Os caladinhos

É uma boa notícia: há duas listas candidatas às eleições para a Associação de Pais da Escola Portuguesa de Macau. É uma boa notícia por várias razões, a começar pelo facto de dois, neste tipo de situações, ser sempre melhor do que um.

Dois significa possibilidade de escolha, é sinónimo de pluralidade de ideias, oferece debate. Dois é um número que vem para a rua e traz com ele aquilo que não deve ficar dentro de portas, no segredo de deuses empedernidos. Dois é bom porque é mais – e há alturas em que ser mais é ser saudável, forte, visível. Quando se é apenas um, corre-se o risco de se ficar esquecido, escondido, perdido na unitária solidão.

A existência de duas listas candidatas é também sinal de interesse visível pelo projecto da Escola Portuguesa. Acredito que todos – ou pelo menos a grande maioria – dos pais que tiveram filhos no estabelecimento de ensino ao longo destes anos se interessaram pela escola. Mas todos sabemos como é que as coisas são: os dias passam depressa, os anos também, há o trabalho e há os filhos, os que andam na escola e os outros, há tudo e não há tempo para tudo. Há que fazer escolhas e essas opções passam, muitas vezes, por deixar de fora uma certa participação cívica que faz bem e que, acima de tudo, é necessária, muito necessária.

O facto de haver pessoas suficientes para a constituição de duas listas revela uma dinâmica interessante numa comunidade que nem sempre tem espaço, oportunidade e margem de manobra para trabalhar por ela e para ela.

É uma comunidade – e é da minha comunidade que falo – que também falha por, frequentes vezes, emudecer perante as coisas que lhe estão mais próximas e pelas coisas de Macau, aquelas que são transversais a questões identitárias. Faz parte do modo como se organiza – ou como não se organiza, porque não tem necessariamente de se agrupar. Faz essencialmente parte da maneira como se tem constituído: de forma esparsa e provisória, como se Macau fosse um favor, como se fosse um acto de caridade, como se fosse uma realidade temporária, com os dias contados.

Nota-se isto em quem chega agora, em que tem chegado nos últimos anos. Com os dias da Administração portuguesa cada vez mais distantes, com os obituários que se vão acumulando sobre pessoas da comunidade que, numa e noutra área, pelas mais diversas razões, deixaram marcas na cidade, o grupo (em sentido alargado) vai crescendo de forma desencontrada. De forma silenciosa.

O silêncio deve ser respeitado – mas não é necessariamente bom se for justificado com o medo de, o receio de, os problemas com, o não tenho nada que ver com isto. Toda a gente tem tudo que ver com isto, porque é aqui que vive. O silêncio deve ser respeitado, mas virar as costas ao exercício da cidadania e querer que os outros façam o mesmo é um caso mais complicado.

A cidadania assume muitas formas. Tem muitos contornos. O associativismo é só um deles, mas é importante. Dois é melhor do que um porque nos obriga a tirar a poeira dos ombros. Que haja sempre tudo em duplicado, que o silêncio da solitária unidade tem dias é que é insuportável.

25 Nov 2016

A cidade dos outros

Macau não é fácil. Não é fácil para quem é de cá, não é fácil para quem chega, não é fácil para quem vai contando os anos de vida ao ritmo das edições do Grande Prémio. Ou da apresentação dos relatórios das Linhas de Acção Governativa. Presumo que as outras cidades sejam igualmente difíceis para quem vive nelas, mas acontece que não vivo nas outras cidades: é aqui que sou.
Para quem veio de fora e já conta alguns anos disto, houve um momento – ou vários – de dúvida sobre a lógica da continuidade por cá. Mas há um momento – e não vários – em que é preciso decidir, para ser possível viver em paz com quem se foi, com quem se é e com aquilo que se pretende ser. Estar aqui e noutro sítio qualquer ao mesmo tempo não dá jeito e tem efeitos extraordinariamente prejudiciais, sobretudo para a alma, que fica desasada. Que se decida onde se quer estar, hoje, mesmo que a decisão não dure mais do que as vinte e quatro horas do dia e, nas vinte e quatro horas seguintes, se faça a mala e se apanhe um barco para longe, muito longe.
As cidades são como as pessoas, porque são feitas de pessoas. E porque são feitas de pessoas, convém que as cidades tomem decisões sobre as pessoas que nelas vivem. Cidades indecisas geram cidadãos confusos, causam situações desagradáveis, porque a incerteza é chata, mói devagarinho. Cidades sem um projecto tornam-se insuportavelmente insulares, arredondam-se e fecham-se. Não têm qualquer serventia.
Macau teve um problema grave de indecisão com a transferência de administração – um dilema que, de certo modo, continua por resolver, embora atenuado pelo discurso oficial da harmonia e coisa e tal. Nos anos que se seguiram a 1999, quem cá estava e lidava com a teoria política (e com a prática política) tinha a clara sensação de não saber para onde é que tudo isto ia. A cidade. As pessoas. As pessoas na cidade. Os portugueses daqui e os portugueses que para aqui vieram.
Os bois pelos nomes: foi preciso Pequim bater o pé e inventar um desígnio que vários bons rapazes da política local não estavam dispostos a aceitar. Pequim deu um murro na mesa, deu força ao Chefe do Executivo de então e tomou-se uma decisão para a cidade: Macau ia ser um plataforma entre a China e a lusofonia, pelo que a lusofonia da terra e das pessoas era para preservar.
Todos nós sabemos que a China não precisa de Macau para chegar ao Brasil, para aterrar em Luanda ou em Cabo Verde. E todos nós sabemos também que é fraco o lado visível de mais de uma década de fórum sino-lusófono. Mas quem cá está e se lembra do quão indecisa andava a cidade no início do milénio sabe que há figuras de estilo que são muito mais do que palavras, apesar de, como figuras de estilo que são, não entrarem na contabilidade dos negócios.
Esta semana, Macau voltou a ser uma cidade virada para a lusofonia, com ministros e políticos e empresários e muita gente vinda de fora, dos países onde se fala português e do país onde se fala um chinês com diferente significado do chinês local. Li Keqiang passou por cá para recordar que as dúvidas mal resolvidas na cabeça de certos bons rapazes devem ser resolvidas quanto antes, porque Pequim inventou um projecto para Macau que vai além das fichas de jogo em dólares de Hong Kong que se atiram nos casinos da cidade.
De Portugal também veio gente: Lisboa quis trazer um primeiro-ministro para a ocasião. No meio dos discursos de circunstância, entre a retórica politicamente correcta e as intenções de aproximação à China, a ideia que muitas vezes falha a quem parte da Portela e aterra ali em Chek Lap Kok: os portugueses que aqui estão, que aqui vão sendo, interessam. E porque interessam, que se acarinhem.
Macau não é fácil e há alturas em que as decisões pessoais não bastam: é bom que quem manda na cidade e que aqueles que, mesmo ao longe, vão olhando para ela nos digam o que querem de nós, porque inventar solitariamente destinos para cidades arredondadas nunca fez bem a ninguém.

