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Lisboa vai receber no próximo mês a Feira do Livro de Macau, que é segundo a organização “a maior mostra do género da literatura de Macau fora do território nos últimos 30 anos”. Serão apresentadas três novas obras de autores locais, e espera-se divulgar o que se faz deste lado na Língua de Camões, que é preciso não esquecer, é também língua oficial. Não é só nos PALOP que se escreve em Português fora de Portugal, com o valor indiscutível que os autores africanos de expressão portuguesa têm. Às vezes parece que do outro lado “se esquecem”, e pior do que isso, deste lado também. A iniciativa ficou comprometida, pelo menos em parte, com alguma indiferença da parte do Governo local, que supostamente deve financiar a empreitada – as pessoas e os livros não chegam ao outro lado do mundo movidos por boas intenções. Ao que parece o subsídio inicialmente pedido pela Associação dos Amigos do Livro, que teve esta “estranha” ideia, “é excessivo”. Os livros precisam de ir de avião? Pois é, não têm barbatanas, e como são feitos de papel, indo a nado pode ser que se constipem. Que grande dilema.

Podia ir buscar mil e um exemplos para ilustrar a incoerência, para não dizer hipocrisia, de quem se devia preocupar com a cultura em Macau e não o faz. A recente ultra-subsidiação a uma Universidade do continente por “toma lá desta pataca”, por exemplo, e a que bastava uma dízima desse montante para realizar não-sei-quantas mostras destas e outras, e quem sabe até era uma boa razão por meter muito mais gente a escrever. Os arautos da desgraça e do fim de Macau como ainda devia ser e ficou combinado podem alegar que “sendo uma iniciativa vinda dos portugueses, não há nada para ninguém”, mas prefiro pensar que não, que o problema é crónico: em Macau não se lê. A gente ou, neste caso, as gentes não lê. Se estão a ler estas linhas que aqui escrevo, parabéns, sois uma honrosa excepção.

A propósito desta notícia, que fez eco na nossa imprensa na semana passada, inquiri uma colega macaense da minha geração sobre os hábitos de leitura locais, nomeadamente quanto à forma como (não) foram incutidos pelo ensino local do período pré-transição. E claro que a resposta não me surpreendeu de todo: não se encorajava os jovens à leitura, não existia um plano nacional, regional, local ou de vão de escada, nada de coisa nenhuma. Basicamente a escolaridade cingia-se a ensinar o essencial para garantir a sobrevivência de quem ambicionava permanecer no território depois de 1999 e, com alguma sorte, “encostar-se” a um lugar nos quadros da administração. E aí já se sabe, ter uma respeitável bagagem cultural não é propriamente um predicado e pode ser que haja mesmo quem pense que não se recomenda.

Em Macau ler é considerado não um privilégio, mas antes “uma coisa” dos – e agora preparem-se que vem aí um palavrão dos grandes – “intelectuais”. E quem são estes “intelectuais”, afinal? São uns tipos que “têm a mania que sabem mais que toda a gente”, são uns espertalhões, em suma. Lêem para quê? Ganham alguma coisa com isso? Ah bem, olha olha, querem lá ver estes? Se sabem assim tanto, porque é que não blá blá blá, já se sabe, uma inanidade qualquer produzida por quem considera que “não ler” é característico das pessoas “normais”. Dos que têm mais que fazer, estão a perceber? O quê? Olha, qualquer coisa que podiam estar a fazer em vez de ler, que é perder tempo. Os senhores querem quanto, mesmo? Tanto?!?! Para quê, “livros”? Mau, mau, tomem lá uns trocos e depois venham cá explicar melhor o que queriam dizer com isso dos “livros”, seus marotos.

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