Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Irão na Tempestade Perfeita “History moves in waves, but regimes fall in moments.” Anne Applebaum A República Islâmica do Irão encontra-se, desde o início da década de 2020, no centro de uma confluência de factores internos e externos que configuram um dos períodos mais críticos da sua história contemporânea. A acumulação de tensões políticas, económicas, sociais e geoestratégicas produziu uma verdadeira “tempestade perfeita”, na qual dinâmicas estruturais de longa duração se articulam com choques recentes, expondo fragilidades profundas do regime teocrático e revelando novas formas de contestação e de reconfiguração regional. O sistema político iraniano assenta num modelo híbrido, onde instituições republicanas coexistem com estruturas teocráticas dotadas de poder de veto. O Líder Supremo, figura central do regime, detém autoridade superior a qualquer órgão eleito, controlando as Forças Armadas, sistema judicial, serviços de segurança e os principais meios de comunicação. O Conselho dos Guardiães, responsável pela filtragem de candidaturas, impede a emergência de competição política genuína, assegurando a continuidade ideológica do regime. Este arranjo institucional, concebido para preservar os princípios da revolução islâmica, evoluiu para uma autocracia consolidada, sustentada por uma elite clerical estreitamente articulada com a Guarda Revolucionária (IRGC). Inicialmente criada para proteger a revolução, a IRGC transformou-se num actor multifacetado com influência transversal. Para além do seu papel militar, controla sectores estratégicos como energia, construção civil, telecomunicações e redes financeiras paralelas, constituindo um complexo militareconómico que limita reformas e reforça a interdependência entre poder religioso e poder coercivo. Esta fusão aproxima o Irão de modelos de “autoritarismo militarizado”, embora com especificidades derivadas da sua natureza teocrática. A morte de Mahsa Amini, em 2022, desencadeou a mobilização social mais significativa desde 1979. O movimento “Mulher, Vida, Liberdade” ultrapassou rapidamente a questão do véu obrigatório, transformando-se numa contestação estrutural ao regime. A amplitude sociológica dos protestos envolvendo mulheres, jovens urbanos, estudantes, trabalhadores e minorias étnicas evidenciou a profundidade do descontentamento acumulado. A resposta estatal, marcada por repressão sistemática, detenções em massa e relatos de tortura e julgamentos sumários, não eliminou a contestação; apenas a deslocou para formas mais difusas, digitais e subterrâneas. Entre 2025 e o início de 2026, o país viveu a fase mais violenta desde 1979, com milhares de mortos e dezenas de milhares de detenções. Organizações de direitos humanos estimam mais de 3300 mortos e 24000 detidos, números possivelmente superiores devido ao apagão da internet. O próprio regime admitiu “vários milhares” de mortos algo sem precedentes. A classificação de manifestantes como mohareb (“guerra contra Deus”), crime punível com pena de morte, reforçou a percepção de que o Estado opera num regime de “emergência permanente”. A presença reforçada da IRGC e das milícias Basij transformou várias cidades em espaços de controlo militar de facto. O regime não se encontra à beira de colapso imediato, mas entrou numa fase de fragilidade estrutural acelerada. A economia deteriorase mais rapidamente do que a capacidade repressiva consegue compensar, e a legitimidade interna atingiu o ponto mais baixo em décadas. A revolta de Janeiro de 2026 é frequentemente descrita como a mais abrangente e socialmente inclusiva desde 1979, marcando uma ruptura irreversível na relação entre sociedade e Estado. As periferias étnicas como curda, balúchi, árabe e azeri assumem um papel central na contestação. A repressão militarizada reflecte o receio do regime de que reivindicações identitárias evoluam para movimentos separatistas, fenómeno observado noutros Estados multiétnicos sob regimes autoritários. No plano externo, o Irão reforçou a sua política regional assertiva como mecanismo de sobrevivência estratégica. Através de alianças com grupos armados no Líbano, Iraque, Palestina e Iémen, Teerão procura projectar poder, criar zonas de influência e dissuadir adversários. Esta estratégia híbrida simultaneamente ideológica e pragmática permite ao regime compensar o isolamento diplomático e manter relevância geopolítica, mas intensifica tensões com os Estados Unidos, Israel e as monarquias do Golfo. A retórica entre Washington e Teerão atingiu níveis particularmente elevados após 2025, com declarações americanas classificando um eventual ataque ao Líder Supremo como “guerra total”. Este ambiente contribui para uma volatilidade regional persistente. O programa nuclear iraniano permanece um dos elementos mais sensíveis da política internacional. A retirada dos Estados Unidos do JCPOA, em 2018, desencadeou uma aceleração do enriquecimento de urânio, aproximando o país de níveis compatíveis com capacidade militar. A opacidade das actividades nucleares alimenta suspeitas e aumenta o risco de confrontos directos ou indirectos. Uma eventual capacidade nuclear militar teria implicações profundas para o equilíbrio de poder no Médio Oriente. A economia iraniana enfrenta uma crise estrutural marcada por sanções internacionais, má gestão interna e corrupção sistémica. A desvalorização da moeda, a inflação persistente e o elevado desemprego juvenil alimentam o descontentamento social. A dependência do petróleo limita a diversificação económica, enquanto o controlo da IRGC sobre sectores lucrativos bloqueia a concorrência e a inovação. O resultado é um ciclo de instabilidade que se autoreforça. Apesar da repressão, o regime recuperou algum controlo operacional no início de 2026, com a reabertura parcial de escolas e universidades e o reforço da vigilância digital. Contudo, esta estabilidade é frágil e assenta em mecanismos coercivos cada vez mais sofisticados. Até 2030, o autoritarismo iraniano tende a evoluir para um modelo híbrido que combina repressão física com controlo algorítmico avançado como reconhecimento facial, monitorização preditiva de redes sociais e restrições personalizadas de acesso à internet. Este “autoritarismo digital” reduz custos de repressão e aumenta a eficiência do controlo social. Paralelamente, a sociedade iraniana continuará a transformar-se. A juventude, conectada ao mundo digital e exposta a valores globais, tende a radicalizar a recusa da legitimidade do regime. A diáspora, em expansão, poderá consolidar-se como pólo de oposição transnacional. A resistência cultural como cinema, literatura, moda, redes feministas clandestinas deverá intensificar-se, aprofundando o fosso entre sociedade e Estado. Até 2030, três cenários principais podem ser considerados sendo o primeiro de autoritarismo tecnológico consolidado como o mais provável, com manutenção do poder através de vigilância digital, controlo económico e alianças externas. O segundo com transição gradual desencadeada por crise económica extrema, disputa sucessória ou pressão internacional coordenada e a terceira de ruptura abrupta provocada por colapso económico, cisões internas na IRGC ou protestos massivos incontroláveis. Assim, o Irão encontra-se num ponto de inflexão histórico. A estabilização aparente do início de 2026 não resolve as contradições profundas entre sociedade e regime, nem elimina os riscos geopolíticos que envolvem o país. Até 2030, o Irão poderá consolidar um autoritarismo digital sofisticado, afirmar-se como pivô geopolítico euroasiático ou entrar num processo de transição. Independentemente do cenário, continuará a desempenhar um papel central no equilíbrio político e securitário do Médio Oriente.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesPortugal e o Cenário Presidencial de 2026 “When societies feel unheard, they do not fall silent – they change the way they speak.” – Zygmunt Bauman A 18 de Janeiro, Portugal encontra-se perante um dos momentos mais significativos da sua história democrática recente. O ciclo presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, iniciado em 2016 e concluído este ano, encerra-se com a impossibilidade constitucional de recandidatura, abrindo espaço a uma disputa plural e inédita. A eleição presidencial, marcada para 18 de Janeiro, com eventual segunda volta prevista para 8 de Fevereiro, não é apenas um exercício democrático rotineiro; é um teste à maturidade institucional do país, à capacidade de renovação das elites políticas e à resiliência da sociedade portuguesa perante os desafios globais. O sistema semipresidencialista português, consagrado na Constituição de 1976, atribui ao Presidente da República funções moderadoras, mas com poderes relevantes em momentos de crise, como a dissolução da Assembleia da República ou a nomeação do Primeiro-Ministro. Desde a Revolução de 25 Abril de 1974, todos os presidentes cumpriram dois mandatos consecutivos, e a impossibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa se recandidatar abre espaço a uma competição original. A presidência portuguesa tem sido marcada por figuras que simbolizam diferentes fases da democracia com Ramalho Eanes como militar fundador da estabilidade pós-revolucionária, Mário Soares como europeísta e defensor da integração, Jorge Sampaio como moderador social, Cavaco Silva como economista liberal e Marcelo como comunicador empático. A sucessão de 2026 insere-se nesta linha histórica, mas com características próprias, como a ausência de incumbente, a fragmentação partidária e a emergência de novos actores políticos. Entre os candidatos destacam-se figuras de diferentes quadrantes políticos e sociais. Luís Marques Mendes, pelo PSD, representa a continuidade institucional e a ligação ao centro-direita tradicional. António José Seguro, pelo PS, aposta na coesão social e na defesa dos valores de Abril. Henrique Gouveia e Melo, independente, surge como candidato com forte apelo popular e imagem de competência técnica, fruto da liderança na campanha de vacinação contra a COVID-19. André Ventura, pelo Chega, aposta num discurso securitário e nacionalista, procurando capitalizar o descontentamento social. João Cotrim de Figueiredo, pela Iniciativa Liberal, defende a redução do peso do Estado e a liberalização económica. Catarina Martins, pelo Bloco de Esquerda, centra-se na justiça social e nos direitos humanos. Esta pluralidade reflecte uma sociedade mais diversificada, mas também mais polarizada. As sondagens sugerem que nenhum candidato deverá alcançar maioria absoluta na primeira volta, tornando provável uma segunda volta entre dois candidatos de blocos distintos. Portugal entra em 2026 com uma economia marcada pela recuperação pós-pandemia, mas também por desafios estruturais, como a baixa produtividade, o envelhecimento demográfico e a dependência energética. O turismo continua a ser o motor económico, mas enfrenta pressões de sustentabilidade e necessidade de diversificação. A transição digital e ecológica é imperativa, exigindo políticas públicas consistentes e investimento em inovação. Socialmente, o país vive tensões entre a valorização dos serviços públicos e a pressão fiscal, entre a integração europeia e o ressurgimento de discursos nacionalistas. O envelhecimento da população coloca desafios à sustentabilidade da segurança social e à coesão intergeracional. A desigualdade social, embora mitigada por políticas redistributivas, continua a ser preocupação central. A presidência, embora não detenha competências executivas, pode desempenhar um papel simbólico e mobilizador, influenciando agendas e promovendo consensos. A cultura portuguesa, profundamente enraizada na memória histórica e na projecção lusófona, desempenha um papel central na afirmação internacional. A presidência simboliza a continuidade de valores republicanos e democráticos, sendo o Presidente visto como garante da estabilidade e da unidade nacional. A pluralidade de candidatos reflecte diferentes visões sobre identidade nacional, desde a defesa de Abril à retórica securitária, da empatia social à tecnocracia institucional. A diversidade cultural portuguesa, marcada pela coexistência de tradições locais e pela abertura ao mundo, encontra na presidência um espaço de representação simbólica. A eleição de 2026 será também um momento de afirmação identitária, em que se debatem valores como solidariedade, liberdade e pertença europeia. Portugal mantém-se como membro activo da União Europeia, participando nos debates sobre integração económica, transição energética e defesa comum. A presidência de 2026 será crucial para garantir estabilidade diplomática num contexto global de tensões geopolíticas. A escolha de um presidente com perfil conciliador ou mais interventivo poderá influenciar a percepção externa do país. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa continua a ser espaço privilegiado de afirmação internacional, reforçando laços históricos e culturais. A pertença à NATO garante segurança estratégica, mas também implica responsabilidades em contextos de tensão geopolítica. Portugal, pela sua posição atlântica e lusófona, desempenha papel de ponte entre continentes e culturas, e a presidência simboliza essa vocação internacional. O Presidente é visto como garante do equilíbrio e da unidade nacional, sobretudo em momentos de crise. Para além das competências formais, a presidência possui uma dimensão simbólica, representando valores e identidades colectivas. A filosofia da presidência portuguesa assenta na ideia de que o Presidente deve ser árbitro e moderador, mas também inspirador e mobilizador. A eleição de 2026 coloca em debate diferentes concepções do cargo com uma presidência mais interventiva, centrada na autoridade moral, ou uma presidência mais discreta, focada na mediação institucional. Esta reflexão filosófica é essencial para compreender o significado da eleição. As sondagens disponíveis até 13 de Janeiro de 2026 continuam a mostrar uma corrida presidencial portuguesa extremamente competitiva e fragmentada, marcada pela ausência de um favorito claro e pela persistência de um elevado número de indecisos. O panorama mais recente revela uma recomposição significativa no grupo da frente em que António José Seguro e João Cotrim de Figueiredo surgem agora como os candidatos com maior dinamismo, enquanto André Ventura e Henrique Gouveia e Melo registam ligeiras quebras e Luís Marques Mendes desce para o quinto lugar, com valores que oscilam entre cerca de 15% e 17%, afastandose da disputa imediata pela passagem à segunda volta. António José Seguro beneficia de uma tendência de crescimento contínuo desde o final de 2025, apoiado por um perfil percebido como estável e institucional. João Cotrim de Figueiredo, por sua vez, consolidou uma trajectória ascendente que o aproximou do núcleo dos principais candidatos, reforçando o seu apelo entre eleitores jovens, urbanos e liberais. André Ventura mantém um núcleo duro de apoio expressivo, mas continua a enfrentar dificuldades em alargar a sua base eleitoral, surgindo sistematicamente fragilizado nos cenários de segunda volta. Henrique Gouveia e Melo preserva um capital relevante de confiança pública, embora tenha perdido algum fôlego nas últimas semanas, reflectindo um ambiente político mais volátil e competitivo. Luís Marques Mendes, que chegou a liderar intenções de voto no final de 2025, enfrenta agora uma quebra consistente que o coloca fora do grupo mais competitivo, ilustrando a sensibilidade do eleitorado a movimentos de última hora e a reposicionamentos estratégicos. O quadro geral permanece marcado pela coexistência de perfis muito distintos com candidatos independentes com forte reputação pública, figuras com longa experiência partidária e protagonistas de discursos mais populistas e securitários. Esta diversidade reflecte um eleitorado dividido entre a procura de estabilidade institucional, a valorização da competência técnica e o desejo de renovação política. A presença continuada de Ventura no grupo da frente, mesmo com fracas hipóteses de vitória numa segunda volta, confirma a consolidação de um discurso contestatário que encontrou espaço na sociedade portuguesa. Em paralelo, o crescimento de Cotrim de Figueiredo evidencia a procura de alternativas liberais e reformistas, enquanto a recuperação parcial de Seguro demonstra a relevância de perfis moderados num contexto de incerteza. As candidaturas com menor probabilidade de alcançar a segunda volta como Catarina Martins, António Filipe, Jorge Pinto ou Manuel João Vieira continuam a desempenhar um papel importante na pluralidade do debate, representando agendas específicas e contribuindo para a vitalidade democrática do processo. No seu conjunto, as tendências até 13 de Janeiro de 2026 revelam um país em reflexão profunda sobre o tipo de liderança que deseja para a próxima década. Entre tradição e inovação, continuidade e mudança, integração europeia e afirmação nacional, o futuro Presidente será chamado a preservar os valores republicanos e democráticos, interpretar as expectativas de uma sociedade em transformação e oferecer uma visão capaz de unir diferentes sensibilidades num contexto global cada vez mais exigente. Estas sondagens colocam André Ventura num intervalo aproximado entre 19,5% e 20% das intenções de voto na primeira volta das eleições presidenciais. A partir destes valores, é possível projectar o número de votos que poderá alcançar em diferentes cenários de participação eleitoral. Se a afluência às urnas for semelhante à das últimas presidenciais, com cerca de 4,2 milhões de votantes, Ventura deverá situarse entre aproximadamente 820 mil e 840 mil votos, permanecendo abaixo da fasquia simbólica de um milhão de votos neste cenário de participação mais reduzida. Caso a participação se aproxime da registada nas legislativas de 2024, em torno de 6,5 milhões de votantes, o mesmo intervalo percentual traduzirseia num total entre cerca de 1,26 milhões e 1,30 milhões de votos, valor ainda assim inferior ao patamar alcançado pela AD nas legislativas. Nos cenários de segunda volta, as sondagens colocam Ventura num intervalo entre 25% e 29%. Aplicando estes valores a uma participação semelhante à das presidenciais, o candidato poderá obter entre cerca de 1,05 milhões e 1,22 milhões de votos. Se a afluência for comparável à das legislativas, o intervalo projectado sobe para valores entre aproximadamente 1,62 milhões e 1,88 milhões de votos. Uma votação tão expressiva num candidato com este perfil é frequentemente entendida como o reflexo de tensões sociais acumuladas ao longo do tempo. Revela um sentimento de insatisfação com o funcionamento das instituições, a percepção de desigualdades persistentes e a ideia de que questões como segurança, justiça, custo de vida, imigração ou a qualidade dos serviços públicos não têm recebido respostas eficazes. Ao mesmo tempo, o crescimento de discursos mais directos e confrontacionais mostra que uma parte significativa do eleitorado procura linguagem simples, posições firmes e uma atitude de desafio perante o sistema político tradicional, mesmo que isso acentue divisões. Este fenómeno também evidencia a fragmentação do sistema partidário, com menos fidelidade aos partidos tradicionais e maior abertura a alternativas que rompem com o padrão habitual. Tal dinâmica altera equilíbrios, estratégias e até a forma como as campanhas são conduzidas. Contudo, mesmo com uma votação elevada, subsistem limites claros à capacidade de transformar notoriedade em maioria, o que indica resistência noutros sectores da sociedade e contribui para um ambiente político mais polarizado, mas não necessariamente dominado por um único bloco. Para o sistema político, um resultado deste tipo funciona como um aviso. Mostra que há grupos que se sentem excluídos, políticas que não estão a corresponder às expectativas e percepções de injustiça ou insegurança que permanecem sem resposta convincente. Este sinal obriga os partidos tradicionais a repensar prioridades, a ajustar a forma como comunicam e a reforçar a proximidade com diferentes segmentos da população. Por fim, este movimento inserese numa tendência mais ampla observada em vários países europeus, onde candidatos com discursos semelhantes têm ganho espaço. Muitos analistas interpretam este fenómeno como consequência de transformações culturais, económicas e tecnológicas que estão a alterar profundamente a relação das pessoas com a política e com as instituições democráticas.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesVenezuela e a Nova Geopolítica Mundial “Power reshapes the world not only through action, but through the precedents it dares to create.” – Henry Kissinger A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, em 3 de Janeiro de 2026, não pode ser compreendida apenas como um gesto de força num país debilitado mas deve ser lida como um acontecimento que expõe a tensão estrutural entre soberania, responsabilidade e poder num mundo em transição. A operação, executada com precisão quase cirúrgica, limitouse a extrair Nicolás Maduro e Cilia Flores de Caracas e a transportálos para Nova Iorque, onde enfrentam um processo judicial que rapidamente ultrapassou a esfera penal para se converter num fenómeno político, filosófico e jurídico de alcance global. A ausência de ocupação territorial, de administração provisória ou de qualquer tentativa de reorganizar o Estado venezuelano por enquanto revela uma doutrina que rompe com o paradigma intervencionista do início do século XXI em que os Estados Unidos não procuram reconstruir países, apenas neutralizar focos de ameaça, deixando para trás o vazio político que inevitavelmente se forma quando um regime perde o seu centro de gravidade. Esse vazio foi preenchido por Delcy Rodríguez, cuja ascensão não resulta de qualquer mandato popular, mas da inércia de uma máquina estatal que, há muito, deixou de funcionar como instituição republicana e passou a operar como instrumento de sobrevivência de um projecto político esgotado. A sua legitimidade é puramente mecânica, derivada da linha de sucessão interna do chavismo, e não da vontade expressa nas urnas, que em 2024 conferiu a Edmundo González Urrutia um mandato que nunca chegou a exercer. A extracção de Maduro não dissolveu as redes que sustentavam o regime; apenas retirou a figura que lhes dava rosto. Delcy herdou um Estado corroído, mas funcional o suficiente para manter a aparência de normalidade, enquanto as estruturas subterrâneas militares, económicas e criminais continuam a operar com a mesma lógica que transformou a Venezuela num Estado narco. O julgamento em Nova Iorque tornouse um laboratório jurídico que desafia categorias tradicionais do direito internacional. A invocação de jurisdição universal para crimes transnacionais cometidos por um chefe de Estado ainda que ilegítimo capturado por meios militares coloca em tensão princípios que, durante décadas, pareciam inquestionáveis. A imunidade soberana, concebida para proteger a estabilidade das relações internacionais, confrontase com a ideia de que certos crimes, pela sua natureza, não podem ser escudados por prerrogativas funcionais. A defesa irá argumentar que a captura viola normas fundamentais, enquanto a acusação sustentará que a gravidade dos factos imputados justifica a excepção. O tribunal tornar-se-á palco de uma disputa que ultrapassa o destino individual dos acusados e toca no próprio equilíbrio entre soberania, responsabilidade e poder. A transmissão global do processo amplificará cada gesto e palavra, convertendo o julgamento num acontecimento político que redefine fronteiras conceptuais. A discussão jurídica remete inevitavelmente para precedentes históricos que moldaram a compreensão contemporânea da responsabilidade penal individual. O julgamento de Eichmann, capturado em Buenos Aires e levado a Jerusalém em 1961, é frequentemente citado como exemplo de que a captura extraterritorial, embora controversa, não invalida necessariamente a legitimidade do processo. A doutrina que emergiu desse caso com a ideia de que certos crimes são tão graves que transcendem fronteiras ecoa no debate actual. Contudo, a comparação tem limites pois Eichmann era um fugitivo sem estatuto oficial, enquanto Maduro era chefe de Estado no momento da captura, o que reactiva a discussão