“O Livro do Desassossego” chega a Londres

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* Por Michel Reis

“O coração, se pudesse pensar, pararia.”

Van der Aa: The Book of Disquiet”, o espectáculo multimédia do holandês Michel Van der Aa, foi apresentado nos dias 24 e 25 de Fevereiro em Londres, no qual a maestrina portuguesa Joana Carneiro dirigiu a London Sinfonietta, uma das mais conceituadas orquestras sinfónicas britânicas. Com base nos escritos autobiográficos de Bernardo Soares (“semi-heterónimo” de Fernando Pessoa, segundo o próprio), a peça, apresentada pelo Southbank Centre, subiu ao palco do Teatro Coronet numa versão inglesa, com o actor Samuel West a fazer de Bernardo Soares.
Esta peça de teatro musical para actor, agrupamento e filme foi apresentada pela primeira vez na língua alemã, em 2009, em Linz, ano que a cidade alemã foi capital europeia da cultura. Em Fevereiro de 2010 chegou, na sua versão portuguesa, à Casa da Música no Porto, com João Reis como protagonista. O espectáculo de Van der Aa é descrito como um misto de representação com música e vídeo no qual, entre outros, a fadista Ana Moura está presente.
Joana Carneiro, maestrina titular da Orquestra Sinfónica Portuguesa, no Teatro Nacional de São Carlos e tida como uma das melhores regentes do mundo, conta já com uma larga experiência internacional. Em 2009, foi nomeada directora musical da Berkeley Symphony, nos Estados Unidos e Maestrina Convidada da Orquestra Gulbenkian. Seguiram-se concertos com algumas das melhores orquestras de França, Canadá, Espanha, Suécia, Nova Zelândia e Austrália.

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Van der Aa escreveu o seu próprio libreto a partir do livro de Pessoa, a maior parte dito pelo actor, sentado a uma secretária. Ecrãs de vídeo em volta deste oferecem imagens filmadas de outras personagens mencionadas nos textos: um major reformado, um varredor de ruas e uma rapariga com que Soares sonha depois de a ver numa litografia; chama-lhe Ofélia e é retratada em filme pela cantora de fado Ana Moura. Estes seus alter-egos interferem de modo crescente até que surge um diálogo virtuoso entre o actor e os heterónimos, que a seguir desaparecem gradualmente.
Os temas explorados nos escritos de Fernando Pessoa complementam as ideias exploradas no trabalho de Michel Van der Aa. Tal como as suas obras recentes exploram a ideia de identidade, o Livro do Desassossego de Pessoa está escrito na perspectiva do alter-ego de um guarda-livros chamado Bernardo Soares. Pessoa cria diferentes personagens para tornar visível um diálogo interior. Cada um dos heterónimos tem a sua própria biografia, língua e origens, diz Van der Aa. É adequado, então, que estas personagens fracturadas tenham as suas próprias identidades musicais, pelo que o compositor considera The Book of Disquiet como uma das suas partituras mais coloridas. Van der Aa descreve os escritos de Pessoa como densos, bastante pesados e por vezes sombrios, mas cheios de sagacidade e explora as implicações das ideias do poeta na era moderna. Refere ainda que, na realidade, o protagonista não vive; ele escreve sobre os seus amigos ou fala com eles em sonhos porque dessa forma pode afastar-se deles. Não é capaz de se ligar ao resto do mundo. A concluir, refere que o ecrã do computador é a janela e alguns de nós vivemos no Facebook em vez de em pessoa.
Apropriadamente, o compositor concebeu a obra multimédia como um todo em vez a separar nas suas componentes. As diferentes componentes sempre lhe surgem em paralelo uma às outras – quando está a escrever a música pensa no que está a acontecer no filme ou no palco e como estas camadas se encaixam umas nas outras. Refere que não é uma peça com música de fundo – é teatro musical. A música conta a parte da história que o texto não conta e tudo se encaixa.
O Livro do Desassossego é considerado uma das maiores obras de Fernando Pessoa. É um livro fragmentário, sempre em estudo por parte dos críticos pessoanos, tendo estes interpretações díspares sobre o modo de organizar o livro. Existe uma versão resumida do mesmo, com os trechos mais belos e representativos da obra, intitulada Palavras do Livro do Desassossego. Uma das estudiosas de Pessoa, Teresa Sobral Cunha, considera que existem dois Livros do Desassossego. Segundo esta última, que organizou em conjunto com Jacinto do Prado Coelho e Maria Aliete Galhoz a primeira edição do livro, publicada apenas em 1982, 47 anos depois da morte do autor, existem dois autores da obra: Vicente Guedes numa primeira fase (anos 10 e 20) e o já referido Bernardo Soares (final dos anos 20 e 30). Já outro estudioso de Pessoa, António Quadros, considera que a primeira fase do livro pertence a Pessoa. A segunda fase, mais pessoal e de índole da escrita de um diário, é a que pertence a Bernardo Soares.
Quando Fernando Pessoa morreu em 1935, deixou uma arca cheia de escritos incompletos e não publicados, entre os quais estavam as páginas que constituem a sua obra-prima póstuma, O Livro do Desassossego – a autobiografia do seu semi-heterónimo Bernardo Soares. Mais de três décadas depois de ter sido revelada ao mundo, a partitura de Michael Van der Aa transforma a colecção de vinhetas de sonho e anedotas autobiográficas de Pessoa numa obra hipnótica que combina a palavra falada, com música, electrónica e vídeo, examinando a verdadeira natureza do sempre inapreensível ego.

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