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1. Eu não cresci no tempo dos meus pais. Não era suposto encontrar um mundo igual. Bem vistas as coisas, quer-me parecer que aquilo que estava reservado para a minha infância foi bem melhor do que as circunstâncias em que os meus pais cresceram. Os meus primeiros anos de vida foram-se somando numa altura de paz, naquele pequeno universo em que nos movimentávamos. Foram anos suaves por aquelas bandas, muito ocidentais e a quererem ser europeias.
Assim como não era suposto crescer no mundo dos meus pais, também não seria de esperar que as minhas filhas nascessem no enquadramento que eu encontrei. Mas não, não estava à espera que o mundo – o mundo de onde venho e que nunca deixou de ser o meu, por mais longe que esteja – regredisse deste modo. Não, não é este o mundo que quero para as minhas filhas. Um mundo que não consigo compreender, por mais que leia e veja e pense.
Os atentados de Paris, que nos dizem mais do que os atentados de outros sítios porque conhecemos Paris e porque temos amigos em Paris e porque temos família em Paris, fizeram muito mais do que mortos. Mas nem vale a pena ir por aí, pelo medo, pela sensação de insegurança que se quer criar e que se consegue efectivamente incutir. Também não valem mais do que meia dúzia de linhas os meninos que decidiram que queriam fazer um Estado Islâmico, essa gente enviesada que anda a brincar às guerras sem regras, sem pudor, que anda a espalhar o terror e a conquistar outros meninos enviesados para uma causa sem causa alguma.
O que aconteceu em Paris deixa-me preocupada com a Europa que temos – desunida e fraca, sem capacidade de afirmação, nem de uma resposta conjunta a momentos de crise. Não teriam sido necessários os atentados de Paris para chegarmos a esta conclusão: a sangria no Bataclan e os dias que se seguiram só vieram confirmar o que já tínhamos aprendido com os anos da crise nos países mais pobres e, mais recentemente, com a ausência de uma solução para o drama dos refugiados.
A aparente impotência europeia não é apenas um problema europeu porque, bem vistas as coisas, a Europa conta e está no centro de quase tudo. E, por contar, de repente dava jeito – a quem é europeu e aos outros também – que a Europa se entendesse e que a Europa percebesse que o mundo está a mudar muito mais rapidamente do que estaríamos à espera quando começámos a somar anos.
No meio de tudo isto, seria bom termos uma ideia de que mundo estamos nós a construir para os nossos filhos. Urge que se encontrem soluções, sendo que serão sempre difíceis.

2.

Nós por cá tudo bem, obrigada. Na noite em que ainda assistia, incrédula, às imagens que foram chegando de Paris, a Torre de Macau e o céu em redor iluminavam-se com um estonteante fogo-de-artifício, talvez em jeito de comemoração de mais uma feira-da-gastronomia-em-cima-de-uma-rotunda, feito que não lembra ao diabo mas que, por aqui, é a demonstração do quão criativo é o nosso empresariado político.
Em semana de feira-da-gastronomia-em-cima-de-uma-rotunda, temos Linhas de Acção Governativa e Grande Prémio, cada um deles à sua velocidade, num contraste que confirma que esta terra é só paradoxos. Do plano anual do Executivo não se poderia esperar muito – eu, pelo menos, nunca espero – até porque Março foi quase ontem e só aí começámos a perceber efectivamente de que material se faz esta equipa governativa.
No espaço de nove meses foram apresentados dois pacotes de medidas e estas últimas mais não poderiam ser do que uma repetição das primeiras que, por acaso, têm tudo que ver com as não-sei-quantas-outras que as antecederam.
Já nos habituámos à ausência de discurso político por aqui. Que venha o trabalho, que os projectos se concretizem, que bem precisamos deles. É bonito ouvir falar de qualidade de vida, mas a Macau falta quase tudo para que se possa falar nela.
Mas nós por cá tudo bem. Haja feiras-da-gastronomia-em-cima-de-rotundas, que o povo gosta. E cheques, claro está, que a austeridade chegou, mas em fórmula vencedora não se mexe. É mais ou menos como o Grande Prémio. Mas mais devagar nas curvas.

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