sobre imunidades funcionais e pessoais. O caso Pinochet, julgado parcialmente no Reino Unido, introduziu outra fissura no edifício jurídico tradicional ao admitir que crimes de tortura não podem ser protegidos por imunidade soberana. A jurisprudência internacional evoluiu desde então, mas permanece fragmentada, oscilando entre a defesa da soberania e a afirmação de uma ordem jurídica internacional que responsabiliza indivíduos independentemente do cargo que ocupam. A Venezuela, entretanto, permanece suspensa entre dois tempos. A oposição democrática, embora legitimada pelo voto, continua afastada do exercício do poder. Edmundo González Urrutia, exilado em Espanha, tornouse símbolo de uma legitimidade que existe no plano internacional, mas não no território que deveria governar. María Corina Machado, reaparecida após a queda de Maduro, recuperou protagonismo interno, mas enfrenta um obstáculo estrutural, de que o Estado formal é apenas a superfície visível de um sistema paralelo, onde redes criminais, interesses militares e alianças informais moldam a realidade política. A oposição possui legitimidade, mas não controla o território; tem apoio internacional, mas não dispõe dos instrumentos coercivos que definem o poder efectivo. A estrutura militar venezuelana, longe de ser desmantelada pela operação americana, permanece fragmentada e permeada por lealdades contraditórias. A extracção de Maduro neutralizou apenas o círculo mais próximo, deixando intacta uma hierarquia corroída por décadas de politização, corrupção e envolvimento em economias ilícitas. Muitos oficiais superiores mantêm vínculos com redes que operam à margem da legalidade, enquanto sectores intermédios procuram reposicionarse para garantir a própria sobrevivência. A ausência de uma intervenção institucional mais ampla permitiu que o Estado narco continuasse a funcionar, agora sob a liderança de Delcy Rodríguez, que tenta reorganizar o chavismo sem o seu líder histórico, preservando os mecanismos informais que garantem a continuidade do poder. A economia venezuelana, devastada por anos de má gestão e hiperinflação, permanece num estado de colapso estrutural. A PDVSA, outrora símbolo de prosperidade, opera muito aquém da sua capacidade, e a queda global dos preços do petróleo reduz ainda mais a margem de manobra financeira. A extracção de Maduro não alterou esta realidade. Sem reformas profundas, transição política e confiança internacional, a economia continua paralisada. A criminalização da economia política impede qualquer recuperação sustentável, uma vez que as redes ilícitas capturam receitas, distorcem incentivos e bloqueiam qualquer tentativa de reconstrução institucional. A Venezuela tornouse um caso extremo de Estado onde a economia formal é apenas um fragmento residual de um sistema dominado por circuitos paralelos. A comunidade portuguesa, uma das maiores diásporas lusófonas fora da Europa, vive num ambiente de incerteza permanente. A instabilidade política, a ausência de reformas e a continuidade das redes criminais criam riscos significativos, mas também oportunidades caso surja um mínimo de previsibilidade. Portugal pode desempenhar um papel relevante através de protecção consular reforçada e diplomacia económica, mas qualquer iniciativa dependerá da evolução interna do país. No plano internacional, a operação americana reforçou a tendência de substituição do multilateralismo por acções unilaterais cirúrgicas. A ausência de coordenação com organismos internacionais fragilizou alianças tradicionais e intensificou rivalidades com potências emergentes, num contexto em que Rússia e China haviam respondido com demonstrações militares no Caribe e no Golfo Pérsico para sinalizar que contestam a projecção de poder dos Estados Unidos e pretendem preservar a sua influência num hemisfério historicamente sensível à intervenção externa. A Venezuela tornouse, assim, um microcosmo da nova ordem global; um espaço onde se cruzam disputas estratégicas, tensões jurídicas e conflitos de legitimidade. O futuro do país dependerá da interacção entre factores internos e externos, agora profundamente alterados pela cooperação de Delcy Rodríguez com Washington e pelo controlo crescente do sector petrolífero pelos americanos. Entre 2026 e 2030, quatro trajectórias principais podem ser delineadas. A primeira é a consolidação tutelada de Delcy Rodríguez, que não representa apenas a continuidade do chavismo, mas sim a adaptação do regime a uma nova realidade geopolítica. A cooperação com os Estados Unidos transforma o chavismo num sistema parcialmente domesticado, onde o Estado narco continua a operar, mas dentro de limites impostos externamente. A estabilidade tornase dependente da tolerância americana, da disciplina relativa das Forças Armadas e da capacidade do regime de redistribuir rendas petrolíferas sob vigilância implícita. Não é uma estabilidade soberana, mas uma estabilidade sob tutela, em que Caracas governa enquanto Washington define o perímetro do possível. A segunda trajectória é a transição pactuada, agora reconfigurada pela centralidade do petróleo. Já não se trata apenas de uma saída controlada em troca de garantias pessoais para sectores do chavismo, mas de uma negociação políticoenergética em que Washington aceita uma abertura gradual e uma recomposição institucional desde que mantenha influência decisiva sobre o sector petrolífero. Delcy tornase a ponte entre o sistema e a transição, oferecendo aos americanos previsibilidade energética e ao chavismo garantias de sobrevivência parcial. A mudança política seria limitada, mas real, e permitiria um pluralismo controlado sob supervisão internacional. A terceira trajectória é a implosão do sistema, agora agravada pela própria cooperação petrolífera. A gestão partilhada do sector energético pode aprofundar fissuras internas, sobretudo entre militares, redes criminais e facções ideológicas que vêem a aproximação aos Estados Unidos como traição. A deterioração económica, a desigualdade na redistribuição das rendas e a competição por recursos sob tutela externa podem acelerar a fragmentação do Estado, criando enclaves de poder autónomo e multiplicando actores armados. Neste cenário, a tutela energética não impede a implosão; amplificaa, ao introduzir novos motivos de disputa e desconfiança. A quarta trajectória é a possibilidade de uma segunda intervenção americana, agora mais plausível precisamente porque a cooperação petrolífera cria um critério de avaliação. Se, apesar do controlo energético, o chavismo reorganizado sob Delcy continuar a operar como Estado narco e não ocorrer transformação política substantiva, Washington poderá concluir que a extracção de Maduro foi insuficiente. A nova intervenção não implicaria necessariamente ocupação territorial, mas poderia assumir formas cirúrgicas como a neutralização de actores militares específicos, bloqueio de redes financeiras ilícitas, operações adicionais contra estruturas de segurança ou mesmo uma intervenção multinacional legitimada por colapso humanitário extremo. A mera existência desta hipótese fragiliza a primeira trajectória, pois a consolidação de Delcy só seria sustentável num ambiente internacional disposto a tolerar a continuidade do chavismo que se torna cada vez menos provável. Assim, a Venezuela permanece num limbo político e institucional sem Maduro, mas com chavismo; com administração funcional, mas sem legitimidade; com cooperação petrolífera com os Estados Unidos, mas sem soberania plena. A extracção de Maduro e a cogestão do petróleo não encerraram o ciclo; apenas reformularam o campo de batalha. A reconstrução exigirá diálogo inclusivo, reforma profunda e compromisso internacional com a legalidade. Até lá, o país permanece suspenso entre o fim de um regime que não existe e a impossibilidade de um futuro que ainda não começou.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesMacau em 2025 e Lições para o Futuro “Change is the law of life. Those who look only to the past or present are certain to miss the future.” John F. Kennedy Macau em 2025 encontrava-se num ponto de viragem, compelida a reconciliar a sua histórica dependência do jogo com a necessidade urgente de diversificação. A trajectória da cidade foi moldada pela turbulência económica global, concorrência regional e ritmo acelerado da transformação tecnológica. As reformas de governação procuraram modernizar as instituições, reforçar a transparência e alinhar Macau com a estratégia de desenvolvimento integrado da Grande Baía. A introdução de sistemas de licenciamento baseados em blockchain reduziu ineficiências burocráticas, enquanto plataformas de governo electrónico ampliadas facilitaram o acesso dos cidadãos a serviços que iam desde marcações de saúde até inscrições escolares. Iniciativas anticorrupção, incluindo auditorias interdepartamentais e portais de transparência pública, fortaleceram a responsabilização e reforçaram a confiança dos investidores. Estas medidas reflectiram um reconhecimento mais amplo de que a agilidade institucional era indispensável para sustentar a legitimidade num ambiente em rápida evolução. Economicamente, a dependência de Macau das receitas do jogo permaneceu uma vulnerabilidade estrutural, mas 2025 testemunhou progressos tangíveis na diversificação. A iniciativa “Macau Capital Cultural” que funciona como programa interno de valorização e dinamização cultural, podendo servir de base para sustentar a projecção internacional obtida com o título de “Culture City of East Asia 2025”. elevou as artes e o património lusófono, posicionando a cidade como um centro de intercâmbio intercultural. Sandboxes de fintech, desenvolvidos em parceria com Hong Kong e Shenzhen, permitiram a experiência em pagamentos digitais e finanças em blockchain, fomentando a inovação nos serviços financeiros. O ecoturismo e a hospitalidade baseada no património expandiram-se, aproveitando o centro histórico classificado pela UNESCO para atrair visitantes em busca de experiências sustentáveis. Startups em legaltech, edtech e consultoria em sustentabilidade emergiram, apoiadas por incubadoras como o Centro de Inovação e Empreendedorismo da Universidade de Macau. Estes desenvolvimentos sinalizaram uma mudança gradual em direcção ao pluralismo económico, embora a predominância do jogo sublinhasse a necessidade de um compromisso contínuo com a diversificação. O sistema jurídico de Macau avançou em direcção à harmonização com padrões internacionais. Um quadro inspirado no Regulamento Geral de Protecção de Dados da União Europeia reforçou a protecção de dados, ampliando os direitos dos cidadãos e as obrigações das empresas. A proposta em debate da redacção de uma Carta de Ética Digital, informada por contributos da academia e da sociedade civil, estabeleceu princípios para a inteligência artificial, transparência algorítmica e responsabilidade digital. Acordos bilaterais com países lusófonos facilitaram o reconhecimento mútuo de qualificações profissionais, reforçando o papel de Macau como ponte normativa entre modelos regulatórios chineses e tradições jurídicas lusófonas. Estas reformas posicionaram Macau como um laboratório de diplomacia jurídica, capaz de reconciliar quadros normativos divergentes e oferecer modelos de convergência. No plano sociocultural, Macau reafirmou a sua identidade como enclave multicultural. Programas de educação bilingue expandiram-se, fortalecendo a diversidade linguística e a hibridez cultural. Projectos comunitários de restauração patrimonial revitalizaram sítios históricos, integrando a sustentabilidade nos esforços de preservação. Fóruns juvenis sobre sustentabilidade, ética e inovação fomentaram o envolvimento cívico e cultivaram uma nova geração de líderes. A diplomacia cultural ampliou o soft power de Macau, projectando a sua identidade como espaço de diálogo entre Oriente e Ocidente. A ênfase no intercâmbio intercultural sublinhou a importância da sustentabilidade cultural como fundamento para a resiliência a longo prazo. Apesar das reformas, persistiram desafios. A concorrência regional ameaçou a predominância de Macau nas receitas do jogo, enquanto os recursos territoriais limitados restringiram a expansão urbana. As dificuldades na retenção de talentos, agravadas pela fuga de cérebros para cidades do interior da China, minaram a capacidade local. Pressões ambientais, incluindo riscos climáticos crescentes, exigiram estratégias de resiliência mais robustas. Estes desafios destacaram a necessidade de previsão e governação adaptativa. Em 2025, Macau também enfrentou uma crise de consumo que testou tanto as instituições como a sociedade. O aumento do custo de vida, pressões inflacionistas e acesso desigual a bens criaram descontentamento entre os residentes. O afluxo de turistas pressionou as cadeias de abastecimento, enquanto os agregados familiares locais lutavam com a acessibilidade de habitação, alimentos e serviços essenciais. A confiança dos consumidores enfraqueceu, ameaçando a estabilidade social e a vitalidade económica. Enfrentar esta crise exigiu uma resposta em múltiplas categorias. As autoridades introduziram mecanismos de monitorização de preços para prevenir a inflação especulativa, reforçaram leis de protecção do consumidor para garantir práticas justas e expandiram subsídios para agregados vulneráveis. Plataformas digitais foram utilizadas para aumentar a transparência nos preços e fornecer informação em tempo real sobre bens essenciais. Organizações da sociedade civil colaboraram com agências governamentais para promover literacia financeira e consciência do consumidor, capacitando os residentes a tomar decisões informadas. As soluções de longo prazo enfatizaram a diversificação das cadeias de abastecimento, o investimento na produção local e a integração da sustentabilidade nos padrões de consumo. Ao enfrentar a crise de consumo através de medidas regulatórias, sociais e tecnológicas, Macau reforçou a resiliência e restaurou a confiança pública. Neste contexto, emergiu também a necessidade de rever as políticas sociais dirigidas aos idosos. As pensões mensais para idosos devem ser ajustadas ao montante do índice de mínimo de subsistência, garantindo que nenhum beneficiário viva abaixo do limiar mínimo de dignidade económica. O cheque pecuniário deve contemplar todos os idosos que recebam pensão de velhice, independentemente do local de residência, seja em Hong Kong, Portugal ou qualquer outro território. Esta medida reforça a justiça social e assegura que os cidadãos de Macau, mesmo vivendo fora da região, mantenham o vínculo institucional e o direito a uma protecção equitativa. Da experiência de 2025 emergem várias lições. A governação deve integrar ferramentas digitais com mecanismos participativos, garantindo capacidade de resposta e legitimidade. A diversificação económica deve priorizar sectores que aproveitem os activos culturais e jurídicos de Macau, como o comércio lusófono, a consultoria ética e o turismo patrimonial. A diplomacia jurídica oferece uma via para Macau reconciliar normas chinesas e internacionais, posicionando a cidade como modelo de convergência. A sustentabilidade cultural exige envolvimento activo de jovens, educadores e artistas, garantindo que o património permaneça um recurso vivo. A previsão estratégica, através de planeamento de cenários e benchmarking, deve orientar o posicionamento de Macau na Grande Baía e em redes globais. O ano de 2025 não foi apenas um marco cronológico, mas um ponto de inflexão estratégico. Através de reformas, diversificação, renovação cultural e gestão de crises, Macau demonstrou resiliência e criatividade. As lições extraídas deste período fornecem um plano para uma governação sustentável, desenvolvimento inclusivo e relevância internacional. O futuro de Macau dependerá da capacidade de cultivar agilidade, liderança ética e diálogo intercultural num mundo cada vez mais complexo. Olhando em frente, Macau deve abraçar a inovação enquanto protege a sua identidade cultural. O investimento em capital humano é essencial, exigindo políticas que atraiam e retenham talentos, fomentem a criatividade e incentivem o empreendedorismo. O desenvolvimento de infra-estruturas deve equilibrar modernização com preservação patrimonial, garantindo que a expansão urbana não produza a erosão dos activos culturais. A resiliência ambiental deve ser priorizada, com estratégias para mitigar riscos climáticos e promover práticas sustentáveis. Internacionalmente, Macau deve aproveitar a sua posição única como ponte entre a China e o mundo lusófono, expandindo o comércio, o intercâmbio cultural e a cooperação jurídica. Em última análise, a jornada de Macau em 2025 ilustra a interacção entre continuidade e mudança. A capacidade da cidade de honrar o seu património enquanto abraça a inovação determinará a sua aptidão para prosperar nas próximas décadas. As lições de 2025 sublinham a importância da agilidade institucional, pluralismo económico, diplomacia jurídica, sustentabilidade cultural, previsão estratégica, protecção do consumidor e justiça social para os idosos. Ao internalizar estas lições, Macau poderá traçar um caminho para um futuro definido pela resiliência, inclusão e relevância global.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesLições de 2025 para a Década (Continuação do artigo publicado em 11 de Dezembro) No sector da segurança, o mundo enfrentará desafios complexos. O terrorismo poderá assumir novas formas, com utilização de tecnologias digitais e de inteligência artificial. A cibersegurança tornar-se-á prioridade, com ataques digitais a sistemas críticos a representar riscos significativos. Estima-se que até 2030 os custos globais de ciberataques possam ultrapassar 10 mil milhões de dólares anuais. No plano militar, tensões geopolíticas entre os Estados Unidos e a China poderão intensificar-se. O Médio Oriente continuará a ser foco de instabilidade. Entre 2026 e 2030, os cenários sociais e culturais assumirão papel determinante na configuração do futuro global. A migração internacional continuará a ser um dos fenómenos mais marcantes, impulsionada por conflitos armados, desigualdades económicas e alterações climáticas. Estima-se que centenas de milhões de pessoas possam estar em situação de mobilidade internacional ou interna, seja por procura de melhores condições de vida, seja por necessidade de sobrevivência. A Europa enfrentará pressões migratórias vindas de África e do Médio Oriente, com centenas de milhares de pessoas a procurar refúgio em países como Itália, Grécia, Espanha e Alemanha. Este fluxo exigirá políticas de integração mais robustas, mas também poderá gerar tensões sociais e políticas, alimentando discursos populistas e nacionalistas. Nos Estados Unidos, a imigração continuará a ser tema central, com políticas restritivas a provocar tensões sociais e protestos, mas também com a necessidade de mão-de-obra em sectores como agricultura, construção e serviços. Na América Latina, migrações internas intensificar-se-ão devido a fenómenos climáticos extremos, como inundações e secas, obrigando milhões de pessoas a deslocar-se das zonas rurais para as cidades. Em África, a desertificação e os conflitos armados no Sahel poderão deslocar mais de 20 milhões de pessoas, criando crises humanitárias de grande escala. A urbanização será outro fenómeno central. Até 2030, mais de 65% da população mundial viverá em áreas urbanas, com megacidades a crescerem de forma acelerada. Cidades como Lagos, Kinshasa, Mumbai, São Paulo e Jacarta poderão ultrapassar os 30 milhões de habitantes, enfrentando desafios de infra-estrutura, habitação, transporte e saneamento. A urbanização acelerada trará oportunidades de dinamismo económico e cultural, mas também riscos de desigualdade e exclusão social. As cidades terão de investir em soluções sustentáveis, como transportes públicos eficientes, habitação acessível e gestão de resíduos. A digitalização das cidades, com recurso a tecnologias inteligentes, poderá melhorar a qualidade de vida, mas exigirá políticas de inclusão para evitar que populações vulneráveis fiquem excluídas. As transformações demográficas serão igualmente decisivas. O envelhecimento populacional na Europa, Japão e Coreia do Sul exigirá políticas de saúde e de cuidados de longa duração, com impacto nos sistemas de pensões e na sustentabilidade fiscal. Estima-se que, até 2030, mais de 25% da população da Europa tenha mais de 65 anos, criando desafios de produtividade e de financiamento dos sistemas sociais. Em contrapartida, África e partes da Ásia terão populações jovens em crescimento, com milhões de pessoas a entrar no mercado de trabalho. Este fenómeno poderá ser uma oportunidade de dinamismo económico, mas também um risco de instabilidade se não forem criados empregos suficientes. A Índia, por exemplo, terá mais de 1,5 mil milhões de habitantes em 2030, com uma população jovem que poderá impulsionar crescimento, mas que exigirá investimentos massivos em educação e formação. A China enfrentará o desafio de uma população envelhecida, com mais de 400 milhões de pessoas acima dos 60 anos em 2030, o que poderá limitar o dinamismo económico e aumentar pressões sobre sistemas de saúde e pensões. Os cenários culturais também se transformarão. A globalização digital continuará a difundir valores e práticas culturais, mas também a gerar tensões entre tradições locais e influências externas. A música, o cinema e a literatura circularão de forma cada vez mais intensa, criando uma cultura global híbrida. Contudo, movimentos de afirmação identitária e de valorização de culturas locais ganharão força, procurando preservar tradições e resistir à homogeneização cultural. A diversidade cultural será simultaneamente uma riqueza e um desafio, exigindo políticas de inclusão e de respeito pela diferença. As migrações, a urbanização e as transformações demográficas interagirão com fenómenos ambientais e tecnológicos. As cidades terão de se adaptar a fenómenos climáticos extremos, como inundações e ondas de calor, que afectarão milhões de pessoas. A migração climática tornar-se-á realidade, com populações inteiras a deslocar-se devido à subida do nível do mar e à desertificação. A urbanização acelerada exigirá soluções tecnológicas, como cidades inteligentes e infra-estruturas sustentáveis, mas também políticas sociais para garantir inclusão. As transformações demográficas criarão novos equilíbrios de poder, com África e Ásia a ganhar peso demográfico e económico, enquanto a Europa e Japão enfrentarão desafios de envelhecimento. Em síntese, o período entre 2025 e 2030 pode ser descrito como uma fase de transição crítica, em que os acontecimentos de 2025 funcionaram como catalisadores de mudanças estruturais que se manifestaram em diferentes dimensões. A economia global entrou num ciclo de recuperação moderada, mas com riscos persistentes. A política internacional foi marcada por polarização e por tensões geopolíticas, com os Estados Unidos e a China a disputar a liderança tecnológica e industrial, e o Médio Oriente a permanecer como foco de instabilidade. O ambiente revelou a urgência da transição energética e da adaptação climática, com fenómenos extremos a afectarem milhões de pessoas. A tecnologia transformou economias e sociedades, criando oportunidades e riscos. A educação e a saúde exigiram políticas inclusivas e inovadoras. A segurança tornou-se prioridade, com ciberataques e terrorismo digital a representar riscos significativos. Os cenários sociais e culturais revelaram a importância da migração, da urbanização e das transformações demográficas. O futuro dependerá da capacidade de articular interesses nacionais com responsabilidades colectivas, construindo um equilíbrio entre competitividade e solidariedade. Se os países conseguirem investir em inovação responsável, em educação inclusiva e em sustentabilidade energética, será possível construir um futuro mais justo, sustentável e inclusivo. Caso contrário, o risco de estagnação prolongada e de agravamento das desigualdades permanecerá elevado. O período entre 2025 e 2030 ficará, assim, como um momento decisivo, em que a humanidade foi chamada a escolher entre a cooperação e a fragmentação, entre a coragem de avançar e o risco de permanecer prisioneira das suas próprias contradições.