14 Out 2016

Dá-me a cidade

Um fenómeno que acontece a quem tem filhos é começar a ver as coisas em várias dimensões. Quando um filho nasce – e sobretudo quando começa a andar –, os autores do pequeno ser ficam maiores e mais fortes, capazes de transportarem todos os quilos e preocupações do mundo, mas tornam-se também mais pequenos. Um metro de gente não vê o que um metro e sessenta ou um metro e oitenta vêem: há que flectir as pernas para se perceber o mundo que é apresentado aos descendentes.
Aqueles que decidiram contribuir de forma activa para as estatísticas demográficas ganham ainda uma particular capacidade de análise do chão que sempre pisaram e que, de um dia para o outro, passa a ter uma enorme relevância: pés grandes não caem em pequenos buracos, nem tropeçam com facilidade em pisos desnivelados; já os pés pequenos têm uma particular inclinação para ajuntamentos de água e gigantes crateras no pavimento dos passeios.
Quem decidiu multiplicar-se descobre ainda um inexplicável talento para detectar o perigo. Em Macau, esta apetência adquirida por via da parentalidade é uma canseira: o perigo está em muitos sítios quando se sai à rua acompanhado por alguém que ainda mal fala. Não é preciso ser-se especialista na matéria – os espaços públicos nesta cidade, com destaque para parques infantis e passeios, são uma miséria. Basta andar na rua com olhos de ver e com uma criança pela mão.
O Comissariado da Auditoria chegou a semelhante conclusão e decidiu puxar as orelhas ao Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais. Num relatório ontem divulgado, diz-se, de forma resumida, que há um grande número de espaços públicos de lazer que representam um risco para a segurança e para a saúde pública. Gasta-se dinheiro em parques infantis e nos equipamentos desportivos, mas há desmazelo, falta manutenção, sobra lixo. Em suma: o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais não está a fazer o que devia para garantir as condições mínimas que estas áreas devem ter.
É difícil encontrar uma explicação para o estado em que se encontram muitos dos equipamentos públicos da cidade, pela simples e nada imaginativa razão de que o dinheiro não é um problema. Não havendo falta de recursos, a situação em que se encontram os locais frequentados essencialmente por crianças e velhinhos poderá ser justificada pelo desleixo, pela ignorância, pela falta de capacidade para a concepção deste tipo de áreas, pelo não-querer-saber.
Um fenómeno que acontece a quem tem filhos é a mudança do modo como se vive na cidade. Mudam-se os horários e os percursos, as zonas que se viam ao longe, da janela de casa, passam a ser frequentadas com muita regularidade. E constata-se, de um modo quase doloroso, que as pessoas que vivem nesta cidade têm uma enorme falta de espaço. Não há parque público, infantil ou não, que não esteja pejado de gente. Não há uma nova área de lazer que não seja rapidamente procurada por pais ciclistas, filhos em triciclos, novos e menos novos que gostam de correr, de andar, de respirar qualquer coisa que não seja o ar condicionado de casa e o cheiro dos casinos.
Ao falhar na manutenção dos equipamentos públicos, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais comete um pecado maior: priva grande parte da população da aproximação a uma vida mais ou menos normal. Não é preciso ser-se especialista na matéria: googlem, senhores que decidem, googlem. Vejam o que se faz lá fora e leiam, por exemplo, as estatísticas assustadoras sobre acidentes com crianças em parques infantis. Tenham cuidado: o povo é sereno e não se queixa, mas um dia destes há um azar dos grandes e alguém vos vai perguntar por que estava o baloiço enferrujado, o escorrega partido, a vedação incompleta. Descompliquem: deixem os miúdos pisar a relva, voltem a plantá-la as vezes que for necessário, porque o cimento não é amigo de joelhos e narizes de tamanho XS. Invistam: limpem os parques, comprem caixotes do lixo, espalhem-nos pela cidade; nivelem os passeios feitos à pressa em aterros feitos à pressa, lembrem-se das rampas para que os acessos estejam garantidos a cadeiras de rodas e a carrinhos de bebés. Não queiram ser terceiro-mundistas, que o termo não vos fica bem e em nada combina com os fatos escuros, as gravatas e os automóveis de motorista fardado de branco.
Modernizem-se e pensem, pensem só um bocadinho: a cidade é das pessoas e deve ser pensada para elas. A cidade é nossa.

23 Set 2016

Qiu Ju e os outros

1. Uma mulher grávida, muito grávida, uma camponesa pobre, muito pobre, à procura de justiça numa China rural, em nome de um marido agredido e injustiçado. Da aldeia para a vila, da vila para a cidade, as escadas todas de um sistema burocrático, uma China surda e muda, uma China com dificuldades em aceitar queixas, em tratar queixas, em reconhecer que erra. O filme é de 1992, é de um Zhang Yimou com Gong Li mas sem cenários vistosos, tem um final mais ou menos feliz, e vi-o pouco tempo depois de ter chegado a Macau, ainda em VCD, formato entretanto falecido.
Lembro-me da história de Qiu Ju com frequência. Há uns dias, lia uma notícia sobre um relator das Nações Unidas que apontava à China o grande pecado de não ser capaz de lidar com estruturas intermédias entre a população e as autoridades, estruturas que possam gerir queixas e críticas.
O relator – que apresentava as conclusões do trabalho que fez ainda a título provisório, porque o documento final só vai ser conhecido para o ano – condenava também a opacidade da China, a impossibilidade de se movimentar no país sem a companhia de representantes do poder, as encenações que viu (e que não o convenceram) de uma impossível harmonia entre etnias, entre estratos sociais, entre quem manda e quem responde às ordens. Deixou ainda um aviso sobre os males que virão das novas regras para as organizações não-governamentais, exemplos das tais estruturas que, não sendo povo nem poder, tocam num e no outro para – se quiserem – poderem ser intermediárias dos interesses de ambos.
Tudo isto a propósito das eleições legislativas de Hong Kong. A antiga colónia britânica é um caso sério há muitos anos, é uma coisa fora dos padrões a que estamos acostumados deste lado, neste pedaço de terra. Hong Kong é muita gente, é muitas coisas, é muita pobreza que não se vê nas idas às compras e nos espectáculos e nas saídas nocturnas e nas fugas à rotina que todos nós vamos fazendo. Hong Kong é muito descontentamento social, é uma grande incapacidade de lidar com o que a história lhe reservou, não é uma história bonita de amor, uma transferência de poder emocionada. Hong Kong é para quem percebe de Hong Kong.
De fora, a sensação de que a relação da China com Hong Kong fica sempre marcada pela crítica, pela incapacidade de gestão dos críticos, dos descontentes. Em certa medida – e com as devidas diferenças – a mesma dificuldade que temos por cá de cada vez que há certas contestações sociais: empolga-se o que não deveria ser empolgado, dá-se protagonismo a quem o procura, faz-se a vontade porque não se sabe encaixar a diferença de pensamento e de acção na prateleira certa. Ao longe, é isso que está (também) a acontecer em Hong Kong: uma China que se crispa quando as coisas lhe escapam, uma China que ainda tem de aprender a ser criticada, dentro e fora de portas, que seja capaz de dar resposta a uma classe média que, depois do dinheiro, vai querer outra coisa qualquer e não vai ficar calada se não a tiver.

2. Por cá, mais do mesmo. Ficámos esta semana a saber que os radiotáxis vão sair à rua só no próximo ano, no primeiro semestre, e vão ser só 50, não 100 como nos tinham prometido. Os outros 50 têm um ano para começar a operar, a contar do dia em que os primeiros começarem a transportar clientes. Dizem-nos que vai ser um serviço bonito de se ver, impecável, cheio de tecnologias. Sucede que aparece dois anos e meio depois de o outro serviço de radiotáxis ter guardado as viaturas na garagem.
Quem percebe de concursos públicos e afins dir-me-á que faz parte, que estas coisas são difíceis, que demoram o seu tempo. Eu não percebo nada de concursos públicos e não quero perceber. Mas entendo das dificuldades em apanhar um táxi, do tempo de espera por um autocarro, da impossibilidade em estacionar um carro nos mais variados pontos da cidade. Percebo ainda do descontentamento – que é meu também – das pessoas que aqui vivem, que têm de ir trabalhar todos os dias, de levar os miúdos à escola, regressarem a casa com os sacos das compras, nos solavancos apertados dos autocarros, com a multa da polícia na carteira porque se deixou o carro parado durante cinco minutos à porta da farmácia.
Percebo ainda qualquer coisa sobre os tempos da comunicação: em semana de fim de Uber – alternativa de muito boa gente nos últimos meses para a garantia de alguma normalidade no quotidiano – não cai bem anunciar que os novos táxis chegam para o ano, um anúncio feito nove meses depois da abertura das propostas. Provavelmente a intenção era fazer passar a ideia de que as coisas vão mudar, de que não tarda nada até vai ser possível chamar um táxi, qual Uber qual carapuça, os futuros táxis é que vão ser, Macau cidade internacional e de lazer.
Entre um guarda-chuva molhado e um autocarro à pinha, numa fila de carros que não andam, entre a casa e o trabalho, fica a Macau surda e muda que não responde à crítica, na incapacidade de perceber que, tal como a Qiu Ju do filme de Zhang Yimou, as pessoas comuns, as que andam por aí na rua, só querem mesmo é ter uma vida mais ou menos tranquila e organizada. Feitas as contas, um final pouco feliz, mas vai tudo dar ao mesmo e não faz mal, que amanhã é outro dia.

