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Aturbulência já andava no ar desde Nanjing e quando a Embaixada chegou a Beijing, o problema das credenciais e da própria legitimidade da embaixada, no contexto do sistema tributário chinês, tornaram o ambiente hostil para Tomé Pires e a sua comitiva. E seguindo com Rui Loureiro: “Os mal-entendidos desencadeados pela disparidade entre as duas cartas são conhecidos sobretudo graças à missiva de Cristóvão Vieira. Contudo, talvez valha a pena chamar a atenção para uma outra versão, de origem chinesa, dos mesmos acontecimentos. De acordo com documentos coevos, o jurubaça principal da embaixada portuguesa, um chinês que dava pelo nome de Huo-che Ya-san (Huozhe Yasan), estabelecera excelentes relações com as autoridades provinciais, logo após o desembarque no porto de Cantão. Por sua própria iniciativa, e graças a uma generosa distribuição de dádivas, conseguira obter autorização imperial para Tomé Pires visitar Pequim como enviado do rei de Malaca. Porém, após a chegada à capital, o seu astucioso plano seria desmascarado pelo enviado do verdadeiro rei de Malaca, que chegou à corte chinesa quase na mesma altura.” O “jurubaça grande falleceo de doença”, enquanto decorriam as averiguações. Mas os restantes línguas, como resultado do inquérito imperial, foram decapitados em Pequim, acusados de “saírem fora da terra” e de trazerem “portugueses a terra da China”.
O falecimento do Imperador Zhengde precipitou os acontecimentos e não fosse o novo Imperador Jiajing (1522-66, que começou a governar logo em 1521, mas o ano de início de governação só conta após o novo ano chinês) a anular a intenção dos mandarins da corte de Beijing em executar Tomé Pires, tinha a História da primeira Embaixada terminado na capital chinesa.
Devido à suspensão obrigatória de todas as actividades após a morte do Imperador, Tomé Pires foi mandado sair de Pequim e regressar a Cantão, com os presentes que trouxera. Se o pseudo-embaixador Yasan tinha sido desmascarado e falecido por doença, agora o verdadeiro Embaixador dos folangji, Tomé Pires e os seus companheiros partiram em 22 de Abril. Data mais plausível que a de 22 de Maio, pois se o mau ambiente que os portugueses viviam já em Beijing durante o período de doença de Zhengde, após o falecimento do Imperador não permitia longas demoras e assim, dois dias depois deixaram a capital, a caminho do porto por onde tinham entrado na China. Foram conduzidos vagarosamente para Guangzhou, onde chegaram a 22 de Setembro de 1521. “Ao mesmo tempo, foram de Pequim mandadas instruções, por via rápida, para que, quando o Embaixador e os seus companheiros chegassem a Cantão, fossem presos, e que só depois dos portugueses terem evacuado Malaca e esta sido entregue ao seu legítimo rei, vassalo do Imperador da China, seriam aqueles postos em liberdade” A. Cortesão.

Hostilidade em Cantão

Apenas duas semanas antes da entrada em Guangzhou de Tomé Pires, tinham das redondezas fugido para Malaca três barcos portugueses, que participaram na primeira batalha entre chineses e portugueses em frente ao porto de Tunmen e só ajudados por uma tempestade providencial se salvaram de ir engrossar o número de portugueses nas cadeias chinesas.
“O embaixador (Tomé Pires) levado à presença das autoridades de Cantão e solicitado a escrever para Malaca, de acordo com a vontade do imperador, altivamente, como se sabe por uma carta de Cristóvão Vieira, recusou. Pela mesma fonte de informação sabemos que todos estiveram perante o puchanchi (tesoureiro provincial), de joelhos, durante umas longas quatro horas.” E continuando com Luís de Albuquerque: “.
É de crer que grande parte destes artigos apreendidos pelos chineses pertencesse a Tomé Pires, que já era rico antes de ir à China e decerto não deixou de procurar aumento à sua riqueza.”
“Vieira diz ainda que, na presença de Pires, arrolaram a fazenda confiscada, tendo o presente de D. Manuel ficado à guarda do Puchanchi” L. Albuquerque.