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesLições de 2025 para a década “In a year of converging crises and recalibrated ambitions, 2025 taught the world that resilience is not merely endurance, but the capacity to adapt, reimagine, and act with foresight across economic, political, environmental, and technological frontiers.” Margaret Atwood O ano de 2025 ficará inscrito na história contemporânea como um período de intensas transformações, marcado por acontecimentos que atravessaram múltiplas dimensões da vida internacional e que exigiram dos Estados, das instituições e das sociedades uma capacidade de adaptação sem precedentes. No plano económico, verificou-se uma desaceleração global que reflectiu os efeitos acumulados de políticas monetárias restritivas, tensões comerciais e instabilidade geopolítica. O crescimento mundial situou-se em torno de valores modestos, insuficientes para responder às necessidades de inclusão social e de redução das desigualdades. A transição do ciclo de subida de taxas de juro para cortes graduais trouxe algum alívio às condições financeiras, mas revelou também fragilidades estruturais, com mercados emergentes a enfrentar restrições fiscais e cambiais que limitaram a sua margem de manobra. A América Latina registou uma expansão insuficiente para gerar emprego sustentável, enquanto a África continuou a lutar pela diversificação das suas economias, excessivamente dependentes de commodities. A Ásia manteve dinamismo industrial e tecnológico, mas a China enfrentou o desafio de estimular o consumo interno e corrigir desequilíbrios estruturais que se tornaram mais evidentes. No plano político, o regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em Janeiro constituiu um dos acontecimentos mais marcantes do ano. A sua agenda voltou a ser dominada pelo lema “America First”, com medidas proteccionistas, expulsões em massa de imigrantes irregulares e o desmantelamento de sectores do governo federal. Estas acções geraram contestação judicial e acentuaram a polarização política interna, com a utilização da Guarda Nacional em cidades governadas por democratas e ataques aos meios de comunicação a reforçarem a percepção de erosão institucional. No plano internacional, Trump intensificou a actividade diplomática, com resultados variáveis, mas conseguiu protagonizar um papel central na trégua precária alcançada em Gaza, após dois anos de guerra entre Israel e o Hamas. Este cessar-fogo permitiu a libertação de reféns e prisioneiros, bem como o aumento da ajuda humanitária, embora insuficiente segundo a ONU, e deixou em aberto a questão delicada do desarmamento do Hamas. A instabilidade no Médio Oriente foi agravada por ataques israelitas a instalações nucleares iranianas, que desencadearam uma guerra de doze dias entre os dois países, com bombardeamentos americanos no Irão. Em Setembro, Israel realizou operações inéditas contra altos dirigentes do Hamas em Doha, no Catar, ampliando a tensão regional. Paralelamente, os Estados Unidos intensificaram acções militares nas Caraíbas e no Pacífico, justificadas como combate ao narcotráfico, mas criticadas pela ONU como execuções extrajudiciais. Estas operações, que resultaram em dezenas de mortos, evidenciaram a disposição americana em projectar poder militar para além do Médio Oriente, reforçando a percepção de unilateralismo e contestação internacional. No plano geopolítico, a invasão da Ucrânia pela Rússia continuou a ter repercussões, com sanções e tensões energéticas a afectar a Europa. O conflito prolongado manteve a instabilidade na região e reforçou a necessidade de diversificação energética, acelerando a transição para fontes renováveis. No Sudão e em outras regiões africanas, guerras internas agravaram crises humanitárias, com milhões de deslocados e sistemas estatais em colapso. A cooperação internacional revelou fragilidades, com dificuldades em revitalizar mecanismos multilaterais e em garantir previsibilidade nos fluxos comerciais. No plano ambiental, os impactos das mudanças climáticas tornaram-se cada vez mais evidentes. Ondas de calor devastaram a Ásia, inundações atingiram o Brasil, a Indonésia e partes da Europa, incêndios florestais devastaram o Canadá e furacões como o Helene e Milton provocaram destruição nos Estados Unidos. Estes fenómenos expuseram a urgência da transição energética e da redução da dependência de combustíveis fósseis. A descarbonização da economia foi reconhecida não apenas como exigência ambiental, mas como oportunidade económica, com investimentos em energias limpas, mobilidade sustentável e eficiência energética a gerar empregos e a posicionar países como líderes na nova economia verde. O Fórum Económico Mundial identificou como principais riscos para 2025 os conflitos armados, os eventos climáticos extremos e os confrontos geoeconómicos. A conjugação destes factores revelou a necessidade de acção coordenada e estratégica. A regulação das tecnologias emergentes tornou-se tema central, com debates sobre protecção de dados, inovação responsável e riscos sistémicos. A ausência de normas globais claras aumentou as assimetrias e a insegurança digital, sobretudo em áreas como criptomoedas, inteligência artificial e plataformas digitais. As comparações regionais revelam disparidades significativas. Nos Estados Unidos, o crescimento rondou os 2,1%, reflectindo cortes graduais nas taxas de juro e políticas proteccionistas. A inflação desceu para valores próximos de 3%, mas o consumo interno manteve-se frágil. Na União Europeia, o crescimento médio foi de 1,3%, com a Alemanha a investir cerca de 40 mil milhões de euros em programas de transição energética e a França a reforçar a aposta na energia nuclear. Portugal registou um crescimento de 2,1%, sustentado pelo turismo, que recuperou para níveis recorde, com mais de 30 milhões de visitantes e receitas superiores a 62 mil milhões de euros, representando cerca de 21,5% do PIB, embora tenha enfrentado inflação persistente nos bens alimentares. Na América Latina, o Brasil cresceu 2,4%, mas enfrentou inundações severas que afectaram mais de 3 milhões de pessoas e provocaram perdas económicas estimadas em 15 mil milhões de dólares, apesar de a inflação se ter mantido em torno de 5%. A Argentina registou um crescimento de 5,5%, com inflação próxima de 30%, muito abaixo dos níveis superiores a 100% dos anos anteriores, reflectindo políticas de estabilização fiscal e monetária. Em África, o crescimento médio foi de 3,5%, mas desigual, com a Nigéria e Angola vulneráveis à volatilidade dos preços do petróleo e países do Sahel a viverem crises humanitárias agravadas por desertificação e conflitos armados. Na Ásia, a China cresceu cerca de 5%, abaixo das metas oficiais, reflectindo a necessidade de estimular o consumo interno. A Índia registou um crescimento robusto entre 7,5% e 8%, impulsionado por investimentos em digitalização, energias renováveis e reformas fiscais, mantendo-se como a economia de maior expansão global. Assim, o panorama económico de 2025 confirma fortes disparidades regionais. As economias dos Estados Unidos e União Europeia cresceram modestamente, enquanto a Índia e a China lideraram a expansão global. A Argentina destacou-se pela estabilização após anos de hiperinflação, e o Brasil enfrentou choques climáticos severos. A África manteve o crescimento médio positivo, mas marcado por desigualdades estruturais e crises humanitárias. Os impactos sociais foram profundos. Nos Estados Unidos, as políticas de expulsão de imigrantes afectaram centenas de milhares de famílias. Na Europa, o aumento do custo da energia provocou manifestações em países como França e Itália. No Brasil, as inundações destruíram comunidades inteiras, obrigando à realocação de mais de 500 mil pessoas. Em África, a escassez de água intensificou migrações internas. A crise de consumo interno em Macau reflectiu a diminuição do poder de compra dos turistas chineses e a retracção da procura local, afectando directamente sectores como a restauração e o comércio. As políticas ambientais ganharam destaque. A União Europeia reforçou o Pacto Ecológico Europeu, investindo mais de 100 mil milhões de euros em energias renováveis e mobilidade sustentável. O Canadá lançou programas de reflorestação que abrangeram 1 milhão de hectares. O Brasil procurou implementar políticas de gestão de inundações com investimentos de 10 mil milhões de dólares. A China investiu em tecnologias de armazenamento de energia, com projectos avaliados em 50 mil milhões de dólares. A Índia ampliou programas solares em zonas rurais, garantindo electricidade a milhões de pessoas. No campo tecnológico, a inteligência artificial e a digitalização transformaram economias e sociedades. Entre 2026 e 2030, mais de 50% das tarefas administrativas poderão ser automatizadas, criando novos desafios de emprego e exigindo políticas de requalificação. A utilização de criptomoedas e de tecnologias financeiras digitais poderá atingir mais de 500 milhões de utilizadores activos. A regulação global da inteligência artificial e das plataformas digitais será fundamental para evitar abusos de mercado e riscos sistémicos. Países como o Japão e a Coreia do Sul avançarão com legislações rigorosas, enquanto a Europa procurará liderar a criação de normas globais. No sector da educação, a digitalização e a inclusão serão prioridades. Até 2030, mais de 70% das escolas em países desenvolvidos poderão utilizar plataformas digitais para ensino híbrido. A inteligência artificial será utilizada para personalizar aprendizagem, adaptando conteúdos às necessidades individuais dos estudantes. Contudo, desigualdades persistirão em África e em partes da América Latina. A educação técnica e a formação contínua serão essenciais para preparar trabalhadores para novas exigências do mercado. (Continua)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Despertar Estratégico da Alemanha (II) (Continuação do artigo publicado em 27 de Novembro) Os primeiros efeitos da crise são visíveis. Emblemático é o impasse do “Future Combat Air System (FCAS)”, programa iniciado em 2018 para a construção de um jacto de sexta geração, hoje à beira do colapso. Segundo o jornal Welt, o governo francês teria exigido o controlo de 80 por cento do projecto, hipótese considerada absolutamente inaceitável na Alemanha, ao ponto de levar o Ministério da Defesa a ponderar o seu cancelamento definitivo e a demonstrar crescente interesse pelo “Global Combat Air Programme”, desenvolvido pela “BAE Systems e Leonardo” em cooperação com a Mitsubishi. O facto de o motor original da nossa Europa dar sinais de avaria diz muito sobre a verdadeira substância do rearmamento europeu. O plano “ReArm Europe”, apresentado com pompa pela presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, corre o risco de acentuar as incongruências entre os sistemas de defesa do continente, pois, na prática, apenas os Estados com ampla margem fiscal poderão reforçar os seus aparelhos militares. Os países europeus estão a rearmar-se, mas fazem-no de forma desigual e para satisfazer prioridades marcadamente nacionais, por vezes em conflito entre si. O caso alemão é exemplar. Em resposta às solicitações de Paris, Berlim foi bastante clara ao excluir a hipótese de uma dívida comum europeia para financiar as indústrias de defesa. E, em Março passado, ainda antes de formalizar a nova “Große Koalition”, o Bundestag aprovou um plano monumental que suspende o travão ao endividamento para todas as despesas militares superiores a 1 por cento do PIB. Uma medida sem precedentes, que pela primeira vez abre a perspectiva de um rearmamento potencialmente ilimitado. Segundo as estimativas mais prudentes, a Alemanha deverá assumir um esforço financeiro anual significativo ao longo da próxima década, representando uma fatia relevante do seu PIB. Para compreender a dimensão da ambição da República Federal, basta observar a lista de despesas prevista por responsáveis em Berlim, que se prolonga por várias décadas e integra ainda parte do fundo especial anunciado pelo chanceler Scholz. Entre as áreas mais relevantes destacam-se o investimento em munições, veículos de combate, embarcações e equipamentos navais, aviões e mísseis, bem como recursos logísticos e de campo, outros tipos de veículos, sistemas de telecomunicações e comunicações via satélite. O pico de despesa está previsto entre 2029 e 2030, com mais de 52 mil milhões de euros por ano apenas em equipamentos militares. Merz tem razão ao afirmar que a República Federal se prepara para se tornar o «exército convencional mais poderoso» do Velho Continente. Menos fundamentada é a ideia de que isso possa automaticamente servir uma causa europeia indefinida. Não se trata de alimentar alarmismos inúteis pois não estamos perante o regresso do militarismo alemão tal como o estudámos nos manuais de história, nem a classe dirigente berlinense ambiciona conquistar um “lugar ao sol” de inspiração guilhermina. Aliás, se a ocasião o exigir, é bastante provável que a Alemanha venha a utilizar o seu instrumento militar em cooperação com outros países europeus. Mas convém lembrar que a medida desse compromisso será determinada, em última análise, exclusivamente por um cálculo dos interesses alemães. O rearmamento alemão está à vista de todos. Menos claro é saber quais são realmente os planos de Berlim. As pressões ocidentais tiveram peso, mas não são suficientes, por si só, para explicar um fenómeno desta magnitude. É preciso ir mais fundo. Há, antes de mais, um cálculo económico. Na classe dirigente berlinense é generalizada a convicção de que o rearmamento pode dar novo fôlego a um sistema industrial em profunda crise, em particular ao sector automóvel. O pressuposto é que, nos últimos anos, todos os pilares da prosperidade alemã se foram desmoronando. E, ao contrário de outros países ocidentais, a República Federal é uma potência industrial e quer continuar a sê-lo, pois é precisamente a capacidade de exportar produtos de elevado valor acrescentado que sustenta o pleno emprego e o Estado social. É por isso que, em Berlim, se discute a “reconversão”, ou seja, transformar para fins militares uma parte considerável da manufactura civil perspectiva que seduz especialmente o gigante da defesa Rheinmetall, desesperadamente à procura de operários altamente qualificados. Contudo, é altamente improvável que a produção militar, mesmo levada ao extremo, consiga resolver todos os problemas da Alemanha. Existe, porém, uma dimensão mais profunda. A invasão russa em larga escala da Ucrânia não criou o rearmamento alemão, mas apenas o acelerou até o tornar irreversível. Na verdade, a ideia de que a Alemanha deveria voltar a considerar o uso do seu instrumento militar era cultivada nos círculos estratégicos berlinenses há mais de uma década. Em Maio de 2010, o presidente federal Horst Köhler afirmou, numa entrevista radiofónica, que os alemães deviam preparar-se «para usar a força na defesa dos seus interesses». Essas palavras provocaram tal escândalo que o obrigaram a demitir-se. Mas Köhler não fez mais do que tornar público, talvez com franqueza excessiva, aquilo que se discutia nos bastidores. Não foi por acaso que, apenas dois anos depois, dois dos mais influentes think tanks de Berlim a “Stiftung Wissenschaft und Politik” e o “German Marshall Fund” lançaram o projecto “New Power, New Responsibility: Elements of a German foreign and security policy for a changing world” em Outubro de 2013. O relatório final, com mais de 50 páginas, estava perfeitamente alinhado com a visão de Köhler de que “Os cidadãos alemães viveram uma era de segurança sem precedentes. Mas ameaças tradicionais como guerra, proliferação nuclear e terrorismo continuam a existir. A Alemanha depende existencialmente do intercâmbio com outras sociedades, e a vulnerabilidade de vizinhos e aliados afecta também a sua própria segurança. A sua protecção é, portanto, do seu interesse. O aumento do seu poder e influência exige que a Alemanha assuma maiores responsabilidades para proteger o seu estilo de vida, recorrendo a todos os meios legítimos, incluindo a força militar, quando e onde necessário.” Entre os participantes figuravam especialistas em segurança, representantes da indústria de armamento, funcionários dos ministérios da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, e deputados do Bundestag. É por isso que, entre 2016 e 2018, a Bundeswehr alterou formalmente a sua missão principal, passando da gestão de crises globais para a defesa territorial. Esta revolução permaneceu durante anos apenas no papel, mas na prática tornou possível o rearmamento anunciado por Scholz em 2022. Em certo sentido, o discurso sobre a Zeitenwende (ponto de viragem histórico) estava pronto há muito tempo e esperava apenas ser pronunciado. A viragem dizia respeito à urgência, não ao conceito. Em três anos, uma ideia minoritária tornou-se senso comum, resultado que se deve sobretudo à iniciativa da classe dirigente, empenhada num esforço total para reintroduzir um ethos militar no tecido da sociedade civil. A verdadeira revolução está a ocorrer na mente do alemão médio, para quem a guerra deixou de ser impensável. As vozes que apelam a uma paz sem armas, outrora dominantes, foram progressivamente excluídas do debate público. Emblemático é o caso do livro do jovem jornalista Ole Nymoen, “Warum ich niemals für mein Land kämpfen würde (Porque nunca lutaria pelo meu país)” publicado em 11 de Março de 2025. No momento da publicação causou polémica, mas as suas teses nunca foram levadas verdadeiramente a sério. No Bundestag, apenas o Die Linke permanece abertamente pacifista, enquanto a AfD e os partidos tradicionais encontram um ponto de concordância inédito. O ministro da Defesa, Boris Pistorius actualmente o político mais popular do país não perde oportunidade para afirmar que a Bundeswehr deve voltar a ser «capaz de combater» (kriegstüchtig) e não descartou uma guerra entre a OTAN e a Rússia até 2029. E a população acompanha, pois mais de dois terços dos alemães dizem apoiar o dobro das despesas com a defesa até 2032. Estamos no centro de uma década que, com toda a probabilidade, conduzirá ao fim do complexo de culpa histórica que tem pesado sobre os alemães nos últimos oitenta anos. O passado não será apagado nem esquecido, mas deixará gradualmente de limitar a margem de manobra de Berlim. Assim se encerra, em parte, aquilo que o historiador britânico Alec Ryrie definiu como a “era de Hitler”, ou seja, o longo pós-guerra em que Adolf Hitler foi “a figura mais poderosa e unificadora”, erigida como negativo absoluto no cânone moral de nações e indivíduos. Uma nova Alemanha desenha-se no horizonte, e os seus contornos permanecem bastante indefinidos. A única certeza é que transformará a Europa.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Despertar Estratégico da Alemanha (II) “The claim that a state’s security interest necessarily coincides with that of its citizens appears downright absurd.” Ole Nymoen Se os ditames draconianos do Plano Morgenthau proposta dos Estados Unidos em 1944 para desmilitarizar e desindustrializar a Alemanha após a II Guerra Mundial, transformando-a num país agrário e incapaz de iniciar novos conflitos ficaram letra morta, foi apenas porque, nesses mesmos meses, começava a amadurecer nos Estados Unidos a consciência de um conflito de fundo na Europa com a União Soviética. Com o passar das semanas, a prioridade deixou de ser a neutralização da Alemanha e passou a ser impedir que Moscovo a absorvesse na sua esfera de influência. Na interpretação de vários responsáveis americanos da época, antes de alcançar o Atlântico, o Exército Vermelho teria de se apoderar das capacidades industriais da Renânia e da região do Ruhr coração histórico da indústria alemã, com destaque para os sectores do carvão, aço, química, energia e logística. Daí a necessidade de reerguer um Estado alemão ocidental e de orientar o seu potencial económico, humano e tecnológico contra o expansionismo soviético. Resumido num documento da CIA de 1949, o objectivo dos Estados Unidos passou a ser “o controlo permanente do poder alemão”. Oitenta anos depois, mudaram os contornos, não a substância. Hoje, para Washington, o desafio do século chama-se China, e os custos da defesa do Velho Continente devem recair sobre os europeus. A margem de manobra financeira da França e do Reino Unido é limitada, também devido aos seus dispendiosos arsenais nucleares. E, do ponto de vista dos polacos, bálticos e escandinavos, a Rússia é uma ameaça existencial, a conter e desgastar por todos os meios. Tudo aponta numa única direcção que é do rearmamento alemão. Segundo esta lógica, caberá à Alemanha assegurar a massa crítica de recursos económicos e forças convencionais que os restantes parceiros ocidentais não podem ou não querem mobilizar. Naturalmente, pressuposto essencial desta aposta é que Berlim não aja por conta própria, construindo uma esfera de influência ou perseguindo interesses estritamente nacionais. Só assim se compreende que a República Federal, cujo ordenamento jurídico teoricamente proíbe até o envio de armas para zonas de conflito armado, esteja actualmente a debater se deve colocar tropas no terreno na Ucrânia. Nos últimos anos, os alemães quebraram vários tabus alguns de longa data, como o travão ao endividamento mas este seria, por razões evidentes, o mais clamoroso. Assim, em Agosto, no final da cimeira de Washington, Merz sublinhou que a Alemanha tem um “interesse fundamental” em cooperar para oferecer garantias a Kiev, com a imagem do chanceler nos papéis de um sinistro Tio Sam, acompanhada da legenda de que “Merz quer mandar-te para a Ucrânia? Nós não!” Até hoje, trata-se de uma perspectiva não só impopular segundo uma sondagem recente, pois 51 por cento dos alemães são contra e apenas 36 por cento a favor mas também tecnicamente impraticável. Apesar do aumento significativo das despesas militares, o efectivo das Forças Armadas Alemãs continua a diminuir e a envelhecer. Parece fora de alcance até o objectivo de 203 mil unidades até 2031, meta que a comunidade estratégica de Berlin-Mitte, o distrito mais central e histórico de Berlim, considerado o coração político, cultural e turístico da capital alemã considera totalmente insuficiente para satisfazer as actuais necessidades de segurança alemãs. Nos últimos três anos, os cerca de 180 mil efectivos diminuíram ligeiramente. É difícil imaginar que a reforma do serviço militar recentemente aprovada pelo governo federal possa representar a solução, pois o recrutamento, por agora, continuará a ser voluntário. Não estamos, portanto, perante um processo linear. Mas convém recordar que, por mais que diariamente legiões de especialistas se esforcem por apresentar o rearmamento alemão como a panaceia para todos os males do Ocidente, continua a ser uma aposta de alto risco. Sobretudo porque o contexto estratégico europeu é radicalmente diferente daquele que, no pós-guerra, levou Washington a deixar-se convencer por Londres e Paris a não abandonar a Europa. Na altura, foram os líderes franceses em particular figuras como Robert Schuman e Jean Monnet que defenderam com firmeza que qualquer retirada das tropas americanas teria “consequências desastrosas” para a segurança nacional dos vencedores. E nos Estados Unidos havia plena consciência de que a reaproximação entre França e a Alemanha era condição fundamental para dar solidez ao bloco ocidental. Como estabeleceu o secretário de Estado Dean Acheson que desempenhou um papel central na formulação da política externa americana durante os primeiros anos da Guerra Fria, afirmaria em 1949 de que “Só a França pode assumir a liderança decisiva na integração da Alemanha na Europa Ocidental… se quiser evitar um domínio russo ou alemão ou talvez russo-alemão na Europa.” Tendo toda a consideração pela retórica europeísta, sem as garantias de segurança dos Estados Unidos não teria existido qualquer eixo franco-alemão, verdadeiro motor da integração europeia. A prova está à vista de todos e será coincidência que o parcial descomprometimento americano com o continente coincida hoje com uma crise nas relações entre a Alemanha e a França? Washington parece cada vez mais distante. Reemergem feridas antigas, nunca totalmente saradas. Em particular, a origem das tensões entre as duas margens do Reno reside numa percepção oposta do rearmamento alemão. Paris receia que possa