamos assim uma redefinição do quadro: Primeiro judeu, do ponto de vista étnico e histórico, depois húngaro pela origem familiar recente, mas por esta pertença já enquadrado num espaço germanizado, uma vez que a Hungria se integrava no espaço geopolítico do Império Austro-húngaro de que Viena era a capital. Aliás foi justamente em Viena que o músico nasceu a 13 de Setembro de 1874. Finalmente por esta via vienense acabaria por se ligar à língua alemã e finalmente à cultura alemã.
Milan Kundera explora estas contradições da vida espiritual de Schoenberg, fazendo-o de uma forma articulada com conceitos e com vidas de personagens, em particular Irena, ou seja a personagem principal. Se o conceito motor de A Insustentável Leveza do Ser era a compaixão, o conceito motor deste romance, A Ignorância, é a ideia de nostalgia, que o autor trata etimologicamente na sua complexa evolução histórica e linguística e ainda na sua diversificação semântica. A personagem principal do romance, Irena, é uma checa há alguns anos a viver em Paris, para onde emigrou na circunstância da ocupação da Checoslováquia pelas tropas comunistas do Pacto de Varsóvia, como aconteceu aliás com o próprio Milan Kundera. Irena, a fazer fé pelos dados cronológicos terá saído de Praga logo na época da invasão em 1968, pois agora, no romance claro, está há mais de 20 anos emigrada. Estaremos portanto em 1989. A sua grande amiga Sylvie espera entretanto que no contexto revolucionário que começa no leste da Europa a partir de 1988, Irena deseje voltar à pátria; seja pela pátria seja pelo menos pela revolução.
Sylvie, a sua amiga, é animada, ainda, pelo espírito da chamada Grande Marcha, tal como Franck o era em A Insustentável Leveza do Ser. Esta crença da marcha para a liberdade é um avatar ideológico de longa duração, uma das muitas metanarrativas da Modernidade, expressão de um sentimento tão europeu e francófono, herdado da Filosofia das Luzes. Só a título de curiosidade, foi justamente essa crença nas Grandes Marchas, pelo progresso, pela liberdade e pela paz que determinou que a cultura europeia tivesse entrado em crise na segunda metade do século XX.
A crise foi em larga medida estimulada pela falência das metanarrativas, falência essa, ditada, justamente, por eventos como a segunda guerra mundial e o nazismo mas também paradoxalmente acelerada pela débacle do Império Soviético. O Império Soviético, o seu colapso, tão abrupto e rápido, levou consigo, pelo menos durante um certo tempo, o sonho igualitário do Comunismo. Provavelmente nada de mais ambivalente aconteceu na Europa em toda a sua história. O fim do comunismo representou o colapso de um mito, de uma crença historicista enraizada na Europa, e representou também a agonia de uma perspectiva escatológica, embora secularizada, que produzira sentimentos tão contraditórios e apaixonados.
O fim do comunismo foi para muitos, o fim de um sonho e para outros tantos, o fim de um pesadelo. Em boa verdade, e eu já o escrevi num texto sobre a pós-modernidade, o fim do comunismo encerrava em si mesmo a dupla dimensão de um sonho e de um pesadelo em simultâneo. Só na dinâmica diacrónica da história é que o fenómeno se desdobrou e pôde ler-se como um sonho que degenerou em pesadelo, que afinal há muito já tinha degenerado em pesadelo, conquanto mantivesse ainda uma enorme aura de esperança e sonho. Eu digo paradoxalmente, de facto por isso mesmo, porque apesar do que na realidade e na prática representava, o comunismo era ideologicamente ainda para uma boa parte da consciência ocidental, embora cada vez menor, uma ideia emancipadora e revolucionária, ou seja, uma metanarrativa e uma Grande Marcha.
É balizado por estes pressupostos que Kundera desenvolve numa digressão longa, para minha surpresa, um longo artigo de reflexão sobre a figura de Schoenberg. O desenvolvimento teórico é apaixonante, mas isso não é nada surpreendente, pois Kundera que estudou música a sério é um largo e profundo conhecedor da matéria. A surpresa radical estala quando o autor me coloca perante uma declaração de Schoenberg, em que este teria afirmado na sequência da sua invenção da escala dodecafónica, que “graças a si, a dominação, (não disse ‘glória’, disse Vorherrschaft, ‘dominação’), da música alemã, (ele, vienense, não disse música ‘austríaca’, disse alemã) estaria garantida, durante os próximos cem anos” (p. 14).
Como se sabe, alguns anos depois estaria exilado em Paris, banido e ostracizado por essa mesma Alemanha de cuja Vorherrschaft se ufanava e cuja glorificação quisera garantir com a sua própria arte. Mais surpreendido fiquei, mas convencido, por agora, quando Kundera exacerba um dado absolutamente inesperado para mim e que é a ligação da arte de Schoenberg a mecanismos de enraizamento no solo alemão, a fazer fé que o músico teria usado esta expressão. Ora, usou mesmo, o que para mim é aviltante pois sempre li a obra de Schoenberg, e cito tantas vezes o poema de Jorge de Sena, na Arte de Música em que o poeta glosa literariamente o Concerto para Violino e Orquestra do célebre músico vienense, afinal alemão, como sendo a grande expressão de uma modernidade cosmopolita e quase apátrida. Para mim o concerto é a expressão de uma sensibilidade desenraizada, pessimista e agónica dos balbuciamentos de uma modernidade que sofre os efeitos da primeira crise intelectual e moral ao mesmo tempo que assinala o triunfo de um individualismo decadente e desiludido. Mas pelos vistos as coisas não se passavam assim na consciência finissecular de Schoenberg e em vez de se sentir como eu sempre o vi, e Kundera também, como alguém que estava a escrever o fascinante epílogo da História da Grande Música Europeia ter-se-ia sentido antes o prólogo de um glorioso futuro.
