Noite de Natal no Karaoke

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Política e acontecimentos locais à parte, e ultrapassada a tragédia grega, um dos assuntos quentes da actualidade é a chegada da sonda New Horizons a Plutão. E, com isso, toda a discussão que se gerou em torno da questão de Plutão ser ou não um planeta.
Caríssimo leitor, deixe-me dizer-lhe uma coisa: esse assunto não me interessa nem um pouco e estou-me completamente borrifando se Plutão é planeta ou se é planeta-anão.
Regressando à Terra. No outro dia alguém questionou-me quanto à persistente inclusão de expressões em chinês, inglês ou em patuá nos meus artigos desta coluna. Pelo que me pareceu interessante esclarecer por que motivo escrevo assim. E, com isso, surgiu-me a ideia de desenvolver o tema que vou hoje abordar.
A mistura de línguas é uma característica genuinamente Macaense. No nosso dia-a-dia é assim que falamos entre nós e é assim que nos entendemos, misturando o português, o chinês e o inglês, por vezes até utilizando expressões em patuá.
E por que razão não haveria de ser assim? Se posso dizer que vou comer um van tan min, para quê me vou dar ao trabalho de dizer que vou comer uma sopa de fitas com pastéis de camarão? E repare, caríssimo leitor, que nunca coloco aspas quando introduzo essas expressões em chinês, inglês ou patuá, pois são palavras em língua estrangeira que, na verdade, também não são.
A mistura de línguas faz parte da nossa identidade e fazemo-lo com naturalidade, consoante o que o nosso cérebro entender mais adequado para o contexto específico. Quantos Macaenses não memorizam números de telefone em chinês, por ser mais fácil?
Quando subitamente mudamos de língua, alteramos em conformidade o tom de voz, a linguagem gestual e porventura – e o que vou agora dizer é pertinente – até o nosso raciocínio e a posição que podemos tomar perante um assunto em concreto.
Essa nossa característica permite-nos uma aproximação especial ao nosso interlocutor, o que por vezes poderá revelar-se extremamente útil e vantajoso para nós.
Costumo dizer às pessoas que a inclinação para línguas está por natureza nos genes do Macaense desde nascença. Todavia, há que perceber que as coisas não caiem do céu e, se não nos pusermos a pau, as gerações futuras poderão vir a perder esses genes.
Passo a explicar.
Nos anos 80-90, com o receio da transferência de poderes que se aproximava, muitos foram os Macaenses que destinaram estrategicamente aos seus filhos um ensino integralmente em chinês, neste processo descartando por completo a língua portuguesa.
Ironicamente, crescidos e já na idade da razão, agora esses filhos questionam os pais, revoltados com o facto de não saberem falar português.
Posso compreender e até tolerar situações que tiveram lugar ainda antes da transição, já que naqueles tempos era impossível adivinharmos o que seria o Macau do pós-99. Aliás, sobre esse tema até já me debrucei numa peça desta coluna. (*)
No entanto, custa-me aceitar que essas situações persistam ainda hoje. Muitos são os Macaenses que preferem não falar português com os seus filhos, deixando também de fora o sistema português de ensino. Quando toco nesse assunto, ficam surpreendidos com a minha posição e alguns até não escondem um certo desprezo que têm pelo ensino português. Algo que não consigo compreender.
Para já, não se venha agora dizer que o português é uma língua que não tem futuro. Era esse o argumento mais comum na era pré-99, mas parece-me mais que óbvio que se encontra desactualizado, para não dizer incorrecto. E não apenas pelo facto de o Governo Central ter definido Macau como plataforma para o intercâmbio com os PALOPs.
Para começar, não duvido que em Macau, em termos de trabalho, saber português é uma mais-valia. Aliás, dominar com naturalidade ambas as línguas oficiais só poderá, suponho, enriquecer o currículo dos nossos filhos.
Mas, mais do que isso, é o facto de o português ser uma língua de origem latina e, como tal, o acesso que nos permite às outras línguas de origem similar e as portas que podemos abrir em consequência. Exemplo rápido? O espanhol e toda a América Latina.
Por outro lado, até hoje não me foi ainda apresentado um único argumento convincente para justificar a não inclusão do sistema de ensino português como uma opção para os nossos filhos. Vejo muitos pais Macaenses da minha geração a darem preferência ao ensino chinês ou às chamadas “escolas internacionais”. Não tenho nada contra esses dois últimos sistemas, apenas acho que não devemos rejeitar logo à partida o ensino português.
De qualquer forma, não é meu desejo mergulhar aqui nessa discussão e apresentar argumentos para provar que este sistema de ensino é melhor do que aquele. Tudo é relativo e não tenho dúvidas que cada escola, seja ela chinesa, portuguesa ou “internacional”, terá as suas vantagens e desvantagens.
O que me parece – e este é o peixe que quero vender – é que não vejo razões para se deixar de falar português com os nossos filhos, independentemente do sistema de ensino que se vier a escolher para eles, porque uma coisa não impede a outra.
Dito isto, deixe-me partilhar o seguinte com o caríssimo leitor: o meu filho, que está a seguir o sistema português de ensino, tem 4 anos e fala fluentemente português, chinês e inglês. E isto porque, desde cedo, ficou programado que (1) comigo e com a minha mulher, fala português; (2) com a minha sogra, fala chinês; (3) com a empregada, que é filipina, fala inglês e (4) com os restantes membros da família, é tudo champorado e fala as línguas que entender.
O que o acabou de ler não é nada do outro mundo: foi assim em muitas casas Macaenses ao longo de séculos. E não vejo razões para que assim não seja durante mais outros tantos séculos.
Portanto, se é Macaense e tem crianças ainda pequeninas, caríssimo leitor, pense seriamente nisso: tem a possibilidade de proporcionar aos seus filhos um ambiente espectacularmente multicultural e multilinguístico, mais internacional que qualquer “escola internacional”, em que poderá incluir pelo meio, com naturalidade, o português, o chinês, e ainda as línguas que bem entender.
Porque, se não o fizer, está a privar os seus filhos de uma herança cultural a que deviam obrigatoriamente ter direito, condenando-os a não poderem usufruir de uma mais-valia que no futuro os poderá distinguir do Chan Fok Soi da esquina.
E, numa análise mais alargada e profunda, estará a deitar para o lixo todo o saber acumulado dos nossos antepassados que, de geração em geração, foram transmitindo os seus conhecimentos, hábitos e costumes, consolidando assim a nossa rica identidade Macaense.
A transmissão do conhecimento é crucial para a nossa futura existência e sobrevivência. Se achar desnecessário fazê-lo – e a língua portuguesa é uma componente essencial nesse processo – no dia em que o seu filho lhe perguntar por que motivo não fala português, não lamente.
Igualmente, se um dia celebrar a noite de Natal com os seus netos num karaoke, com um capuz de Pai Natal cheio de luzes na cabeça e a comer amendoins com sabor a wasabi, e se sentir saudades dos velhos tempos em que se convivia à mesa em português e em chinês e se comia tacho, genete e cuscurão antes da missa do Galo, não lamente.
A culpa é inteiramente sua porque não teve visão.