se transformar a República Federal numa potência assertiva e desvinculada de qualquer controlo. Berlim, por sua vez, suspeita que os franceses pretendem utilizar os fundos alemães para promover as suas ambições dispendiosas. Trata-se de uma fractura estrutural, impossível de colmatar por completo, independentemente da boa vontade de Merz e Macron. (Continua)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Despertar Estratégico da Alemanha (I) (Continuação do artigo publicado na edição de 13 de Novembro) Após anos de promessas não cumpridas, a Alemanha leva agora o assunto a sério. E, de repente, o rearmamento alemão, aos olhos dos mesmos aliados que durante tanto tempo exigiram a sua necessidade absoluta, parece pouco tranquilizador. Sorrisos e apertos de mão em público, preocupação nos bastidores, pois percebe-se em palavras fora de lugar, em decisões aparentemente injustificadas e até na expressão dos rostos. Caso contrário, seria difícil explicar por que razão, em Setembro de 2022, Varsóvia decidiu formalmente pedir a Berlim reparações pelas perdas humanas e materiais sofridas durante a ocupação nazi, estimadas em cerca de 1.300 mil milhões de euros. Preço de amigo, claro. Muito mais directo foi Trump durante o encontro com Merz na Casa Branca em Junho de 2025 ao afirmar que “Estão a gastar mais dinheiro na defesa, e isso é bom. Não tenho a certeza de que o general MacArthur pensasse o mesmo, … percebes o que quero dizer? Ele disse: ‘Nunca deixem que a Alemanha se rearme’. … Eu acho que é positivo, mas só até certo ponto. Vai chegar o momento em que vos direi ‘Por favor, parem de se armar, se não se importam’.” Seguiu-se uma palmada amigável na perna do chanceler alemão dizendo: “Vamos ficar atentos, eu trato disso.” O episódio terminou, para alívio de Merz, com uma risada forçada. O sentimento de incerteza não se sente apenas em Washington e Varsóvia, mas também nos círculos governamentais de Londres e Paris, onde certamente não foram esquecidos os avisos de Margaret Thatcher e François Mitterrand entre 1989 e 1991, aquando da queda do Muro e da reunificação alemã. Por exemplo, entre os responsáveis alemães é convicção generalizada que a proposta do presidente francês Emmanuel Macron de estender à Alemanha o arsenal nuclear francês é, na prática, uma manobra para controlar a sua trajectória, preservar o primado militar francês na União Europeia e, ao mesmo tempo, garantir os vastos recursos financeiros do outro lado do Reno. Não exactamente um gesto de solidariedade entre aliados. Surge então uma pergunta de por que razão o Ocidente incentivou durante anos o reforço das capacidades militares de Berlim, para depois, pelo menos em parte, arrepender-se? Esta incongruência obedece a alguma lógica? Para responder, ajuda a recordar um leitmotiv que circula em Washington há pelo menos uma década, sobretudo desde que Barack Obama apresentou o chamado “Pivot to Asia” (que foi uma estratégia de política externa lançada pelo presidente Barack Obama em 2011, que marcou uma mudança significativa do foco dos Estados Unidos do Médio Oriente e Europa para a Ásia-Pacífico. O objectivo era reforçar a presença diplomática, económica e militar dos Estados Unidos na região diante da ascensão da China) de que para os Estados Unidos, é imperativo transferir para terceiros os custos de contenção das ambições russas na Europa, pelo menos no plano convencional. E neste quadro, o contributo da República Federal, primeira economia do continente, parece inevitável. O problema é de quem pode garantir que Berlim, depois de desenvolver as suas capacidades bélicas como solicitado por Washington, as utilizará de forma coerente com os interesses americanos? É fácil controlar quem é frágil e indefeso, muito menos quem está armado até aos dentes. Em suma, as capacidades humanas e industriais da Alemanha são indispensáveis, mas deixá-las nas mãos dos alemães assusta e não pouco. Nada de novo no bloco ocidental pois estamos perante a mesma contradição que, no início da Guerra Fria, levou os Estados Unidos a construir o seu império informal na Europa. Uma arquitectura pensada, em boa parte, para manter os alemães “subjugados”, segundo a célebre fórmula do primeiro secretário-geral da NATO, Lord Ismay. Inimigos sentados à mesa dos amigos. Nenhum americano, na segunda metade dos anos de 1940, teria consentido na reintegração da Alemanha (ainda que dividida) na “família das nações ocidentais” se não a considerasse estritamente necessária. Aliás, antes do fim das hostilidades, o presidente Franklin Delano Roosevelt defendeu abertamente que os alemães deveriam enfrentar custos “tão impressionantes que hesitassem antes de iniciar uma nova guerra”. Aos seus olhos, a Alemanha seria “menos perigosa para a civilização se dividida em 107 províncias”. Também por isso, em Setembro de 1944, durante a conferência de Québec, Roosevelt aceitou ratificar com Winston Churchill um projecto que previa a transformação do inimigo num “país de carácter predominantemente agrícola e pastoril”. O plano, desenvolvido nos meses anteriores pelo então secretário do Tesouro Henry Morgenthau com o título evocativo de “Programa para Impedir que a Alemanha Inicie uma Terceira Guerra Mundial” previa, na sua essência, retirar aos alemães “todas as suas indústrias pesadas”.
Jorge Rodrigues Simão PerspectivasO Despertar Estratégico da Alemanha (I) “I fear German inaction more than German power.” Radosław Sikorski, Berlin, November 2011 Berlim rearma-se, não por uma causa europeia abstracta, mas antes de tudo por si. A “mudança de época” foi preparada ao longo de vários anos e conseguiu convencer a população. Os Estados Unidos encorajam, mas até certo ponto. A crise com a França é notória. Rumo à superação do sentimento de culpa há algum tempo, nas principais chancelarias europeias (e não só), voltou a ecoar uma velha pergunta de para onde vai a Alemanha? A história nunca se repete e raramente rima. No entanto, a questão alemã parece destinada a redefinir ciclicamente os equilíbrios do Velho Continente. Muito mais do que um simples reequipamento das Forças Armadas da Alemanha (Bundeswehr), Berlim atravessa uma revolução estratégica preparada há mais de uma década e acelerada drasticamente com o início da “operação especial” russa na Ucrânia. Independentemente do desfecho, esta viragem redesenhará de forma definitiva a maneira como a República Federal se representa a si e ao seu papel no mundo. Não há retorno possível. O coração pulsante da revolução alemã é o rearmamento. Para compreender a futura configuração estratégica do país, não basta enumerar os fundos colossais destinados às Forças Armadas Alemãs nos últimos meses, os planos de aquisição ou as declarações enfáticas do Chanceler Friedrich Merz desde 6 de Maio de 2025 e de outros ministros federais. Os números, por mais relevantes que sejam, representam apenas a superfície. A questão é cultural antes de ser material. A Alemanha identificou na força militar o factor decisivo da sua renovação. Hoje, nos corredores do poder e nas principais instituições berlinenses, admite-se com invulgar franqueza que os pilares sobre os quais os alemães construíram a sua prosperidade durante mais de trinta anos deixaram de existir. Espalha-se uma nova interpretação que é a verdadeira alternativa ao declínio, ou seja, de redefinir a relação com o instrumento militar. Não há terceira via. Inevitavelmente, esta dinâmica não afecta apenas as Forças Armadas Alemãs, mas também a forma como a população concebe o sistema económico, a política externa e até a ética, a cultura e a auto- consciência nacional. Chega mesmo a tocar na culpa herdada em relação ao passado pela longa sombra de Auschwitz, que para os alemães assume contornos quase metafísicos. Um processo destinado a criar uma nova Alemanha e a transformar profundamente a Europa. Uma cultura estratégica não se inventa de um dia para o outro. Num mundo em que as normas partilhadas cedem lugar às relações de força cruas, os alemães descobrem-se desorientados e sem referências. Certamente, o velho “Modell Deutschland” (é um conceito político e económico que descreve o modelo de desenvolvimento da Alemanha Ocidental durante o pós-guerra, especialmente entre as décadas de 1970 e 1980) chegou ao fim e aquele modelo fundado na ideia, cada vez mais enraizada após a queda do Muro, de que a República Federal poderia construir uma primazia económica sem se dotar dos meios para a defender pela força. Berlim não decidiu espontaneamente abandonar a sua visão “pós-heróica”, pois era uma moldura confortável, quase ideal, sustentada por dois pilares; o de delegar a segurança aos Estados Unidos e, paralelamente, desenvolver relações comerciais e energéticas com os seus dois rivais estratégicos, China e Rússia. Actualmente, o último que a Alemanha deseja é liderar a Europa ou assustar os países vizinhos. É um dos poucos pontos em que os partidos tradicionais e as forças nos extremos do espectro político estão de acordo. Aqui tocamos num dos muitos paradoxos do “ponto de inflexão histórico”; a mudança de época proclamada três dias após o início da invasão russa pelo então Chanceler Olaf Scholz, num dos seus raros momentos de firmeza. Mais do que qualquer outra coisa, o que obrigou Berlim a sair da sombra com um projecto de rearmamento sem precedentes foi a pressão constante de vários aliados ocidentais, que durante anos lhe censuraram uma atitude de “aproveitadora” e exigiram um compromisso proporcional à sua dimensão. Emblemático foi, por exemplo, o discurso proferido em Berlim em Novembro de 2011 por Radosław Sikorski, actual Ministro dos Negócios Estrangeiros e Vice-Primeiro-Ministro da Polónia, que definiu a Alemanha como a “nação indispensável” na Europa e declarou temer “mais a sua inércia do que o seu poder”. Palavras que ecoaram nos anos seguintes nos avisos de Barack Obama e nas invectivas bem mais contundentes de Donald Trump, que durante o seu primeiro mandato apontou os alemães como “delinquentes” e “prisioneiros dos russos” esta última referência como sendo o alvo mais eficaz da sua retórica. (Continua)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesTriângulo Estratégico Global (II) “Winning the AI race will usher in a new golden age.” U.S. Defense Innovation Board, 2023 Depois dos Estados Unidos, a Rússia é a única grande potência com laços de sangue profundos com Israel. A diáspora de judeus oriundos do espaço pós-soviético, iniciada há mais de quatro décadas, permitiu a Moscovo contar com uma comunidade de cerca de um milhão de russos a viver em território israelita, muitos deles integrados nas elites. A comunicação entre Netanyahu e Putin é directa e funcional. No Kremlin, há quem veja com bons olhos a eventual ascensão de Naftali Bennett judeu de origem americana e mediador informal nas negociações russo-ucranianas de 2022, interrompidas por pressões externas. Neste contexto, a possibilidade de Israel expandir os seus actuais sete teatros de guerra não é remota. A erosão acelerada dos equilíbrios internos ao triângulo com o Irão e a Turquia fragiliza os amortecedores geopolíticos da região. A distância física de quase dois mil quilómetros que separa Israel do Irão torna-se cada vez mais irrelevante, à medida que se intensifica a tensão entre os dois regimes, envoltos numa retórica de demonização mútua. A crise do corredor estratégico que liga Herat a Beirute, passando por Teerão, Bagdade e Damasco, alimenta a hipótese de um confronto directo. Com a Turquia, o tabuleiro é outro. A Síria tornou-se o campo de manobra. Damasco, tomada recentemente por milícias jihadistas apoiadas por Ancara, está perigosamente próxima das posições israelitas para lá do Golã. Um cenário de equilíbrio instável entre turcos em Alepo e israelitas em Damasco começa a desenhar-se. Erdogan, com ambições de longo prazo, sonha com a reconquista simbólica de Jerusalém e da mesquita de Al-Aqsa, num futuro em que Israel não exista. Embora Telavive não o admita, o verdadeiro desafio estratégico não está no Irão, enfraquecido e em modo de sobrevivência, mas na Turquia, cuja visão neo-imperial se estende do Médio Oriente ao Norte de África. O pragmatismo poderia levar Israel a procurar aproximação com Teerão para conter Ancara, cuja expansão é mais tangível e ameaçadora. O mosaico de rivalidades no Médio Oriente aparenta estar contido, mas a sua fusão com o conflito ucraniano por via do Cáucaso ou do Mar Negro não é uma hipótese a descartar. A análise cruzada dos três grandes cenários de guerra conduz a três conclusões. A primeira, a da paz possível será sempre imperfeita e só poderá nascer de compromissos graduais entre os Estados Unidos e a China, com a Rússia como peça-chave. São estas três potências que detêm a capacidade de se aniquilar mutuamente e, com isso, pôr fim à vida no planeta. O verdadeiro líder do século será aquele que conseguir atrair Moscovo para a sua esfera, oferecendo-lhe a ilusão de autonomia. A Europa, mesmo nas suas versões mais ambiciosas, disputará lugares secundários no comboio conduzido por Washington ou Pequim. Potências médias com aspirações globais como o Japão, a Índia ou a própria Turquia ocuparão lugares de destaque, mas sempre subordinados a um equilíbrio instável. Não há hegemonia absoluta, apenas uma dança de forças em tensão permanente. Nada que se compare à ordem de Viena ou à geometria bipolar de Yalta. O mundo actual é um salão de baile onde aristocratas decadentes e corsários sofisticados dançam sob vigilância mútua, mantendo esferas de influência que se sobrepõem e se entrelaçam. O compromisso entre os grandes não é o fim da história, mas a única forma de evitar que termine. Sob essa trégua frágil, multiplicar-se-ão conflitos de menor escala, sobretudo entre o Médio Oriente e África guerras intermitentes, sem plano e horizonte, em territórios esquecidos ou disputados por vizinhos e potências distantes. Duas variáveis, no entanto, escapam a qualquer controlo a de um eventual confronto entre a Rússia e a China, ainda remoto mas plausível, e um embate directo entre a Rússia e os Estados Unidos, menos provável mas facilitado pela proximidade das linhas de contacto na Europa Oriental, especialmente após a divisão da Ucrânia. Não será amanhã. Mas depois de amanhã pode ser tarde. Vivemos num tempo de coexistência forçada, imposta pela impossibilidade de uma guerra mundial racionalmente concebida. Conflitos localizados ou até globais podem surgir, desde que se mantenham abaixo do limiar nuclear. (Continua)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesTriângulo Estratégico Global (I) (Continuação da edição de 23 de Outubro) Exagerar a ameaça russa serve tanto à indústria como à política interna. No extremo inferior da escala, os palestinianos continuam a ser alvo de extermínio e deslocação por parte de Jerusalém, numa busca persistente por espaço vital. São vítimas esquecidas, sobretudo pelos que se dizem seus amigos. A crise de coesão social no triângulo das potências regionais é evidente. Em Israel, a fragmentação interna é dramática. As guerras externas funcionam como válvula de escape para evitar o colapso interno entre tribos centrífugas, onde o recuo dos judeus ultra ortodoxos em combater pelos sionistas é mais do que alarmante. No Irão, a tensão é latente, resultado da laicização progressiva da sociedade e do regime, que o Ocidente continua a imputar aos aiatolas uma caricatura que não diverte e do colapso da natalidade. Na Turquia, a situação é gerível, apesar do fosso crescente entre o islamismo pragmático do regime e o laicismo, quase ateu, difundido entre os jovens. A taxa de fertilidade caiu de 2,38 filhos por mulher em 2001 para 1,48 em 2024, sinal de uma transição demográfica profunda. Quanto ao triângulo das grandes potências, os Estados Unidos mantêm interesse apenas para evitar a autodestruição de Israel, provocada por guerras impossíveis de vencer. Mas o empenho é decrescente. Trump não confia em Netanyahu, que tenta instrumentalizá-lo, mas depende dele para os armamentos. As extravagâncias israelitas são toleradas, pois o interesse americano reside em supervisionar o equilíbrio entre os três protagonistas, Estados Unidos, Rússia e China além da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, convertidos ao jogo em campo aberto, com a China e até com o Irão. A linha vermelha da bomba persa, com consequências sauditas e turcas, permanece como ponto de tensão. Sem outra perspectiva senão empurrar todos mais além. A Rússia redescobriu recentemente os seus parceiros médio-orientais da era soviética, a começar pela Síria, tentando abrir uma brecha a sudoeste no dispositivo americano a ocidente da vertical Murmansk-Cairo fronteira oriental da esfera de influência americana na era pós-global. A queda dos al-Assad infligiu um golpe duríssimo à influência russa na região. Moscovo tenta defender o acesso à sua única base naval no Mediterrâneo, reduzida mas não comprometida. Putin reforça os laços militares e energéticos com o Irão, como bem sabem os ucranianos, alvo de enxames de drones persas, enquanto negoceia com a Arábia Saudita, juntamente com os americanos, o preço do petróleo. Erdogan estende as suas províncias a quase toda a Líbia, ao mesmo tempo que oferece apoios ambíguos no Mar Negro e nas negociações secretas sobre a Ucrânia. Mas a rivalidade entre a Segunda e a Terceira Roma está destinada a durar até aos últimos dias. Por fim, o triângulo estratégico entre Israel, Turquia e Irão no Médio Oriente, inscrito entre Suez, Bab al-Mandab e Hormuz, acrescenta uma camada de complexidade ao panorama global. São ilhas de identidade forte num mar de para-Estados e comunidades fragmentadas, onde a estabilidade é sempre relativa. A guerra na Ucrânia, longe de ser um episódio isolado, é o espelho de um mundo em transição. Um mundo onde o equilíbrio entre potências, a redefinição das alianças e a gestão dos conflitos regionais determinarão o rumo da história. E onde a paz, mais do que um ideal, será o resultado de uma engenharia diplomática paciente e multilateral.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesTriângulo Estratégico Global (I) “The divergence between American and European strategic analysis is more instrumental than sincere.” José Milhazes A guerra na Ucrânia não é apenas uma tragédia regional. É o reflexo de uma transição sistémica que atravessa o mundo, onde o equilíbrio entre potências, alianças e civilizações está em reconfiguração. O conflito, embora localizado, contém em si três dimensões interligadas que o tornam um dos eventos mais significativos da era pós-Guerra Fria. A primeira dimensão, visceral e imediata, é a mais sangrenta. Trata-se do confronto entre o que resta do império russo movido por uma pulsão de grandeza histórica e a nação ucraniana, que procura afirmar-se como Estado soberano e independente, livre da influência moscovita. Esta luta, que mistura elementos de guerra civil com disputas de sucessão pós-soviética, é marcada por memórias imperiais, ressentimentos históricos e ambições nacionais. A Ucrânia, ao tentar consolidar a sua identidade política e cultural, desafia directamente a narrativa russa de unidade eslava e continuidade imperial. A segunda dimensão, mais estrutural e de alcance continental, envolve o espaço euro atlântico em processo de transformação. Desde o colapso da União Soviética, a expansão da influência ocidental para leste tem sido constante. A integração da antiga Alemanha Oriental, a adesão dos países bálticos, da Polónia, da Roménia e, mais recentemente, da Finlândia e da Suécia à OTAN, desenham uma trajectória de aproximação à fronteira russa. A ofensiva militar de Moscovo contra Kiev surge como reacção a essa marcha oriental, tentando impedir que a Ucrânia se transforme numa plataforma avançada de influência americana. Sob esse prisma, os combatentes ucranianos tornam-se peças num tabuleiro maior, onde Washington projecta poder através de alianças e apoios indirectos. A retórica do “Ocidente colectivo”, embora usada como instrumento de mobilização interna pela Rússia, revela-se útil para conferir à intervenção o estatuto de guerra patriótica. A terceira dimensão, mais silenciosa mas decisiva, inscreve-se no desafio sistémico entre potências globais. A Ucrânia tornou-se um campo de teste para a resiliência das alianças, a eficácia das estratégias de contenção e a capacidade de adaptação das grandes potências. O conflito desenha uma geometria de pares com a Ucrânia e Estados Unidos de um lado; Rússia e seus parceiros estratégicos do outro. A China, embora não envolvida directamente, observa com atenção e prudência, calibrando os seus movimentos num tabuleiro onde a estabilidade regional e a autonomia estratégica são prioridades. A sua postura, marcada pela moderação e pelo pragmatismo, contribui para evitar uma escalada descontrolada e preserva canais de diálogo que podem ser cruciais para uma eventual resolução. Neste cenário, a guerra na Ucrânia contém os ingredientes para uma escalada de alcance mundial, caso um dos vértices do triângulo geopolítico Washington, Moscovo ou Pequim decida romper o equilíbrio tácito. A única saída sustentável parece residir num entendimento entre essas três potências, capaz de evitar que Kiev se torne o palco de uma nova guerra global, à semelhança das que marcaram o século passado. A Europa, por seu lado, assiste com crescente apatia ao desenrolar da tragédia. A sua fronteira oriental arde, mas o público europeu, fatigado e dividido, hesita entre o envolvimento e o distanciamento. A Ucrânia, tecnicamente falida e dependente de ajuda externa, vê metade da sua população viver em diáspora. Os que permanecem enfrentam uma guerra de sobrevivência, conscientes de que a vitória total é improvável. O objectivo tácito parece ser enfraquecer a Rússia, mesmo que isso implique a erosão da estabilidade europeia. A frente nordeste da OTAN, centrada na Polónia e estendida do Ártico ao Mar Negro, emerge como possível ponto de ignição. A Alemanha, com memória histórica e responsabilidade geopolítica, será determinante na reconstrução da Ucrânia pós-conflito. A sua influência, discreta mas profunda, contrasta com a assertividade polaca, marcada por rivalidades regionais. No horizonte, vislumbra-se um cenário de cessar-fogo ao estilo coreano, com uma nova cortina de aço a dividir o país. A reconstrução será partilhada entre os aliados ocidentais, com feudos demarcados e interesses cruzados. A Rússia, por sua vez, poderá consolidar uma Nova Rússia, estendendo-se da Transnístria ao Báltico, homenageando os czares que projectaram o império em direcção à Europa. A lógica das capacidades militares, mais do que as intenções declaradas, alimenta a possibilidade de confrontos preventivos. A escalada nuclear táctica, embora indesejada, torna-se uma consequência quase automática num ambiente de desconfiança mútua. Os Estados Unidos, cautelosos, preferem deslocar o foco para o Indo-Pacífico, enquanto os europeus, divididos entre ambições e ressentimentos, enfrentam o dilema de rearmar-se sem o guarda-chuva nuclear americano. A divergência estratégica entre americanos e europeus é mais funcional do que ideológica. Em Washington, a retirada parcial da Europa é vista como oportunidade para redistribuir recursos e testar a autonomia dos aliados. Na Europa, essa retirada é interpretada como oportunidade de reconfigurar ambições e ajustar contas históricas. (Continua)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesIn Memoriam do Chef António Coelho “I love Portuguese food. I love the traditional and authentic cuisine. It’s the one I learned in Portugal. For me, that’s very important because I prefer the traditional things.” Chef António Neves Coelho O guardião da culinária luso-macaense e querido amigo, Chef António das Neves Coelho, deixou-nos no dia 12 de Outubro de 2025, no Hospital Conde de São Januário. Figura maior da gastronomia portuguesa em Macau, mentor de gerações, defensor da autenticidade culinária e símbolo de resiliência institucional. A sua partida representa uma perda irreparável para a cultura gastronómica da RAEM e para a memória afectiva de todos os que com ele partilharam mesa, cozinha e sonhos. O Chef António cresceu entre aromas de azeite, alho e vinho tinto. Desde cedo, revelou uma vocação rara para a cozinha, não apenas como técnica, mas como narrativa cultural. A sua formação passou