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Se o leitor gosta de armas de fogo, provavelmente sonhando com uma Glock, uma Smith & Wesson com laser, ou ainda uma Magnum 45 que Clint Eastwood, como “Dirty Harry” popularizou no cinema, poderá continuar a sonhar deitado porque lhe será impossível possuir uma arma destas em Macau. Nenhuma delas é de defesa nem se encontra à venda.
Quase na mesma onda se encontram os fumadores, que viram outro dos malefícios de tabaco: o preço a que este chegou. Mas não será por isso que os mais abonados irão deixar o vício, fazendo juz ao ditado “quem tem massa tem vícios”.
E de impossibilidades a interdições, caminhando entre nenúfares, eis-me chegado ao jardim onde uma biblioteca octogonal, de estilo chinês, se ergue para deleite dos inúmeros leitores que quotidianamente a habitam.
Passo por lá sem poder deixar de admirar o belo jardim, ali a dois passos da rua, quando reparo que a paragem oferecida pelo Rotary Club tem, parados, dois autocarros que resfolegam enormes quantidades de monóxido de carbono, à maneira das velhas locomotivas.
Do jardim deserto, sinto uma espécie de sussurro vindo dos canteiros e das árvores. Algo como um roçar de folhas umas contra as outras. As folhas agitam-se, os ramos das árvores movem-se, embora não haja vento nenhum. De súbito, das folhas, começam a nascer por todo o lado uns cilindros do tamanho de cigarros, que lentamente se vão desenrolando como uma flor que se abre. O meu pasmo é grande, mas como se isso não bastasse, estas flores abrem-se ao meio e sem o processo larvar, borboletas brancas desprendem-se e esvoaçam pelo ar, todas brancas, frágeis, enchendo o jardim de manchas brancas como flocos de neve em plena canícula. Algumas caem junto a mim e percebo que as asas brancas são mortalhas de cigarro e o corpo é, apenas, um filtro de cigarro com um morrão apagado.
Mirones espantados rodeiam o jardim comentando tão insólito acontecimento. O chão do jardim começa a estar pejado de beatas, enquanto as mortalhas libertas dos corpos, esvoaçam erraticamente, sem destino.
Um sujeito com um colete, dossier na mão, dirige-se-me em inglês: “look”, apontando para as beatas, “no smoking here, I fine you”. Olho-o e respondo em chinês que não fumo e que já tinha visto antes dele. Nisto outro autocarro chega-se à paragem e nova baforada de fumo chega até nós. As borboletas-mortalha como que se multiplicam, enquanto aumenta a agitação das folhas. Tenho a suspeita de que, no reino vegetal, daquele jardim agora encantado, havia folhas que ansiavam pelo monóxido de carbono para devolverem oxigénio ao ambiente, enquanto outras, em clara revolta, queriam absorver oxigénio e expelir monóxido de carbono, coisa inaudita na função clorofilina, fotossíntese ou lá o que quer que agora lhe chamem. Era a revolta de umas ordeiras folhas contra outras que queriam o inverso do que lhes era natural, e parece que, a apoiá-las, as beatas voadoras e as mortalhas iam-se manifestando.
Nisto ouço um disparo atroador seguido de um pschhhhhhh do esvaziar de uma roda. Outro tiro e, do autocarro, começa a esguichar água do radiador. O motor tosse, tosse e fina-se enquanto o condutor e os passageiros saem apressadamente, atropelando-se.
Muitas das borboletas voam do jardim e enfiam-se no autocarro.
Nisto avisto, a uns 20 metros de distância, um homem alto e magro, o cabelo quase todo branco, cigarro ao canto da boca, um revólver de longo cano fumegante caminhando para nós. Olho para o fiscal, olho para o chão, e uma poçazinha de líquido vai-se formando aos seus pés. Clint Eastwood aproxima-se, as borboletas, obedientemente, seguem-no.
“Who’s gonna clean up this mess?” pergunta-me Dirty Harry olhando-me com os olhos eternamente semi-cerrados, apontando para o chão cheio de beatas e de mortalhas caídas. Ouvem-se palmas dos mirones quando alguns, poucos, o reconhecem. Correm com os seus telemóveis para junto de Eastwood, para se fazerem fotografar junto do actor. Os selfies não param. Alguns, mais entusiásticos oferecem-lhe fichas de casino. Em breve chegarão jornalistas, a televisão, a rádio. Que será que dirão do jardim encantado?

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