9 Set 2016

O estado do sítio

1. Vira o disco e toca o mesmo – mais uma ideia apresentada, mais uma ideia contestada. Desta vez não é um hotel, não é um centro de doenças infecto-contagiosas, não é uma biblioteca. É um restaurante. Um res-tau-ran-te. Um sítio onde se cozinha, onde se come e onde se bebe, numa das zonas mais interessantes da Taipa: as Casas-Museu, de traça portuguesa, uma área onde, à excepção da Festa da Lusofonia e das fotografias de casais de matrimónio contraído, mais um ou outro concerto de jazz, não se passa rigorosamente nada.
Para quem gosta de passear por ali, para quem gosta de cidades e para quem gosta de Macau, um espaço de restauração naquela zona faz todo o sentido. Como faria sentido ter bares e esplanadas e sítios agradáveis espalhados por aí, para as pessoas daqui poderem ter uma vida que vá além da casa, do trabalho, da tasca e (para quem pode) dos restaurantes de luxo nos casinos.
As Casas-Museu fechadas não servem a ninguém, assim como não servem a ninguém as trancas das portas de vários edifícios do Governo espalhados pelo território. A antiga Câmara Municipal das Ilhas é outro taipeiro exemplo, transformada que se encontra em algo sem acesso público, em algo sem qualquer interesse.
O secretário para os Assuntos Sociais e Cultura teve uma ideia – mais uma ideia – e achou por bem tentar dinamizar a zona do Carmo, dar outra vida às Casas-Museu, que se encontram em obras, as primeiras desde 1999. A intenção era receber, num dos edifícios, um “projecto de restauração de estilo português”.
Sucede que, à semelhança de todas as intenções de Alexis Tam, também esta causou “uma discussão acalorada na sociedade”. Vai daí, anuncia-se que o projecto fica para depois, não se faz agora. Não há consenso. O chato do consenso. Começamos a ficar habituados a projectos anunciados, para serem cancelados uns dias ou uns meses depois.
Como é claro para quem vai acompanhando a vida política da cidade, não há nada que venha do gabinete dos Assuntos Sociais e Cultura que mereça o consentimento silencioso de interesses diversos que por aí andam. Nem sequer um restaurante.
Dizem-me que a explicação é de cariz ecológico, o que até teria piada se tudo isto não consubstanciasse a tristeza profunda que episódios como este representam: em Macau nada muda, nada muda para melhor, não há uma pequena ideia de melhoria de um espaço – com as repercussões que essas melhorias trazem para o cidadão que só quer beber um café enquanto passeia – que vingue.
Não é por causa do croquete, do bacalhau ou da salada de polvo, perigosas ameaças aos mangais da Taipa, às espécies animais e vegetais da zona. Não é por causa do copo de vinho tinto do Douro, do queijo e do presunto, substâncias altamente poluentes. É por causa do que tudo isto nos deixa perceber.
Chegou a hora de o Chefe do Executivo tomar uma decisão: Chui Sai On tem de pensar se quer ou não um secretário para os Assuntos Sociais e Cultura. Não precisa de fazer declarações à imprensa sobre as qualidades do político que escolheu para o cargo. Não precisa de lhe tecer elogios. Mas precisa de fazer o trabalho de casa. É que, vistas bem as coisas, as ideias de Alexis Tam fazem parte do caderno de encargos assumido pelo líder do Executivo. As Linhas de Acção Governativa são um compromisso anual de Chui Sai On.
Durante anos, as promessas do Chefe não passavam do papel. Agora, com alguém que mostra vontade em materializá-las, também não passam. Deve ser Chui Sai On a garantir, pelas vias com que se faz a política local, que Alexis Tam não chega ao final do mandato como o secretário que mais projectos anunciou e menos conseguiu concretizar, por manifesta falta de apoio. Incluindo o do Chefe do Executivo.

2. Uns querem fazer e encontram obstáculos que não lembram ao diabo; outros não fazem o que já deveria ter sido pensado e feito há, pelo menos, uma década. Esta semana, o Comissariado da Auditoria anunciou que, entre 2004 e 2014, o Governo gastou 5030 milhões de patacas em rendas e obras de remodelação para que 68 serviços públicos tivessem instalações. Há um grande culpado para o organismo de Ho Veng On – dá pelo nome de Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes. Pecou por inércia, por nada ter feito. Uma culpa que, digo eu, deveria ser partilhada com o secretário da tutela e com os chefes do Executivo que mandaram na terra durante o período a que diz respeito a auditoria feita.
A falta de edifícios próprios para acolher os serviços públicos é de uma enorme conveniência para quem detém os imóveis arrendados à Administração. Há muita gente a ganhar dinheiro com esta situação – ou, se preferirmos, pouca gente a ganhar muito, mas muito dinheiro. Negociar renovações de arrendamentos com a Administração deve ser o sonho de qualquer senhorio: estar a mudar o serviço x ou o departamento y é uma maçada e uma grande despesa, sendo que também não cai nada bem em termos de opinião pública. O pobre do cidadão comum já se habituou a fazer as malas de dois em dois anos porque o que lhe pedem de aumento de renda não bate certo com o salário que cai na conta ao final do mês, pelo que toca a procurar uma opção mais em conta. Mas fazer mudanças de serviços públicos requer outra logística – e o arrendatário cede às pretensões do proprietário, como demonstra o gráfico do Comissariado da Auditoria sobre as despesas de arrendamento, com uma linha que sobe de ano para ano, e sobe muito.
Não tenhamos ilusões: um grupo de descontentes com a possibilidade de um restaurante nas Casas-Museu trava um projecto, mas os relatórios da Auditoria não costumam ter repercussões significativas. É o estado do sítio: vira o disco e toca o mesmo, e fica tudo em águas de bacalhau.

2 Set 2016

Ide a pé

Aideia foi e continua a ser polémica em várias jurisdições, entre elas Portugal, e era mais ou menos óbvio, para quem conhece Macau, que o processo não ia ser simples num território com uma extraordinária resistência ao que é novo, sobretudo se a novidade vier de fora.
O Governo defende-se alegando a ilegalidade da prática desenvolvida pela empresa: como os serviços prestados pela Uber são ilegais, não houve margem para discussão, fecharam-se as portas e, a acreditar no que diz a empresa, inviabilizou-se a possibilidade de implementar, de forma pacífica, um serviço que, como também é óbvio para quem conhece Macau, faz muita falta a quem cá vive.
Uma das primeiras coisas que ouvi dizer na minha breve aprendizagem de Direito é que se legisla a pensar no futuro, para que as leis tenham uma longevidade razoável. Mas aprendi também que a legislação deve ser capaz de acompanhar a evolução das sociedades que organiza – se assim não for, as leis não nos servirão e serão apenas formas de nos trancarem no passado.
O argumento da ilegalidade não convence também porque todos nós conhecemos o modo como os negócios se fazem em Macau, o proteccionismo exacerbado em certas áreas e as formas – nem sempre claras, justas e, diria mesmo, legais – que se utilizam para salvaguardar o que deveria estar garantido apenas pela necessidade e pela qualidade. Não se quis discutir a hipótese de tornar a Uber uma realidade em Macau apenas porque não se quis. Não vale a pena tentar encontrar pretextos.
Tanto não se quis tornar a Uber viável que a polícia se transformou numa espécie de fiscais do tabaco, ao apresentar uns extraordinários resultados no combate à prevaricação. Todos sabemos que há taxistas a desrespeitar a lei todos os dias. Há histórias para os mais variados gostos cinematográficos – de passageiros trancados pelos motoristas dos veículos, a utentes a quem são cobrados valores exorbitantes. Os números estão aí para quem quiser fazer exercícios comparativos – andasse a polícia atrás dos taxistas em falta, como anda atrás dos motoristas da Uber, e o serviço de táxis em Macau seria uma maravilha, uma coisa digna de cidades evoluídas.
Mas, mais uma vez, nem sequer é preciso chamar à colação a questão da legalidade – ou da falta dela – no modo como actuam os taxistas e a ausência de punição. O serviço prestado pelos táxis de Macau não é mau, é péssimo: carros velhos, carros sujos, malas onde não cabem malas, motoristas que não tiram as mãos do volante para ajudarem os clientes a meter as malas na bagageira. Motoristas que não falam outra língua que não a local e não demonstram a mais pequena vontade em perceber as necessidades de transporte do passageiro estrangeiro que visita Macau, esse destino tão internacional.
É o que temos – e o que não temos também. Qualidade à parte, os táxis são coisa rara, difícil de apanhar, não são capazes de atender muitos dos que procuram uma forma de se mexerem numa cidade em que os autocarros são o que são e, para quem opta por ter um automóvel, o estacionamento é o que é.
Macau não é o primeiro local onde a Uber encontra resistência. Portugal, como escrevia no início deste texto, foi um osso duro de roer – e eu até compreendo a resistência da concorrência directa, os taxistas que, em muitas praças portuguesas, esperam pacientemente por clientes que teimam em não chegar. Ainda assim, o Executivo português decidiu estudar uma forma de evitar que empresas como a Uber deixem de operar num vazio legal. Contra factos não há argumentos e o facto é que o mundo muda – quem legisla deve ser capaz de lidar com a mudança, doa a quem doer.
Aqui, num sítio onde apanhar um autocarro pode ser um filme, apanhar um táxi pode ser um filme de terror, o metro vai lento e não existem alternativas para que as pessoas possam organizar a vida e as suas mais variadas necessidades – a ausência de transporte escolar e de empresas dedicadas a esta área é um exemplo – a Uber daria muito jeito. Daria muito jeito que quem decide pensasse no que faz mesmo falta a quem aqui vive e todos os dias, um dia depois do outro, tem de se mexer no caos em que esta cidade se transformou.