por casas emblemáticas da gastronomia portuguesa, onde aprendeu a respeitar os ingredientes, os tempos e os afectos que compõem a tradição culinária. A sua carreira internacional levou-o a três continentes e, finalmente, a Macau território onde cumpriu o serviço militar e encontrou o seu verdadeiro palco. A partir de 1997, consolidou-se como Executive Chef e gestor de operações em espaços de referência, tornando-se um dos principais embaixadores da cozinha portuguesa e macaense. Macau não foi apenas o seu destino profissional mas o seu lar espiritual. António compreendeu que a culinária macaense não é apenas uma fusão de sabores, mas também de histórias. Com sensibilidade e rigor, tornou-se defensor da preservação das receitas tradicionais, da valorização dos ingredientes locais e da formação de equipas multiculturais com espírito de missão. Fundou uma marca própria, onde actuou como director culinário e gestor geral por mais de uma década no António Restaurante recebendo 12 recomendações Michelin, entre outras. A sua liderança era marcada por uma combinação rara de exigência técnica, empatia humana e visão estratégica. A sua cozinha era feita de azeite e afecto, de técnica e ternura, de rigor e poesia. O seu contributo foi reconhecido por duas distinções de elevado prestígio como a Medalha de Mérito Turístico, atribuída pelo Governo da RAEM, em reconhecimento pelo seu papel no desenvolvimento do sector da hospitalidade e da cultura gastronómica local e a Medalha de Mérito das Comunidades Portuguesas, atribuída pelo Governo de Portugal, pela sua acção como ponte cultural entre continentes e pela promoção da identidade portuguesa no exterior. Estas honrarias não foram apenas troféus mas testemunhos da sua dedicação à causa pública, à cultura e à excelência. Em 2024, o Chef António assumiu a liderança de um novo projecto gastronómico no Angela Café & Lounge do Lisboeta Macau. Ali, criou um menu que celebrava a essência portuguesa e macaense, com pratos como bacalhau à lagareiro, arroz de marisco e sobremesas com toque conventual. O espaço tornou-se um ponto de encontro entre tradição e modernidade, entre turistas e locais, entre memória e futuro. A sua equipa, formada e inspirada por ele, continua a representar os pilares da sua visão com dedicação, criatividade e compromisso com a excelência. O falecimento do Chef António representa uma perda humana e institucional de grande significado. Mas o seu legado permanece vivo na memória dos clientes que saborearam os seus pratos; na formação dos profissionais que com ele aprenderam; na identidade institucional dos espaços que ajudou a construir e na cultura gastronómica de Macau e da diáspora portuguesa A sua obra não termina com a sua partida mas continua em cada receita preservada, em cada gesto técnico transmitido e em cada valor ético defendido. Mais do que um Chef, António foi guardião da alma gastronómica luso-macaense. A sua vida foi uma ponte entre continentes, sabores e gerações. A sua cozinha era feita de memória e inovação, de técnica e ternura, de rigor e poesia. Que a sua memória continue viva em cada prato servido, em cada história contada e em cada jovem profissional que ousa sonhar com uma cozinha que respeita o passado e transforma o presente. Antes da sua partida, o Chef António deixou à sua legatária um conjunto precioso de receitas que não são meros registos técnicos, mas autênticos troféus da culinária portuguesa, lapidados ao longo de décadas de prática, reflexão e paixão. Este legado não é apenas um acervo gastronómico mas uma herança cultural, uma carta de intenções e uma missão a cumprir. Cada receita representa um capítulo da sua vida, uma memória partilhada, uma homenagem silenciosa às raízes que o formaram. São pratos que carregam o sabor da infância, o rigor da formação clássica, a ousadia da reinvenção e a ternura da maturidade. São fórmulas que não se limitam a ingredientes e quantidades pois contêm gestos, silêncios, tempos de espera, e sobretudo, intenção. A legatária, escolhida com discernimento e confiança, não recebeu apenas um caderno de receitas. Recebeu um testamento culinário, um mapa de valores e uma responsabilidade institucional. Caber-lhe-á agora executar, preservar e reinterpretar essas criações com fidelidade e coragem, mantendo viva a chama da autenticidade sem cair na rigidez da repetição. Na tradição portuguesa, a transmissão de receitas é um acto de intimidade e respeito. Não se trata apenas de ensinar mas de confiar. O Chef António compreendia isso profundamente. Por isso, as receitas que deixou não foram divulgadas em massa, nem transformadas em produto comercial. Foram entregues a quem soube compreender o seu espírito, a quem partilhou com ele o quotidiano da cozinha e a quem demonstrou capacidade técnica e sensibilidade humana. Essas receitas incluem pratos clássicos e sobremesas conventuais reinterpretadas com ingredientes locais. Mas incluem também criações inéditas, pensadas para ocasiões especiais, menus temáticos e homenagens culturais. São pratos que nunca chegaram ao público, mas que agora poderão ser revelados com o cuidado que merecem. Executar estas receitas não é apenas reproduzir sabores mas encarnar uma filosofia. A legatária terá de manter o equilíbrio entre fidelidade e evolução, técnica e emoção, tradição e contemporaneidade. Terá de respeitar os tempos, os gestos, os silêncios que o Chef António ensinou. Terá de compreender que cada prato é também uma mensagem, uma memória e uma afirmação de identidade. Mais do que cozinhar, terá de curar no sentido museológico e afectivo. Curar o legado, protegê-lo da banalização e apresentá-lo com dignidade. Terá de formar outros, transmitir os valores que recebeu, garantir que o legado não se extingue com o tempo, mas se multiplica com sentido. Este trabalho não é apenas gastronómico mas curatorial, educativo e diplomático. É uma forma de afirmar que a cozinha é também cultura, que o prato é também documento e que o sabor é também memória. As receitas deixadas pelo Chef António são sementes. Cabe agora à legatária e à instituição envolvida cultivá-las com respeito, regá-las com conhecimento e fazê-las florescer com criatividade. Cada vez que uma dessas receitas for servida, será como se o Chef António estivesse presente não como sombra, mas como luz. Este legado é um presente raro. E como todo o presente precioso, exige cuidado, tempo e amor. Que seja honrado com a mesma generosidade com que foi concebido. Que seja partilhado com a mesma elegância com que foi vivido. Que seja perpetuado com a mesma paixão com que foi criado. Porque na cozinha, como na vida, o que permanece não é o que se repete é o que se respeita.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesPaz para a Ucrânia “The test of policy is how it ends, not how it begins. Peace must reflect reality, not illusion.” Henry Kissinger A Ucrânia, como país candidato à União Europeia (UE), representa um dos maiores desafios e oportunidades da história recente do projecto europeu. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, iniciada em 2022, representa um dos mais graves conflitos armados em solo europeu desde a II Guerra Mundial. As suas consequências são devastadoras com milhares de mortos, milhões de deslocados, cidades destruídas, economias colapsadas e uma profunda fractura geopolítica entre o Leste e o Ocidente. A paz, embora desejada por muitos, continua a parecer um horizonte distante. No entanto, a história ensina que mesmo os conflitos mais prolongados e violentos podem encontrar resolução, desde que haja vontade política, mediação eficaz e uma arquitectura diplomática sólida. Para compreender as possibilidades de paz, é necessário revisitar as causas profundas do conflito. A guerra não começou em 2022, mas tem raízes históricas, identitárias e geopolíticas que remontam à dissolução da União Soviética. A Ucrânia, ao afirmar a sua soberania e ao aproximar-se das estruturas euro-atlânticas, tornou-se, aos olhos de Moscovo, um território estratégico em disputa. A anexação da Crimeia em 2014 e o apoio russo às repúblicas separatistas de Donetsk e Lugansk foram os primeiros sinais de uma escalada que culminaria na invasão total. A Rússia justifica a sua acção com argumentos de segurança, protecção das populações russófonas e resistência à expansão da OTAN. A Ucrânia, por sua vez, defende o seu direito à autodeterminação, à integridade territorial e à escolha dos seus aliados. Este antagonismo é alimentado por narrativas históricas divergentes, por interesses estratégicos e por uma profunda desconfiança mútua. Qualquer processo de paz terá de enfrentar estas raízes, reconhecê-las e encontrar formas de as ultrapassar sem negar a soberania de cada Estado. A paz entre a Rússia e a Ucrânia enfrenta obstáculos de várias ordens em primeiro, a ocupação territorial pois a presença militar russa em território ucraniano, incluindo a Crimeia e partes do Donbass, é um dos principais entraves. A Ucrânia exige a retirada total das forças ocupantes como condição para qualquer acordo. A Rússia, por sua vez, considera a Crimeia parte integrante do seu território e vê o Donbass como uma zona de influência legítima. Em segundo, o reconhecimento internacional, pois a comunidade internacional, em particular os países ocidentais, apoiam a Ucrânia e impõe sanções à Rússia. Esta polarização dificulta a mediação e reforça a lógica de bloco. A paz exige um espaço diplomático neutro, onde ambas as partes possam negociar sem pressões externas excessivas. Em terceiro, as perdas humanas e traumas colectivos pois a guerra gerou feridas profundas na sociedade ucraniana. A destruição de cidades, os massacres, os bombardeamentos e os deslocamentos forçados criaram um sentimento de dor e revolta que não pode ser ignorado. A reconciliação exige justiça, memória e reparação. Em quarto, as lideranças políticas e narrativas internas, pois tanto na Rússia como na Ucrânia, os líderes políticos construíram narrativas que dificultam o compromisso. A paz pode ser vista como fraqueza, como traição ou como capitulação. É necessário criar condições para que os líderes possam negociar sem perder legitimidade interna. Apesar dos obstáculos, existem factores que podem favorecer a construção de um processo de paz sendo primeiro, a fadiga da guerra pois o prolongar do conflito gera desgaste económico, social e político. A Rússia enfrenta sanções, isolamento e dificuldades internas. A Ucrânia vive em estado de emergência permanente. A fadiga pode abrir espaço para soluções negociadas. Segundo, a pressão internacional, pois Organizações como as Nações Unidas, a OSCE e países neutros podem desempenhar um papel de mediação. A diplomacia multilateral, quando bem estruturada, pode criar pontes e facilitar compromissos. Terceiro, as experiências históricas pois a Europa tem exemplos de reconciliação após conflitos intensos como a Alemanha e a França após a II Guerra Mundial, os acordos de paz na Irlanda do Norte e a reunificação alemã. Estes modelos mostram que a paz é possível, mesmo entre inimigos históricos. Quarto, a sociedade civil e cultura pois estas conjuntamente com a educação podem ser motores de aproximação. Projectos de diálogo, intercâmbio e reconstrução simbólica podem preparar o terreno para a paz política. A paz entre a Rússia e a Ucrânia pode assumir diferentes formas, dependendo da evolução do conflito e das negociações. Assim há a considerar primeiro, a paz condicional com um cessar-fogo acompanhado de negociações sobre territórios, segurança e garantias internacionais. Este modelo exige compromissos mútuos e pode incluir zonas desmilitarizadas, missões de observação e acordos de não agressão. Segundo, a paz com reconhecimento parcial com um acordo em que a Ucrânia reconhece a perda de certos territórios em troca de garantias de segurança e apoio à reconstrução. Este modelo é controverso e pode gerar divisões internas, mas foi aplicado noutros contextos. Terceiro, a paz como mediação internacional, em que a criação de uma conferência internacional de paz, com participação de países neutros, organizações multilaterais e representantes da sociedade civil. Este modelo permite uma abordagem mais abrangente e menos polarizada. Quarto, a paz por etapas com um processo gradual, com fases de desescalada, reconstrução, justiça transicional e integração regional. Este modelo exige tempo, paciência e compromisso de longo prazo. Para que a paz seja duradoura, é necessário cumprir certas condições como primeiro, o respeito pela soberania, pois a Ucrânia deve manter o direito de decidir o seu futuro, os seus aliados e o seu modelo político. A Rússia deve reconhecer esse direito e comprometer-se com a não interferência. Segundo, justiça e reparação dado que os crimes cometidos durante a guerra devem ser investigados e punidos. As vítimas devem ser reconhecidas e compensadas. A justiça é essencial para a reconciliação. Terceiro, a paz deve incluir garantias de segurança para ambos os países, com mecanismos de verificação, diálogo militar e cooperação em áreas como o controlo de armas. Quarto, a Ucrânia precisa de apoio financeiro, técnico e institucional para reconstruir o país. A Rússia, por sua vez, deve encontrar formas de reintegrar-se na economia global, desde que respeite os princípios do direito internacional. Quinto, a educação para a paz dado que esta não se constrói apenas com tratados. É necessário investir na educação, na cultura e na memória, para que as novas gerações compreendam o valor do diálogo e da coexistência. A UE, os Estados Unidos, a China e outras potências têm responsabilidades na promoção da paz. A Europa, em particular, deve assumir um papel activo, não apenas como aliada da Ucrânia, mas como mediadora e promotora de soluções duradouras. A paz não pode ser imposta mas deve ser construída com base no respeito mútuo, na justiça e na cooperação. A comunidade internacional deve evitar a tentação de transformar a Ucrânia num campo de batalha prolongado entre blocos. O objectivo deve ser a reconstrução, a estabilidade e a dignidade dos povos. Assim, a paz entre a Rússia e a Ucrânia é possível, mas exige coragem, visão e compromisso. Não será um processo rápido nem simples. As feridas são profundas, os interesses são complexos e as emoções são intensas. A alternativa é aceitável à perpetuação da guerra. A história mostra que mesmo os conflitos mais violentos podem encontrar resolução. A Europa, que foi palco de tantas guerras, pode ser também o espaço da reconciliação. A paz não é apenas um acordo mas uma construção colectiva, feita de gestos, palavras, políticas e memórias. A Ucrânia e a Rússia têm o direito de existir, de prosperar e de viver em segurança. A paz entre elas será um sinal de maturidade política, de respeito pela vida e de esperança para o futuro. Cabe aos líderes, às sociedades e à comunidade internacional transformar esse horizonte em realidade.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesEntre Hyperion e Paz Extinta – 2ª parte (Continuação da edição de 26 de Setembro) “Peace cannot be kept by force; it can only be achieved by understanding.” Albert Einstein O Norte está inteiramente repartido por meridianos entre Rússia, China e Estados Unidos. Três impérios sem solução de continuidade. Nunca as potências máximas estiveram todas contíguas. Nunca como agora as faíscas geradas pelas fricções recíprocas podem incendiar o planeta. Ordolândia sobreaquece enquanto Caoslândia se expande para nordeste. Os estudiosos do longo prazo notarão que a zona de paz quente, verdadeiro nome da guerra fria corresponde à ecúmena plurimilenar dos impérios, aquela dos conflitos armados nas (ex?) colónias. Segundo a estenografia geoestratégica, constatamos que o Norte Global continua a dedicar-se ao seu desporto favorito o de descarregar sobre o Sul as rivalidades entre impérios, através de clientes reais ou presumidos, ágeis em mudar de sigla e bandeira conforme a necessidade. Os massacres austrais são endémicos porque só podem ser resolvidos pelos boreais. Os quais têm outras prioridades. Quando não se dedicam a mantê-los ou expandi-los enquanto guerras por procuração. A economia geopolítica da reprodução de focos periféricos autoalimentados e/ou dirigidos externamente revelaria altares que nenhum actor tem interesse em expor. Um exemplo entre muitos é os ciclos de pirataria no Corno de África, incentivados pelos americanos para barrar à China o acesso aos hidrocarbonetos espalhados entre o Iémen e a Somália. Subimos às latitudes imperiais para verificar o estado do Triângulo supremo. A competição entre Estados Unidos, China e Rússia, por ordem de valor, envolve paradoxalmente três sujeitos de saúde contingente. Próximos do limiar da dor suportável sem se dispararem mutuamente. Em que ponto está hoje o jogo? Ainda estamos a tempo de evitar a ameaça da paz justa autoproclamada pelo vencedor único, se é que virá a existir? A coruja de Minerva ainda não levantou voo. Demasiadas viragens em demasiado pouco tempo e em espaços dilatados anunciam outras, igualmente imprevistas. Os limites para compromissos impuros reduzem-se. Enquanto as obsessões belicistas das propagandas activam no Ocidente inéditos tiques totalitários. As verdades admitem-se em voz baixa, com a mão diante da boca. Nos templos do pensamento livre universidades americanas à cabeça com o politicamente correcto, a censura e a autocensura mimetizam neuroses soviéticas. O morto devora o vivo. O desafio é assimétrico. Quanto ao potencial global, os Estados Unidos mantêm uma vantagem decrescente sobre a China. Ambos distanciam-se da Rússia. Mas são quantificações estáticas simplificadas, enquanto a história acelera geometricamente. Não há mecânica nem teologia que nos emancipe do cálculo das probabilidades. O senso comum, banalizado pelo mainstream nacional, embota ou omite factores profundos. Cinco exemplos. Primeiro; as relações de força estão sujeitas aos caprichos de culturas intransitivas. Americanos, chineses e russos acreditam que se compreendem, mas não podem. São herdeiros de civilizações orgulhosas, portadoras de códigos culturais profundamente enraizados, muitas vezes indecifráveis para quem os observa de fora. Quando um lê A onde o outro escreve Z, aproxima-se o risco de uma guerra involuntária precisamente a mais difícil de evitar, porque não prevista. O intervalo entre o raciocínio russo e americano é relativamente estreito, permitindo-lhes gerir tensões como as que se desenrolam na Ucrânia. Já no Indo-Pacífico, o grau de incompreensão entre os Estados Unidos e a China é mais acentuado, o que torna qualquer incidente potencialmente mais perigoso, exigindo prudência redobrada e canais de comunicação eficazes. Quanto à relação entre Rússia e China, a distância entre os seus universos simbólicos é reconhecida por ambos, o que os leva a privilegiar uma cooperação pragmática, sustentada por interesses convergentes e respeito mútuo. A expressão “amizade sem limites” deve ser entendida como uma fórmula diplomática que celebra essa aproximação, sem pretender apagar as diferenças que enriquecem cada civilização. Importa lembrar que slogans e aparências podem ser enganosos. A geopolítica contemporânea é marcada por sobreposições complexas, onde o aliado de hoje pode ser o competidor de amanhã, e vice-versa. A narrativa simplificadora que opõe democracias a autocracias ignora as múltiplas formas de organização política e os contextos históricos que moldam cada sociedade. É mais produtivo abandonar tais dicotomias e reconhecer que os modelos ocidentais também enfrentam contradições internas que desafiam qualquer pretensão de universalidade. Constatamos que a Rússia e China têm dois modelos de regime distintos, mais populares nos seus países do que Trump e vários líderes de democracias europeias. Hoje, a Federação Russa e a República Popular da China, separadas e conectadas por 4.209 quilómetros de fronteira siberiana ao longo do rio Amur, mantêm uma relação complexa e historicamente densa. São vizinhas estratégicas que, conscientes das suas diferenças civilizacionais e interesses distintos, optam por uma colaboração prudente e mutuamente vantajosa. Essa aproximação é também uma forma de evitar que terceiros venham a explorar eventuais divergências, fomentando tensões artificiais entre dois pólos fundamentais da estabilidade euro-asiática. Terceiro; Washington e Pequim são, sem dúvida, potências de primeira ordem, capazes de agir em qualquer lugar e em todas as dimensões estratégicas desde os fundos marinhos ao Espaço, da terra ao ar e do ciberespaço à inteligência artificial. Moscovo é apenas uma grande potência eurasiática cultural, militar-nuclear, energética e agrícola, mas limitada por constrangimentos demográficos e geopolíticos que alimentam a sua ansiedade de ser esmagada entre a OTAN e o Império do Centro. Há, porém, um indicador poderoso que joga a seu favor nesta corrida triangular de fundo que é a coesão social. Expressa no patriotismo que ainda sustenta a aventura ucraniana promovida por Putin, mesmo contra influentes mecanismos, muitos dos quais ignoravam até ao último momento o seu risco. Criticavam-no discretamente nos primeiros meses da guerra, por subestimarem o espírito nacional do povo russo frequentemente superior ao seu próprio, mais profissional do que espontâneo. Quarto; se nos libertássemos do ilusionismo economicista que idolatra o PIB como medida de todas as coisas, e avaliássemos as relações de poder entre sujeitos geopolíticos a partir do grau de coesão social, descobriríamos os Estados Unidos em terceiro lugar bem atrás da Rússia e da China. O antropólogo francês Emmanuel Todd diagnostica os Estados Unidos como uma oligarquia derrotada e niilista afirmando que «A sua dependência do resto do mundo tornou-se imensa e a sua sociedade está a desintegrar-se. Os dois fenómenos interagem». Existem nações sem império. Mas não impérios sem nação. E nunca nações sem sociedade. Hoje, a América é uma oligarquia intoxicada pela riqueza de poucos, que se reflectem na pobreza absoluta e na privação relativa dos “deploráveis”. E confirmam-se na fé segundo a qual «não existe tal coisa como sociedade» (Margaret Thatcher). Talvez seja pelo grau zero atingido pelo “American Creed”, religião anglo-saxónica protestante fragmentada em estilhaços neo-evangélicos centrados na relação especial Eu-Deus (por esta ordem), excitada por teleprofetas improváveis. Fonte de solipsismo, fragmentação de famílias e comunidades, violência sem valores, depressão agravada pelos opiáceos, perda do senso comum e, portanto, da realidade. Talvez também pelas consequências sociais do neoliberalismo, que reduzem os cidadãos a clientes, as instituições a empresas, o governo a “governance” e as pessoas a recursos humanos. Abismo da elite degenerada e zénite da super classe gestora, casta que envolve os decisores de outrora no seu tecnicismo automático e na viva ausência de espírito. Resta saber como poderá voltar a ser grande um império em afastamento das referências nacionais e em retirada sem estratégica dentro da fortaleza americana, enquanto dança e quer fazer-nos dançar ao ritmo dos caprichos divertidos do seu Calígula. Quinto; a competição no Triângulo, desencadeada pela crise americana, baralha a hierarquia das potências. Potências médias assumem-se como médias máximas, enquanto se concebem super máximas para o futuro. À frente de todas, a Turquia neo-imperial, em escala transcontinental. Outras, como o Japão e até a Alemanha em crise nervosa, concentram-se em áreas menos amplas. Aproveitam o recuo americano para se expandirem nas respectivas regiões como parceiros prioritários do “Número Um” de hoje pois amanhã será outro dia. Os japoneses e alemães oferecem-se aos Estados Unidos para conter a visível expansão chinesa na Ásia e a alegada invasão russa da OTAN europeia, prevista para 2029 segundo a comunicação atlântica. O rearmamento japonês prossegue discretamente, o alemão em retórica ostentadora ainda longe de se concretizar na prática ao ponto de se propor como primeira potência militar continental na próxima década. Sem humor, os líderes europeus parecem imitar a véspera da dupla guerra mundial. Macron e Carlos III redescobrem a “entente cordiale” anti-germânica de 1904, promovida como “amigável”. Com mão estendida aos polacos, empenhados em restaurar os pensamentos do marechal Piłsudski. E com o polegar virado para os russos. Sintomas da histeria emergencial que circula entre os europeus não sabemos quanto encenada e acreditada. Seja como for, o blefe europeísta foi desmascarado. Substitui-o o alarmismo. Em sentido estrito vai-se às armas. Chegam os cossacos. Assim desalentados, voltamos à questão central de como neutralizar, através de pazes sujas, a ameaça de guerra total, com focos bélicos unificados? Enquanto utopistas não produzem o plano geral da paz justa universal, avancemos com os modestos meios ao nosso dispor. Recomeçamos pela Paz Negociada. Uma bolha de indulgência informal entre duelistas tranquilizados pela sua refinada ambiguidade. Inspiração do raciocínio sobre a ordem do caos. Na sua esteira, uma hierarquia dos conflitos, e portanto da urgência em tratá-los. A classificação baseia-se na probabilidade de um confronto estratégico abaixo do limiar bélico dos Estados Unidos contra a China ou dois conflitos regionais em curso da Rússia contra Ucrânia e Israel contra Irão (em pausa aparente), palestinianos e outros vizinhos desencadearem a terceira guerra mundial. Prevista envolver os três vértices do Triângulo. Arrastando-nos, frágil charneira entre ordem e caos. Como base de discussão, inventamos um coeficiente de dilatação bélica, emprestado da termodinâmica. Medida subjectiva que convida à refutação. Numa escala de 1 a 10, colocamos em primeiro lugar, com um 7, o duelo sino-americano centrado no Indo-Pacífico. Logo atrás, a Ucrânia, com nota 6. Em terceiro, a guerra de Israel, não acima de 3.