Para agravar a situação

A 4 de Agosto de 1522, chegara a Tamão a frota de seis velas comandada por Martim Afonso de Mello Coutinho trazendo como missão desde Lisboa consolidar a amizade que se julgava já estabelecida entre portugueses e chineses e conduzir um novo embaixador, pois tinha como certo que nessa altura Tomé Pires estaria de regresso. Ao contrário do que em Cochim fora informado por Simão de Andrade, em Malaca soube que em vez de se ter feito amizade com a China, ocorrera em 1521 uma batalha naval, de onde os portugueses saíram derrotados. Martim Afonso de Melo Coutinho “não obstante, decidiu continuar viagem, acompanhado por outro navio e um junco com Ambrósio do Rêgo e Duarte Coelho, que relutantemente, e apenas sob pressão de Jorge de Albuquerque, ao tempo Capitão de Malaca, consentiram em voltar à China, onde, no ano anterior, como vimos, tinham estado em sérios apertos. Coutinho partiu de Malaca com seis velas, em 10 de Julho e chegou a Tamão em Agosto de 1522″ A. Cortesão.
Em Malaca, sobre as andanças da Embaixada de Tomé Pires nada se sabia apesar de, pelos factos ocorridos no ano anterior, poucas esperanças havia de ter sido realizada com êxito. Não imaginava Martim Afonso de Melo Coutinho estar Tomé Pires e os que sobravam dos seus acompanhantes presos ali próximo, em Cantão.
Entrou Martim Afonso de Melo Coutinho a 4 de Agosto de 1522 com os seus barcos no porto de Tamão tão confiadamente, como se as instruções de D. Manuel para conseguir a amizade do Rei da China e estabelecer ai uma fortaleza, por si só valessem como lei. Foi no pior momento porque em terra, os chineses tinham Tomé Pires e seus companheiros, como ladrões e espiões. E com Luís Gonzaga Gomes seguimos: ” Os chineses, que se encontravam ainda excitados com a embaixada de Tomé Pires, receberam tão mal os portugueses que se travou uma rija batalha naval, no porto de Tamão, onde Martim Afonso de Melo Coutinho tinha entrado, descuidadamente, e donde conseguira escapar, a coberto da luta sobre humana travada pela barco de Pedro Homem que, obrando prodígios de incomparável valor, conseguiu atrair sobre si toda a atenção dos chineses até ser derrubado por um tiro.” “Os portugueses sofreram muitas baixas, perderam dois dos navios e o junco e, depois de vãos esforços para restabelecer relações com as autoridades cantonesas, regressaram a Malaca em meados de Outubro do mesmo ano.”
“Com tudo isto a situação de Pires ainda se tornou pior, se é possível. Os mandarins de novo lhe ordenaram que escrevesse uma carta ao Rei de Portugal, a qual o embaixador Tuam Hasam Mudeliar levaria a Malaca, a fim de que esta e o seu povo pudessem voltar ao antigo senhor; se não viesse resposta satisfatória, o embaixador não voltaria. Os portugueses receberam na cadeia uma minuta em chinês, da qual escreveram três cartas, a El-Rei D. Manuel, ao Governador da Índia e ao Capitão de Malaca, que foram entregues às autoridades de Cantão em 1 de Outubro de 1522. O embaixador malaio, como é fácil de compreender, não mostrou interesse especial em servir de correio de tais missivas, nem era fácil encontrar quem se quisesse encarregar de missão tão contingente.
Por fim, um pequeno junco com quinze malaios e quinze chineses partiu de Cantão em 31 de Maio de 1523 e alcançou Patane, na costa nordeste da Península Malaia. As cartas foram, segundo parece, às mãos do ex-rei de Malaca, grande intriguista, que se refugiara na próxima ilha de Bintang, e a quem não faltavam motivos para odiar os portugueses e, talvez mesmo, Pires em especial; mas nunca chegaram ao seu destino. Contudo, Ambrósio do Rêgo, que, nessa altura, tinha ido a Patane, soube, por um intérprete que costumava servir entre portugueses e chineses, quando estavam em paz, que Tomé Pires e alguns dos seus companheiros ainda se encontravam vivos em Cantão” A. Cortesão.

O fim trágico dos mercadores

Como Armando Cortesão refere: “Os mais importantes documentos para a história de Tomé Pires e sua Embaixada, depois do desembarque em Cantão, constam de duas cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo, escritas dessa cidade em 1524, das quais Barros se aproveitou largamente nas Décadas.”
Voltando a Luís de Albuquerque: “A partir daqui, as notícias sobre o destino dos prisioneiros são escassas, em alguns casos confusas, senão até contraditórias. No final de 1523, Ambrósio do Rego trazia a Malaca a notícia de que ainda viviam entre oito e treze cativos, contando-se Tomé Pires entre os sobreviventes; aos da embaixada ter-se-ão juntado, portanto, os prisioneiros das armadas a que os chineses deram batalha no porto de Tamão (que ocorreu no porto de Tunmen), nomeadamente Vasco Calvo. Todavia, se acreditarmos na carta de Vieira, seria de vinte e três o número de presos; de facto, ele relata que no dia 6 de Dezembro de 1522
Já A. Cortesão complementa: “Os mandarins enviaram um relato ao Imperador, o qual confirmou as sentenças. .
Cristóvão “Vieira menciona outros juncos que, por esse tempo, chegaram à China com portugueses, tendo sido todos atacados e as tripulações chacinadas. Do navio de Diogo Calvo ficaram presos, além de Vasco Calvo, sete outros portugueses e quatro servidores, os quais escaparam à matança por dizerem que pertenciam à Embaixada de Tomé Pires. Mas muitos outros morreram nas prisões, depois de expostos com letreiros onde se dizia que iam morrer por serem , quando não eram assassinados com uma pancada de malho na cabeça, ou espancados até expirar” A. Cortesão.
Cristóvão Vieira, na sua longa carta escrita provavelmente em Novembro de 1524 no cativeiro e que conseguiu através de chineses fazer chegar às mãos dos portugueses, diz que só ele e Vasco Calvo se encontravam vivos na cadeia de Cantão e assim, todos os que a leram pensaram que Tomé Pires tinha morrido na prisão. Mas seria isso verdade?

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