26 Ago 2016

Má sorte

1. Primeiro foi o troço das antigas muralhas, vandalizado por quem acha que pode fazer o que lhe apetece, onde lhe apetece, quando lhe apetece. Depois foi a Casa de Lou Kao, que levou com uma parede em cima que não lhe pertence, por causa de obras que – dispensa-se o relatório preliminar e também não é preciso esperar por conclusões finais – são feitas às três pancadas, como quase tudo o que diz respeito à construção em Macau. E agora o templo de A-Ma. Um incêndio com causas desconhecidas, em plenas comemorações do ano novo chinês. O património não anda com sorte.
Um incêndio de madrugada, de origem incerta. O Instituto Cultural já veio garantir que foi feita, há pouco tempo, uma inspecção ao local, espaço de peregrinação de centenas (milhares?) de pessoas durante estes dias. À hora a que escrevo, presume-se que se tenha tratado de um curto-circuito, uma daquelas coisas de que ninguém tem culpa – ou às tantas tem.
Mas não interessa a culpa: já se sabe por aqui morre quase sempre solteira e, quando contrai matrimónio, por norma fá-lo com o cônjuge mais fraco que poderia arranjar. O que importa é pensar no que se anda a fazer, no que se vai fazer, como evitar que estas situações aconteçam. No meio da má sorte, a sorte toda: tivessem as chamas começado a outras horas e este texto seria, todo ele, muito diferente. Num edifício com acessos complicados, a má sorte seria uma enorme tragédia.
Macau tem esta estranha condição da má sorte relativa: o mundo vai desabando, mas aqui, neste pedaço de terra crescente, nada acontece. Esta forma de evitar o azar total não se deve à competência das autoridades ou à consciência de quem age no espaço público: deve-se à sorte, que muitos dizem ser divina, apesar de os deuses não serem consensuais.
É bom que o azar total não nos bata à porta: antes cair o revestimento dos corredores, que sucumbiu ao frio, do que o tecto em cima da cabeça. Antes furar um pneu num buraco da estrada que já conta com mais de seis meses de vida, do que estourar o carro nesse mesmo buraco que a chuva tapou. Antes isso, claro está. Mas a má sorte que se vai tendo deveria servir para se começar a exigir mais – das autoridades e de quem age no espaço público. É que um dia destes o panchão rebenta no sítio errado, na hora errada, na mão errada. Não há má sorte relativa que não possa ser, um dia, absoluta.

2. Corro o risco de ser culturalmente intolerante. Corro. Mas as touradas também fazem parte da cultura do meu país e não lhes acho a mínima piada, pelo que não é uma questão de idiossincrasia – é mesmo uma questão de bom senso. Macau continua a ser, em termos de ano novo chinês, uma coisa estranha, bastante primitiva.
Dir-me-ão que faz parte da tradição isto de andar a queimar coisas para o ar, a horas em que há gente que quer, por exemplo, dormir descansada, sem a sensação de acordar no meio da Guerra do Pacífico. Queimam-se panchões nos locais que as autoridades definem mas também noutros sítios, que já sabemos que há sempre quem faz o que lhe apetece, quando lhe apetece, onde lhe apetece.
Dir-me-ão que faz parte da tradição e eu acredito, mas há 300 anos havia outras tradições, aqui e noutras partes do mundo, que se abandonaram por razões lógicas, próprias da evolução da espécie. Os panchões não fazem parte da realidade de muitas cidades da China, que também é tradicionalmente dada a fogos-de-artifício e outros dispositivos ruidosos. Houve alguém, do outro lado da fronteira, que se lembrou da poluição – sonora e sobretudo atmosférica, que isto de andar a queimar coisas não faz nada bem ao ar que se respira.
Por aqui, tudo na mesma. A festa ainda dura mais uns dias, pelo que quem quiser dormir que se aguente, porque até à uma da manhã a festa dura e há tolerância governamental para algumas tradições. Os turistas dão jeito e há que manter o povo contente. E depois – que fique claro porque já nos disseram, vezes sem conta, esta verdade absoluta – a culpa da poluição não é nossa. É só má sorte.

3. Outra sorte tiveram os Serviços de Saúde num caso recente que deu origem a uma das notas de imprensa mais extraordinárias que já tive oportunidade de ler. Chegou pouco antes da uma da manhã, acompanhada de uma mensagem para o telefone. O título diz tudo: “SSM [Serviços de Saúde de Macau] agradecem ao tribunal que julgou improcedente um recurso sobre o levantamento da medida de isolamento obrigatório”.
Quero ter a esperança de que a nota de imprensa original tenha sido redigida em chinês e que em chinês tenha um sentido completamente diferente. É que não fica bem uma entidade pertencente a um Governo agradecer decisões de órgãos judiciais – por mais importantes que possam ser para a saúde pública, como parece ter sido o caso. É a escolha do verbo, bem sei, pode ser só mesmo falta de jeito, admito. Para a próxima, um “congratulam-se” cai melhor. Ou então um título informativo, daqueles tipo “Tribunal dá razão aos Serviços de Saúde”. Por causa daquelas coisas da separação dos poderes e do Estado de direito. É que só falta mesmo o cesto de frutas e o cartão a acompanhar. Em nome da boa sorte, pois.

12 Fev 2016

Livr(o)e

1. Aprendi a ler muito cedo, porque quis. Na altura não tinha noção de que saber ler era meio caminho andado para o combate ao tédio, porque desconhecia a palavra. Também não sabia o significado de solidão, filha não única mas sem outras crianças em casa. Com os anos, os livros passaram a ser companhia constante, vício, virtude também. Inundavam as tardes abafadas e intermináveis de Verão. Apagavam as noites de insónia.
Os livros. Só mais tarde, muito mais tarde, percebi a libertação que me trouxe o acto da aprendizagem da leitura. Ler liberta. Ler é poder ir a todos os lados, conhecer todas as pessoas, incluindo aquelas que nunca vimos, que falam línguas que não conhecemos. Ler é prepararmo-nos para o que o mundo tem de diferente. Ler é liberdade.
Às tantas é esta liberdade toda que faz com que goste que a minha filha goste de letras, apesar de ainda não ter idade para saber ler. Gosto que ela goste de livros, que me roube os livros das estantes e brinque com eles, que goste dos livros dela. Quero que possa ler tudo, que todos os livros do mundo estejam ao seu alcance. A minha mãe viveu o tempo em que havia leituras proibidas. A mim foram-me dadas toda as letras que consegui apanhar.
Não conheço o teor dos livros que se vendem que nem ginjas em Hong Kong, e em Macau também, e que são proibidos na China. Os livros que, ao que dizem, são os responsáveis pelo desaparecimento de cinco pessoas que viviam num espaço que julgávamos ser de liberdade. Não sei se os livros são bons ou maus, se contam histórias verdadeiras ou falsas. Só sei que são livros. E que tudo o que se escreve – nos livros e nos jornais – é um exercício de liberdade. Uma liberdade que, quando viola os outros direitos que também temos, deve ser avaliada em sede própria. É assim que acontece nos sistemas que, julgávamos, se regem pelos princípios do Estado de direito.
É estranha a história de Lee Bo. Como é estranho o desaparecimento dos quatro colegas, em Outubro passado, que não mereceu a atenção de ninguém: umas quantas linhas na imprensa local e uma silenciosa reacção da comunidade dita internacional e mais livre. É estranha toda a narrativa, tudo aquilo que nos têm dito. E os livros no meio de tudo isto. Ler. Ser livre.

