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Como os seguidores do blogue homónimo desta coluna devem ter percebido (os dois ou três desocupados que ainda me vão aturando) , com a dispersa e (muito) menos frequente actualização a que esse espaço tem sido vetado, ando com pouca “pica” para escrever ou comentar sobre seja o que for. Dá-me preguiça, sei lá, antes sentava-me e produzia um assassinato de carácter em dez minutos ostentando um sorriso nos lábios, ou deixava os dedos correrem pelo teclado e em menos de nada fazia nascer mais uma blasfémia, ou um belo monumento ao politicamente incorrecto. Actualmente para debitar meia dúzia de linhas sobre algo trivial como um jogo da bola, ou uma notícia da imprensa cor-de-rosa, chego a demorar qualquer coisa como três horas. Já tem acontecido deixar ideias a meio, ou não conseguir passar para texto outras já mentalmente elaboradas, com princípio, meio e fim, e nem faço um esforço suplementar para organizar os cacos da cuca, que por esta altura mais parecem as luzes da instalação de Natal, emaranhadas dentro da caixa de cartão onde foram enfiadas à pressa em Janeiro, tempo em que ainda estavam longe de voltarem a constituir um problema. Analisados os sintomas no consultório da razão, e feito o diagnóstico, cheguei a uma conclusão: estou “meh…”. Agora podia acrescentar algo do tipo “vejam só o que tinha que me acontecer”, mas ”meh…”.
Como recebi eu esta notícia que me foi dada por mim mesmo? Indiferente, não estivesse eu completamente “meh…”. Se é grave? Se tem cura? Se é regressivo, ou se vou ficar cada vez mais “meh…” com o passar dos anos? Sei lá, e se soubesse era sinal que não estava assim tão “meh…” quanto isso. E o que ganhava eu em fingir que estou “meh…”, se a comunidade médica e científica ainda tem sérias dúvidas se não se trata apenas de uma condição meramente psicossomática, uma vez que não identifica um agente patológico que cause este “meh…”, e mais importante do que isso, não me passa um atestado médico? Podem pensar o que quiserem, que qualquer insinuação maldosa esbarra de frente em cheio com este “meh…”, e que me é igual ao litro. O “meh” forma uma carapaça de…o quê mesmo? Não interessa, pois mesmo para reagir a este diagnóstico de “meh…” sinto-me demasiado… “Meh…”.
Não sei se este estado de “meh…” tem algum lado negativo, mas e se tiver? Leva com o mesmo “meh…” com que carimbei o lado positivo. Só sei que agora leio menos, os noticiários são “meh…”, e portanto escrevo menos, e nem sei bem se isso é bom ou mau. Ando menos informado, é verdade, mas também menos ignorante – este é o aspecto metafísico do “meh…”, que é algo, e se querem mesmo que eu vos diga, não passa de outro ”meh…”. Imaginem que só aqui há dois dias é que me apercebi o Festival da Lusofonia arrancava já este sábado. Até este evento, cuja simples antecipação tinha em tempos a particularidade de me estimular o tecido eréctil, não merece da minha parte mais que um flácido “meh…”.
Gostava que me apetecesse por um segundo querer saber como é que apanhei este “meh…”; se foi através de contacto humano, da saliva, ou se o contraí na piscina, e se é ou não contagioso. Porque se for, só me preocupa ter de o partilhar com alguém, quando agora tenho todo o exclusivo de “meh…” – é meu e só meu, ouviram? Mas nem é preciso puxar muito pela cabeça, pois desconfio que o apanhei nas redes sociais (outra vez sem protecção, depois dá nisto, mas olha: “meh…”), e não me recordo de ter levado as mãos à boca, mas garantidamente perdi a conta das vezes que as levei à cabeça. Quanto à piscina, penso que fica eliminada como possível causa de transmissão de “meh…”, pois apesar do calor e das altas temperaturas que se sentiram neste Verão, foram mais os que trocaram os saltos para a piscina pelos saltos para conclusões precipitadas.
O mais estranho é a apatia que este “meh…” provoca, como que uma anestesia geral, só que em pleno gozo de todas as funções cognitivas. Sinto-me como um fantasma, que em vez de assustar, é ele próprio o assustado. Assustado por exemplo com o destaque dado pelos media a certas e alegadas “agressões” que determinado candidato a um cargo público fez a um sistema “democrático” que de infalível tem muito pouco, e de impoluto nada tem (e ainda fica a dever, coitado). Por outro lado, ninguém deu um pio a propósito do suicídio de um funcionário público local, há exactamente uma semana hoje. O funcionário exercia funções, sem que tivessem ficado especificadas quais, num departamento que é amiúde foco de mediatismo pelas razões mais diversas, mas que se faça este “meh…” perante uma lamentável tragédia que, vendo bem as coisas, não acontece todos os dias e pode ter revelar um quadro de sintomas mais grave que um simples “meh…”, se tenha encolhido assim os ombros, gesto que passou a significar na linguagem gestual exactamente isso mesmo: “meh…”. Não aceito que me digam o que é mais ou menos pertinente, pois no referido caso do “atentado à democracia” ninguém morreu – ninguém foi eleito, quanto mais.
E assim estou estes dias, a curtir discretamente a virose deste “meh…”, que me leva a que não me apeteça nada. Mas saibam que não é por nenhuma razão especial – lamento desiludir os meus queridos “inimigos de estimação”, que recebam sempre o dobro do que desejam para mim. Este estado cínico (não confundir com “clínico”) não se deve a uma qualquer condição biológica, ou “crise da meia-idade” – tudo charlatanices, como a cartomância, os esquemas financeiros em “pirâmide”, e o segundo sistema. Uma das vantagens em estar “meh…”, estado que se situa algures entre o estado de graça e o estado gasoso, é adquirir imunidade a certas distracções. Estar “meh…” é um pouco como ter dentadura postiça: é-se desdentado, certo, mas em contrapartida nunca mais se sentem as terríveis dores de dentes, que são mil vezes piores que estar “meh…”. E isto falando com experiência própria. Estar “meh…” não dói de todo, e só chateia um bocadinho. Nada a que já não esteja habituado, portanto, “meh…”.

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