Confesso a minha enorme estranheza e perplexidade.
Mudemos de assunto. Sempre soube de uma forma sobretudo intuitiva que alguma coisa me incomodava nas estratégias identitárias e nos seus cultos repetitivos e reiterados. A obsessão pelo mesmo, a invocação exaustiva de memórias sempre as mesmas que constituem por exemplo a argamassa de coesão dos grupos sedentários, as tertúlias dos cafés de bairro, os clubes que se frequentam sempre para as mesmas actividades, as inevitáveis conversas redundantes e circulares, das quais nunca se sai. E também por um processo intuitivo me apercebi das vantagens ontológicas da rotura, do abandono, da recusa do quotidiano, da fuga para longe ou em última instância mesmo para perto, a procura de um escondimento quando a fuga não é possível. Nunca fui de grandes rotinas e de grandes fidelidades. É vital e visceral em mim desaparecer para me salvar das tenazes da repetição viciante, da acédia, das monotonias que preparam o logro das grandes armadilhas, as teias de aranha dispostas nos recantos, o pratinho de mel envenenado sobre a eterna mesa sempre posta e ali à mão. Não vale a pena explorar os elementos ontológicos e metafísicos da fuga, do retiro ou da aventura, eles são sobejamente conhecidos e explorados pela literatura e pelo cinema até à exaustão. Deixemos isso portanto de lado agora. Já escrevi de sobejo sobre o tema, lathe biosas, hoc erat in votis, redi ad cor, purga, sublimação, ascese etc. Centrar-me-ei antes na problemática levantada por Kundera nesta novela: a questão da narrativa. A questão central e dramática da necessidade da narrativa. Diz o autor que Ulisses, que lhe serve como paradigma homológico e fac simile, se aborrece infinitamente pois todos lhe falam de Ítaca, quando o deveriam interpelar, no sentido de o estimular, sobre a sua odisseia! Não fora o caso de que antes de acostar a Ítaca ter sido levado para o País dos Feácios por causa de um naufrágio e teria morrido intoxicado de acontecimentos sem ninguém para desabafar, o termo só pode ser este. Ora no núcleo claustrofóbico das relações identitárias só podemos desabafar a redundância da nossa história partilhada, comum, aquela que no fim de contas é menos idiossincraticamente nossa a título pessoal e privado, ensimesmados em torno de lugares comuns exaustivamente partilhados até à náusea. Isso é o que justamente acontece nas comunidades fechadas, nas comunidades emigrantes por exemplo, em que os dispositivos identitários adquirem os contornos de uma tara, narrativa tautológica, obsessiva, onde jamais pode brilhar a disfuncionalidade de uma outra narrativa puramente individual, única, inovadora, capaz de por si fazer estalar o verniz e a argamassa do idêntico, instituindo a perversão da surpresa e do inesperado, o escândalo do imprevisto, a agressão disfórica do inusitado. É deste modo que eu sou levado a entender por exemplo a necessidade do Imperador Kublai Khan mas também a de Marco Polo, nas Cidades Invisíveis de Calvino. Precisam ambos daquele suplemento vital. Não é nada difícil aceitar que isso aconteça mais facilmente no contexto da diáspora e na relação entre estranhos, desconhecidos. Não podendo por ora dizer mais do que isto, penso que se percebe que tudo isto caracteriza o poder da efabulação, o poder comunicativo inaugural da paixão amorosa, da descoberta, do encontro acidental, o poder afinal do desejo. Só o estrangeiro, só o estranho, só o desconhecido, provocam de forma radical o nosso ínsito desejo ficcional e efabulatório, quando, tal como provavelmente o Rei dos Feácios terá feito com Ulisses e Kublai Khan fez pela mão de Calvino, e vindo ao nosso encontro, nos diz: Quem és tu? De onde vens? Conta! Narra-nos a tua vida, a tua história, pois ela será tal como todas as vidas, única e exemplar. Em todos os seres humanos está adormecido um efabulador e um aventureiro. Só no quadro de uma relação de alteridade é possível furar a carapaça da identificação ao mesmo, romper as fronteiras rígidas da rotina, da tirania quotidiana, previsível, programada, que nos amarra como uma armadilha.
Note-se como, e não deixa de ser muito esclarecedor, em várias línguas o sentimento de desejo nostálgico, ou saudoso mesmo, se estrutura em torno, em simultâneo, dos conceitos de falta ou ausência e de estranheza, no sentido em que o estranho é o estrangeiro e marca central de alteridade. Na língua inglesa o sentimento exprime-se através do verbo to miss, em português faltar. Dizer que me tens feito falta é o mesmo que dizer que sinto saudades de ti. Mas em castelhano é ainda mais interessante a denotação, pois é mesmo estrañar que exprime imediatamente saudade ou nostalgia, …. Tenho-te estrañado tanto, significa que me tens feito falta, que sinto saudades da tua presença, etc.
Os dados estão assim lançados para que se possa ligar de uma forma dinâmica e mesmo dialéctica, a alteridade, o amor, o estrangeiro (estranho) e a narratividade. Para mim só neste contexto dinâmico faz sentido estudar e desenvolver o conceito bem português da saudade, ou seja enquanto potencialidade narrativa do desejo.

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