2. Eles dizem que foi uma bomba a sério, os outros desconfiam. Vivemos – nós, aqui perto, e os outros, mais longe – com um problema sério que tem sido olimpicamente ignorado pela tal comunidade internacional defensora da liberdade, não da dos livros, mas de outra liberdade qualquer cujos contornos, frequentes vezes, não consigo perceber.
Desde que vim para Macau que me comecei a interessar pelas questões coreanas. Afinal, é aqui ao lado. No início era a curiosidade que me despertava um regime que parou no tempo; depois, com os livros que fui lendo, a vontade de criar uma imagem de um país que dificilmente conhecerei de outra forma.
A Coreia do Norte é a prova de que o mundo é uma coisa muito mal-amanhada e muito mal resolvida. É a prova também de que o xadrez da política internacional é um jogo sujo que não serve ninguém – nem os povos que alegadamente estão representados, nem os povos sem voz, aqueles que só merecem a preocupação de meia dúzia de organizações não-governamentais e de outros tantos observadores indignados.
Pyongyang tem sido um problema conveniente que a China tem no quintal. Ontem lia especialistas na matéria, todos eles chineses, dizerem que dificilmente Pequim terá uma atitude interventiva em relação ao regime que tem vindo a proteger porque não só tem perdido influência na liderança sem tino de Kim Jong-un, como também passaria a contar com dilemas adicionais resultantes de uma eventual queda do regime. Mas, explicam também esses especialistas, um quintal com competências nucleares não serve a Pequim. E não serve ao resto do mundo.
O mundo tem, aparentemente, mais um problema para resolver – um problema com que os norte-coreanos, esfomeados e perseguidos, vivem há 60 anos. Pois. Essa coisa da liberdade.

8 Jan 2016

Uma terra para ninguém

Já não sei se foi em 2003 ou em 2004, mas lembro-me perfeitamente do cenário: uma espécie de estação de serviço na China, algures na província de Guangdong, um daqueles sítios em que se fazem paragens para esticar as pernas e fumar uns cigarros. Na altura ainda se fumavam cigarros alegremente e Edmund Ho era um Chefe do Executivo que gostava de conversar com os jornalistas sem os formalismos que hoje conhecemos. As estações de serviço e as pausas para os cigarros serviam para umas conversas que, sem cigarros, não fariam qualquer sentido.
Foi aí que ouvi falar, pela primeira vez, da necessidade de melhorar a qualidade de vida da população. Fazia parte dos objectivos do Governo de então mas, por esses dias, não conseguia perceber exactamente o alcance do desejo: Macau era aquele sossego em que havia gente que, não vivendo bem, também não vivia propriamente mal. Macau era aquele sossego em que tudo ficava a cinco minutos de distância, em que tudo era acessível. Macau era outra coisa que não isto que hoje é.
Os anos passaram e acabaram-se as paragens em estações de serviço na China para fumar cigarros e esticar as pernas. O Chefe que se seguiu não partilha da curiosidade do anterior, mas manteve o discurso da necessidade de melhorar a qualidade de vida das pessoas que estão em Macau (ou de parte delas). O discurso faz-me rir. Por razões agora completamente diferentes, não percebo o que se quer quando se fala em qualidade de vida. Não entendo o conceito que vai na cabeça de quem manda. Acredito que não serei a única.
A qualidade de vida, para a maior parte das pessoas – as que aqui vivem e as dos outros sítios também – passa pelas pequenas coisas. O que nos irrita e o que nos satisfaz não são as grandes questões políticas, as decisões de vulto, os anúncios espampanantes, as grandes negociatas, as tramóias de quem passa a vida em jogos de poder. O que nos irrita mesmo são as dificuldades do dia-a-dia, a dificuldade em estacionar o carro, a impossibilidade de apanhar um autocarro, a hora a mais que se demorou a chegar a casa – aquela hora que tanta falta faz porque, quando passa, já tudo é diferente.
Irritam-nos também os preços do supermercado, que não obedecem à inflação da China, os preços das casas, que não obedecem a qualquer regra de mercado. Irritam-nos ainda os serviços concessionados, lucrativos monopólios que chegam ao fim do ano com os bolsos cheios do que cobraram a clientes que andam ao engano, sempre ao engano, mas sem possibilidade de mudarem para qualquer coisa melhor.
O trânsito. Já se percebeu que não há grande volta a dar. Há anos que percebemos isso. O metro é obra que será motivo para uma expedição a Macau, que muito provavelmente não estarei por cá para a inauguração. Os autocarros são o que se sabe: sardinhas em lata às várias horas de ponta da cidade, a falta de civismo de muitos (mulheres com crianças ao colo, idosos e grávidas podem ter a sorte de um lugar sentado, ou não), ex-condutores de betoneiras que subiram na vida e agora são motoristas, aceleram nas rectas como se o povo fosse cimento, vai para a direita, vai para cima, vai para a esquerda e vem para baixo. Quem quiser que se agarre ao que houver para agarrar.
O estacionamento. Previsivelmente, esta semana os preços do parque privado onde guardo o carro todos os dias, para me dar a esse luxo imenso que consiste em ir trabalhar, subiram mais de 50 por cento, que esta malta precisa de dinheiro e não quis, de modo algum, ficar atrás da iniciativa governamental que tem como nobre objectivo libertar lugares de estacionamento. Uma semana de testes e a ideia não funcionou: sucede que há gente, boa gente, que precisa mesmo de se deslocar e não tem outra hipótese. As filas à porta do meu parque de estacionamento continuam a ser as mesmas. O tempo de espera também. Só a conta ao final do dia é que é bastante diferente. Para mim e para muita gente, em muitos outros parques de estacionamento.
As cabeças quadradas. A falta de ideias para resolver as pequenas coisas que nos irritam. Por altura da promessa de qualidade de vida de Edmund Ho, eu morava no NAPE e não tinha carro, porque não precisava dele – ainda havia táxis e autocarros. O NAPE era, há uma dúzia de anos, um sítio pacífico com meia dúzia de restaurantes, outros tantos bares, dois cafés muito simpáticos e um supermercado. Havia um ou outro karaoke de miúdos que, de vez em quando, se metiam em maus lençóis. Mas a zona era pacífica. Quem tinha carro estacionava na rua e os autocarros ainda se davam ao trabalho de apanhar passageiros nas paragens, porque tinham espaço para eles.
O NAPE mudou e vieram os casinos, as lojas de penhores, os karaokes com portas duvidosas em todas as esquinas. Como Macau é aquela cidade de permanentes contradições, no meio de toda esta confusão instalaram-se (ou já estavam instaladas) várias escolas, creches, uma universidade. E escritórios, negócios às claras e negócios por debaixo do tapete, lojas de vinhos caros e lojas de electrodomésticos, lojas de colchões, lojas de roupa manhosa.
Durante os anos de atribulada expansão demográfico-empresarial desta zona, que um dia se pretendeu nobre, não houve uma única alma nos Serviços para os Assuntos de Tráfego que se tivesse lembrado de encetar conversações com uma alma homóloga da Polícia de Segurança Pública para facilitar a vida aos pais que, diariamente, vão deixar e vão buscar os filhos à escola. Como não há lugar para estacionar nos parques públicos, nos parques privados e nos lugares com parquímetro, quem vai ao NAPE diariamente fazer o exercício de tirar a criança do carro e deixá-la na escola não tem outro remédio que não seja parar nas linhas amarelas das várias paralelas e transversais à avenida principal.
As soluções para este tipo de zonas foram há muito inventadas: abrem-se excepções para quem pára, à hora de entrada e de saída das escolas, em locais onde não é possível estacionar; destacam-se polícias que, em vez de terem como missão multar pais, ajudam na gestão do trânsito, na garantia de que as passadeiras são respeitadas. Facilita-se a vida a quem só está a tentar viver.
Mas por aqui é tudo diferente: a polícia gosta de passar multas a mulheres grávidas com filhos ao colo, no momento em que estão a preparar-se para entrarem nos carros estacionados em linhas amarelas e seguir viagem. Já se fosse à noite, o problema não se colocava: o lobby dos restaurantes e karaokes conseguiu abrir excepções nas linhas amarelas. A malta que bebe uns copos pode parar o carro; aos miúdos de dois anos é melhor dar um MacauPass e eles que se façam à vida, para aprenderem que não é fácil.
O que acontece hoje em dia no NAPE é apenas um exemplo do que se passa noutras zonas da cidade. Já que o conceito de qualidade de vida é algo que o Governo não consegue definir, para depois pôr em prática, que tenha em mente aquilo a que está obrigado: dar possibilidades às pessoas. A impossibilidade da normalidade mina qualquer ideia de vida.
Talvez um dia perceba onde queria chegar Edmund Ho.