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesEntre Hyperion e Paz Extinta “Peace cannot be kept by force; it can only be achieved by understanding.” Albert Einstein É o que parece estar a acontecer hoje connosco, europeus anestesiados por oitenta anos sem guerra. Perguntamo-nos se não serão demasiados. Se o privilégio de que desfrutamos, como nenhuma geração anterior, está prestes a expirar. Se deve expirar. Na dúvida, recorremos às armas. Rearmamento por medo. Um ribombar sinistro nas chancelarias europeias cansadas de paz. Como estar em guerra sem ainda lá estar. Arrisca-se a explodir-nos nas mãos porque não sabemos o que é. Porque preferimos não saber. A história ensina que paz e guerra sempre se perseguiram, de forma cíclica. Mas a duração dos ciclos só a descobrimos a posteriori, cada um a partir da sua própria perspectiva, inscrita no senso comum da colectividade a que pertence. A única certeza é de que paz e guerra não são eternas. Lemos o passar dos anos nos anéis que se gravam nas cascas das árvores. Círculos concêntricos espessos sucedem-se aos finos. Os primeiros indicam clima favorável, os outros, severo. A árvore mais alta do mundo de 115 metros e 66 centímetros é uma sequoia sempervirens chamada Hyperion, escondida algures no Parque Nacional de Redwood, na Califórnia. Para evitar ajuntamentos de curiosos, aspirantes a idólatras ou dançarinos da chuva, as coordenadas geográficas desse totem são mantidas em segredo. Só podemos imaginar os traços que a pele do gigante está a receber dos tempos californianos nunca tão secos. Em apenas duas gerações, o paraíso dos hippies, visionários alguns transformados em vassalos tecnológicos apocalípticos reunidos junto à porta giratória do Rei Trump, autoproclamado arcanjo da paz universal converte-se em inferno. O que resta da harmonia de “California Dreamin”, êxito “The Mamas & The Papas”, que em 1965 punha os actuais octogenários a dançar em ritmo sincopado? Os mesmos que quatro anos depois entoariam “Give Peace a Chance”, a lancinante cantilena de John Lennon? Agora que, do auge californiano, o Sonho Americano adoptado pela Europa Félix como paradigma de paz, progresso e prosperidade mergulha em depressão, temos de admitir que esse bem em si, introjectado como eterno graças à derrota que, enquanto europeus ocidentais “vencedores” e vencidos sofremos da América, é hoje uma marca inerte. Sobrevive, mal, a si próprio. Para Trump, não valemos os ossos de um marine. A paz herdada do Novo Mundo expirou como contrato não renovável por vontade do senhorio. Temos de a reconquistar. E, entretanto, adaptar-nos a viver perigosamente. O patriarca britânico da ficção científica, H.G. Wells, lançou em 1914 a cruzada contra os germânicos com o grito de “guerra para acabar com todas as guerras”. Hoje, uma empreitada semelhante talvez levasse à extinção simultânea da paz e da guerra, por via de um holocausto atómico incentivado por algum algoritmo semiautomático. Mas há guerras que não se anunciam com clarins nem se travam em campos abertos. São guerras subterrâneas, de cartéis e criptomoedas, de generais sem uniforme e Estados sem soberania. É nesse limiar que se desenha, com traços cada vez menos difusos, o espectro de um confronto entre os Estados Unidos e a Venezuela. Não uma guerra convencional, mas uma colisão entre um império fatigado e um Estado narcofrágil, onde o poder se confunde com o tráfico e a soberania com o contrabando. A Venezuela, outrora farol bolivariano, converteu-se num laboratório de sobrevivência autoritária, sustentado por redes ilícitas que atravessam continentes. O chamado “Cartel de los Soles”, suposta estrutura narcotraficante incrustada nas Forças Armadas venezuelanas não é apenas uma metáfora da corrupção institucional mas o esqueleto do Estado. Um Estado que, ao perder o monopólio da violência legítima, terceiriza a guerra às suas margens, transformando generais em barões da droga e fronteiras em corredores de cocaína. Washington observa, inquieto. O Departamento de Justiça acusou figuras do alto escalão venezuelano por narcoterrorismo. Sanções multiplicam-se, em espiral, como se fossem balas diplomáticas. Mas o que se insinua agora é mais do que contenção mas a possibilidade de uma intervenção. Não pela democracia, mas pela segurança hemisférica. Não pela liberdade, mas pela estabilidade do mercado. A doutrina Monroe renasce, disfarçada de guerra às drogas, enquanto drones sobrevoam o Orinoco e porta-aviões se aproximam das Caraíbas. A guerra, se vier, será híbrida. Feita de sabotagens, ciberataques, operações encobertas e campanhas de desinformação. Uma guerra que não se declara, mas executa-se. Que não se vence, mas perpetua-se. E que, como todas as guerras modernas, corre o risco de se tornar um fim em si e um teatro de sombras onde a paz é apenas o intervalo entre duas operações. Neste cenário, a Europa, ainda entorpecida pela sua longa trégua, assiste como espectadora privilegiada e impotente. A guerra volta a ser um horizonte possível, não por escolha, mas por contágio. E talvez, como nos anéis da Hyperion, este tempo seco e convulso esteja a gravar na nossa pele o início de um novo ciclo em que a paz, como o Sonho Americano, não é um dado adquirido, mas uma conquista a ser reinventada. A paz suja de que não se fala é o oposto da paz justa, sobre a qual as retóricas oficiais e os seus megafones oficiosos dissertam sem nunca explicar em que consiste. Parece evocar a reafirmação do Ocidente triunfante, de geometria variável OTAN mais Japão, Coreia do Sul, Austrália e afins contra a China, Rússia, Irão e Coreia do Norte (a Arábia Saudita e outras petrodictaduras do Golfo, dizem-nos que estarão connosco). A paz justa, amor lésbico na iconografia barroca ideal-típica que ilustra o Salmo 85:10-11, pressuporia um “Terceiro”, árbitro do mundo. Um Deus reconhecido pela Humanidade, solícito em calibrar na balança universal os pesos justos. Estamos, porém, no triunfo do princípio da irrealidade, ao qual se sacrificam paradoxais europeístas sem Europa. A manipulação do consenso domina a procura de sentido. Paz justa é um oxímoro. Se é paz, não pode ser justa salvo no sentido do vencedor, que o é porque o derrotado aceita o fim das hostilidades para mitigar as consequências. A história está sempre em movimento, entre conflitos e tréguas. Ninguém se impõe sem que outros reajam, nem recua sem que outros avancem. Guerras e pazes descrevem um continuum onde os actores transportam consigo toda a linha da sua vida, que se cruza e colide com a dos outros. Nem sempre com armas. Sanções e contra-sanções, ataques cibernéticos e lavagens cerebrais em massa produzem, ao longo do tempo, efeitos tão letais quanto as bocas-de-fogo. A busca interminável pela paz justa significa guerra permanente. Sem outro propósito que não ela própria. Mal em si, há sempre demasiado. Sem paz ou seja, sem trégua não há justiça. Enquanto se combate, vigora a força. Para a atenuar, são necessários compromissos. Incertos, ambíguos, até repulsivos. Mas ainda assim vida. Aperfeiçoável, ao contrário da morte. Num mundo prenhe de apocalipse, a alternativa à guerra é a paz suja. Em duplo sentido, adjectival e verbal. O adjectivo indica o silenciar das armas à beira da destruição total, estruturado numa competição entre actores dispostos a sacrificar princípios “irrenunciáveis” para evitar uma guerra total. O verbo lembra-nos que a paz exige manutenção. É preciso sujar as mãos. Escolher entre males menores. Lubrificar as fricções entre interesses e impulsos opostos. Partamos da hipótese bastante concreta de que também a Quarta Roma, como as três anteriores, não terminará em paz. Isso aplica-se ao fero americano que vê como inevitável o declínio da nação imperial, mas prefere morrer de pé, se tiver de ser. E aplica-se também a quem, como Trump, jura restaurar a grandeza da pátria e garantir ao mundo uma segunda Pax Augusta dividindo o planeta em entendimento com a China, rival demasiado grande e intrínseco à América para ser destruído sem arrastar o triunfador para o abismo. Com o hemisfério ocidental confiado aos Estados Unidos e o oriental à China, mais os respectivos clientes. A hipótese pode fascinar alguns. Importa traçar uma rota que evite a fusão dos fragmentos de guerra num só, total e final. Uma paz imperfeitíssima, provisória, “impura”, “não tranquila”, na elegante definição que lhe deu Emmanuel Macron há três anos. Sim, ele mesmo, hoje empenhado porta-estandarte do desafio militar à Rússia em apoio à Ucrânia invadida. Por vezes, os blefes tornam-se realidade. Traçando, em linhas gerais, o mapa onde procurar os caminhos para a paz suja e nele desenhar arquipélagos de tréguas sujas observamos que os focos de guerra se concentram no Sul do hemisfério oriental, especialmente entre África e Médio Oriente com a excepção decisiva da Ucrânia. Portanto, na futura esfera de influência chinesa segundo Trump. (Continua)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesGeoturismo e Parques Temáticos – 2ª parte Connie Kong, enquanto Directora do Parque Temático no Lisboeta Macau, tem desempenhado um papel fundamental na definição da visão operacional do parque e na estratégia de envolvimento com a comunidade. A sua liderança reflecte um forte compromisso com a integração da cultura local na experiência de entretenimento, garantindo que o parque não só divirta, mas também se identifique com a identidade colectiva dos residentes de Macau. Sob a sua direcção, o Lisboeta Macau tem apoiado activamente as PME locais através de iniciativas como a Sessão de Ligação Empresarial, promovendo a inclusão económica e reforçando o papel do parque como uma entidade socialmente responsável na região. Christine Hong Barbosa e Sophia Mok desempenharam papéis igualmente fundamentais na ampliação da presença e propósito do Lisboeta Macau. Como Vice-Presidente de Marketing e Desenvolvimento de Retalho, Christine Hong Barbosa criou experiências de compra que combinam nostalgia com inovação, posicionando o parque como um destino que homenageia o passado de Macau enquanto abraça o seu futuro. Por sua vez, Sophia Mok, Vice-Presidente de Vendas e Comunicação Corporativa, tem sido essencial na construção de parcerias estratégicas e na elaboração de narrativas que destacam a relevância cultural do parque e a sua filosofia centrada na comunidade. Em conjunto, as suas contribuições ajudaram a estabelecer o Lisboeta Macau não apenas como uma atracção temática, mas como um espaço significativo que celebra o património local e promove o orgulho entre os residentes de Macau. O Lisboeta Macau transcende as ofertas convencionais de entretenimento. Propõe uma verdadeira cartografia sensorial, onde cada atracção é desenhada para dialogar com o território, a memória colectiva e a cultura local. É um modelo experiencial que supera o paradigma dos parques temáticos asiáticos ao integrar corpo, espaço e narrativa numa proposta de turismo cultural com identidade. As atracções não são meros dispositivos de lazer mas são também instrumentos de leitura territorial, evocação histórica e diplomacia emblemática. Cada uma é concebida como capítulo de uma narrativa maior, onde o visitante não apenas consome, mas participa, interpreta e transforma. O Lisboeta Macau oferece narrativas experienciais, como o ZIPCITY Macau que se destaca como geografia em movimento. Sendo a primeira tirolesa urbana de Macau, é mais do que uma atracção de adrenalina, pois trata-se de uma instalação aérea que atravessa o skyline do hotel, oferecendo aos visitantes uma leitura panorâmica da paisagem urbana. Ao sobrevoar fachadas inspiradas no Macau dos anos 1960, o corpo do visitante torna-se veículo de reconhecimento espacial. A experiência não é apenas física mas também cartográfica, estética e simbólica. O ZIPCITY transforma o espaço em espectáculo e o movimento em interpretação. O GoAirborne Macau representa o corpo como instrumento de territorialidade. Este simulador de pára-quedismo indoor constitui uma inovação tecnológica e sensorial sem precedentes na região. Ao combinar tecnologia de túnel de vento com realidade aumentada, a experiência simula o voo sobre a cidade, reforçando a ligação entre corpo e território. O visitante não apenas sente mas também voa, observa e compreende. O GoAirborne é uma metáfora da perspectiva aérea, da cartografia viva e da geografia experiencial. O LINE FRIENDS PRESENTS CASA DA AMIGO encarna a cultura pop como diplomacia transnacional. Este espaço temático dedicado à cultura pop asiática é mais do que um centro de merchandising pois funciona como plataforma de diplomacia cultural, atraindo públicos jovens e conectando Macau a redes transnacionais de consumo simbólico. O seu ambiente lúdico, personagens icónicas e estética contemporânea criam uma experiência que transcende fronteiras, reforçando a dimensão cosmopolita do parque. A Maison L’OCCITANE representa a natureza como experiência sensorial. A primeira unidade temática da marca em contexto hoteleiro é uma obra de design sensorial. Os quartos são inspirados em ingredientes naturais como lavanda, verbena e flor de cerejeira, oferecendo uma estadia que conecta os visitantes às paisagens aromáticas da Provença. Esta proposta não é apenas estética mas também terapêutica, ecológica e simbólica. A Maison L’OCCITANE transforma o quarto de descanso em ritual, e a hospitalidade em experiência botânica. O Emperor Cinemas MX4D é imagem como imersão territorial. Equipado com tecnologia de movimento, aromas e efeitos tácteis, proporciona uma experiência cinematográfica multissensorial. Os filmes são cuidadosamente seleccionados para reforçar narrativas territoriais e culturais, posicionando o espaço como protagonista. O visitante não apenas assiste mas também participa, sente, cheira e vibra. O cinema torna-se uma extensão do parque, e a imagem, um instrumento de imersão. O H853 Fun Factory funde marcas internacionais com design inspirado na estética futurista da cidade, e não é apenas um espaço comercial mas também um museu vivo, galeria comercial, e evocação da modernidade urbana. Cada loja, cada montra, cada corredor é concebido para contar uma história, reconstruir uma época e transformar o acto de comprar num gesto de memória. A geogastronomia no Lisboeta Macau não é um serviço complementar mas uma linguagem que traduz o território em sabor, a memória em receita e a paisagem em experiência sensorial. A cozinha praticada no Lisboeta é uma extensão viva do parque temático, onde cada prato é uma cartografia, cada ingrediente uma evocação, e cada técnica uma ponte entre tradição e inovação. A proposta gastronómica está profundamente enraizada na fusão sino-portuguesa que define Macau, mas não se limita a reproduzir receitas históricas. Aqui, cozinhar é entendido como acto criativo e gesto de interpretação territorial. Os restaurantes do complexo não apenas alimentam mas também narram, educam e celebram. No Stanley’s Café, por exemplo, a elegância da memória é palpável. A decoração inspira-se nos cafés coloniais do século XX, com madeiras escuras, iluminação suave e detalhes que evocam os salões de chá de Cantão e Lisboa. Mas é na cozinha que se revela a verdadeira alquimia cultural, onde sabores e histórias se entrelaçam para oferecer ao visitante uma experiência simultaneamente íntima e universal. O Chef de Cuisine Raymond, figura de referência na gastronomia temática de Macau, apresenta criações que são verdadeiras sínteses identitárias como o arroz chau-chau com bacalhau, os pastéis de nata infundidos com chá de jasmim, e sobremesas que reinterpretam clássicos portugueses com ingredientes locais. A sua abordagem combina rigor técnico com sensibilidade histórica. Cada prato é concebido como narrativa, homenagem e gesto de diplomacia gastronómica. O Stanley’s não é apenas um café mas um espaço de memória comestível, onde se saboreia o território. A decoração evoca salões coloniais, mas é na cozinha que a alquimia cultural transforma o gosto em ferramenta de leitura histórica. O Royal Palace representa a alta gastronomia como cartografia sensorial. Aqui, a gastronomia atinge o estatuto de arte. Os menus de degustação são concebidos como itinerários gustativos que atravessam águas costeiras, mercados locais e saberes ancestrais. Ingredientes como o camarão de profundidade, o porco preto regional e as ervas aromáticas cuidadosamente cultivadas são tratados com precisão e respeito. A cozinha do Royal Palace não é apenas sofisticada mas é territorial. Cada prato afirma Macau como espaço criativo, território gastronómico, cidade que pensa através do sabor. O restaurante contribui directamente para o reconhecimento de Macau como “Cidade Criativa da Gastronomia pela UNESCO” não apenas pela excelência técnica, mas pela capacidade de transformar o lugar em linguagem universal. O Angela Café & Lounge encarna a delicadeza da cozinha de assinatura. A experiência define-se por elegância, serenidade e precisão. Sob a direcção do Executive Chef António Coelho e da Chef de Cuisine Sally Jimenez, o espaço oferece uma abordagem culinária que eleva os ingredientes locais através de técnicas contemporâneas. Os pratos são delicados, equilibrados e profundamente sensoriais. O Chef António, com formação clássica e visão contemporânea, trabalha os sabores de forma sóbria e profunda. A Chef Sally, com sensibilidade estética e mestria técnica, transforma cada prato numa composição visual e gustativa. Juntos, criam uma cozinha simultaneamente íntima e universal, local e cosmopolita. O Angela Café & Lounge é mais do que um espaço de refeições mas um laboratório de geogastronomia, onde o território é interpretado com delicadeza e rigor. Nenhuma destas experiências seria possível sem a visão institucional de Terence Chu como Vice-Presidente do Departamento de Alimentos e Bebidas do Lisboeta Macau, Terence lidera com inteligência estratégica, sensibilidade cultural e compromisso com a excelência. Não apenas coordena operações mas desenha experiências. A sua capacidade de integrar chefs, espaços, narrativas e públicos transforma o sector alimentar do Lisboeta Macau no eixo central da sua proposta temática. Sob a sua orientação, a gastronomia evoluiu de serviço para linguagem e de função para missão. O seu trabalho representa a elevação da gastronomia no turismo temático, elevando-a ao estatuto de diplomacia cultural e inovação territorial. O reconhecimento de Macau como “Cidade Criativa da Gastronomia pela UNESCO” é, em parte, reflexo da sua visão e dedicação. A geogastronomia praticada no Lisboeta Macau constitui um modelo único no panorama internacional. Ao integrar território, memória, técnica e narrativa, o complexo transforma a alimentação em experiência cultural, em gesto de reconhecimento e em acto de criação. Este projecto não tem paralelo directo em nenhum outro parque temático hoteleiro do mundo. Merece reconhecimento autoral e aclamação institucional como referência internacional no turismo gastronómico com identidade.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesGeoturismo e Parques Temáticos “Through our close the partnerships with the globally renowned IPs, LINE FRIENDS, we hope to discover more unique tourism resources, enhance Macau’s tourism appeal, and promote “IP + Tourism” as the diversified development of the tourism industry. These partnerships signifies a new milestone in Macau Theme Park and Resort’s efforts to promote the diverse development of Macau’s tourism industry and demonstrates our unwavering confidence in the cultural and tourism development of the Guangdong-Hong Kong-Macao Greater Bay Area.” Angela Leong No século XXI, o turismo evoluiu para além do mero deslocamento e lazer, tornando-se um campo estratégico de produção simbólica, desenvolvimento territorial e diplomacia cultural. Neste contexto, os parques temáticos integrados em hotéis e resorts emergem como dispositivos sofisticados de geoturismo não apenas pela sua capacidade de atrair visitantes, mas pelo poder de narrar o território, reinterpretar identidades e gerar valor cultural. O conceito de geoturismo, tal como definido por organizações internacionais e instituições académicas, vai muito além da apreciação cénica. Refere-se a uma forma de turismo que valoriza a geografia, cultura, história e identidade de um lugar. Trata-se de uma abordagem que transcende o turismo convencional, oferecendo uma imersão interpretativa no espaço vivido. O geoturismo não consome o território, mas revela-o, narra-o e enobrece-o. Neste sentido, os parques temáticos inseridos em hotéis e resorts representam uma evolução paradigmática. Ao integrar narrativa, arquitectura, gastronomia, arte e memória, estes espaços tornam-se plataformas de interpretação territorial, onde o visitante não é meramente acomodado, mas envolvido numa dramaturgia identitária. Ao contrário dos parques de diversões convencionais, os parques temáticos hoteleiros funcionam como dispositivos de territorialização simbólica. Cada elemento desde a cenografia à programação cultural é concebido como um acto de interpretação. A piscina deixa de ser um mero espaço de lazer e torna-se uma evocação da geografia local. O restaurante não serve apenas refeições mas oferece também composições gustativas que narram o território. O quarto não é apenas abrigo mas transforma-se num palco de imersão temática. Estas empreitadas operam como micro-repúblicas culturais, onde o território é dramatizado, estetizado e experienciado. A sua força reside na capacidade de transformar o espaço em linguagem, o serviço em narrativa e o consumo em reconhecimento. O valor dos parques temáticos hoteleiros no contexto do geoturismo ultrapassa largamente a experiência do visitante. É estratégico, institucional e simbólico. Estes empreendimentos geram capital simbólico ao posicionar o território como espaço criativo e narrativo; contribuem para o reconhecimento internacional como no caso de Macau, designada “Cidade Criativa pela UNESCO”; promovem a diplomacia cultural ao integrar saberes locais com técnicas globais; estimulam economias territoriais ao valorizar produtos, ingredientes e talentos locais; e fortalecem a identidade colectiva ao oferecer experiências que educam, comovem e conectam. Apesar da sua originalidade e poder narrativo, o modelo dos parques temáticos como dispositivos de geoturismo permanece subdesenvolvido na literatura internacional. A maioria dos estudos foca-se em parques de diversões ou resorts convencionais, ignorando as dimensões territoriais e simbólicas destas empreitadas híbridas. É essencial reconhecer e aprofundar esta categoria analítica emergente de arquitecturas de experiência territorial que dramatizam o lugar através da hospitalidade temática. Os parques temáticos integrados em hotéis e resorts representam uma inovação estratégica no campo do