Sorrindo Sempre

O volume de lixo que por vezes uma embalagem consegue criar e a sua total desproporção com as dimensões do produto propriamente dito é algo que me irrita visceralmente.
O pior de tudo são as camisas: dobradas sobre uma folha grossa de cartão; presas por não sei quantos alfinetes; cartolina no colarinho; etiqueta da marca presa por um cordel; saquinho com botões sobressalentes; e essa parafernália toda colocada dentro de uma caixa de cartão ou uma embalagem de plástico transparente. Uma absurdidade total. Onde está a consciência ecológica?
No outro dia comprei seis camisas de uma assentada e decidi desempacotar tudo logo depois de pagar. Para quê levar aquela porcaria toda para casa? Ficou ao balcão da loja um volume enorme de lixo. Os empregados ficaram incomodados, mas antes que pudessem dizer o que quer que fosse, lancei o meu preemptive strike: “Eu vim para comprar camisas, não preciso de alfinetes nem dessas coisas todas”.
A piada da coisa é que o cliente que vinha atrás de mim na fila de pagamento decidiu fazer o mesmo. E eu só me ria. Os funcionários da loja não acharam a mesma graça.

Sorrindo sempre.

(*) “A Casinha no Bombarral”, Sorrindo Sempre de 15 de Maio de 2015.

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