18 Dez 2015

Fong & friends

Ainda o que aconteceu na sexta-feira passada. Faz hoje oito dias, ficámos todos a perceber com clareza – se dúvidas ainda tivéssemos – de que massa é composta muita da gente que, directa ou indirectamente eleita, com a bênção do Chefe do Executivo ou sem ela, ocupa um lugar na Assembleia Legislativa. Na realidade, o tema vinha de véspera e foi Tsui Wai Kwan, um dos escolhidos de Chui Sai On, que deu o tiro de partida para um dos mais tristes espectáculos a que assisti em mais de dez anos de plenários.
Resumindo, para depois concluir: há deputados que estão preocupados com o investimento que o Governo, através da tutela de Alexis Tam, está a fazer na saúde pública, no Centro Hospitalar Conde de São Januário e nos centros de saúde do território. Consideram que a intenção é boa, mas já chega, não é preciso ir mais longe. A razão para este travão político? A concorrência às clínicas privadas e ao Hospital Kiang Wu, essa instituição que dispensa apresentações e que todos nós sabemos como é financiada.
Como é hábito naquele edifício ao qual se deu o nome de Assembleia Legislativa, há um deputado particularmente despudorado, conhecido pelos frequentes dislates, de seu nome Fong Chi Keong, que assumiu a defesa da causa: se o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura continuar nesta senda de tentar melhorar o serviço público de saúde, vai acontecer uma catástrofe. (Quem não conhecer o estilo da retórica fonguiana poderá porventura achar que me enganei na redacção da última frase. Não, não me enganei.) Vai daí, o douto tribuno deixou um conselho ao secretário, que “ainda é novo”: há que parar enquanto é tempo, que o Kiang Wu é para ser tratado com amor e carinho.
Os deputados defensores do Kiang Wu – Fong Chi Keong é bom a fazer contas e somou oito, ali todos sentadinhos – explicaram, ao longo de várias e entediantes horas, como é que o Governo, ao estar a melhorar um hospital que é de todos, prejudica o hospital de quem tem dinheiro para pagar contas: há médicos que estão a trocar o Kiang Wu pelo São Januário. Que indecência, que despautério, que grande tolice. E, claro está, se o hospital público um dia destes recupera a confiança da população, as contas mensais do Kiang Wu provavelmente vão ressentir-se. Que vã preocupação.
O que tu queres sei eu, disse Alexis Tam a Fong Chi Keong, e disse muito bem, que todos sabemos o que ele quer: esta situação de concorrência desleal gerada pelo único governante que, até à data, veio defender que o São Januário não deve cair de podre, nem deve ser o hospital dos pobres e desvalidos, só pode ser resolvida com mais uns servicinhos encomendados ao Kiang Wu. Como se já não bastasse o dinheiro todo que, anualmente, entra por várias portas no hospital privado. Como se não bastasse.
Para Alexis Tam, obviamente basta. Não será à toa que, apesar dos cortes orçamentais deste ano, o secretário continua a ter dinheiro para investir, para contratar, para fazer. Apesar da oposição, continua, portanto, a ter apoio político para levar o seu projecto avante. Mesmo havendo um Kiang Wu na cidade. Mas a contestação à melhoria do que é público serve de explicação – queiram os deuses e restantes santos que não seja, de novo, premonitória – das dificuldades que se colocam a quem, de uma forma ou de outra, se atreve a tocar em vacas sagradas, mesmo que com jeitinho.
Falta de vergonha dos deputados à parte, importa reflectir, para memória futura, na postura de Alexis Tam, que fez questão de encerrar os dois dias de debate com uma mensagem clara e inédita na política local: ele está no Governo para servir a população, não uma minoria da população. E espera que os deputados entendam que assim é e assim vai continuar a ser enquanto lá estiver.
Este tipo de mensagem leva-me a pensar que, com o secretário, passa-se uma de duas coisas: sabe bem o que está a fazer, que terreno pisa, e por isso diz o que diz, porque segue um certo alinhamento nacional que não tem, nos dias que correm, o empresariado ganancioso e despudorado em grande conta; ou é simplesmente alguém que quer fazer, que quer cumprir o que promete, que quer ir mais além na vida política e poder continuar a defender o interesse público. Às tantas, são as duas coisas em simultâneo. Fong e amigos, parece que o mundo está a mudar, apesar do lento ritmo local da mudança.
Alexis Tam é uma carta claramente fora do baralho governativo, mas não está só. Noutro registo, com um estilo completamente diferente, o secretário para os Transportes e Obras Públicas protagonizou esta semana mais um momento político nunca visto. Depois da ladainha de comentários e perguntas de uma dezena de deputados, Raimundo do Rosário, com a sua forma de responder sem rodeios, pouco ou nada virada para os novelos retóricos em que os deputados se emaranham, explicou que não pode responder a tudo, nem pode fazer tudo. Ficou sem 300 milhões e o que lhe falta em pessoal, em terrenos e em recursos, tem a mais em problemas, limitações e nós para desfazer que, à medida que os anos foram passando, se foram tornando cada vez mais apertados.
É refrescante ouvir um governante desta terra não prometer estudos para resolver problemas há muito diagnosticados, mesmo que nos diga aquilo que não queremos ouvir. É refrescante ouvir um governante desta terra dizer que está aqui para me defender, a mim e aos outros todos que fazem parte da maioria que não sabe fazer contas com a quantidade de zeros da máquina de calcular de Fong Chi Keong.
Talvez daqui a uns tempos chegue à conclusão de que estas formas de estar não me deram um melhor hospital ou um trânsito menos caótico. Por ora, sabe-me bem ouvir um discurso político de maior elevação.

11 Dez 2015

Amanhã logo se vê

1. Eu não cresci no tempo dos meus pais. Não era suposto encontrar um mundo igual. Bem vistas as coisas, quer-me parecer que aquilo que estava reservado para a minha infância foi bem melhor do que as circunstâncias em que os meus pais cresceram. Os meus primeiros anos de vida foram-se somando numa altura de paz, naquele pequeno universo em que nos movimentávamos. Foram anos suaves por aquelas bandas, muito ocidentais e a quererem ser europeias.
Assim como não era suposto crescer no mundo dos meus pais, também não seria de esperar que as minhas filhas nascessem no enquadramento que eu encontrei. Mas não, não estava à espera que o mundo – o mundo de onde venho e que nunca deixou de ser o meu, por mais longe que esteja – regredisse deste modo. Não, não é este o mundo que quero para as minhas filhas. Um mundo que não consigo compreender, por mais que leia e veja e pense.
Os atentados de Paris, que nos dizem mais do que os atentados de outros sítios porque conhecemos Paris e porque temos amigos em Paris e porque temos família em Paris, fizeram muito mais do que mortos. Mas nem vale a pena ir por aí, pelo medo, pela sensação de insegurança que se quer criar e que se consegue efectivamente incutir. Também não valem mais do que meia dúzia de linhas os meninos que decidiram que queriam fazer um Estado Islâmico, essa gente enviesada que anda a brincar às guerras sem regras, sem pudor, que anda a espalhar o terror e a conquistar outros meninos enviesados para uma causa sem causa alguma.
O que aconteceu em Paris deixa-me preocupada com a Europa que temos – desunida e fraca, sem capacidade de afirmação, nem de uma resposta conjunta a momentos de crise. Não teriam sido necessários os atentados de Paris para chegarmos a esta conclusão: a sangria no Bataclan e os dias que se seguiram só vieram confirmar o que já tínhamos aprendido com os anos da crise nos países mais pobres e, mais recentemente, com a ausência de uma solução para o drama dos refugiados.
A aparente impotência europeia não é apenas um problema europeu porque, bem vistas as coisas, a Europa conta e está no centro de quase tudo. E, por contar, de repente dava jeito – a quem é europeu e aos outros também – que a Europa se entendesse e que a Europa percebesse que o mundo está a mudar muito mais rapidamente do que estaríamos à espera quando começámos a somar anos.
No meio de tudo isto, seria bom termos uma ideia de que mundo estamos nós a construir para os nossos filhos. Urge que se encontrem soluções, sendo que serão sempre difíceis.

2.

Nós por cá tudo bem, obrigada. Na noite em que ainda assistia, incrédula, às imagens que foram chegando de Paris, a Torre de Macau e o céu em redor iluminavam-se com um estonteante fogo-de-artifício, talvez em jeito de comemoração de mais uma feira-da-gastronomia-em-cima-de-uma-rotunda, feito que não lembra ao diabo mas que, por aqui, é a demonstração do quão criativo é o nosso empresariado político.
Em semana de feira-da-gastronomia-em-cima-de-uma-rotunda, temos Linhas de Acção Governativa e Grande Prémio, cada um deles à sua velocidade, num contraste que confirma que esta terra é só paradoxos. Do plano anual do Executivo não se poderia esperar muito – eu, pelo menos, nunca espero – até porque Março foi quase ontem e só aí começámos a perceber efectivamente de que material se faz esta equipa governativa.
No espaço de nove meses foram apresentados dois pacotes de medidas e estas últimas mais não poderiam ser do que uma repetição das primeiras que, por acaso, têm tudo que ver com as não-sei-quantas-outras que as antecederam.
Já nos habituámos à ausência de discurso político por aqui. Que venha o trabalho, que os projectos se concretizem, que bem precisamos deles. É bonito ouvir falar de qualidade de vida, mas a Macau falta quase tudo para que se possa falar nela.
Mas nós por cá tudo bem. Haja feiras-da-gastronomia-em-cima-de-rotundas, que o povo gosta. E cheques, claro está, que a austeridade chegou, mas em fórmula vencedora não se mexe. É mais ou menos como o Grande Prémio. Mas mais devagar nas curvas.

