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E assim entrou o ano do Macaco, saltando de liana em liana, com o destempero que se lhe reconhece. Ano de macacadas, de simiescas caretas e roletas do azar a girar sem descanso, é isso que Macau deseja ou, sinceramente, espera. Que volte a excessiva fortuna, a do facilitismo, a mesma que vai sempre para os mesmos e nunca para os outros. A fortuna que caía desse céu a que chamam corrupção e que foi uma excelente casca de banana para ver escorregar os poderosos que nela depositaram as suas apostas.

Aqui temos pois o perigoso Macaco de Fogo, animal-rei na mitologia chinesa, capaz destas e demais magias, senhor das artes e dos mistérios. Nosso primo direitíssimo, desde Darwin; parte constitutiva do Homem, na “Peregrinação ao Oeste”, o macaco incomoda, chateia e assusta. Talvez pela sua proximidade na cadeia evolutiva e por nos lembrar a desagradável realidade de sermos mesmo animais. E, atendendo às últimas décadas, cada vez menos racionais, sobretudo enquanto espécie.

Certo é que aqui por Macau todos têm a certeza de que cada macaco continuará no seu galho, que isto de igualdades é muito bonito mas é lá no continente. Aqui na RAEM, mandam os que cá estão, espera o macaco folião do ramo dourado. Quanto à primalhada que por aí anda, que se amanhe e coma cascas que as bananas estão pela hora da sorte. Ou seja, é só de vez em quando. Já se viu, ainda agora quando do chumbo da Lei Sindical, que a RAEM é uma árvore muito complicada: os macacos de cima tudo fazem para não deixar trepar os macacos de baixo, sem perceberem que na selva agora prima outra lei. Enfim, os macacos de cima têm um legítimo medo de brincadeiras pois sabem que foi a brincar, a brincar, que o macaco tomou liberdades desajustadas ao normal fluir da vida em família e sociedade.

Quer essa macacada que para aí anda ter direitos?! Isso é que era bom: isto não é uma república das bananas! Aqui mandam os mandões e os outros são seres da margem, que andam à volta da mesa farta, em ânsia de migalhas. As macacas também não julguem põem a pata em ramo verde que a coisa não está para modernices. “Se os deixassem, acabávamos todos como os bonobos, numa rebaldaria daquelas que são tão antigas que já ninguém se lembra”, revelam os macacos de bem, em tom professoral. E o bando aquiesce, envergonhado da ousadia que vai contra a harmonia.

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Rimemos pois ficarão as vacas, depois de se irem os bois:

Cuidado, contudo, cuidado, que o macaco não é de confiança. Por vezes diz que canta mas, afinal, dança. Doutras diz que é adulto, portando-se como criança. É assim a macacagem: confunde estupidez com coragem e casino com lavagem. Nada que nos afecte ou mesmo que nos inquiete. Que nos tire o caro pão ou cause aflição. Não. O macaco é boa gente, assim como nós, e também mente. Se o faz de boca cheia ou ainda por encher, tudo depende do ramo no qual o deixam viver. Que isto de trabalhar não é bem para o macaco: no fim, olha pró bolso e sobra… o cheiro a sovaco.

Pobre animal que tanto sofre nesta terra desleixada. Cada vez tem menos ruas para fugir da manada. E pensa com os seus botões, ao gente aos borbotões: “vou mas é ficar em casa, resta-me essa prenda”, esquecendo não ter chavo, nem para pagar a renda. Queres fiado, meu amigo?, pergunta-lhe o senhorio. Por aqui disso não há: vai dormir ao pé do rio.

Em Macau manda o mercado, quando isso é avisado: se é caso de milhões, vai tudo prós macacões; quando alguém trabalha bravo, paga-lhe com um avo. E não diga de onde vem ou p’ra onde se desloca, se quiser sobreviver, macaco faça de foca.

Mas deixemo-nos de macacadas, de caretas para a geral. Viva, senhor animal, subi presto estas escadas, entrai nesta pobre casa que é vossa por um ano, pois que não é desumano de andar com grão na asa. E se lá para as calendas, ao invés de mais prebendas, já se vir o fundo ao saco, não faz mal, caros doutores, guardai os vossos temores: a culpa foi do macaco.

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