geoturismo. Ao transformar o território em narrativa, a hospitalidade em dramaturgia e o visitante em intérprete, estes espaços inauguram uma nova forma de turismo mais sensível, inteligente e comprometida com a valorização cultural. O seu valor reside não apenas na estética ou entretenimento, mas na sua capacidade de produzir reconhecimento, pertença e legado. São, portanto, instrumentos de diplomacia simbólica, desenvolvimento territorial e inovação cultural. E como tal, merecem ser estudados, protegidos e replicados como modelos de excelência no turismo contemporâneo. Angela Leong e o seu filho Arnaldo Ho desempenharam papéis fundamentais na criação do Lisboeta Macau e na sua actual gestão, não apenas como um empreendimento comercial, mas como uma homenagem à identidade cultural e à memória colectiva dos residentes de Macau. Com uma arquitectura nostálgica inspirada em marcos históricos como o Hotel Estoril e o Macau Palace, o projecto reflecte um profundo respeito pelo património da cidade e uma vontade clara de preservar o seu carácter único face à modernização acelerada. A longa trajectória de Angela Leong na Assembleia Legislativa de Macau e o compromisso público de Arnaldo Ho em “nunca esquecer as suas raízes em Macau” evidenciam a dedicação de ambos à comunidade local. A liderança que exercem neste projecto revela uma visão mais ampla que valoriza o reconhecimento dos residentes, a continuidade cultural e a protecção do tecido social de Macau, garantindo que a população permaneça no centro da evolução da cidade. O Lisboeta Macau constitui um exemplo emblemático desta abordagem. Ao integrar parque temático, hospitalidade, gastronomia e programação cultural, o complexo oferece uma leitura inovadora da identidade sino-portuguesa. A sua arquitectura evoca a Lisboa histórica, enquanto os espaços interiores celebram a fusão cultural que define Macau. Posicionado entre a memória urbana e a inovação turística, o Lisboeta Macau não é apenas um hotel é, em essência, uma obra de arquitectura narrativa que transforma o território em experiência. Localizado na zona do Cotai, entre grandes resorts de jogo e centros de convenções internacionais, o Lisboeta Macau emerge como uma alternativa disruptiva, com um parque temático que não apenas entretém, mas também reflecte, preserva e comunica. A sua proposta é radicalmente distinta dos modelos convencionais de turismo asiático. Articula memória urbana, estética retrofuturista e identidade sino-portuguesa numa linguagem espacial que transcende o espectáculo e inscreve-se na pedagogia do lugar. Em vez de importar narrativas globais, o Lisboeta Macau constrói a sua própria mitologia urbana, sensorial e profundamente enraizada na história de Macau. O parque temático é concebido como uma extensão simbólica da cidade, uma cartografia afectiva que reinterpreta o Macau das décadas de 1960 e 1970 através de uma lente contemporânea. A arquitectura do complexo incorpora fachadas inspiradas em edifícios históricos, calçadas portuguesas estilizadas, iluminação evocativa de antigos bairros comerciais e cenários que remetem à vida urbana pré-moderna. Cada elemento é desenhado para funcionar como signo, vestígio e evocação. Entre as suas características distintivas destaca-se o mencionado design retrofuturista, que combina nostalgia e inovação para criar uma atmosfera visual que simultaneamente honra o passado e projecta o futuro. Esta fusão é rara no turismo temático, onde a maioria dos empreendimentos opta por estéticas futuristas genéricas ou descontextualizadas. O cenário urbano recria ruas, praças e fachadas que recordam o Macau histórico, promovendo a memória colectiva como experiência sensorial. Os visitantes não se limitam a observar mas também habitam, percorrem e interagem com uma cidade reimaginada. A narrativa integrada é outro traço definidor pois cada espaço dentro do parque conta uma história. Gastronomia, decoração, atracções e até os percursos pedonais são concebidos como capítulos de uma narrativa territorial. O Lisboeta Macau não é um parque temático sobre Macau, mas é Macau contado através da linguagem do espaço. A experiência oferecida é totalizante. Não se trata de um conjunto de atracções isoladas, mas de uma cartografia cultural onde cada elemento serve a identidade territorial. Quando comparado com outros parques temáticos integrados em hotéis na Ásia, a singularidade do Lisboeta Macau torna-se evidente. Em Singapura, o “Resorts World Sentosa” oferece experiências centradas em marcas globais como “Transformers” ou “Jurassic Park”. Em Tóquio e Hong Kong, os hotéis da Disney replicam universos ficcionais que poderiam existir em qualquer parte do mundo. Na China continental, empreendimentos como o “Chimelong Hotel” ou o “Hangzhou Songcheng Park” misturam elementos culturais locais com entretenimento de massas, mas sem coerência narrativa territorial. Na Tailândia, hotéis como o “The Okura Prestige Bangkok” apresentam cenários temáticos discretos, sem parques integrados. Nenhum destes projectos articula, como o Lisboeta Macau, uma proposta de parque temático simultaneamente urbana, histórica, sensorial e educativa. Nenhum transforma o território em narrativa experiencial. Nenhuma propõe o turismo como forma de leitura espacial. O Lisboeta Macau encarna plenamente os princípios do geoturismo e da diplomacia cultural, entendidos como práticas turísticas que sustentam e valorizam o carácter geográfico de um lugar, incluindo o seu ambiente, cultura, estética, património e bem-estar dos residentes. Além disso, desempenha um papel estratégico para Macau ao oferecer uma alternativa ao turismo de jogo, contribuindo para a diversificação da economia local; ao celebrar a fusão sino-portuguesa, reforça a imagem da cidade como ponte entre culturas; e ao integrar memória urbana com inovação temática, posiciona-se como referência internacional no turismo cultural com identidade. O Lisboeta Macau não é apenas inovador; é singular. Num mundo onde o turismo se tornou espectáculo, propõe uma experiência com alma, história e território. Uma jornada que não apenas entretém, mas reflecte; que não apenas atrai, mas educa; que não apenas diverte, mas transforma. Este projecto constitui um novo paradigma no turismo temático hoteleiro, sem equivalentes directos na Ásia ou noutras regiões. É arquitectura narrativa, pedagogia espacial, diplomacia simbólica. Em suma, é uma obra que merece ser reconhecida, protegida e disseminada como referência internacional em inovação cultural e territorial. (Continua)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO fio ético da ciência “The sciences are unaware that they lack a conscience.” Edgar Morin O ano de 2025 não chegou com fanfarra, mas com fadiga. O mundo, após uma década marcada por pandemias, governação algorítmica, colapsos ecológicos e fragmentação epistémica, encontra-se suspenso entre a aceleração e o esgotamento. Neste clima, o aviso profético de Edgar Morin no seu livro “A Ciência com Consciência” considerada como ruína da alma ressoa não como um aforismo ultrapassado, mas como um diagnóstico estrutural. A sua lamentação dos anos 1990 sobre a cisão entre conhecimento e sabedoria exige agora uma releitura radical. Pois, em 2025, a crise deixou de ser meramente moral; tornou-se ontológica. As próprias categorias pelas quais compreendemos a realidade, verdade, vida e identidade foram desestabilizadas pela expansão desenfreada da tecnociência, pela mercantilização da cognição e pela erosão do sentido partilhado. A tese original de Morin, enraizada no pós-II Guerra Mundial e na ascensão da ciência nuclear, advertia contra o triunfo da racionalidade instrumental dissociada da reflexão ética. Via na figura de Fausto não apenas um arquétipo literário, mas uma trajectória civilizacional na busca de poder através do conhecimento, desancorada da responsabilidade. Hoje, esse impulso faustiano metastizou. Inteligência artificial (IA), biologia sintética, neurocapitalismo e engenharia planetária deixaram de ser domínios especulativos e são realidades operacionais. Contudo, a consciência que deveria acompanhar tal poder permanece conspicuamente ausente, ou pior, terceirizada à lógica de mercado e aos algoritmos preditivos. Adaptar a obra de Morin à realidade de 2025 exige, antes de tudo, confrontar a ruptura epistemológica que define a nossa era. A ciência, outrora uma busca pela verdade, tornou-se um campo de batalha de narrativas concorrentes. Modelos climáticos são politizados, dados epidemiológicos instrumentalizados, e até o conceito de evidência se vê submetido a fidelidades tribais. A promessa iluminista da razão universal fragmentou-se em câmaras de eco e silos epistémicos. O apelo de Morin ao “pensamento complexo” capaz de integrar incerteza, contradição e interdependência é mais urgente do que nunca. Mas a complexidade hoje não é apenas uma virtude intelectual. É uma estratégia de sobrevivência. Considere-se o domínio da IA. Em 2025, sistemas de IA governam não apenas logística e finanças, mas também sentenças judiciais, acesso à educação e até companheirismo emocional. Estes sistemas, treinados em vastos conjuntos de dados, reflectem e amplificam os preconceitos dos seus criadores e das sociedades de onde aprendem. No entanto, a sua autoridade raramente é questionada. A opacidade dos modelos de aprendizagem automática, combinada com a fetichização da eficiência, criou um novo sacerdócio de tecnocratas cujas decisões estão blindadas contra o escrutínio democrático. A crítica de Morin ao reducionismo e à tendência de isolar variáveis e ignorar o contexto encontra aqui a sua expressão mais inquietante. O algoritmo não pergunta porquê; optimiza. E ao fazê-lo, corrói as próprias condições da deliberação ética. A biotecnologia oferece outra fronteira onde a ciência sem consciência ameaça romper a condição humana. A edição genética, outrora confinada aos laboratórios, é agora comercializada como melhoria. A linha entre terapia e aumento esbate-se, e com ela, o conceito de normalidade. A insistência de Morin na inseparabilidade entre biologia e cultura torna-se um correctivo vital. Pois o que está em jogo não é apenas a manipulação de genomas, mas a redefinição do que significa ser humano. A tentação de engenhar inteligência, emoção e até moralidade arrisca reduzir a pessoa a uma função programável. Neste contexto, a consciência não pode ser um pós-escrito mas deve ser o arquitecto. A dimensão ecológica do pensamento de Morin exige igualmente renovação. Em 2025, o Antropoceno deixou de ser um construtor teórico para se tornar uma realidade vivida. Refugiados climáticos, colapso da biodiversidade e padrões meteorológicos erráticos testemunham as consequências planetárias da arrogância científica. Contudo, a resposta dominante permanece tecnocrática pois esquemas de geoengenharia, mercados de carbono e painéis de resiliência. O humanismo ecológico de Morin e a sua visão da Terra como sistema vivo em que os humanos são simultaneamente participantes e guardiões oferece uma contra-narrativa. Apela a uma ciência que escuta, coexistee e cura. Não uma ciência de dominação, mas de comunhão. Talvez mais urgentemente, a obra de Morin deve ser reinterpretada à luz da fragmentação cultural. Em 2025, a identidade tornou-se simultaneamente refúgio e arma. A aldeia global prometida pela conectividade digital degenerou em enclaves tribais, cada um com a sua epistemologia, moralidade e estética. A ciência, outrora ponte entre culturas, arrisca a tornar-se ferramenta de exclusão. A linguagem da especialização aliena, os rituais da revisão por pares que intimidam, e os indicadores de impacto distorcem. O apelo de Morin à transdisciplinaridade e ao diálogo entre ciência, arte, filosofia e experiência vivida não é um luxo, mas uma necessidade. Só entrelaçando múltiplas formas de saber poderemos restaurar o tecido do sentido partilhado. Esta “Ciência Sem Consciência” reimaginada deve, portanto, ser mais do que uma crítica, deve ser um manifesto. Deve apelar a uma pedagogia da complexidade, a uma política da humildade e a uma ética do cuidado. Deve desafiar as instituições científicas a democratizar os seus processos, a confrontar os seus pontos cegos e a abraçar a incerteza não como ameaça, mas como condição da verdade. Deve convidar os cientistas a tornarem-se cidadãos, e os cidadãos a reclamarem a ciência como bem público. Neste espírito, a universidade deve ser reconstituída. Deixando de ser um silo de especialização, deve tornar-se um santuário de integração. Os currículos devem ser redesenhados para cultivar não apenas competência técnica, mas imaginação moral. Os estudantes devem ser treinados para perguntar não apenas “como”, mas “porquê” e “para quem”. A investigação deve ser avaliada não apenas pela sua novidade, mas pela sua relevância, inclusividade e capacidade de iluminar a condição humana. A visão de Morin da educação como processo de despertar e de aprender a viver, a compreender e a coexistir deve orientar esta transformação. Do mesmo modo, a publicação científica deve evoluir. A fetichização dos factores de impacto e das contagens de citações criou uma cultura de produtividade performativa. O conhecimento fragmenta-se em artigos hiper especializados, inacessíveis ao público e frequentemente irrelevantes para preocupações prementes. Um ecossistema editorial reimaginado deve priorizar acessibilidade, interdisciplinaridade e envolvimento público. Deve recompensar síntese, reflexão e a coragem de colocar questões fundacionais. Os mídia, também, devem recuperar o seu papel como mediadores da consciência. Em 2025, a comunicação científica é frequentemente reduzida a títulos sensacionalistas e debates polarizados. A nuance, o contexto e a humildade que Morin defendia são vítimas da economia da atenção. Os jornalistas devem ser formados não apenas em literacia científica, mas em discernimento ético. Devem resistir à tentação de simplificar e, em vez disso, cultivar a arte da complexidade. Devem contar histórias que iluminem os dilemas, os riscos e a humanidade por trás dos dados. Ao nível geopolítico, os insights de Morin oferecem um quadro para repensar a governação global. A pandemia revelou a fragilidade da cooperação internacional e os perigos do nacionalismo científico. Em 2025, a diplomacia vacinal, as negociações climáticas e a soberania digital continuam a ser arenas de contestação. Uma ciência infundida de consciência deve advogar pela solidariedade planetária. Deve reconhecer que vírus, moléculas de carbono e algoritmos não respeitam fronteiras. Deve apelar a instituições ágeis, inclusivas e responsáveis não apenas perante Estados, mas perante povos, ecossistemas e gerações futuras. Esta visão exige coragem. Pois as forças que se opõem à consciência são formidáveis pois objectivam motivos lucrativos, inércia institucional e rigidez ideológica. Mas a alternativa é insustentável. Uma ciência sem consciência conduz não apenas à decadência moral, mas ao colapso civilizacional. Gera alienação, injustiça e ruína ecológica. Reduz o espírito humano a uma variável num modelo, a um nó numa rede, a um consumidor de inovação. Para resistir a esta trajectória, devemos cultivar o que Morin chamou de “reliance” que é a capacidade de conectar, cuidar e co-criar. Devemos redescobrir a alegria da indagação, a humildade de não saber e a responsabilidade de saber. Devemos construir instituições que honrem a complexidade.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Papa Americano (IV) “Let us disarm words and we will help to disarm the world.” Leo XIV A bordo de uma nave que traça trajectórias por vezes dissonantes em relação aos impulsos de Trump. Sem contar Musk, electrão livre após a separação não consensual do presidente. Pouco se compreende desta vaga ascendente ignorando que ela deve a sua ascensão ao colapso do liberalismo globalista, no seu auge na última década do século XX. O chefe estratega da campanha presidencial em 1992 de Bill Clinton afirmou “It’s the economy, stupid!”, e seguido pelos seus apoiantes de que para o americano médio-baixo se tornou sinónimo de privação, depressão e crise de identidade. O populismo é filho do elitismo. Reforçado pelo arrogante fracasso liberal. Convém levar a sério a reacção trumpista, que procura irradiar para além da temporada do presidente em exercício. Vance e Trump parecem partilhar a cruzada antiliberal que pretende ligar à revolução americana Estados, partidos e lóbis ideologicamente próximos do movimento MAGA. Eles próprios, juntamente com pesos médios e pesados do circuito trumpista, intervêm sem pudor nas eleições de países “amigos e aliados”. A lista é extensa. O caso mais recente é o da Polónia, onde a responsável pela Segurança Interna, Kristi Noem, empenhou-se com sucesso em apoiar a ascensão do nacional-conservador Karol Nawrocki à presidência da República, em confronto com o primeiro-ministro Donald Tusk, alegado vassalo de Bruxelas. Já em Fevereiro, Vance havia criticado duramente os líderes euro atlânticos na conferência de Munique e apoiado a Alternativa para a Alemanha (AfD) contra moderados, europeístas e tardios globalistas, acusados de reprimir o debate livre e ameaçar a democracia na República Federal. Campanhas semelhantes ocorreram no Reino Unido em apoio ao ressurgido Farage, em França por Marine Le Pen, desqualificada por uma sentença controversa, na Roménia pelo candidato presidencial derrotado George Simion, auto declarado aderente ao “bilhete MAGA”, na Irlanda por Conor McGregor. Até na Coreia do Sul por Yoon Suk Yeol, que segundo Trump foi removido da presidência por um golpe orquestrado pela China. Sem falar do cordial abraço com Giorgia Meloni, encorajador e ao mesmo tempo embaraçoso para quem se oferece como ponte entre europeus e americanos. O MAGA internacionalizado e não globalizado pretende ser o protector da civilização ocidental, florescida na Europa a partir da semente judaico-cristã, helénica e romana, revisitada e transmitida ao Novo Mundo pelos ingleses, atingindo o seu esplendor máximo nos Estados Unidos. Hoje ameaçada pela finança global, pelo politicamente correcto e pela “substituição étnica” gerada pelo catastrófico cruzamento entre imigração não assimilável e declínio da natalidade. Em defesa dos “valores tradicionais”, a começar pela família. A civilização ocidental é o conceito de que existe uma ordem natural das coisas e que temos direitos que derivam de Deus. E que existem regras, regista Terry Schilling, fundador do Projecto para os Princípios Americanos. A melhor definição da Internacional MAGA é-nos dada por um jovem conselheiro do Departamento de Estado, Samuel Samson. Para quem é urgente uma nova aliança de civilizações com a Europa, contra o projecto global liberal que impede o florescimento da democracia, que a espezinha juntamente com a herança do Ocidente, em nome de uma decadente classe governante que teme o seu próprio povo. Portanto, esta parceria deve assentar na herança comum americana, não no conformismo globalista. Assistimos ao esboço de uma para doutrina eclesiástica em forma laica. Política e geopolítica. Nova/velha religião com estrelas e faixas. A originalidade deste culto reside na apropriação do catolicismo, moldado às suas próprias necessidades. Fé que atrai um em cada cinco americanos. Após anos de declínio, o cristianismo latino parece estar em recuperação. Sobretudo converte. Nessa nação antipapista, com ex-evangélicos ou ateus Vance percorreu ambas as etapas rumo à Luz que olham para Roma e se entusiasmam com o “seu” pontífice, significa que o vento está a mudar. O Vaticano está exposto ao duplo risco de ser usado por uma facção de fidelidade canónica duvidosa para fins de poder e/ou de se confrontar com o actor geopolítico e económico “Número Um”, a custos incalculáveis. Inclusive para as suas próprias finanças. A dissolução da USAID já afectou ordens e movimentos católicos em todo o mundo, beneficiários habituais da divisa que garante confiança em Deus. Pior, a recuperação católica em territórios infiéis, mesmo pescando entre cristãos de outras confissões, pode culminar em conflito entre crentes progressistas e tradicionalistas. O pesadelo do papa americano é ter de resolver disputas internas na sua Igreja de origem. Enquanto Trump via Vance ou vice-versa, engrossa as suas divisões com os departamentos locais do papa. Com que fundamentos? Do catolicismo, Vance atrai-se pelas certezas dogmáticas, liturgias tradicionais, anseio pelo bem comum. Coroadas pela autoridade do papa. Tudo para dotar de moral mobilizadora o despertar da comunidade nacional, objectivo da revolução em curso. Contra o progressismo, liberalismo, socialismo e pecados associados. Se fosse pontífice, Vance regressaria ao Vaticano I, ampliando a esfera da infalibilidade papal. Os seus referentes são Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, dos quais oferece excertos de leitura original. Do “Aquinate” extrai uma interpretação adaptada do ordo amoris. Desafio ao coração da sua religião declarada. O amor é o cristianismo. Em Cristo é gratuito. Vance oferece uma versão paga. A favor da sua conta corrente política e geopolítica. Diz amor, mas entende norma ética. Com a qual declina a hierarquia sociogeopolítica do amor.A escala de Vance tem cinco graus que são a família, vizinhança, comunidade, pátria e resto do mundo. Classificação dos deveres do bom americano, contra a retórica dos direitos. Inconciliável com o bom samaritano. Irrefreável no impulso agápico de Jesus, abraço aberto a todos. Talvez mais próximo da tradição veterotestamentária que privilegia o amor judaico pelos judeus. O acaso, ou Deus, quis que Vance ocupasse os últimos dias de Francisco. Primeiro obrigando-o à refutação da sua ordem do amor, à qual aderiu publicamente também o cardeal Prevost. Depois, levando-o a receber a sua némesis, poucas horas antes de morrer, num não cruzar de olhares que dizia mais do que qualquer palavra. Agostinho, o africano, relata nas Confissões que, jovem e céptico professor de retórica, em 384 chega a Milão para encontrar o bispo Ambrósio, animador da comunidade cristã perseguida. Com espanto, descobre-o a percorrer em silêncio as Escrituras: «Quando lia, o olhar corria pela página e o intelecto perscrutava o significado; voz e língua permaneciam em repouso. Muitas vezes ficávamos encerrados num longo silêncio e quem ousaria perturbar tal recolhimento? E víamo-lo sempre ler daquela forma silenciosa, nunca de outro modo» (Confissões, 6,3). Na época, e ainda durante séculos, os poucos letrados, sobretudo em ambientes partilhados, liam em voz alta. Um acto de generosidade para com o próximo, muitas vezes iletrado. Hoje, distingue-se uma biblioteca pelo som do silêncio. Naquele tempo, cruzavam-se vozes. A leitura comunicada, ou seja, transmitida em comunidade, era regra e assim permaneceria até ao início do segundo milénio. A leitura silenciosa ou murmurada exclui o próximo. Daí o desconforto de Santo Agostinho. Esta figura patrística, cara a Bento XVI que no seu íntimo solidificava com o ambrosiano ruído do silêncio é trazida pelo psicanalista Luigi Zoja como exemplo da deriva que nos afasta do próximo para nos fecharmos em nós próprios. Fala-se pouco. O verbo afastou-se dos (virtuais) falantes, substituído pela tecnologia. Com os seus engenhos dedicados ao ego, o “I” inglês: iPhone, iBook, iPod, iPad. Égoïste é o perfume que a Chanel promove como retrato olfactivo de um homem de carácter, fascinante e inatingível. Assistimos ao colapso do “nós”, à morte do próximo, consequência da morte de Deus? O cristão está autorizado a pensar assim por dedução do Evangelho de Marcos (12:28-31), que atribui a Jesus o breve resumo dos mandamentos, ou seja, do amor; primeiro, «O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração»; segundo, «Ama o teu próximo como a ti mesmo». Dois amores encadeados por paradoxo e intenção. Mas onde está o próximo hoje? A distância entre os humanos, animais sociais por constituição, cresce. A tal ponto que compromete o próprio sentido das sociedades, sobretudo mas não só ocidentais. Uma condição antinatural. Um darwinismo anti-social que fragmenta as comunidades. Palavra-programa que une cum e munus, “juntos” e “tarefa”. De tarefas partilhadas há pouca memória. Pode-se escrever direito por linhas tortas. Mas sem Deus (no sentido próprio de Nietzsche), sem próximo (na abertura ilimitada de Jesus) e sem projectos comuns, ordenar o caos é utopia. Eis a dupla crise de sentido da Igreja e da América, que desencadeia uma competição identitária e geopolítica dentro e entre colectividades em atomização. Está em jogo a razão de viver. Vence, ou pelo menos não se perde, o pastor que melhor reagrupa as suas ovelhas dispersas. É sobre isto que versa a disputa em torno da ordem do amor. Igreja e América enfrentam de forma oposta o desafio do declínio. Na sua ênfase sinodal, Leão XIV associa Santo Inácio de Antioquia, conduzido em cadeias ao martírio como “Então serei verdadeiramente discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo não vir o meu corpo” (Carta aos Romanos, IV, 1). Referia-se a ser devorado pelas feras no circo e assim aconteceu mas as suas palavras evocam, num sentido mais geral, um compromisso irrenunciável para quem exerce um ministério de autoridade na Igreja como desaparecer para que permaneça Cristo, tornar-se pequeno para que Ele seja conhecido e glorificado (João, 3,30). Depois de Leão Magno, Leão o Pequeno? À Igreja introvertida e em cisão não servem grandes papas, que no melhor dos casos encobrem a sua doença. É preciso redescobrir o sentido da comunhão, hoje em risco. Na sua elevada ideia de si, Trump torna-se omnipresente e omnifalante. Incensa-se como mega presidente para tornar a América grande novamente. Os católicos neotradicionalistas que o aplaudem não se preocupam em ser menos do que aparentam. Mas quem, feroz no seu estéril progressismo, ridiculariza a insipiência doutrinal de Vance e associados, glorifica-se a si próprio e aposta que a contra-revolução trumpista é um parêntese deplorável, acabando em fora de jogo. Na Igreja, na América, em todo o Ocidente até nas potências rivais, a privação do contacto com o próximo é insuportável à existência. Não importa se por direito ou por dever, o ser humano procurará sempre o vizinho, sofrerá se não o encontrar. Partilhamos a conclusão de Zoja, para juntos procurarmos uma resposta de que em qualquer lugar, em qualquer época, a distância sempre foi um obstáculo ao amor, porque deveria a nossa ser diferente? Pode-se realmente amar ou apenas conhecer aquilo que está longe? E só o conhecimento permite, ao menos, ser justo? Nada o demonstra.