20 Nov 2015

Um presunto e um galo

1. Como se já não bastasse o ar que respiramos todos os dias. A Organização Mundial de Saúde veio esta semana dizer que as salsichas, o bacon e os enchidos são cancerígenos. A carne vermelha, às tantas, também faz muito mal. Mas certo, certo é que o presunto está no mesmo grupo de substâncias cancerígenas que o tabaco, o amianto e os gases de escape emitidos pelos motores a gasóleo. Quem diria.
Em Hong Kong, onde se fazem as contas às pessoas que morrem por ano vítimas da poluição, também há estudos sobre os hábitos alimentares: os residentes comem três salsichas e meia e quase duas fatias de fiambre por semana. Estão condenados, os pobres coitados. Como se já não bastasse o ar que respiram todos os dias.
Vivemos na era em que tudo faz mal. Comer vegetais faz mal, porque não sabemos de que é que são realmente feitos. Beber leite faz mal, porque não sei o quê. Comer carne faz mal. Comer peixe faz mal. Comer pão faz mal. E depois há ainda o glúten, a descoberta das mil e uma intolerâncias alimentares. E agora as alheiras e o salpicão e o presunto, bens essenciais que não me apetece dispensar – fazem parte do meu código genético. Fumar também faz mal, mas isso faz mesmo. Beber álcool também, embora hoje em dia o mundo científico nutra uma grande simpatia pelo vinho tinto. Em suma: viver faz mal.
Quem vive em Macau – assim como aqueles que vivem em Hong Kong – sabe desde o primeiro dia que corre sérios riscos, sendo que o problema não é o presunto importado, a rara alheira de Mirandela ou o enlatado manhoso. Mesmo que seja vegan, faça 30 minutos de exercício físico por dia e a hora de meditação ao entardecer o tenha tornado completamente impávido e muito sereno, incapaz de se chatear com o trânsito, com a inflação e o mutismo selectivo de parte da população, está condenado o triste residente das regiões administrativas especiais. O problema é mesmo a inevitável respiração – sair à rua é uma coisa complicada, sobretudo por estes insalubres dias. Crianças e velhos trancados em casa, os que têm problemas respiratórios também. Os outros que tenham paciência e respirem o ar insuportável a que temos direito.
Um dia destes o Governo faz um ano e começo a perder a esperança de que alguém se preocupe – a sério – com a poluição. Já sei que esta nuvem que nos cobre a cabeça e não é chuva vem de fora, que a culpa não é nossa, que estamos do Delta do Rio das Pérolas e por aí fora. Mas quem percorre o território diariamente não acredita na culpa externa: basta abrir os olhos e ver os autocarros velhos, as carrinhas e os camiões a desfazerem-se que andam por aí. São os tais gases de escape emitidos pelos motores a gasóleo – e frequentes vezes são gases que nem escape têm, que a viatura já deu o que tinha a dar. São salpicões sobre rodas, portanto.
As autoridades não parecem estar particularmente preocupadas com a situação. Nunca vi nenhuma fumarenta carrinha ser multada. Talvez porque a polícia se preocupa mais com os veículos parados, aqueles que têm donos que se esqueceram da moedinha no bolso, aqueles que têm donos que se esqueceram de acordar às 8 da manhã de domingo para não falharem o parquímetro que, à porta de casa, não lhes dá um dominical minuto de descanso, guardado que está por um zeloso agente das força de segurança.
Quanto ao Governo, falta alguém com vontade de tornar Macau numa cidade habitável, onde se possa respirar fundo e menos fundo, que imponha técnicas de conservação energética e essas invenções modernas que, dizem os especialistas dos outros países, fazem poupar na conta da electricidade, com as devidas consequências para uma vida um bocadinho melhor.

2. A semana começou mal: mais de uma centena de pessoas feridas num acidente com um jetfoil que viajava de Macau para Hong Kong. O barco embateu num misterioso objecto, embateu com força, e aquilo foi sangue por todos os lados. As imagens que nos chegaram são feias – e mais feias são porque podíamos ser nós. Quando a desgraça nos é próxima, torna-se mais forte.
Não foi o primeiro acidente com um jetfoil. Aqui há uns anos falou-se muito na necessidade de melhorar as condições de segurança dos barcos, mas o assunto caiu no esquecimento. Há jetfoils sem cintos de segurança. A maioria tem apoios para os braços feitos de metal. Há várias embarcações com bancos velhos, desconfortáveis, com as marcas de muitos corpos transportados. Não há cintos de segurança, nem sistemas pensados para o transporte de crianças – que pagam como gente grande assim que completam um ano de idade. Em caso de acidente, tudo isto conta. É diferente bater com a cabeça num bocado de ferro ou num pedaço de espuma.
Sabemos bem que o empresariado da região não se distingue por ser generoso nas actividades que desempenha profissionalmente, apesar de haver algum gosto por uma certa filantropia com fins meramente mediáticos. Mas falta a generosidade para com aqueles que sustentam os negócios: de um modo geral, o carpinteiro poupa na espessura da madeira dos armários e nas camadas de verniz, o empreiteiro economiza nos metros de fio eléctrico e de tubos, a companhia aérea da terra resolve o problema do catering com umas bolachinhas oferecidas em troca de publicidade.
A Shun Tak – a proprietária do acidentado jetfoil, com fortes interesses também no imobiliário – triplicou os lucros no ano passado, em relação a 2013. Não é propriamente uma pequena e média empresa com problemas financeiros. Mas é poupadinha nas condições que oferece aos seus clientes, depois de anos de monopólio, sem concorrência no transporte entre Macau e Hong Kong.
Porque o empresariado de Macau não é generoso, o Governo tem de o obrigar a ser, pelo menos, cuidadoso: talvez tenha chegado a hora de termos barcos com melhores condições, para que, da próxima vez, em vez de sangue sejam só galos na testa.

30 Out 2015

A falta que faz uma BIC

1. Macau esteve quase, mas muito quase, a escrever mais um capítulo na sua fantástica história política: por pouco, os eleitores do território não elegeram um deputado à Assembleia da República Portuguesa que fez questão de esclarecer previamente que jamais iria ocupar o lugar. Portanto, uma espécie de Manuel João Vieira, mas com muito menos sentido de humor, menos capacidades técnicas ao bandolim, menos jeito para pintar e sem promessas de alcatifar Portugal.
Pereira Coutinho não foi eleito mas, ainda assim, o movimento pelo qual se candidatou ganhou ontem projecção mediática em Lisboa, pelos piores motivos: o deputado do Partido Socialista eleito pelo Círculo da Europa, Paulo Pisco, veio contestar os resultados das eleições por causa de acontecimentos estranhos na mesa de Macau com os votos que, como todos nós sabemos, se preenchem em casa e são enviados pelo correio. Em causa estaria o preenchimento de vários boletins com a mesma esferográfica e até votos com documentos de identificação em anexo.
Paulo Pisco – percebeu-se logo pela reacção da Comissão Nacional de Eleições – não vai longe nas suas reivindicações: os boletins escrutinados objecto de estranheza não foram colocados de lado, pelo que é difícil fazer uma investigação sobre o assunto. É, no mínimo, uma peculiar explicação para um esquisito método de lidar, oficialmente, com acontecimentos invulgares.
Houvesse uma maior variedade de papelarias em Macau e não andávamos todos a roubar canetas uns aos outros e a escrever com material nada criativo. A culpa, no fundo, é do Governo de cá: as rendas estão altas, ninguém põe mão nisto, as papelarias são negócios pequenos sem capacidade para fazerem frente à ganância dos senhorios. Outra explicação para a monotonia na escrita eleitoral poderá ter que ver com a ausência de BICs no território, que há muito tenho vindo a defender, por jamais me terem deixado ficar mal: em futuro acto do género, recomendo vivamente a importação de duas caixas das clássicas, outras tantas de cristal soft, mais umas quatro das laranja e, para o eleitorado mais jovem, algumas shimmers perfumadas. As cristal finas, elegantes no traço, têm pouca visibilidade e ainda se falha o quadradinho.
Porque sou sensível, ainda assim, às preocupações de Paulo Pisco, faço parte do grupo daqueles que acham que não custa nada – ou custa muito pouco – avançar para métodos de voto menos clássicos. O voto electrónico, conjugado com formas mais tradicionais para regiões do mundo afastadas das representações consulares, é capaz de ser uma boa ideia: a malta vai ali ao consulado e vota, sem precisar de BICs.
Em Macau teremos, porém, uma nova exigência a fazer: a tradução para chinês dos boletins. É que, quando se vota no conforto do lar, o Google Translate está ali mesmo à mão de semear. E nós, cidadãos portugueses, não queremos que se perca o nível de envolvimento conquistado nestas eleições. Dos resultados que ontem ficámos a conhecer destaca-se uma grande novidade: há muitos portugueses de Macau que, apesar de não voarem todos os anos de férias para Lisboa e de eventualmente não dominarem a língua, acompanham avidamente a vida política portuguesa.

