Associação dos Amigos do Livro é reactivada hoje com uma série de debates

Hoje Macau -
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“Conversas sobre o Livro” é uma série de seis conferências que pretendem trazer a literatura de Macau para a ribalta. O pontapé de saída será dado na Fundação Rui Cunha por Tereza Sena que falará do património literário da cidade e da necessidade de o classificar. “Nem imaginam a procura que existe pelo mundo fora sobre o corpus literário de Macau”, diz-nos, enquanto sonha com uma base de dados que “nos ajude a ler-nos uns aos outros”

Envolver editores e autores e promover a literatura de Macau dentro e fora de portas é o grande objectivo da Associação Amigos do Livro (AAL), fundada em 2005, mas que volta agora a ser reactivada. Com o editor livreiro Rogério Beltrão Coelho na liderança, a Associação quer potenciar a importância de Macau como ponte cultural entre o Ocidente e a China, incentivar o interesse pelo livro e pela literatura e contribuir para a melhoria da qualidade literária.
A organização de palestras, como a que hoje se realiza na Fundação Rui Cunha, intitulada “Património Literário de Macau: Abordagem, Propostas e Projectos”, é uma das ferramentas a utilizar. E os responsáveis começam pelo princípio, ao debaterem a catalogação e identificação do espólio literário do território. No último trimestre, projecta-se uma “Semana do Livro de Macau em Portugal”.
“Há imensas pessoas de todo o mundo que procuram diariamente informação literária de Macau pelas mais diversas razões”, revela Tereza Sena, investigadora do Centro de Estudos das Culturas Sino-Ocidentais do Instituto Politécnico (IPM) e convidada a orientar a conversa desta noite.
Para a académica, é necessário promover uma “chamada de atenção para todo o corpus literário de Macau” pois, salienta, “é um património valioso e com imensas aplicações diferentes, da complementação do património construído à própria definição de uma política cultural”.
Para Tereza de Sena, a compilação deste património escrito é um trabalho que urge ser feito e, explica, “pode ser abrangente e atingir tudo o que foi escrito em Macau e sobre Macau ou pode limitar-se a uma visão mais restrita, ao que chamamos de literário: a escrita criativa, a narrativa, etc.”. livros
A professora, todavia, preferia não colocar restrições e avançar para a catalogação mais abrangente possível avisando, contudo, para a necessidade de um apoio institucional sólido pois trata-se de um trabalho de grande fôlego que precisa de pessoas, tempo e recursos.

Todas as línguas e todas as histórias

Macau é conhecido mundialmente pelo jogo mas, alerta Tereza Sena, “há imensas histórias interessantes que podiam e deviam ser reveladas”. Salientando o facto de Macau ter sido um importante entreposto comercial e cultural desde o séc. XVI, a responsável diz que existirá muita informação dispersa que deveria ser coligida “em todas as línguas”, diz Tereza Sena, prevenindo que esta ideia não tem “qualquer visão étnica mas sim a do levantamento de um corpo documental, ou textual, que pertence a Macau”.
A este respeito, mostra-se mesmo muito curiosa sobre os “tesouros que existirão para descobrir nas diversas línguas asiáticas”. Para Tereza Sena seria importante ter toda essa informação mais centralizada, mais acessível e a responsável manifesta um desejo: “que a partir daí nos pudéssemos começar a ler uns outros e a falarmos entre comunidades”.

Promover em casa e lá fora

“A produção literária em Macau é curta porque não há incentivos”, diz-nos Rogério Beltrão Coelho, o presidente da AAL. Daí que os grandes objectivos sejam a criação de condições para potenciar a actividade editorial em Macau, seja pela instituição de apoios financeiros para produção e divulgação e mesmo a organização de concursos porque, para Beltrão Coelho, “o que a literatura de Macau necessita para crescer é de ser conhecida no exterior”.
Para o responsável da AAC “falta exposição mediática” e este manifesta a necessidade de pensar de forma diferente e inédita, daí que surja esta Associação que pretende reunir autores e editores tanto de língua portuguesa como chinesa.
Na perspectiva de também editor há falta de envolvimento das entidades oficiais que considera serem muito mais participativas no passado: “antigamente o governador ou o presidente do Instituto Cultural estavam presentes e isso dava outro valor às coisas, arrastava pessoas”, diz.
Essa ausência, no seu entendimento, é uma das razões pelas quais antes estariam cem ou 200 pessoas no lançamento de um livro e agora apenas umas 20. Mas Beltrão Coelho também aponta o dedo à comunidade pois, segundo o dirigente associativo, “as pessoas hoje vivem em pequenos clãs, em pequenas tribos e normalmente reúnem-se apenas para as coisas às quais o seu o seu grupo está ligado. Não há o sentido de comunidade que existia antes”, afirma.

Livros que morrem à nascença

Em relação aos hábitos de leitura em Macau, Beltrão Coelho reconhece que precisa de estudos para os perceber falando mesmo na necessidade de se efectuar uma sondagem que os revele e se as pessoas estão, por exemplo, mais inclinadas para os suportes digitais ou para a edição clássica em papel. De uma coisa, no entanto, tem a certeza: “há livros que morrem à nascença”, diz, adiantando que “as editoras privadas ainda tentam fazer alguma coisa mas muitos dos lançamentos institucionais acabam no armazém”.
“Falta promoção”, garante Beltrão Coelho, que diz mesmo que muitas vezes esses livros nem chegam às livrarias: “passado um dia ou dois do lançamento vai-se à livraria e o livro não só não está lá como provavelmente nunca irá estar”, revela.
A primeira das cinco “Conversas sobre o Livro” previstas acontece hoje pelas 18h30, na Fundação Rui Cunha. A entrada é gratuita e terá tradução simultânea em Cantonês.

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