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1. Uma mulher grávida, muito grávida, uma camponesa pobre, muito pobre, à procura de justiça numa China rural, em nome de um marido agredido e injustiçado. Da aldeia para a vila, da vila para a cidade, as escadas todas de um sistema burocrático, uma China surda e muda, uma China com dificuldades em aceitar queixas, em tratar queixas, em reconhecer que erra. O filme é de 1992, é de um Zhang Yimou com Gong Li mas sem cenários vistosos, tem um final mais ou menos feliz, e vi-o pouco tempo depois de ter chegado a Macau, ainda em VCD, formato entretanto falecido.
Lembro-me da história de Qiu Ju com frequência. Há uns dias, lia uma notícia sobre um relator das Nações Unidas que apontava à China o grande pecado de não ser capaz de lidar com estruturas intermédias entre a população e as autoridades, estruturas que possam gerir queixas e críticas.
O relator – que apresentava as conclusões do trabalho que fez ainda a título provisório, porque o documento final só vai ser conhecido para o ano – condenava também a opacidade da China, a impossibilidade de se movimentar no país sem a companhia de representantes do poder, as encenações que viu (e que não o convenceram) de uma impossível harmonia entre etnias, entre estratos sociais, entre quem manda e quem responde às ordens. Deixou ainda um aviso sobre os males que virão das novas regras para as organizações não-governamentais, exemplos das tais estruturas que, não sendo povo nem poder, tocam num e no outro para – se quiserem – poderem ser intermediárias dos interesses de ambos.
Tudo isto a propósito das eleições legislativas de Hong Kong. A antiga colónia britânica é um caso sério há muitos anos, é uma coisa fora dos padrões a que estamos acostumados deste lado, neste pedaço de terra. Hong Kong é muita gente, é muitas coisas, é muita pobreza que não se vê nas idas às compras e nos espectáculos e nas saídas nocturnas e nas fugas à rotina que todos nós vamos fazendo. Hong Kong é muito descontentamento social, é uma grande incapacidade de lidar com o que a história lhe reservou, não é uma história bonita de amor, uma transferência de poder emocionada. Hong Kong é para quem percebe de Hong Kong.
De fora, a sensação de que a relação da China com Hong Kong fica sempre marcada pela crítica, pela incapacidade de gestão dos críticos, dos descontentes. Em certa medida – e com as devidas diferenças – a mesma dificuldade que temos por cá de cada vez que há certas contestações sociais: empolga-se o que não deveria ser empolgado, dá-se protagonismo a quem o procura, faz-se a vontade porque não se sabe encaixar a diferença de pensamento e de acção na prateleira certa. Ao longe, é isso que está (também) a acontecer em Hong Kong: uma China que se crispa quando as coisas lhe escapam, uma China que ainda tem de aprender a ser criticada, dentro e fora de portas, que seja capaz de dar resposta a uma classe média que, depois do dinheiro, vai querer outra coisa qualquer e não vai ficar calada se não a tiver.

2. Por cá, mais do mesmo. Ficámos esta semana a saber que os radiotáxis vão sair à rua só no próximo ano, no primeiro semestre, e vão ser só 50, não 100 como nos tinham prometido. Os outros 50 têm um ano para começar a operar, a contar do dia em que os primeiros começarem a transportar clientes. Dizem-nos que vai ser um serviço bonito de se ver, impecável, cheio de tecnologias. Sucede que aparece dois anos e meio depois de o outro serviço de radiotáxis ter guardado as viaturas na garagem.
Quem percebe de concursos públicos e afins dir-me-á que faz parte, que estas coisas são difíceis, que demoram o seu tempo. Eu não percebo nada de concursos públicos e não quero perceber. Mas entendo das dificuldades em apanhar um táxi, do tempo de espera por um autocarro, da impossibilidade em estacionar um carro nos mais variados pontos da cidade. Percebo ainda do descontentamento – que é meu também – das pessoas que aqui vivem, que têm de ir trabalhar todos os dias, de levar os miúdos à escola, regressarem a casa com os sacos das compras, nos solavancos apertados dos autocarros, com a multa da polícia na carteira porque se deixou o carro parado durante cinco minutos à porta da farmácia.
Percebo ainda qualquer coisa sobre os tempos da comunicação: em semana de fim de Uber – alternativa de muito boa gente nos últimos meses para a garantia de alguma normalidade no quotidiano – não cai bem anunciar que os novos táxis chegam para o ano, um anúncio feito nove meses depois da abertura das propostas. Provavelmente a intenção era fazer passar a ideia de que as coisas vão mudar, de que não tarda nada até vai ser possível chamar um táxi, qual Uber qual carapuça, os futuros táxis é que vão ser, Macau cidade internacional e de lazer.
Entre um guarda-chuva molhado e um autocarro à pinha, numa fila de carros que não andam, entre a casa e o trabalho, fica a Macau surda e muda que não responde à crítica, na incapacidade de perceber que, tal como a Qiu Ju do filme de Zhang Yimou, as pessoas comuns, as que andam por aí na rua, só querem mesmo é ter uma vida mais ou menos tranquila e organizada. Feitas as contas, um final pouco feliz, mas vai tudo dar ao mesmo e não faz mal, que amanhã é outro dia.

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