2. A semana de Macau fica marcada por um episódio quase tão invulgar quanto a quase-eleição de Pereira Coutinho para o Parlamento português: uma destas madrugadas, ia um camião do lixo ali na Avenida Rodrigo Rodrigues e, de repente, começaram a chover documentos do hospital, contendo dados de utentes do São Januário. Como há quem esteja sempre atento a acontecimentos inusitados, há registo em vídeo de folhas de análises e de outras coisas do género a serem levadas pelo vento. E ainda bem que alguém reparou: o hospital mandou funcionários apanhar os papéis que conseguiram encontrar.
O caso foi, naturalmente, objecto de notícia. E alvo de uma imediata reacção do São Januário – reacção muito mais pronta e cabal do que noutras situações que, na minha perspectiva, mereciam reacções muito prontas e imensamente cabais. O hospital lá explicou o sucedido, a troca de cores dos sacos do lixo, isto e aquilo, parece que a culpa é lá de uns funcionários de um dos departamentos, o chefe da rapaziada nem sabia, claro que os chefes nunca sabem de nada, não há que levar a mal. O voo da papelada é chato, mas não vem dali qualquer mal ao mundo.
Nas redes sociais, as críticas multiplicaram-se, sobretudo em relação a Alexis Tam que, nem de propósito, uns dias antes tinha vindo fazer um elogio rasgado aos Serviços de Saúde. Mistura explosiva, esta, a de um elogio precipitado (porque os elogios devem vir dos utentes e ainda não ouvi por aí nada que se assemelhe a um louvor) com um episódio que é sobretudo caricato.
Não se espera, por certo, que um secretário seja capaz de controlar tudo, do papel que é rasgado ao material que é desinfectado. Por agora, e em relação ao caso em análise, fez o que podia fazer – pediu justificações e que a situação fosse corrigida.
Nestas coisas da saúde, coisas tão sérias como a saúde, é bom não nos esquecermos do que é importante: o caso dos papéis ao vento ocupou muitas mais linhas de jornais do que os tratamentos que continuam a não ser disponibilizados, os médicos que ainda precisam de ser contratados, a educação para o que é servir um utente que continua por existir, uma página na Internet que se pareça com uma página na Internet de um hospital de uma terra civilizada, porque a falta de informação também tira anos de vida. Mas o que é caricato tem a capacidade de se sobrepor ao que é importante – é assim no mundo inteiro. Que o caricato não faça rolar cabeças.

16 Out 2015

As meninas más vêm de fora

Eu gostava de ter uma revista, daquelas que as pessoas lêem e guardam até deixarem de ter espaço em casa. Também gostava de ter um jornal. Uma revista e um jornal. E uma rádio, que sem rádio não vivo. Gostava de ter estas coisas que são o meio em que trabalho porque gosto de projectos, de ver os projectos a assumirem contornos, a ganharem conteúdo, a tornarem-se mais do que projectos.
Mas eu não tenho nem uma revista, nem um jornal, nem uma rádio. Acontece assim. O patronato não é para todos, é só mesmo para alguns, e estas coisas dos projectos têm muito que se lhe diga, a começar pelo capital. Os jornais e as revistas precisam de gente que os faça, as pessoas que fazem os jornais e as revistas precisam de salário para viver, e isto de ser empresário não é para todos. Apesar de, em Macau, os requisitos serem outros. As regras do jogo aqui são diferentes.
Acho imensa piada ao discurso de quem, tendo um negócio aberto, luta contra os direitos mais básicos dos trabalhadores por causa do impacto que essas pequenas regalias terão na folha de Excel no final do ano. Têm a tenda aberta, mas são contra uma licença de maternidade digna desse nome e opõe-se à criação de uma licença de paternidade. Fazem um chinfrim de cada vez que se fala na revisão da lei das relações de trabalho – pior, mandam os seus na Assembleia Legislativa dizer em voz alta que é preciso mudar a legislação, para que o patronato seja verdadeiramente protegido.
Não que as preocupações do patronato me passem ao lado, apesar da minha falta de vocação para mandar: é inegável que as empresas de pequena e média dimensões têm sofrido com os aumentos das rendas, com o aumento dos custos, com o aumento de quase tudo o que faz mal ao bolso de quem tem a porta aberta. Quem anda à chuva corre sempre o risco de se molhar. Tenho uma notícia: a vida também ficou mais cara para quem trabalha por conta de outrem. E tenho ainda outra notícia: há quem queira muito ter o seu negócio e não o possa fazer. Eu não tenho a minha revista. Nem o meu jornal. Nem a minha rádio. Escrevo e falo nos dos outros. É uma chatice? Não. É a vida.
Em Macau existe uma certa mania da perseguição aos trabalhadores, vinda de alguns sectores que não consigo classificar – até porque existe, cada vez mais, uma certa promiscuidade social a alguns níveis. Esta mania da perseguição aplica-se aos trabalhadores locais, em questões como aquelas que já aqui escrevi, e também – ou sobretudo – aos trabalhadores que chegam de fora.
Esta semana, os jornais contaram-nos que a União dos Empregadores Domésticos de Macau – cuja existência desconhecia e cujo trabalho continuo a desconhecer – vai fazer uma manifestação contra as empregadas domésticas. Na origem deste invulgar protesto está um caso complicado: um bebé de dois meses terá sido maltratado por uma empregada doméstica que, à data em que este artigo é publicado, é inocente. O julgamento ainda não aconteceu.
Os patrões das empregadas domésticas vão, portanto, sair à rua para se manifestarem contra as pessoas a quem deram trabalho. Seria mais ou menos a mesma coisa que eu sair para a rua a gritar contra a redacção da minha hipotética revista. Pelo que me foi dado a conhecer, esta união de gente preocupada com as pessoas que mete em casa considera que deve haver legislação especial para as empregadas domésticas. E uma lista negra das meninas más. São a favor de uma diminuição dos direitos, algo que não consigo sequer imaginar: como toda a gente sabe, os direitos das empregadas domésticas são quase nenhuns e os que existem são frequentemente violados.
Há histórias de empregadas internas a dormir com cães. Há histórias de empregadas domésticas que são obrigadas a devolver parte do salário que lhes é depositado, a forma esperta que os patrões encontraram de contornarem a obrigatoriedade do depósito bancário. Há histórias de empregadas domésticas que não descansam as horas suficientes que constam da lei. E há outras histórias, piores ainda. Às empregadas domésticas nem sequer é dado o direito de mudarem de patrão se estiverem descontentes. Se saírem à rua contra os patrões, podem começar a fazer as malas e a preparar o passaporte, se estiverem na posse dele.
A história do bebé maltratado é trágica, como todas as histórias de maus-tratos, principalmente aos mais indefesos. Levam-nos sempre ao umbilical pensamento de que podíamos ser nós as vítimas da situação. Mas sobre esta história ainda há muito para perceber e não compete a ninguém que não a um colectivo de juízes julgar quem tem de ser julgado.
Quem não quer correr riscos ou sabe que não os pode correr, não corre. A gente unida contra as empregadas domésticas tem bom remédio: recambia quem contratou e dedica-se a esfregar sanitas, lavar-estender-e-passar a roupa a ferro, fazer as camas, aspirar, lavar a frota automóvel da família, fazer o almoço e o jantar, ir buscar as crianças à escola, dar banho às crianças e ao cão, ir passear o cão, ir passear as crianças, aturar a birra das oito da manhã do mais novo, tão queridinho e tão chatinho, aturar a birra das oito da noite do mais velho, tão bonitinho e tão parvinho, pôr as crianças a dormir e lavar a louça do jantar, que esta noite houve convidados e é tudo a quadruplicar.
A vida é assim: até para se ser patrão é preciso ter jeito. Pena que os desta terra nem mandar saibam que, para se mandar com resultados, é preciso saber, antes de mais, o que significa o respeito.

21 Ago 2015