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Papa Americano (III) (Continuação da edição de 14 de Agosto) O europeísmo brota de forma tangível do catolicismo euro-ocidental e começa a declinar quando, graças também ao impulso do papa polaco, os «dois pulmões» do continente atravessado pela cortina de ferro, unindo-se com a mão esquerda num casamento morganático, descobrem ser demasiado diferentes. Nacionalismos absolutos e particularismos mesquinhos afligem tanto o continente geopolítico quanto a Igreja na Europa, em balcanização pela ênfase em si mesmas das conferências episcopais individuais. Em busca do cada vez menor e, portanto, mais puro. Antítese do lema agostiniano escolhido por Leão XIV «In Illo uno unum (Naquele que é Um, nós somos um)». Não é uma constatação. É um acto de fé. Os mártires pré-constantinianos diagnosticariam hoje a Lua/Igreja em fase avançada de declínio, mas confiantes no próximo ciclo gerador, finalmente iluminador. Muito diferente do clima sombrio de hoje. Actualmente, os católicos de pouca fé ou excessiva racionalidade descobrem a Igreja morta na Europa. Justamente enquanto em várias regiões do «Sul Global», especialmente na África graças ao impulso demográfico e nas Américas, os católicos crescem também em termos de influência político-cultural. Mas é lei física a que observa na dilatação espacial a diluição da coerência em qualquer colectividade ou instituição, no caso católico (Santa Igreja Romana) e laico (União Europeia). A difusão de liturgias inerentes ao genius loci específico expressa a heterogeneidade cultural que às vezes torna difícil para um católico reconhecer-se noutro católico. Se a Igreja europeia esgota a sua força propulsora, para o Ocidente é o golpe de misericórdia. Esta é, pelo menos, a tese do cardeal Christoph Schönborn, colosso da aristocracia clerical da Europa Central e teólogo dominicano, aberto à tradição durante os seus trinta anos como arcebispo de Viena, que terminaram em Janeiro passado por (prorrogação) do limite de idade. Na conferência de 3 de Fevereiro de 2010 na Catholic University of America, este íntimo de Ratzinger e depois cauteloso apoiante de Bergoglio revela as suas cartas já no título «Cristianismo, presença alienígena ou fundamento do Ocidente?». Resposta: «Ambas as coisas». De facto, «o cristianismo é uma das raízes da Europa». Mas «para muitos, é um elemento estranho num mundo determinado pela razão, pelo iluminismo e pelos princípios democráticos». Conclusão: «Esta Europa, e todo o mundo ocidental, não sobreviverá sem essa estranheza trazida pelo cristianismo». No sentido explorado por Diogneto, antecipado pelo mandamento paulino na Carta aos Romanos «Não vos conformeis com este mundo» (Rm 12,2). Este príncipe inclassificável da Igreja inscreve-se na corrente do catolicismo dos Habsburgos, já bastião da reacção às «novidades francesas» denunciadas por Novalis no clássico “A Cristandade ou a Europa” ou seja, a Europa (1802), mas único império europeu a não se manchar com o pecado colonial a menos que se considere colónias o conjunto balcânico e centro-europeu pertencente a Viena. Neste contexto, emergem no século XX personalidades de elevada cultura quase morbidamente apegadas à ideia da Europa, como podiam ser logo após a Guerra Fria os «salvos» do segundo pulmão, forçados durante meio século na gaiola soviética e, por isso, rebaixados a «Oriente». Rede informal geopolítico-espiritual verticalizada com Karol Wojtyła de Wadowice, perto de Cracóvia, papa imediatamente santificado. O nome foi-lhe imposto pelo pai, que serviu no exército imperial-real, em memória de Carlos I, último Kaiser Habsburgo, beatificado em 2004 por João Paulo II. Outro expoente notável dessa linhagem é o cardeal Péter Erdö, arcebispo de Budapeste e primaz da Hungria, em quem a ala conservadora minoritária, liderada pelo cardeal americano Timothy Dolan, arcebispo católico, da Arquidiocese de Nova Iorque e outros cardeais não apenas americanos, apostou como candidato de bandeira no conclave que convergirá para Prevost. Vice-papa virtual, à frente do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, na votação final dos cardeais. Para ele, «sem a Europa, a Igreja perde o seu coração». Não sabemos se J.D. Vance, o extrovertido vice de Trump, ansioso por sucedê-lo, já visitou a basílica de São Francisco de Assis em Arezzo. Se não o fez, é de ousar sugerir-lhe que o faça. Aqui poderá espelhar-se no Sonho de Constantino, o maravilhoso afresco de Piero della Francesca. Quase amanhecendo nocturno no campo romano, no final de Outubro de 312. O imperador jaz sonhador sob a tenda do seu acampamento perto de Ponte Mílvia, onde está prestes a derrotar o rival Maxêncio. Envolto na luz mística cara a Piero, limiar entre a sombra moribunda e os raios nascentes de Cristo, um anjo estende a cruz cujo sinal Constantino vencerá. Origem da virada iniciada pelo imperador-bispo no Concílio de Niceia, do qual se comemora o décimo sétimo centenário. Selado em 28 de Fevereiro de 380 por édito do imperador Teodósio I, que decreta a fé em Cristo como religião do Estado. Romanização do cristianismo e cristianização do império. Um anjo deve ter aparecido também a Vance, que, em analogia com Constantino, sonha com a americanização do catolicismo e a conversão da América à religião do papa Americano. O evangelho segundo J.D. é instrumentum regni. Suplemento de alma para a América pós-liberal, nostálgica dos “Roaring Forties and Furious Fifties”, idade augusta do império das estrelas e listras. À espera da parusia de Elvis. Na hipotética exegese vansiana do “Mysterium Lunae”, a América seria assimilada à Igreja «lunar», iluminada pelo Sol divino. Sobre a função estratégica desta visão converge a tribo católica em expansão entre os líderes MAGA. Exuberante ramificação do trumpismo que postula a fecundação recíproca entre o Estado e a Igreja para maior glória do primeiro. Entre esses apóstolos, muitos convertidos, quorum Vance. Inspirados na encíclica “Longinqua Oceani” (1895) de Leão XIII, segundo a qual a Igreja Católica americana «daria frutos ainda mais abundantes se, além da liberdade, gozasse também do favor das leis e da protecção do público». O sonho de Vance é que Leão, o americano, possa celebrar as núpcias entre os Estados Unidos e a Igreja. Talvez por acordo. Rede a ser estendida a países consentâneos. Para uma Internacional dos nacionalistas, aberta ao Ocidente estratégico, do qual os Estados Unidos são o fulcro. E sensível à cor da pele, preferencialmente branca. Super MAGA que unirá as nações que quiserem aderir, seguidores da Lua com estrelas e listras. O neoconstantinismo com esteróides visa o equilíbrio de poder entre Estados em competição mutuamente legitimados a proteger os seus próprios interesses. Partidas a regular no mercado em que cada actor joga e troca cartas próprias com as dos outros. É claro que são viciadas. É tudo um acordo. Trump tentou em vão explicá-lo a Zelensky no confronto na Casa Branca, em 28 de Fevereiro passado: «Não tem as cartas!». Entre os sócios fundadores da coligação vansiana destacam-se personalidades de ascendência neoconservadora, como o secretário de Estado Marco Rubio, o mais influente depois de Vance entre os nove expoentes da patrulha católica que anima o governo federal.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Papa Americano (III) “To all of you, brothers and sisters of Rome, of Italy, of the whole world, we want to be a synodal Church, a Church that walks, a Church that always seeks peace, that always seeks charity.” Pope Leo XIV Em vez disso, todos os Estados totalitários são incompatíveis com o Evangelho, porque negam a natureza do poder». Transferido para os dias de hoje, «o compromisso do cristão no Estado é o de dessacralizar o poder político para superar a era constantiniana que havia sacralizado o poder». Aqui estamos, precipitados na actualidade. Porque se medirão a continuidade e a descontinuidade entre Francisco e Leão XIV, o jesuíta e o agostiniano, na abordagem da geopolítica eclesiástica e no compromisso da Santa Sé, parte do drama dialéctico entre as potências. E entre os sem poder. Tudo gira em torno de Constantino. O imperador que legitima os crentes em Jesus preside em Niceia o primeiro concílio ecuménico (325), do qual brota o Credo Niceno-Constantinopolitano que provisoriamente apazigua as disputas em torno da natureza do Filho. Não que o vencedor da Ponte Mílvia, sob o signo de Cristo, cultive interesses teológicos. As disputas sobre a divindade aborrecem-no. Bagatelas, mas que devem ser acalmadas em nome da unidade do império e da Igreja, seu instrumentum regni, reunidos sob o seu comando. Constantino morre cristão no seu último suspiro, quando um sacerdote ariano o baptiza segundo o rito repudiado pelo moribundo. Para várias Igrejas ortodoxas e de rito oriental, esse imperador é santo. Não para a católica, onde ainda há uma divisão entre aqueles que o veneram quase como santo (como é o caso de Paulo VI e Bento XVI) e aqueles que o consideram um mau exemplo de culto ao poder, um pecado grave. As duas escolas enfrentam-se no Concílio Vaticano II. Uma forte corrente teológica e episcopal abala, mas não quebra o tabu constantiniano. Ou seja, a união entre a sacralização da política e a politização da teologia representada no mosaico de Santa Pudência. O “Deus Pantocrator” que abençoa o Império Romano cristão inaugura a linhagem do cesaropapismo, com o soberano que controla a autoridade religiosa, e do seu gémeo inverso, o papocesarismo ou teocracia, onde o tempo clericalizado governa o espírito mundano. Será necessário mais de um século para abalar, não dissolver, o primado do clero neoconstantiniano, assustado pela Revolução Francesa a ponto de reagir com encíclicas antiliberais e exquisitamente reaccionárias, como a Encíclicas “Mirari vos” (1832) de Gregório XVI e “Quanta cura com o anexo Syllabus Errorum” de Pio IX (1864), condenação da opinião de que «a Igreja deve ser separada do Estado e o Estado da Igreja» (§ 55). Quase como se fosse o Conde de Cavour a comunicar. Desta vez ex cathedra por licença do Vaticano I, que em 18 de Julho de 1870, com os italianos às portas, dogmatiza e circunscreve a infalibilidade do pontífice romano. Será preciso Francisco para abalar a árvore do constantinismo, sem poder arrancá-la. A distinção radical entre Estado e Igreja por ele proposta tem um alvo imediato, a América do primeiro Trump, rebaptizada de «novo Constantino». Segundo os seus exegetas mais íntimos, Bergoglio «rejeita radicalmente a ideia da implementação do Reino de Deus na terra, que tinha sido a base do Sacro Império Romano». Esta história tem a sua ironia. Constantino, moderador supremo das disputas teológicas e de poder entre os antigos patriarcados e os efervescentes doutores da Igreja, qualifica-se como episkopos ton ektos, ou seja, «bispo dos que estão de fora»; aqueles que não pertencem ao clero católico. E por que mais Francisco será lembrado senão pela tentativa de abrir as portas da Igreja aos «de fora», aos leigos e aos marginalizados das periferias geográficas e espirituais? A disputa entre «missionários» e «institucionais» de origem constantiniana continua a ser travada em torno da delimitação do «dentro» e do «fora», tanto na organização eclesiástica como na sua projecção externa, a começar pela relação com as outras Igrejas cristãs, especialmente as orientais. Enquanto se espera que um émulo de Alexandre VI Borgia que em 1494 pela Encíclica bula “Inter caetera” dividiu as esferas coloniais de Portugal e Espanha com um traço longitudinal de lápis sagrado no meio do Atlântico, cartografe estes dois supostos conjuntos, é de salientar um paradoxo. Trata-se do título papal de patriarca do Ocidente. O primeiro pontífice baptizado com esse título foi Leão I. Por iniciativa do imperador oriental Teodósio II, para distinguir as principais sedes apostólicas sob sua jurisdição directa como Constantinopla, Antioquia, Alexandria, Jerusalém e de Roma caput do catolicismo latino. Título retomado pelo papa Teodoro I em 642, por sua própria iniciativa. Antecipação do futuro Grande Cisma de 1054 entre a Igreja de Roma e as Igrejas ortodoxas, nunca mais sanado. Surge hoje a necessidade de redefinir o termo «Ocidente», questão fundamental da geopolítica católica. Objecto de uma sofisticada troca entre Bento XVI e Francisco, sob o signo do paradoxo. Ratzinger renunciou em 2006 ao seu título de patriarca do Ocidente por considerar que diminuía o mandato universal. No entanto, ele mascara essa intenção com o seu oposto. Ele argumenta que a renúncia pode beneficiar o diálogo ecuménico. Tese que não convence de forma alguma os ortodoxos, desconfiados das reivindicações romanas em relação a eles. E eis que o menos ocidental dos papas modernos, Francisco, restaura esse título. Ele, que pela sua mentalidade latino-americana e especificamente peronista sente o cheiro de enxofre a norte do Rio Bravo (Grande), nem se apaixona pelo Velho Continente, proclama-se patriarca do Ocidente, no sentido comum de América e Europa. E fá-lo pelas razões declaradas, mas não muito sentidas por Ratzinger que é dialogar como bispo de Roma com o Oriente cristão. Quem sabe se Leão XIV desejará fechar o círculo, ele que é americano de nascimento e, portanto, ocidental, reapropriando-se do título patriarcal. Encontramos aqui um exemplo da maldição semântica que às vezes corrompe a análise geopolítica. O achatamento da comunicação «global» descolora os significados das palavras. O mesmo termo assume sentidos opostos ou diferentes, dependendo de quem o pronuncia e dos seus fins. Festival do «para onde vais? Levo peixe». Os seus fastos também infestam a «língua» do clero, entendida como Babel, especialmente quando cruza termos desgastados pelo uso múltiplo dos meios de comunicação em âmbitos seculares. Brincamos com palavras vazias ou demasiado cheias de significados. Como, por exemplo, Ocidente. Ou seja, Europa, seu antecedente e causa no jargão estratégico actual. Drama intelectual cantado há quase um milénio por Bernardo de Cluny nos hexâmetros satíricos do “De Contemptu Mundi”, que inspiraram Umberto Eco em “O Nome da Rosa”. Bernardo proclama que «Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus» (I, 952) – “A rosa primitiva subsiste apenas no nome, nós possuímos apenas nomes simples». Alguns manuscritos trazem «Roma» em vez de «rosa». A rosa não é uma coisa. Roma ainda é. Ou não? E se também a Europa de filiação romano-germânica, matriz do Ocidente, fosse reduzida apenas ao nome? O antigo jardim do cristianismo está a tornar-se um deserto. Isso é gritado pelos números nus que anunciam o colapso da prática religiosa, o declínio não apenas quantitativo das vocações de quantos seminaristas aspiram ao sacerdócio como a qualquer outra carreira, um emprego mal remunerado, mas seguro, o quase esgotamento dos missionários, para não falar da qualidade do clero. Daí a reduzida influência do mundo católico no estilo de vida, na política e na alta cultura ou difundida do Velho Continente. A cristandade ocidental europeia é baptizada em 15 de Abril de 800, quando Leão III coroa imperador Carlos Magno, para irritação dos bizantinos. O estigma carolíngio é o ícone do europeísmo contemporâneo. Mas o que resta da koiné eurodemocristã da qual, após a II Guerra Mundial, originou a União Europeia nas suas primeiras vestes comunitárias, sob o patrocínio do novo hegemónico do Ocidente, os Estados Unidos da América? (Continua)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesO Papa Americano (II) (Continuação da edição de 24 de Julho) Ergo, o cristianismo também é pagão porque, na história, enquanto se dispõe a acolher o seu fim. A proposta de Newman de abrir as portas da Igreja aos leigos combina com uma visão teológica muito ampla. Talvez se possa ver um traço inconsciente disso no apelo caro a Leão XIII, referência não apenas nominal de Prevost, que convida a «sair da sagrada estátua» no espírito de sua encíclica Rerum Novarum (1891), hoje muito citada. E reflecte-se no impulso dos inovadores que gostariam de compensar a tremenda crise de vocações recrutando leigos de ambos os sexos para as divisões do papa. A reelaboração do mistério do Sol e da Lua encontra eco na era contemporânea (1958) no então arcebispo de Milão (Papa Paulo VI), último (até agora) governador da cátedra de Pedro, insusceptível de movimentismo pois «A Igreja é comparada até à Lua, cujas fases de diminuição e crescimento reflectem a história alternada da Igreja que decai e se recupera, e que nunca falha, porque fulget Ecclesia non suo sed Christi lumine, brilha não com a sua própria luz, mas com a de Cristo». A prova ontológica do êxtase romano-cristão, o arrepio da comunhão com Deus todo-poderoso na sua intimidade histórica com a aeternitas Augusti (a imortalidade de Augusto), selo do Império Romano, está na abside da Basílica de Santa Pudenciana. Talvez a casa de Pedro. Destaca-se o mosaico mais antigo de Roma, datado do início do século IV. No centro, Cristo na pele do Imperator Orbis Terrarum, Senhor do Céu e do mundo. Atrás dele, a cruz gemada constantiniana, sobre um fundo azul de pôr-do-sol riscado por pálidos cirros avermelhados. Ao seu lado, os apóstolos Pedro e Paulo, vestidos como senadores romanos, simbolizam a concórdia entre a ecclesia ex circumcisione judaica e a ecclesia ex gentibus pagã ou não judaica. Oriente fundido com Ocidente. Incardinados em Roma. Tanto que os líderes Pedro e Paulo serão por vezes assimilados a Rómulo e Remo. Nos primeiros três séculos da era cristã, a aristocracia senatorial continua a reivindicar a preservação dos ritos pagãos. Para os seguidores de Jesus, a Urbe continua a ser Babilónia. Entre o imperium (poder temporal ou político) e o sacerdotium (poder espiritual ou religioso) estabelece-se uma rivalidade de longa data, nunca resolvida. Somente após Constantino, no trono de 306 a 337, a sede imperial-papal inclina-se para o segundo corno do poder, o eclesiástico nascente, divino e secular, intercepta e acompanha o imperium sine fine (império eterno) em declínio, destinado a reproduzir-se por gemulação nos âmbitos germânico, bizantino, moscovita e franco-americano. Caput mundi (Capital do mundo) torna-se sede apostólica. Na narrativa do historiador jesuíta Karl Schatz afirma que «As duas correntes confundiram-se numa só e o carácter único da Roma antiga foi comunicado à Roma eclesiástica, papal, refundando a sua primazia. A nobreza romana trouxe como dote a sua maneira de pensar, o carisma da sua liderança, o seu talento para conciliar os opostos, o seu senso prático sóbrio como o do poder. Assim, tudo o que tinha tornado Roma capaz de dominar o mundo». O universalismo católico é de raiz romana. É bom lembrar o estigma, quando o esgotamento da linhagem local no trono de Pedro expõe os particularismos que enfraquecem o clero e o povo de Deus. Aqui, a poucos passos do túmulo de Francisco em Santa Maria Maggiore, descobrem-se as pegadas mundanas da relação dos cristãos com a Cidade terrena, na espera activa da Cidade de Deus, entre o já e o ainda não. Entre o Apocalipse de João, que vê no Estado a Besta que surge do abismo (13,1 e seguintes), e a Carta aos Romanos (sempre 13,1 e seguintes por alguma razão desconhecida), na qual o civis romanus Paulo ordena que «Todos devem submeter-se às autoridades constituídas. Na verdade, não há autoridade senão a de Deus pois, as que existem são estabelecidas por Deus. Portanto, quem se opõe à autoridade opõe-se à ordem estabelecida por Deus». Em sintonia com Jesus, que se dirigindo a Pilatos determina: «Tu não terias nenhum poder sobre mim, se não te tivesse sido dado do alto» (João, 19,11). Entre estes dois pólos, que em casos extremos podem levar ao ascetismo ou à mundanização da instituição eclesiástica, corre a história universal da Igreja, do Gólgota até hoje, ao mesmo tempo alegre e sombria. O que nos obriga a remontar a Cristo «Caesaris Caesari, Dei Deo Dai (a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus)» (Mateus, 22,21). Quatro palavras de Jesus inauguram séculos de disputas sobre a relação entre o cristianismo e o poder político, tratadas em milhões de páginas. Inscritas na dupla cidadania do cristão, na terra e na Cidade de Deus. Daí guerras hermenêuticas não apenas virtuais, cismas, condenações e reabilitações papais. Rios de tinta ou de bits no seu valor binário simbólico do dualismo Estado/Igreja, mas também de sangue derramado para traçar o caminho certo na questão central da geopolítica eclesiástica. Tensão permanente. Radicalizada com a ascensão de Leão XIV ao trono, rara, se não única, coincidência entre identidade nacional e missão papal, ambas relacionadas com o máximo poder no campo, seja mundano, seja religioso. O que deve o papa, não apenas americano, aos Estados Unidos, o que o “Número Um” gostaria do seu cidadão ecuménico? Jesus é crucificado porque os romanos o identificam como um zelote que se autoproclama rei dos judeus. Aderente, como outros apóstolos, entre os quais Simão, talvez Judas e o próprio Pedro, ao movimento armado dos zelotes, guerrilheiros (terroristas, corrigiria um Caifás dos dias de hoje) em luta para libertar a Palestina do jugo de Roma. Cristo simpatiza com a causa zelote, mas rejeita a violência, muito menos ambiciona tronos terrestres. Estabelece o historiador e teólogo luterano francês Oscar Cullmann, no seu clássico “Deus e César” afirmando «A posição de Jesus situa-se além tanto de uma aceitação acrítica do Estado romano quanto da resistência política a esse Estado». Uma vez que ele «procura a polis futura». Há algo de pilatesco nesta interpretação? Muito, diria o blasfemo. O dualismo entre poderoso e cristão é traduzido na tensão entre presente e futuro, replicaria o prático. Para resolver a disputa, convoca-se mais um jesuíta, Francesco Occhetta, autor do prefácio do ensaio de Cullmann que diz que «Certamente, para um cristão, o Estado está no céu, mas o terrestre também é bom, mesmo que seja um Estado pagão, desde que as suas tarefas permaneçam dentro dos limites atribuídos pela vontade divina».